I. INTRODUΓΓO
parto e o nascimento sΓ£o fenΓ΄menos Γmpares na vida das mulheres que vivenciam a maternidade. SΓ£o eventos complexos que envolvem aspectos sociais, emocionais, espirituais, culturais e levam Γ interaΓ§Γ£o de pessoas e grupos sociais distintos em instituiΓ§Γ΅es de saΓΊde (SENS; STAMM, 2019).
Historicamente a gestaΓ§Γ£o e o parto sempre pertenceram Γ privacidade do universo feminino. A assistΓͺncia Γ s parturientes e aos recΓ©m-nascidos era realizada em domicΓlio por mulheres conhecidas como parteiras, aparadeiras ou comadres (BRENES, 1991; AGUIAR, 2010).
No sΓ©culo XIX sucedeu a consolidaΓ§Γ£o da medicina como saber cientΓfico, trazendo consigo a visΓ£o da medicalizaΓ§Γ£o dos corpos. A medicina transformou as mulheres em objetos de intervenΓ§Γ£o, numa ideologia que presume que o corpo feminino Γ© patolΓ³gico. Esse discurso mΓ©dico pautado no modelo anatomopatolΓ³gico permitiu que os profissionais que ofertassem cuidados Γ s gestantes pudessem intervir a qualquer sinal anatΓ΄mico que indicasse "risco". Para tal, foi necessΓ‘rio transferir o parto para o ambiente hospitalar, resultando na elaboraΓ§Γ£o e na proliferaΓ§Γ£o de rituais sobre a parturiΓ§Γ£o e o nascimento, revelando um medo extremo da nossa sociedade tecnocrata aos processos naturais (BRENES, 1991; DAVIS-FLOYD, 1992 apud DINIZ, 2005; SILVA; GOTARDO, 2007; AGUIAR, 2010).
Na atualidade, vigora um modelo de atenΓ§Γ£o no qual o parto Γ© assistido com intensa intervenΓ§Γ£o de profissionais e uso massivo de tecnologias, resultando em iatrogenias. Este modelo leva distΓ’ncia entre a mulher e o profissional de saΓΊde e reflete uma assistΓͺncia obstΓ©trica frΓ‘gil, por nΓ£o conseguir articular a tecnologia e o cuidado de modo a garantir a interaΓ§Γ£o entre as partes envolvidas e principalmente o respeito Γ totalidade da mulher (DINIZ, 2001; DOMINGUES; SANTOS; LEAL2004; SILVA; GOTARDO, 2007).
Na expectativa de ampliar o debate acerca da violΓͺncia obstΓ©trica no Brasil, contribuir com o aprofundamento sobre o tema e subsidiar medidas para a melhoria da assistΓͺncia oferecida Γ s parturientes, este artigo discute11 como profissionais de saΓΊde (mΓ©dicos e enfermeiros obstetras, alΓ©m de residentes de medicina e enfermagem em obstetrΓcia) percebem a violΓͺncia obstΓ©trica que as mulheres sofrem na atenΓ§Γ£o ao parto, com o objetivo de analisar as formas de violΓͺncia observadas por eles a partir das recomendaΓ§Γ΅es da OrganizaΓ§Γ£o Mundial de SaΓΊde (OMS)para assistΓͺncia ao parto e nascimento.
a) CaracterizaΓ§Γ£o do termo violΓͺncia obstΓ©trica
A violΓͺncia obstΓ©trica foi tipificada no art. 15 da "LeyorgΓ‘nica sobre elderecho de lasmujeres a una vida libre de violΓͺncia" (Lei No 38.668, de 23 de abril de 2007, Venezuela) como a apropriaΓ§Γ£o do corpo e dos procedimentos reprodutivos das mulheres por profissionais de saΓΊde, utilizando-se de tratamento desumano, excesso de medicalizaΓ§Γ£o, considerando processos naturais como patolΓ³gicos, levando Γ perda de autonomia e capacidade de decisΓ£o sobre seus corpos ou sexualidade.
Essa forma de violΓͺncia contra a mulher ganhou relevΓ’ncia e foi legitimada como problema de saΓΊde pΓΊblica.No Brasil, alguns estados, como SΓ£o Paulo (Lei 15.759/2015) e Santa Catarina (LeiNΒ° 17.097/2017), e municΓpios tais como Diadema (Lei NΒ° 3.363/2013) passaram a adotar em suas legislaΓ§Γ΅es o conceito de violΓͺncia obstΓ©trica, como forma de interromper uma realidade que afeta 1 em cada 4 mulheres brasileiras (FUNDAΓΓO PERSEU ABRAMO, 2010). Os atos de desrespeito e abuso durante o parto abrangem violΓͺncia fΓsica, humilhaΓ§Γ£o, violΓͺncia verbal, procedimentos mΓ©dicos coercivos ou sem consentimento, falta de confidencialidade, violaΓ§Γ£o de privacidade e negligΓͺncia na assistΓͺncia, gerando complicaΓ§Γ΅es evitΓ‘veis, levando a possΓveis riscos de vida, sendo equivalentes a uma violaΓ§Γ£o de direitos humanos fundamentais (DINIZet al.,2015; WHO, 2014).
A violΓͺncia sofrida por parturientes durante o trabalho de parto e parto Γ© uma realidade com tamanha gravidade no Brasil que foi citada na ComissΓ£o Parlamentar Mista de InquΓ©rito (CPMI) de ViolΓͺncia Contra Mulher no Brasil, realizada pelo Senado Federal. Em seu relatΓ³rio final, a CPMI recomenda que as aΓ§Γ΅es do MinistΓ©rio da SaΓΊde sejam intensificadas para prevenir e punir tais aΓ§Γ΅es de violΓͺncia (BRASIL, 2014).
b) Programas e polΓticas pΓΊblicas voltadas para assistΓͺncia Γ s mulheres
Algumas medidas para a melhoria da assistΓͺncia Γ s gestantes foram tomadas ao longo dos anos. O Programa de AtenΓ§Γ£o Integral Γ SaΓΊde da Mulher, (PAISM) elaborado pelo MinistΓ©rio da SaΓΊde, caracteriza a assistΓͺncia ao parto como um ponto crΓtico para a saΓΊde da mulher e apresenta, entre outros objetivos, o propΓ³sito de melhorar a assistΓͺncia ao parto com profissionais treinados que realizem o acompanhamento dos estΓ‘gios do trabalho de parto (dilataΓ§Γ£o, expulsΓ£o e dequitaΓ§Γ£o), garantindo que ocorram, sempre que possΓvel, de maneira natural com a gestante participando ativamente deles. Γ vista disso, desde a dΓ©cada de 80 jΓ‘ era apresentada a recomendaΓ§Γ£o para a preservaΓ§Γ£o dos eventos no trabalho de parto como naturais, conservando a autonomia da parturiente (BRASIL, 1984).
Em 1996, temos a divulgaΓ§Γ£o do documento da OrganizaΓ§Γ£o Mundial de SaΓΊde (OMS) com a classificaΓ§Γ£o das prΓ‘ticas utilizadas no trabalho de parto, contraindicando uma sΓ©rie de procedimentos de rotina que desrespeitavam a autonomia da mulher e tinham comprovaΓ§Γ΅es cientΓficas de prejuΓzo para a saΓΊde da parturiente e/ou do feto, tais como uso rotineiro de episiotomia, manobra de Kristeller,venΓ³clise, ocitocina, toques vaginais frequentes, e outros(BRASIL, 2001).
AtravΓ©s da PortariaGM/MSNΒ°569, de 1 de junho de 2000, Γ© instituΓdo o Programa de HumanizaΓ§Γ£o no PrΓ©-natal e Nascimento pelo MinistΓ©rio da SaΓΊde. O programa se baseava em dois aspectos fundamentais: o dever da instituiΓ§Γ£o de saΓΊde em atender a mulher, seus familiares e o neonato com dignidade, ambiente acolhedor, evitando o isolamento da mulher; e a adoΓ§Γ£o de uma assistΓͺncia com prΓ‘ticas comprovadamente benΓ©ficas ao parto e nascimento, evitando intervenΓ§Γ΅es desnecessΓ‘rias que nΓ£o beneficiam o binΓ΄mio mΓ£e e filho.
Em 2003 Γ© lanΓ§ada a PolΓtica Nacional de HumanizaΓ§Γ£o, que busca qualificar e aprimorar a assistΓͺncia em saΓΊde e gestΓ£o desenvolvida pelo Sistema Γnico de SaΓΊde (SUS). Posteriormente, foi instituΓda a PolΓtica Nacional de AtenΓ§Γ£o ObstΓ©trica e Neonatal, a partir da Portaria do MinistΓ©rio da SaΓΊde 1.067, de 4 de julho de 2005, que tem como princΓpios e diretrizes o direito da gestante ao atendimento digno e de qualidade, Γ assistΓͺncia humanizada e segura, a ter acompanhante (instituΓdo pela Lei federal 11.108 de 2005), entre outros. A portaria ainda discorre sobre procedimentos a serem adotados, como: oferecer lΓquido via oral, respeitar a escolha da mulher sobre o local do parto, fornecer explicaΓ§Γ΅es, permitir liberdade de posiΓ§Γ£o, oferecer mΓ©todos nΓ£o invasivos de alΓvio da dor, usar a episiotomia de maneira restrita, e outros (BRASIL, 2005a).
Em 2008 a AgΓͺncia Nacional de VigilΓ’ncia SanitΓ‘ria (ANVISA) lanΓ§a a RDC 36/2008, que aborda 0 regulamento tΓ©cnico para o funcionamento dos serviΓ§os de atenΓ§Γ£o obstΓ©trica e neonatal, com o objetivo de estabelecer padrΓ΅es para o funcionamento do referido serviΓ§o, com fundamentaΓ§Γ£o na qualificaΓ§Γ£o e na humanizaΓ§Γ£o da atenΓ§Γ£o aos usuΓ‘rios. O documento discorre ainda sobre a garantia do acompanhante, a promoΓ§Γ£o da ambiΓͺncia acolhedora, o estabelecimento de rotinas de acordo com as evidΓͺncias cientΓficas, a garantia de privacidade eo uso de mΓ©todos nΓ£o farmacolΓ³gicos de alΓvio da dor (ANVISA, 2008).
A partir da Portaria do MinistΓ©rio da SaΓΊde , de 24 de junho de 2011, Γ© instituΓda a Rede Cegonha no SUS. A Rede Cegonha vem aprimorar a assistΓͺncia prestada durante a gestaΓ§Γ£o e o nascimento, garantindo Γ s mulheres o direito ao planejamento reprodutivo e Γ atenΓ§Γ£o humanizada Γ gravidez, ao parto e puerpΓ©rio, a partir de quatro componentes: PrΓ©-natal; Parto e Nascimento; PuerpΓ©rio e atenΓ§Γ£o integral Γ saΓΊde da crianΓ§a; e Sistema logΓstico transporte sanitΓ‘rio e regulaΓ§Γ£o. No que se refere ao componente parto e nascimento, a melhoria da assistΓͺncia Γ© garantida pela suficiΓͺncia de leitos, ambiΓͺncia das maternidades conforme a jΓ‘ citada RDC NΒ°36/2008 da ANVISA, realizaΓ§Γ£o de prΓ‘ticas de atenΓ§Γ£o Γ saΓΊde baseadas em evidΓͺncias cientΓficas, garantia de acompanhante, acolhimento e classificaΓ§Γ£o de risco, e estΓmulo Γ s equipes horizontais do cuidado. Uma das diretrizes da Rede Cegonha Γ© justamente a utilizaΓ§Γ£o de boas prΓ‘ticas e seguranΓ§a na atenΓ§Γ£o ao parto e nascimento (BRASIL, 2011).
Em fevereiro de 2017 sΓ£o aprovadas as Diretrizes Nacionais de AssistΓͺncia ao Parto Normal, a partir da Portaria NΒ° 353/2017. Esse documento sintetiza e avalia a informaΓ§Γ£o cientΓfica disponΓvel com relaΓ§Γ£o Γ s prΓ‘ticas frequentemente utilizadas durante o trabalho de parto e nascimento, fornecendo orientaΓ§Γ£o com relaΓ§Γ£o Γ assistΓͺncia a ser realizada, com o objetivo de promover mudanΓ§as na prΓ‘tica clΓnica, uniformizar e padronizar as prΓ‘ticas mais comuns utilizadas; diminuir a variabilidade de condutas entre os profissionais; reduzir intervenΓ§Γ΅es desnecessΓ‘rias durante a assistΓͺncia; difundir as prΓ‘ticas baseadas em evidΓͺncias cientΓficas e recomendar boas prΓ‘ticas de atenΓ§Γ£o ao parto e nascimento (BRASIL, 2017).As diretrizes disponΓveis para a atenΓ§Γ£o humanizada ao parto e nascimentono Brasil, anteriormente descritas, consolidam prΓ‘ticas que podem interromper a violΓͺncia obstΓ©trica e que ainda sΓ£o comuns na realidade de muitos hospitais.
II. METODOLOGIA
Foi realizado um estudo exploratΓ³rio com abordagem qualitativa, implementado a partir de entrevistas com profissionais que realizam assistΓͺncia Γ s mulheres durante o trabalho de parto e parto, em hospital pΓΊblico, conveniado ao SUs, localizado em BelΓ©m do ParΓ‘/PA, no setor de PrΓ©-parto, Parto e PuerpΓ©rio (PPP). Os atendimentos sΓ£o realizados a partir de referΓͺncias dos municΓpios do estado do ParΓ‘ e por demanda espontΓ’nea, com atendimento de urgΓͺncia de maneira ininterrupta. A instituiΓ§Γ£o atende aproximadamente 900 partos por mΓͺs e Γ© caracterizada como uma maternidade que vem fortalecendo ao longo de sua histΓ³ria as aΓ§Γ΅es de melhoria na assistΓͺncia Γ saΓΊde da mulher (VIANNA, 2014).
Foi utilizada uma amostra de conveniΓͺncia com 20 entrevistas de um universo de 79 profissionais elegΓveis para o estudo. Foram incluΓdos os profissionais das Γ‘reas de medicina e enfermagem que tivessem concluΓdo o ensino superior, residentes de medicina e enfermagem obstΓ©trica que estivessem atuando na sala de parto e realizassem assistΓͺncia direta Γ s mulheres durante o trabalho de parto e parto. Foram excluΓdos profissionais que atuavam como professores ou preceptores de instituiΓ§Γ΅es de ensino, uma vez que se tratava de um hospital-escola, ou seja, foram excluΓdos aqueles que nΓ£o tinham vΓnculo profissional com a instituiΓ§Γ£o e os que atuavam em perΓodo noturno, uma vez que a coleta de dados ocorreu durante o perΓodo diurno.
Todas as entrevistas foram realizadas na sala de parto, durante os intervalos de atendimento, de maneira individual, com a prΓ©via exposiΓ§Γ£o dos objetivos da pesquisa, de seus riscos e benefΓcios. Vale ressaltar que as entrevistas foram gravadas, com autorizaΓ§Γ£o prΓ©via dos participantes, e transcritas. ApΓ³s a transcriΓ§Γ£o, as falas dos participantes foram codificadas e categorizadas. As categorias aqui analisadas se referem ao critΓ©rio de tipos de violΓͺnciasobstΓ©tricas observados na instituiΓ§Γ£o, conforme apontado nas entrevistas. Sendo assim, foram encontradas 5 subcategorias: abuso fΓsico; abuso verbal; falta de orientaΓ§Γ£o sobre o atendimento e procedimentos; exposiΓ§Γ£o e restriΓ§Γ£o de movimentaΓ§Γ£o; e posiΓ§Γ£o no parto. Por fim, foi realizada a anΓ‘lise de conteΓΊdo dessas categorias e a interpretaΓ§Γ£o dos dados com o enfoque de Bardin (BARDIN, 2011).
O estudo foi avaliado e aprovado pelo comitΓͺ de Γ©tica e pesquisa da instituiΓ§Γ£o de ensino superior ao qual estΓ‘ vinculado, com CAAE: 69070117.4.0000.5172, e pelo comitΓͺ de Γ©tica da maternidade escolhida, com CAAE: 69070117.4.3001.5171. Todos os participantes da pesquisa assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.
III. REsultados e DiscussΓo
Foi realizada a abordagem de 23 profissionais durante os intervalos de atendimento, porΓ©m, 3 profissionais nΓ£o participaram deste estudo, pois dois deles alegaram que, devido Γ rotina de atendimento, nΓ£o possuΓam tempo para realizar a entrevista, e outro alegou nΓ£o concordar com a proposta do estudo, recusando-se a participar.
A maioria dos participantes da pesquisa era do sexo feminino, representada por 16 entrevistadas A respeito da categoria profissional, 11 entrevistados eram mΓ©dicos , somando-se mΓ©dicos em especializaΓ§Γ£o e mΓ©dicos jΓ‘ especialistas. A maioria dos participantes estava realizando especializaΓ§Γ£o durante a coleta de dados, caracterizados como residentes, com 16 participantes . A idade dos O perfil dos participantes estΓ‘ disposto na Tabela 1.
entrevistados variou entre 23 e 56 anos, com predominΓ’ncia na faixa etΓ‘ria de 20 a 29 anos, com 11 entrevistados .
Tabela 1: DistribuiΓ§Γ£o dos participantes, por caracterΓsticas demogrΓ‘ficas e profissionais BelΓ©m/PA, 2018
| Variavel | N | % |
| Sexo | ||
| Feminino | 16 | 80% |
| Masculino | 4 | 20% |
| Categoria professional | ||
| Residentes de enfermagem obstΓ©trica | 6 | 35% |
| Residentes de medicina em ginecologia e obstΓ©trica | 7 | 35% |
| Ginecologistas obstetras | 4 | 20% |
| Enfermeiros obstetras | 3 | 15% |
| Idade | ||
| 20 - 29 anos | 11 | 55% |
| 30 - 39 anos | 2 | 10% |
| 40 - 49 anos | 5 | 25% |
| 50 - 59 anos | 2 | 10% |
Fonte: ElaboraΓ§Γ£o prΓ³pria.
1 Abuso verbal
Neste estudo, 12 participantes puderam identificar o abuso verbal como uma prΓ‘tica rotineira na unidade. Destacamos as falas mais relevantes:"Tem as violΓͺncias verbais que eu imagino sΓ£o essas, de tΓ©cnico falando frases desse cunho, como eu jΓ‘ tinha dito, nΓ©, ah... 'NΓ£o doeu pra fazer, mas tΓ‘ doendo pra nascer', nΓ©... E outras coisinhas mais" (Residente de medicina 2). "Eu vejo as pessoas gritarem com as pacientes, com as acompanhantes... Vejo um desrespeito verbal" (Residente de medicina 3).
[...] Γ© mais como forma de insulto realmente, a paciente pelo fato de... Hoje mesmo eu presenciei isso, hoje realmente como o PPP tava cheio de paciente, aΓ o profissional de saΓΊde pegou e falou: ''isso Γ© que dΓ‘, nΓ£o quer parar de ter filho... AΓ quer ficar sofrendo aqui, olha como a gente tΓ‘, tΓ‘ lotado aqui, nΓ£o tΓ‘ dando pra dar assistΓͺncia pra ninguΓ©m'. (Residente de enfermagem 1).
A partir do depoimento dos entrevistados, podemos observar a prΓ‘tica da violΓͺncia verbal na atenΓ§Γ£o dispensada Γ s mulheres, alΓ©m da reproduΓ§Γ£o de um discurso moralista que estabelece um julgamento sobre a sexualidade feminina utilizando-se de jargΓ΅es que menosprezam a mulher (HOTIMsKYet al., 2002). A clΓ‘ssica frase que retrata a violΓͺncia obstΓ©trica e foi aqui reproduzida por um dos entrevistados,"nΓ£o doeu pra fazer, mas tΓ‘ doendo pra nascer", foi observada em estudo sobre o tema (FUNDAΓΓO PERSEU ABRAMO, 2010) e revela a manutenΓ§Γ£o de um padrΓ£o de violΓͺncia de gΓͺnero naturalizado na atenΓ§Γ£o ao parto. Como analisa Diniz (2009):
Os abusos verbais voltados para a humilhaΓ§Γ£osexual do tipo "quando vocΓͺ fez vocΓͺ gostou"sΓ£o uma constante nos estudos e fazem parte doaprendizado informal dos profissionais sobrecomo disciplinar as pacientes, desmoralizandoseu sofrimento e desautorizando eventuais pedidosde ajuda. (DINiz, 2009, p. 320, grifos da autora).
O relato de violΓͺncia verbal Γ© observado nas anΓ‘lises sobre o tema como demonstrado na pesquisa de Sena (2016), na qual as entrevistadas mencionaram essa forma de violΓͺncia como uma prΓ‘tica recorrente durante o trabalho de parto, principalmente quando as mesmas se recusavam ou agiam de maneira contrΓ‘ria ao que era imposto pelo profissional.
Aguiar, D'Oliveira e Schraiber (2013) apontam resultados semelhantes em sua pesquisa, na qual os entrevistados revelaram uso cotidiano de frases ofensivas,demonstrando a banalizaΓ§Γ£o dessas prΓ‘ticas. PorΓ©m, diferentemente dos entrevistados pelos autores, que consideraram o uso dessas agressividades verbais como "brincadeiras desrespeitosas", os profissionais deste estudo consideraram como uma forma de violΓͺncia verbal.
A recomendaΓ§Γ£o para assistΓͺncia ao parto proposta pelo MinistΓ©rio da SaΓΊde disserta que o profissional deve respeitar a integralidade da parturiente e Γ© sua responsabilidade manter um padrΓ£o de comunicaΓ§Γ£o eficaz, e estar consciente do seu tom de voz e das palavras utilizadas, bem como de suas atitudes, buscando manter uma relaΓ§Γ£o de confianΓ§a entre ambos (BRASIL, 2017).
2. Abuso fΓsico
Nesta categoria, 7 entrevistados reconheceram a ocorrΓͺncia do abuso fΓsico, o qual transcorre da seguinte forma: "EntΓ£o uso de ocitocina, episiotomia sem o consentimento, eu jΓ‘ vi casos atΓ© de pessoas que nΓ£o fazem anestΓ©sico pra fazer episio [...]. Eu jΓ‘ vi isso aqui, entendeu? [...] Kristeller tambΓ©m tem, eu jΓ‘ vi Kristeller" (Enfermeiro obstetra 1).
O profissional nΓ£o vΓͺ se uma conduta Γ© necessΓ‘ria realmente naquele momento, mas ele faz aquela conduta pra adiantar um trabalho que ele poderia ter mais lΓ‘ na frente. [..] Principalmente a questΓ£o de uso indiscriminado de ocitocina, amniotomia, o bebΓͺ tΓ‘ alto, tΓ‘ mΓ³vel, mas querem fazer amniotomia. QuestΓ΅es de tΓ‘ fazendo a orquestra do perΓneo, ficar fazendo puxo dirigido, entΓ£o tudo isso Γ© muito observado aqui (Residente de enfermagem 3).
Os profissionais apontaram como formas de abuso a realizaΓ§Γ£o de procedimentos que sΓ£o utilizados como rotina, tais quais as intervenΓ§Γ΅es desnecessΓ‘rias para acelerar o trabalho de parto, alΓ©m da falta de orientaΓ§Γ£o sobre procedimentos, ignorando a necessidade do consentimento da parturiente para realizΓ‘-los.
Desde 1996, a OMS afirma que a prΓ‘tica de episiotomia rotineira, o uso de ocitΓ³citos indiscriminadamente e da manobra de Kristeller sΓ£o consideradas prΓ‘ticas comprovadamente malΓ©ficas durante o trabalho de parto e que deveriam ser eliminadas. Somado a isso, tambΓ©m Γ© apontado que a amniotomia precoce Γ© considerada uma prΓ‘tica normalmente utilizada de maneira equivocada (BRASIL, 2001).
A episiotomia Γ© o ΓΊnico procedimento cirΓΊrgico realizado sem o consentimento da paciente e sem que Ihe seja dada informaΓ§Γ΅es quanto aos riscos, benefΓcios ou Γ s indicaΓ§Γ΅es, sendo uma forma de apropriaΓ§Γ£o do corpo feminino, uma vez que Γ© a ΓΊnica prΓ‘tica realizada em um indivΓduo saudΓ‘vel, sem a sua autorizaΓ§Γ£o (DINIZ, 2001; PARTO DO PRINCΓPIO, 2012).
Tal procedimento provoca danos sexuais, dor, aumenta o risco de incontinΓͺncia tanto fecal como urinΓ‘ria, alΓ©m da possibilidade de complicaΓ§Γ΅es infecciosas. O uso dessa prΓ‘tica como rotina evidencia uma grave violaΓ§Γ£o dos direitos reprodutivos e sexuais da mulher, alΓ©m de violar sua integridade corporal (REDE FEMINISTA DE SAΓDE, 2002; PARTO DO PRINCΓPIO, 2012).
Qualquer intervenΓ§Γ£o realizada de rotina para simplesmente acelerar o trabalho de parto Γ© malΓ©fica, podendo aumentar o risco de morbimortalidade da mΓ£e e do feto. A necessidade que os profissionais tΓͺm de acelerar o parto nos remete a uma linha de montagem, desconsiderando a fisiologia do nascimento e provocando uma sΓ©rie de intervenΓ§Γ΅es e iatrogenias (PARTO DO PRINCΓPIO, 2012).
Quando o profissional desconsidera a necessidade de obter o consentimento da mulher para realizar uma intervenΓ§Γ£o no prΓ³prio corpo desta mulher, ele viola os direitos relacionados Γ condiΓ§Γ£o de pessoa e faz com que a parturiente se torne apenas um corpo reprodutivo sob domΓnio da medicina (SENS, STAMM, 2019).
3. Falta de orientaΓ§Γ£o sobre atendimento e procedimentos
A respeito da falta de orientaΓ§Γ£o das parturientes, analisamos as seguintes falas:
Os casos que eu vi foram de profissionais nΓ£o-sensΓveis tratando a paciente mal, de uma forma agressiva, nΓ£o.. AtΓ© mesmo o fato de vocΓͺ nΓ£o explicar pro paciente o que tΓ‘ acontecendo com ele, o que vai acontecer nΓ©, o estado dele, deixar ele sem informaΓ§Γ£o jΓ‘ Γ© uma forma de violΓͺncia, principalmente a grΓ‘vida. (Ginecologista obstetra 1).
[.]vi muito Kristeller ser realizado aqui [.] procedimentos sendo feitos Γ forΓ§a, sem o devido esclarecimento da paciente, uma episiotomia por exemplo[...)Γs vezes o mΓ©dico acaba ficando nervoso, acaba fazendo procedimento que nΓ£o deveria...Deveria ter esclarecido antes. (Residente de medicina 2).
Vianna (2014) aponta em seu estudo que as parturientes receberam pouca ou nenhuma informaΓ§Γ£o durante o trabalho de parto.Deslandes e Dias (2006) analisam em seu estudo que essa falta de orientaΓ§Γ£o culmina na geraΓ§Γ£o de inseguranΓ§a tanto por parte da mulher quanto de seu acompanhante. A ausΓͺncia de informaΓ§Γ΅es Γ© comum em maternidades, pois legitima o poder mΓ©dico, justificando a realizaΓ§Γ£o de condutas sem o devido esclarecimento, evidenciando, assim, a anulaΓ§Γ£o do protagonismo feminino (BARBOZA; MOTA, 2016).
Γ importante ressaltar que a mulher, normalmente, desconhece a fisiologia do trabalho de parto, sendo fundamental uma orientaΓ§Γ£o humanizada por parte dos profissionais que prestam o atendimento, como recomenda as diretrizes brasileiras de assistΓͺncia ao parto. O documento orienta que a mulher deve ser atendida com tratamento respeitoso e fornecimento de informaΓ§Γ΅es baseadas em evidΓͺncias cientΓficas, para que possa ser inserida na tomada de decisΓ΅es, estabelecendo uma relaΓ§Γ£o de confianΓ§a entre profissional e parturiente e respeitando o protagonismo da mulher durante a parturiΓ§Γ£o (BRASIL, 2017).
4. ExposiΓ§Γ£o fΓsica
A prΓ‘tica de exposiΓ§Γ£o da parturiente tambΓ©m foi sinalizada pelos profissionais, destacamos as falas mais relevantes: "Γ s vezes vejo as pacientes sendo expostas fisicamente, porque deixam as portas abertas, que eu me lembre" (Residente de medicina 3).
[] diversos profissionais com diversos alunos desrespeitando aquele momento com a mulher, que acaba que lotam a sala do PPP e isso jΓ‘ Γ© uma questΓ£o vista como violΓͺncia, porque muitas delas nem querem a quantidade de pessoas que tem naquela sala, tem vergonha, porque tem homem, porque tem aluno homem, porque tem muitos alunos, e isso jΓ‘ por si jΓ‘ caracteriza. (Residente de enfermagem 4).
Com base nas entrevistas coletadas, foi possΓvel observar a falta de privacidade das mulheres, pois os profissionais acabam expondo-as fisicamente ao deixarem as portas de seus quartos abertas apΓ³s a avaliaΓ§Γ£o, alΓ©m disso, por se tratar de um hospitalescola, a instituiΓ§Γ£o possui uma grande quantidade de alunos. Durante as avaliaΓ§Γ΅es ou partos propriamente ditos, os PPPs se encontram repletos de alunos, Γ‘vidos a aprender, sem o consentimento da mulher, expondo-a fisicamente para diversas pessoas.
Como apontam Wolff e Waldow(2008), os profissionais devem tratar a mulher com respeito, preservando sua privacidade, evitando, assim, causar constrangimentos ou inibiΓ§Γ£o, pois isto pode afetar a evoluΓ§Γ£o do trabalho de parto, dificultando-o. Os mesmos autores corroboram que durante a criaΓ§Γ£o moralista de homens e mulheres, Ihes foi ensinado que a genitΓ‘lia deve ser escondida e, portanto, quando a mulher Γ© nΓ£o somente exposta para um desconhecido, como para vΓ‘rios desconhecidos no momento Γntimo do parto, Γ© vergonhoso e intimidante, como foi demonstrado pelas puΓ©rperas entrevistadas no estudo.
5. RestriΓ§Γ£o da livre mobilidade
A restriΓ§Γ£o da mobilidade da parturiente foi percebidapelos profissionaisa partir das seguintes falas:"ainda tem muitos mΓ©dicos, muitos profissionais que querem que a paciente tenha bebΓͺ naquela posiΓ§Γ£o... Deitada ou semi-deitada, nΓ©." (Residente de enfermagem 2).
[...]falar que Γ© pra ela parar de gritar, falar que ela tΓ‘ gritando muito, que se ela continuar fazendo isso, ele vai embora, vai deixar ela sozinha lΓ‘ pra ter o bebΓͺ, nΓ£o vai mais ajudar ela, ela tΓ‘ atrapalhando o bebΓͺ a nascer porque ela tΓ‘ se movimentando, nΓ£o quer ficar na cama[.. (Residente de enfermagem 6).
Alguns profissionais ainda tΓͺm preferΓͺncia pela posiΓ§Γ£o litotΓ΄mica, por ser a posiΓ§Γ£o mais confortΓ‘vel para o profissional, mais fΓ‘cil para a manipulaΓ§Γ£o do perΓneo feminino. Dessa forma, muitos obrigam a mulher a ficar restrita ao leito, sem liberdade para movimentaΓ§Γ£o e escolha da posiΓ§Γ£o para o parto.
Para Niyet al. (2019), as limitaΓ§Γ΅es para a livre movimentaΓ§Γ£o durante o trabalho de parto configuram uma forma de violΓͺncia contra mulher. Neste sentido, as autoras afirmam:
Nos paΓses da AmΓ©rica Latina, e no Brasil em especial, tem se construΓdo o entendimento de que a restriΓ§Γ£o ao leito durante o trabalho de parto e a obrigatoriedade de dar Γ luz em posiΓ§Γ£o supina podem configurar formas de violΓͺncia institucional contra a mulher, uma vez que ferem a autonomia daparturiente, prejudicam o desenrolar fisiolΓ³gico do parto e impedem que ela decida livremente sobre seu corpo. Essa apropriaΓ§Γ£o do corpo das mulheres e de seus processos reprodutivos tambΓ©m tem sido denominada violΓͺncia obstΓ©trica, ou abuso, desrespeito e maus-tratos, e a cada dia crescem as evidΓͺncias de que esse fenΓ΄meno estΓ‘ intimamente ligado Γ baixa qualidade da assistΓͺncia e a piores desfechos, inclusive em serviΓ§os especializados. (NIY, et al., 2019, p.3).
As evidΓͺncias cientΓficas apontam que as posiΓ§Γ΅es verticalizadas durante o parto possuem mais vantagens, tais como: melhor padrΓ£o de contraΓ§Γ΅es, processo de dilataΓ§Γ£o mais eficaz, diminuiΓ§Γ£o da duraΓ§Γ£o do primeiro e do segundo estΓ‘gio do parto, menor incidΓͺncia de sofrimento fetal devido ao maior fluxo sanguΓneo que chega ao feto, e diminuiΓ§Γ£o da dor por parte das parturientes (BALASKAS, 2015). Podemos ainda ressaltar aspectos psicolΓ³gicos, como o aumento da sensaΓ§Γ£o de controle e autonomia da mulher, fazendo com que a experiΓͺncia da parturiΓ§Γ£o seja mais satisfatΓ³ria (NIY et al., 2019).
O MinistΓ©rio da SaΓΊderecomenda ainda que as mulheres devem ser encorajadas a adotar posiΓ§Γ΅es verticalizadas, se movimentar e buscar posiΓ§Γ΅es que considerem confortΓ‘veis e desencorajadas a adotarem posiΓ§Γ΅es horizontais (BRASIL, 2017).
Portanto, quando o profissional de saΓΊde nΓ£o permite que a mulher se movimente ou adote posiΓ§Γ΅es verticalizadas durante o trabalho de parto, este demonstra falta de conhecimento ou descrenΓ§a nas evidΓͺncias cientΓficas, culminando no aumento de complicaΓ§Γ΅es que levam Γ s intervenΓ§Γ΅es e iatrogenias. TambΓ©m podemos relacionar a preferΓͺncia por posiΓ§Γ΅es horizontais como uma necessidade de manipular o perΓneo para utilizaΓ§Γ£o de outras prΓ‘ticas obsoletas no segundo estΓ‘gio do parto, como a episiotomia.
IV. CONcluSΓO
A assistΓͺncia tradicional ao parto e nascimento, baseada no modelo tecnocrata e permeado por intervenΓ§Γ΅es nocivas e sem respaldo cientΓfico, vem sendo questionada Γ medida que novas evidΓͺncias surgem indicando melhores resultados perinatais. PorΓ©m, como foi observado pelo discurso dos profissionais, ainda existe um longo caminho para que prΓ‘ticas obsoletas, e consequentemente a violΓͺncia obstΓ©trica, deixem de fazer parte da assistΓͺncia, uma vez que todos os atos mencionados pelos entrevistados, como o abuso verbal, o abuso fΓsico, a falta de orientaΓ§Γ£o e consentimento, a exposiΓ§Γ£o fΓsica e a restriΓ§Γ£o da livre movimentaΓ§Γ£o sΓ£o criticados e desaconselhados de acordo com os estudos cientΓficos atuais.
Como apontado na falas dos entrevistados, a assistΓͺncia ao parto depende do profissional que a realiza e,aparentemente, nΓ£o tem sido pautada nas orientaΓ§Γ΅es cedidas pelos documentos da OMS e do MinistΓ©ro da SaΓΊde, uma vez que os entrevistados apontam episΓ³dios de objetificaΓ§Γ£o das mulheres a partir de imposiΓ§Γ΅es e artifΓcios cruΓ©is para Ihes transformar em pessoas passivas e colaborativas com o trabalho de parto idealizado pelo profissional, centrado nΓ£o na mulher e sim no obstetra (inclue-se aqui mΓ©dicos e enfermeiros).
Podemos observar que ao longo dos anos o MinistΓ©rio da SaΓΊde vem implementando diversas aΓ§Γ΅es para efetivar o uso de boas prΓ‘ticas durante o parto e nascimento, melhorando a assistΓͺncia prestada Γ parturiente e ao recΓ©m-nascido e, consequentemente, visando tambΓ©m diminuir a incidΓͺncia de maus tratos e violΓͺncia contra essas mulheres, por meio de vΓ‘rios documentos, enfatizando a assistΓͺncia humanizada, centrada no bem-estar da famΓlia e na autonomia da mulher, a partir de prΓ‘ticas com embasamento cientΓfico, com o propΓ³sito de obter um recΓ©m-nascido saudΓ‘vel e uma mΓ£e satisfeita e nΓ£o traumatizada.
Portanto, foi possΓvel perceber que para a diminuiΓ§Γ£o da prΓ‘tica de violΓͺncia obstΓ©trica Γ© necessΓ‘rio que nΓ£o sΓ³ os profissionais e as instituiΓ§Γ΅es de saΓΊde tomem conhecimento e apliquem todas as recomendaΓ§Γ΅es abordadas como boas prΓ‘ticas assistenciais para o manejo do parto, implementando intervenΓ§Γ΅esbaseadas em protocolos de assistΓͺncia, pautados nas orientaΓ§Γ΅es do MinistΓ©rio da SaΓΊde e/ou evidΓͺncias cientΓficas atuais, alΓ©m de oferecer cursos de educaΓ§Γ£o continuada a fim de sensibilizar os profissionais que estΓ£o em atuaΓ§Γ£o, para que se desestruture a cultura da violΓͺncia durante o parto, bem como se faz necessΓ‘rio investir em mΓ©todos eficazes para fiscalizaΓ§Γ£o da qualidade da assistΓͺncia oferecida nas instituiΓ§Γ΅es.
Compreendemos que parte do problema que envolve a violΓͺncia obstΓ©trica na atenΓ§Γ£o ao parto se relaciona Γ violΓͺncia de gΓͺnero e ao desconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Assim como a violΓͺncia contra as mulheres se manifesta na sociedade de forma rotineira, essa cultura atravessa a atenΓ§Γ£o ao parto, em que pese as recomendaΓ§Γ΅es baseadas nas boas prΓ‘ticas.
Esperamos assim alcanΓ§ar um modelo de atenΓ§Γ£o no qual o parto possa ser visto como um evento fisiolΓ³gico, sem a necessidade de intervenΓ§Γ΅es rotineiras ou uso de tecnologias intensivas, centrado na mulher e sua famΓlia, enfatizando o bem-estar do binΓ΄mio mΓ£e e filho e respeitando a individualidade de cada gestante e cada nascimento.
Para que tais prΓ‘ticas possam ser incorporadas em uma atenΓ§Γ£o humanizada Γ© fundamental que a formaΓ§Γ£o do profissional de saΓΊde inclua as recomendaΓ§Γ΅es baseadas nas evidΓͺncias cientΓficas, bem como conheΓ§a os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres,rompendo com uma cultura de violΓͺncia de gΓͺnero que ainda Γ© observada em muitas maternidades.
ContribuiΓ§Γ΅es das autoras
Todas as autoras participaram ativamente de todas as etapas de elaboraΓ§Γ£o do manuscrito.
Abreviaturas
CPMI- ComissΓ£o Parlamentar Mista de InquΓ©rito
PAISM- Programa de AtenΓ§Γ£o Integral Γ SaΓΊde da Mulher
OMS- OrganizaΓ§Γ£o Mundial de SaΓΊde
SUS- Sistema Γnico de saΓΊde
ANVISA- AgΓͺncia Nacional de VigilΓ’ncia SanitΓ‘ria
PPP- PrΓ©-parto, Parto e PuerpΓ©rio
Footnotes
SΓ£o apresentados alguns resultados da monografia de conclusΓ£o de residΓͺncia em enfermagem obstΓ©trica, defendida em 2018, trabalho para o qual foram entrevistados profissionais de saΓΊde (p.1) β©