I. INTRODUΓΓO
A incomensurabilidade, do grego "asΓ½mmetron", significa a ruptura entre duas teorias cientΓficas, a qual ocorre quando o paradigma da teoria anterior nΓ£o contempla a soluΓ§Γ£o de todos os seus problemas, gerando um novo paradigma que os resolva eficientemente. O termo provem da Geometria grega e ganhou nova proporΓ§Γ£o epistemolΓ³gica com Kuhn e Feyerabend, na Filosofia da CiΓͺncia (PETERS, 1974; FEYERABEND, 1976; KUHN, 2006; ABRAΓO, 2009).
Este trabalho demonstrarΓ‘ que o conceito Incomensurabilidade, originado nas CiΓͺncias Exatas, para explicar as mudanΓ§as de teorias cientΓficas na Geometria grega e na Filosofia da CiΓͺncia, tambΓ©m explica as mudanΓ§as na Tecnologia das ConstruΓ§Γ΅es, uma das disciplinas do Curso TΓ©cnico de EdificaΓ§Γ΅es, do eixo Infraestrutura, do CatΓ‘logo Nacional de Cursos
TΓ©cnicos, do MinistΓ©rio da EducaΓ§Γ£o e Cultura do Brasil (MEC).
II. A PERSPECTIVA DA INCOMENSURABILIDADE
COMO ELEMENTO INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DE DISCIPLINAS TΓCNICAS
Segundo AbrahΓ£o (2009), a palavra incomensurabilidade vem do grego "asΓ½mmetron". Peters (1974) a atribuiu ao pitagΓ³rico Hipasso. Fritz (1945) apud Roque (2012) pontua que a incomensurabilidade tenha sido descoberta durante o estudo do problema das diagonais do pentΓ‘gono regular. Esses autores apontam para a origem grega de tal termo que foi concebido na Geometria PitagΓ³rica. Contudo, esse vocabulo nΓ£o se restringe Γ Geometria grega, pois no sΓ©culo XX, sob nova perspectiva, ganha nova proporΓ§Γ£o epistemolΓ³gica em Kuhn e Feyerabend.
A incomensurabilidade foi empregada no sΓ©culo XX, por Kuhn e por Feyerabend em 1962, na Filosofia da CiΓͺncia (KUHN, 2006). As contribuiΓ§Γ΅es desses dois autores contemporΓ’neos da Filosofia da CiΓͺncia apontam a incomensurabilidade como elemento importante para as mudanΓ§as cientΓficas, entretanto este trabalho se restringirΓ‘ Γ perspectiva de Thomas Kuhn. Thomas Samuel Kuhn era fΓsico, graduado pela Universidade de Harvard e empreendeu esforΓ§os para identificar a estrutura, isto Γ©, elementos constituintes do processo cientΓfico que motivam e operam profundas mudanΓ§as na HistΓ³ria da CiΓͺncia, nomeando essas estruturas de "revoluΓ§Γ΅es cientΓficas" (KUHN, 2011).
Para o autor, as estruturas cientΓficas apresentam ciclos que, posteriormente, proporcionam rupturas entre si, desencadeando revoluΓ§Γ΅es cientΓficas. Essas estruturas apresentam mudanΓ§as sequenciais, atravΓ©s de perΓodos que se alternam entre si no decorrer do desenvolvimento da ciΓͺncia.
O perΓodo prΓ©-paradigmΓ‘tico da ciΓͺncia corresponde ao momento de incertezas cientΓficas, em que nΓ£o hΓ‘ consenso entre os membros da comunidade cientΓfica a respeito do paradigma. O paradigma compreende um conjunto de crenΓ§as, tΓ©cnicas e valores compartilhados por uma comunidade, que serve como modelo para a abordagem e soluΓ§Γ΅es de problemas. Nesse perΓodo, a escolha do paradigma consiste em disputas, cujo antagonismo presente entre os cientistas diz respeito Γ habilidade polΓtica dos mesmos em persuadir seus pares, na tentativa de estabelecer um novo paradigma (KUHN, 2012).
Nesse contexto, nΓ£o estΓ‘ em evidΓͺncia o desdobramento experimental, metodolΓ³gico, deduΓ§Γ΅es, induΓ§Γ΅es ou anΓ‘lises metodolΓ³gicas do paradigma, mas a habilidade do cientista em persuadir os demais membros da comunidade cientΓfica sobre a importΓ’ncia de aderirem ao novo paradigma.
Em Kuhn, o paradigma estabelece unidade e maturidade aos membros da comunidade cientΓfica, possibilitando condiΓ§Γ΅es de instrumentalizaΓ§Γ£o da teoria, ampliando e aprimorando suas tΓ©cnicas, com o surgimento de instrumentos que auxiliarΓ£o na investigaΓ§Γ£o dos novos fenΓ΄menos. Assim, o novo paradigma substituΓra gradualmente as teorias mais antigas.
O paradigma estabelece unidade ao demonstrar sua eficiΓͺncia em solucionar os problemas cientΓficos, aos quais Kuhn denomina de "quebra-cabeΓ§as". A eficΓ‘cia na resoluΓ§Γ£o dos problemas possibilita a ampliaΓ§Γ£o de seu campo de atuaΓ§Γ£o, que implica o fortalecimento estrutural e o amadurecimento da ciΓͺncia. Por outro lado, quando o cientista se depara com "anomalias", problemas que o paradigma vigente nΓ£o consegue resolver, ocorre uma crise, a qual desencadearΓ‘ a incomensurabilidade, ou seja, a ruptura entre os paradigmas.
Kuhn (2006) transpΓ΄s o conceito de incomensurabilidade da Geometria grega para o conhecimento cientΓfico, percebendo o conflito e a ruptura entre as teorias cientΓficas. Camilo (2016) afirma, assim como Kuhn (2006), que as mudanΓ§as cientΓficas resultam dos conflitos entre as teorias, ao longo da histΓ³ria, os quais encorajam a mudanΓ§a cientΓfica, a criatividade e a inovaΓ§Γ£o cientΓfica. Desta forma, a exemplo disso, se pode perceber as mudanΓ§as cientΓficas na Tecnologia das ConstruΓ§Γ΅es no Brasil.
III. INCOMENSURABILIDADE E TECNOLOGIA DAS CONSTRUΓΓES
As tΓ©cnicas construtivas antigas, Γ base de terra, datam de mais de dez mil anos, quando a humanidade comeΓ§ou a construir cidades (RIBEIRO, 2003). Empregavam materiais e recursos do prΓ³prio ambiente da edificaΓ§Γ£o e se originaram do conhecimento nativo, vernacular ou popular (MARQUES; AZUMA; SOARES, 2009). Foram utilizadas tΓ©cnicas diversas, como a taipa de mΓ£o, a taipa de pilΓ£o, o adobe e o tijolo (NEVES; FARIA, 2011).
Apesar de controverso, o termo "vernacular" se mostra, na atualidade, controverso e seus significados sΓ£o amplamente discutidos, dentre as diferentes nuances de atribuΓdas por cada autor, que, contudo, harmonizam que a arquitetura vernacular se caracteriza pelo seu enraizamento no ambiente em que se insere, ligada Γ s caracterΓsticas histΓ³ricas locais, que sΓ£o passadas de geraΓ§Γ£o em geraΓ§Γ£o, incorpora a sabedoria coletiva da tradiΓ§Γ£o, contemplando a relaΓ§Γ£o dos materiais e soluΓ§Γ΅es tecnolΓ³gicas com o clima, topografia e outros fatores fΓsicos e culturais locais (REIS; CASTRO, 2020).
A construΓ§Γ£o com barro no Brasil iniciou com as experiΓͺncias e o "saber como" dos colonizadores portugueses, onde este foi a matΓ©ria prima principal das construΓ§Γ΅es vernaculares no interior do Brasil ColΓ΄nia, entre os sΓ©culos XVI e XIX (LEMOS, 1996).
O barro teve grande destaque como material de construΓ§Γ£o, por sua disponibilidade abundante em um paΓs de economia incipiente, por permitir construir com poucos recursos financeiros e mΓnima forΓ§a de trabalho especializada. AlΓ©m disso, naquele perΓodo, a forΓ§a de trabalho disponΓvel era escrava, o que determinou a tΓ©cnica com terra como mais apropriada, devido sua baixa complexidade de interpretaΓ§Γ£o e execuΓ§Γ£o (LEMOS, 1989).
Nas construΓ§Γ΅es litorΓ’neas, predominou a tΓ©cnica construtiva Γ base de pedras, as cantarias, uma espΓ©cie de alvenaria de pedras argamassadas, devido ao tipo de solo local nΓ£o ser apropriado para as tΓ©cnicas com terra, por sua caracterΓstica arenosa. Outro fator determinante foi a oferta abundante de pedras e a produΓ§Γ£o da cal, a partir da calcinaΓ§Γ£o de blocos dos sambaquis, para a argamassa (LEMOS, 1989; KANAN, 2008).
Observa-se um primeiro conflito entre as tΓ©cnicas construtivas antigas vernaculares utilizadas no Brasil interior e litoral: o primeiro paradigma, a tecnologia Γ base de terra crua, nΓ£o contemplou a soluΓ§Γ£o dos problemas climΓ‘ticos impostos pelo litoral, ocorrendo a mudanΓ§a cientΓfica para um segundo paradigma, a tecnologia de cantarias, neste caso, sem assimilaΓ§Γ£o de conceitos da tecnologia anterior.
Silva et al. (2019), ao comparar resultados de ensaios de caracterizaΓ§Γ£o de argamassas, com a histΓ³ria da construΓ§Γ£o da edificaΓ§Γ£o objeto de seu estudo, concluΓram que se aplicaram tΓ©cnicas construtivas semelhantes Γ s utilizadas nos trΓͺs primeiros sΓ©culos, no Nordeste brasileiro, cuja falha no paradigma, a execuΓ§Γ£o de fundaΓ§Γ΅es sem impermeabilizaΓ§Γ£o, resultou em patologia construtiva, as umidades, caso que pode ser verificado em outras construΓ§Γ΅es locais de mesma tipologia.
No Brasil, as tecnologias de construΓ§Γ£o nΓ£o necessariamente sucederam umas Γ s outras, pois foram utilizadas diversas tΓ©cnicas construtivas em uma mesma edificaΓ§Γ£o. Comumente, a taipa de pilΓ£o e a taipa de mΓ£o eram utilizadas simultaneamente, associadas ao adobe para preenchimento de vΓ£os. O tijolo passou a ser incorporado posteriormente, sendo atΓ© hoje utilizado na maioria das construΓ§Γ΅es no paΓs. O concreto sΓ³ foi mais utilizado como mΓ©todo construtivo, a partir da arquitetura moderna, em meados dos anos de 1920 (LEMOS, 1996).
As edificaΓ§Γ΅es de terra crua, quando comparadas a tΓ©cnicas construtivas mais recentes, nΓ£o apresentavam estabilidade, resistΓͺncia e durabilidade satisfatΓ³rias, entretanto, se eficientemente protegidas da aΓ§Γ£o da umidade, por meio de beirais, poderiam resistir por longos perΓodos (LEMOS, 1989; PISANI, 2004).
Isto demonstra que as tecnologias construtivas antigas, naturalmente, apresentavam limitaΓ§Γ΅es, ou seja, as "anomalias" descritas por Kuhn (2006), acarretando que as soluΓ§Γ΅es construtivas observadas por Lemos (1986), constituΓdas pela associaΓ§Γ£o de tais tecnologias, de modo que o conjunto de tΓ©cnicas supriu suas deficiΓͺncias individuais, gerou novo paradigma composto pela assimilaΓ§Γ£o associativa das metodologias.
As tΓ©cnicas antigas, diante Γ IndustrializaΓ§Γ£o, aos poucos foram substituΓdas pelos mΓ©todos tradicionais, fundamentados inicialmente em alvenarias estruturais, onde posteriormente foram inseridas estrutura e fundaΓ§Γ£o de concreto e aΓ§o, advento da invenΓ§Γ£o do cimento Portland em 1824, difundido em larga escala no Brasil em meados do sΓ©culo XX. A partir desta tecnologia, edifΓcios maiores e mais resistentes puderam ser erguidos (FEIBER, 2012; LEMOS, 1989), configurando novo paradigma.
As tΓ©cnicas construtivas contemporΓ’neas e de alta tecnologia, "High-Tech", se propΓ΅em a oferecer ao usuΓ‘rio espaΓ§os de mΓ‘xima eficiΓͺncia, em vez de espaΓ§os tradicionais, alterando mais uma vez o modelo construtivo (paradigma), entΓ£o vigente. Surgiram a partir dos anos de 1970, se baseaiam em aΓ§o, vidro, alumΓnio, titΓ’nio, etc. e se utilizam de sistemas, tecnologias e materiais industriais, em programas comerciais e residenciais urbanos (COLIN, 2013).
Dentre estas tecnologias atuais que tΓͺm por premissa o conforto, a comodidade e a seguranΓ§a ao usuΓ‘rio, se pode destacar a automaΓ§Γ£o residencial, a qual tem por objetivo integrar diferentes tecnologias a fim de se automatizar uma edificaΓ§Γ£o, com uso eficiente de energia elΓ©trica (GOMES; TEIXEIRA; MAIA, 2021).
O avanΓ§o tecnolΓ³gico na Γ‘rea da construΓ§Γ£o civil, associado a outros fatores, impactou o meio ambiente de modo negativo e levou a comunidade cientΓfica mundial a desenvolver metodologias construtivas sustentΓ‘veis.
A constante expansΓ£o das cidades, o crescimento da populaΓ§Γ£o e a ampliaΓ§Γ£o da infraestrutura atravΓ©s da construΓ§Γ£o de edificaΓ§Γ΅es, em cujo processo a construΓ§Γ£o civil desempenha importante papel, contudo, dicotomicamente, tambΓ©m gera algum tipo de poluiΓ§Γ£o (FARIAS; MARINHO, 2020).
Suscitada como nova teoria cientΓfica, a Bioarquitetura, contempla soluΓ§Γ΅es frente ao problema ambiental, pois Γ© o ramo da Arquitetura que visa Γ harmonizaΓ§Γ£o das construΓ§Γ΅es com a natureza, de modo a gerar baixo impacto ambiental e reduΓ§Γ£o de custos operacionais, cujas construΓ§Γ΅es sΓ£o desenvolvidas com materiais naturais adaptados ao clima do local e tΓͺm como premissa a preservaΓ§Γ£o da natureza e a integraΓ§Γ£o entre o homem e o meio ambiente. Caracterizam-se pelo baixo consumo de energia, telhados com vegetaΓ§Γ£o, tΓ©cnicas construtivas simples e aproveitamento ao mΓ‘ximo dos recursos naturais, como iluminaΓ§Γ£o e ventilaΓ§Γ£o naturais (CAVALCANTE, 2018).
Esta nova teoria apresenta um viΓ©s de reintroduΓ§Γ£o das tΓ©cnicas construtivas antigas, como as com terra crua, em edificaΓ§Γ΅es contemporΓ’neas, com contexto atual e objetivo de gerar ambientes diferenciados e readaptar a aplicaΓ§Γ£o de materiais naturais com metodologias sustentΓ‘veis, o que se configura, mais uma vez, em uma nova teoria cientΓfica, neste caso, com assimilaΓ§Γ£o de conhecimentos anteriores, demonstrando a caracterΓstica cΓclica da estrutura cientΓfica descrita por Kuhn (2011).
IV. CONCLUSΓES
Em resumo, as teorias cientΓficas sofrem mudanΓ§as a partir do momento em que nΓ£o contemplam a soluΓ§Γ£o de problemas dentro de seu paradigma, cuja crise acarreta a ruptura deste modelo (incomensurabilidade), e sua substituiΓ§Γ£o por novo paradigma que os solucione, em que pode, ou nΓ£o, ocorrer a assimilaΓ§Γ£o de conceitos da teoria anterior.
Neste trabalho foi demonstrado que a partir deste conceito utilizado para explicar a mudanΓ§a cientΓfica no campo da Filosofia da CiΓͺncia, tambΓ©m se pode explicar tal fenΓ΄meno no campo da Tecnologia das ConstruΓ§Γ΅es, cadeira do curso de EdificaΓ§Γ΅es e, de modo anΓ‘logo, de outras disciplinas da EducaΓ§Γ£o Profissional, CientΓfica e TecnolΓ³gica, materializando a conexΓ£o interdisciplinar entre Conhecimento e PrΓ‘xis. AlΓ©m disso, foi observado que as mudanΓ§as de teorias cientΓficas na Tecnologia das ConstruΓ§Γ΅es no Brasil, ocorreram, em parte, com assimilaΓ§Γ£o de conceitos anteriores e, parte, com ruptura total entre paradigmas.