## I. INTRODUÇÃO
a perspectiva psicológica cognitivo-evolutiva, o trabalho seminal de Jean Piaget (1896-1980) destaca-se como pioneiro no estudo do desenvolvimento moral, focalizando particularmente o juízo moral. Kohlberg (1981), influenciado por Piaget, posteriormente elaborou uma proposta de desenvolvimento moral estruturada em níveis e estágios, instigando uma significativa discussão sobre a relação entre espiritualidade/religiosidade e o desenvolvimento moral.
Kohlberg, embora tenha discernido entre questões religiosas e morais, estabeleceu uma conexão entre ambas nos estágios do desenvolvimento moral. Segundo suas premissas, algumas questões morais encontram respostas nas dimensões espirituais e religiosas, explorando aspectos como $^ { " } 0$ que é certo ou errado?", "como podemos aprimorar-nos?", "por que ser moral?" e "por que viver?". As respostas para tais questionamentos transcendem a mera conformidade a preceitos morais e de justiça, abarcando um sentido mais amplo e um propósito de existência, o que pode ser associado à espiritualidade.
Para fundamentar sua teoria do desenvolvimento moral por estágios, Kohlberg conduziu pesquisas empíricas, solicitando que os participantes respondessem a dilemas morais. Ao analisar essas respostas, identificou um progresso no raciocínio moral ao longo do desenvolvimento, caracterizando-o em três níveis: pré-convencional, convencional e pósconvencional, cada um subdividido em dois estágios distintos. No nível pré-convencional, existem dois estágios, em que se predomina uma moralidade heterônoma, no primeiro, as regras morais são aceitas pela autoridade de forma incondicional, onde, o sujeito decide obedecer no intento de evitar castigo ou obter uma recompensa. No segundo, apesar do sujeito perceber que possam existir interesses de outros, decide por uma moral individualista, baseada na troca e acordos (BATAGLIA, P; MORAIS, A; LEPRE, R, 2010). No nível convencional, os dois estágios apreciam-se a importância do outro: o da moralidade da normativa interpessoal e o da moralidade do sistema social. No terceiro, segue-se as regras no intento de garantir uma boa imagem do "bom menino" e "boa menina". No Quarto estágio, o sujeito tornar-se um membro da sociedade ao aderir um sistema social, um conjunto de códigos, regras e procedimentos que são validas para os todos membros (BATAGLIA, P; MORAIS, A; LEPRE, R, 2010). No nível pós-convencional, considerado por Kohlberg (1981) como o mais alto da moralidade, o indivíduo percebe os conflitos entre as regras e o sistema. Trata-se em primeiro da moralidade dos direitos humanos, em segundo, dos princípios éticos universais. Os comportamentos morais independem do grupo social ou das pessoas são geridos por princípios universais, como: a justiça, a igualdade dos direitos humanos, o respeito à dignidade, estes são fins em si. Sobre isto, não se busca recusar as leis ou contratos, mas entender que tais são válidos somente porque se apoiam em princípios (BATAGLIA, P; MORAIS, A; LEPRE, R, 2010).
Neste contexto, Kohlberg introduz a discussão acerca da existência de um estágio adicional denominado sétimo estágio do desenvolvimento moral. Este estágio está intrinsecamente vinculado à noção de justiça e à universalização do sexto estágio. Além disso, associa-se à super-rogação, caracterizada por uma justificação moral que transcende o dever moral convencional. Esta dimensão envolve a espiritualidade, manifestando-se tanto nas experiências religiosas quanto no âmbito psicológico e filosófico, como na busca de sentido da vida.
Bataglia (2020), ao investigar a competência moral, identificou uma segmentação moral influenciada pela religiosidade por meio do instrumento Moral Competence Test (MCT_XT). Esse teste propõe uma tarefa moral desafiadora que envolve a avaliação de argumentos e contra-argumentos. A análise concentrase na coerência do sujeito ao ponderar não apenas a qualidade dos argumentos, mas também sua atitude em relação ao tema do dilema. Conforme destacado por Bataglia (2020), a religiosidade pode induzir à segmentação moral, resultando em:
(..)indivíduos que são capazes de refletir a respeito de problemas morais, frente a algum conteúdo específico deixam de fazê-lo (p. 36). Sujeitos que tratam temas sociais como dogmas apresentam uma falta de capacidade de lidar com a controvérsia e pluralidade de ideias de modo pacífico e democrático, levando a uma baixa competência moral (p.16).
Observa-se que o indivíduo religioso é detentor de um senso moral, todavia, suas decisões éticas são influenciadas pelas doutrinas religiosas, normas, regras e ensinamentos que se apresentam como condicionados e dogmáticos, embora aceitos de forma consciente pelo sujeito religioso. Sob a influência do grupo religioso, mesmo discordando internamente, o indivíduo tende a conformar-se a fim de obter aceitação, reconhecimento e integração social.
Conforme salientado por Gerone et al. (2022), a espiritualidade é concebida como um elemento central na vida, correlacionando-se intimamente com a competência moral. Essa conexão se manifesta em virtudes como fortaleza em situações extremas, alicerces para a consecução de princípios mesmo diante de prejuízos, hábitos que promovem a temperança, bem como qualidades de equilíbrio e harmonia.
Os autores mencionados exploram a espiritualidade e a religião em seus estudos e pesquisas, destacando sua presença nas descobertas realizadas. É relevante notar que esses temas emergiram ao longo das investigações, não sendo inicialmente o foco principal de pesquisa. Por exemplo, Lind, ao abordar a competência moral, percebeu a interferência de instituições totalitárias na avaliação de argumentos e contra-argumentos. De forma análoga, Kohlberg, em sua pesquisa sobre desenvolvimento moral, constatou que a espiritualidade está intrinsecamente associada, transcendendo a moral do dever, na busca pelo significado de ser moral.
Apesar de a espiritualidade não ser um tema estranho à psicologia do desenvolvimento moral e à educação, ainda não foi abordada de maneira sistemática. Em um levantamento bibliográfico realizado por Gerone e Bataglia (2020) sobre a espiritualidade no desenvolvimento moral no contexto da prática docente, observou-se que, na maioria das pesquisas e estudos sobre educação e moral, a espiritualidade emerge nas discussões e resultados, não figurando como o cerne da investigação.
Em outras palavras, a espiritualidade não é inicialmente contemplada como um foco central, mas emerge organicamente ao longo do processo de pesquisa e nos resultados, muitas vezes desafiando o pesquisador desprevenido. A falta de familiaridade com a concepção da espiritualidade como um componente integral ao biopsicossocial pode levar à suposição equivocada de que se trata de um tema mais apropriado ao domínio religioso e teológico, sendo, portanto, relegado à margem de análise.
Conforme salientado por Gerone e Bataglia (2020), os escassos estudos e pesquisas sobre a relação entre espiritualidade, desenvolvimento moral e educação são predominantemente conduzidos em universidades de orientação religiosa. Dos 12 estudos identificados na revisão de literatura, $25\%$ (3) pertencem a universidades federais, $17\%$ (2) a universidades estaduais (exclusivamente a UNEsP), enquanto $58\%$ (7) foram realizados em instituições de natureza confessional, sendo $85\%$ (6) vinculados a universidades católicas (PUCs) e $15\%$ (1) a universidade protestante (Metodista). Destaca-se a Pontifícia Universidade Católica do Paraná, responsável pelo maior número
( $42\%$ - 3 estudos) de investigações sobre espiritualidade, religiosidade e educação com implicações morais.
Gerone e Bataglia (2020) argumentam que a predominância de estudos sobre espiritualidade, educação e moral em instituições confessionais $(58\% )$ está relacionada ao valor e à tradição histórica educacional e religiosa presentes nessas instituições. Isso inclui vínculos com o Vaticano, ordens religiosas e educacionais como franciscanos, jesuítas e Camilianos. Observa-se também nessas instituições a influência das questões religiosas em cursos que não são necessariamente teológicos, abrangendo áreas como filosofia, educação e psicologia.
Além disso, conforme indicado por Gerone e Bataglia (2020), dos 12 estudos identificados na revisão de literatura, a maioria empregou métodos qualitativos, tais como observações de salas de aula, pesquisas bibliográficas, entrevistas, estudos de campo e análises de casos. Apenas um estudo adotou uma abordagem mista, combinando métodos qualitativos e quantitativos, pertencendo à área da psicologia do desenvolvimento. Sob essa perspectiva, é válido considerar que estudos e pesquisas que abordam a espiritualidade exclusivamente por meio de métodos qualitativos podem apresentar limitações em termos de influência acadêmica, especialmente nas disciplinas que tradicionalmente utilizam medidas para avaliar e mensurar fenômenos de estudo, como é o caso da psicologia, que possui uma tradição consolidada em pesquisas quantitativas sobre espiritualidade (ALVES, GERONE, NOGAS, 2021).
Por outro lado, surge um questionamento pertinente sobre como avaliar e mensurar eventos relacionados à espiritualidade e à moral, dada sua natureza abstrata, o que pode erroneamente sugerir dificuldades na análise quantitativa. Gerone e Bataglia (2020) esclarecem que, embora a espiritualidade em si não seja passível de quantificação direta, é viável analisar, inclusive estatisticamente, padrões de comportamento associados à espiritualidade em eventos vinculados à psicologia do desenvolvimento. Destaca-se a relevância dessa análise, especialmente nas áreas que envolvem a influência da espiritualidade no desenvolvimento moral e na educação. Nesse contexto, evidencia-se uma interrelação entre espiritualidade, moral e a prática docente na busca por uma educação integral e humana, onde questões morais e espirituais desempenham papel indispensável. Essa interconexão se manifesta na compreensão de valores, direitos humanos, no papel da espiritualidade como recurso para os docentes encontrarem significado e propósito tanto profissional quanto pessoal, e nos valores humanos com efeitos morais, tais como respeito, fraternidade, solidariedade e bemestar.
Dada a importância atribuída à espiritualidade no desenvolvimento moral e na educação, juntamente com a constatação da escassez de compreensão sobre a noção de espiritualidade e a predominância de estudos qualitativos na área religiosa, torna-se imperativo refletir sobre as medidas adotadas para mensurar e avaliar a espiritualidade e sua influência na moral e na educação, abrangendo tanto abordagens qualitativas quanto quantitativas. É neste contexto que este estudo tem como propósito, por meio de uma revisão de literatura, analisar as medidas de mensuração e avaliação da espiritualidade, focalizando especificamente a reflexão sobre instrumentos que correlacionam o desenvolvimento moral e a educação.
## II. Levantamento Das Medidas De MEnsuraÇÃo E AvaliaçÃo Da EspiritualiDaDE - RELIgiosIdadE
Como fontes de dados primárias, realizou-se uma busca na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), especificamente nos Periódicos CAPES, onde estão catalogados artigos, livros, dissertações e teses. O período abrangido pela pesquisa limita-se de 1987 (data inicial disponível para consulta) até 20 de junho de 2023. Outro banco de dados consultado é o Scientific Electronic Library Online (SCIELO), uma biblioteca eletrônica que compreende uma seleção de periódicos científicos brasileiros. A busca neste recurso restringe-se ao intervalo entre 2000 (data inicial disponível para consulta) até 23 de abril de 2023. Adicionalmente, utilizou-se a base de dados da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), a qual integra e dissemina textos completos de teses e dissertações de instituições brasileiras de ensino e pesquisa. O período abordado pela pesquisa compreende de 2002 até 07 de abril de 2023.
Com o objetivo de enriquecer a discussão proposta neste trabalho, foram incluídos alguns estudos não encontrados nas bases de dados mencionadas anteriormente, mas identificados por meio do Google Acadêmico. Estes estudos são considerados complementares para a abordagem deste trabalho, visto que o Google Acadêmico não oferece recursos específicos para a condução de revisões de literatura sistemáticas, como busca por áreas específicas ou autores. O foco principal do Google Acadêmico é fornecer e desenvolver uma variedade de serviços e produtos online, não sendo, portanto, uma ferramenta específica para revisão de literatura. No processo de seleção, foram analisados os estudos encontrados até a terceira página, uma vez que o Google disponibiliza informações com maior proximidade em relação às palavras-chave de busca nas páginas iniciais.
As palavras-chave utilizadas na busca foram: questionário, instrumento, avaliação e escala, todas conjugadas com os termos espiritualidade, religiosidade e religião. Optou-se por incluir os termos religiosidade e religião devido à sua conexão com a espiritualidade em pesquisas e estudos acadêmicos. Não foram incorporadas as palavras-chave moral e educação, com o intuito de obter uma visão mais abrangente das medidas de mensuração e avaliação da espiritualidade. Conforme esperado, encontraram-se diversos estudos e pesquisas sobre espiritualidade e religiosidade em áreas como teologia, ciência da religião e saúde.
Como critério de filtro, analisaram-se apenas os estudos e pesquisas que empregaram como metodologia de pesquisa medidas como questionário, instrumento, avaliação e escala. Essas medidas foram meticulosamente analisadas e classificadas com informações como o nome da medida, o que avaliam e o autor correspondente. Desta maneira, foram identificadas um total de 50 medidas, conforme apresentado no Quadro 1.
Quadro 1: Medidas de Mensuração e Avaliação da Espiritualidade Religiosidade
<table><tr><td></td><td>Instrumento</td><td>O Que Avalia</td><td>Área</td><td>Autor</td><td>Tradução Portugues</td></tr><tr><td>1.</td><td>Aspiration Index</td><td>Domínicos das metas de vida. Avaliaicos, sucesso financeiro, imagem, popularidade, autoceitacao, saude fisica, afiliacao, sensacao de comunidade, espiritualidade, conformidade, hedonismo e segurarca.</td><td>Psicologia da religião</td><td>Grouzet et al. (2005).</td><td>the Aspiration Index. Núñez Rodríguez (2016)</td></tr><tr><td>2.</td><td>Age Universal I-E Scale</td><td>Avalia a religiosity intrínseca, por base de uma orientação pessoal, e a orientação extrínseca, que refere a uma religiosity baseada numa orientação social, particulamente uma busca de consolo, comforts ou estatuto social.</td><td>Psicologia da religião</td><td>Gorsuch & McPherson (1989)</td><td>Escala de Orientação Religiosa I/E. Linares, R. (2012).</td></tr><tr><td>3.</td><td>Brief Santa Clara Strength of Religious Faith</td><td>Visa medir aforcá da fé religiosa, o comportamento religioso, e o enfrontamento religioso e afeto.</td><td>Psicologia da religião</td><td>(PLANTE et al., 2002).</td><td>Não possui</td></tr><tr><td>4.</td><td>Duke Religious Index (DUREL)</td><td>MedeTRS dimensões de religiosity: Religiosity Organizational; não Organizational; e Religiosity Intrínseca.</td><td>Psicologia da Saudé e religião</td><td>(KOENIG; MEADOR; PARKERS (1997)).</td><td>Duke Religious Index (DUREL) (MOREIRA-ALMEIDA et al., 2008).</td></tr><tr><td>5.</td><td>Escala de Atitudes Relaciones À espiritualidade (ARES)</td><td>Avalia as quostões existenciais maiores (o sentido da vida, da morte) e suas relações com o sagrado e/ou transcendente.</td><td>Saúde e medicina</td><td>Braghetta (2017).</td><td>Desenvolvida no Brasil</td></tr><tr><td>6.</td><td>Escala de Atitudes religiosas (EAR)</td><td>Avalia o comportamento religioso, conheço um dosumento religioso e corporecido religiosa.</td><td>Psicologia da Saudé e religião</td><td>Versão Expandida (EAR-20) por Aquino, Gouveia, Silva e Aguiar (2013).</td><td>Desenvolvida no Brasil</td></tr><tr><td>7.</td><td>Escala de Avaliação da Espiritualidade e Sentimentos Religiosos / (ASPIRES)</td><td>Avalia as opinições religiosas e a transcência espíritual. Mensura os aspectos relacionados a participationagem religiosa e aos conflitos religiosos.</td><td>Psicologia da religião</td><td>Piedmont (2004), Simkin (2017).</td><td>Não possui</td></tr><tr><td>8.</td><td>Spiritual Well-Being Scale.</td><td>Avalia a importante, esforcé, de passar tempo com pensamentos espiritualis particulares e meditações; viver de acordo com cresças religiosas; estabilitadede equilibrio. Autoconceito positivo, sentido e propósito de vida, boa sinaude física.</td><td>Psicologia da saúde e religião</td><td>Paloutzian e Ellison (1982)</td><td>Escola de Bem-Estar Espíritual (EBE). Marques LF, Sarriera JC, Dell'Aglio DD. (2009).</td></tr><tr><td>9.</td><td>RCOPE- RELIGIOUS-COPING SCALE</td><td>Descreve o modo como os indivíduos utilizeam sua fé para lidar com o estresse. Enfretamento religioso positivo e negativo.</td><td>Psicologia da saúde e religião</td><td>Pargament, K. I., Koenig, H. G. & Perez, L. M. (2000).</td><td>Escala de Coping religioso Espíritual (CRE) (PANZINI; BANDEIRA, 2005).</td></tr><tr><td>10.</td><td>(Post-Critical Belief Scale: PCBS)</td><td>Mensura as atitudes religiosas, a inclusão vs. exclusão da transcendência e interpretação literal vs. Simbólica.</td><td>Psicologia do desenvolvimento to</td><td>Dirk Hutsbaut (1996; 1997).</td><td>Escala de Crenças Pós-Crítica (PCBS) (BATAGLIA et al., 2016).</td></tr><tr><td>11.</td><td>Escala de Espíritualidade</td><td>Avalia as cresças e esperança/otimismo dentro docontexto de saúde.</td><td>Saúde e - medicina</td><td>Pinto e Pais-Ribeiro (2007).</td><td>Desenvolvida no Brasil</td></tr><tr><td>12.</td><td>Escala de Espíritualidade, Religião e cresças pessoas, (WHOQOL-SRPB), da Organização Mundial da Saúde</td><td>Avalia a conexão com o ser ou forca espíritual; sentido na vida; admiração; totalidade e integração; forca espíritual; paz interior;esperança e optimismo; e fé.</td><td>Saúde - medicina</td><td>Fleck, Borges, Bolognesi, & Rocha, (2003).</td><td>Escala de Espíritualidade, Religião e cresças pessoas (Panzini, Maganha, Rocha, Bandeira, & Fleck, 2011).</td></tr><tr><td>13.</td><td>Underwood's Daily Spiritual Experience Scale</td><td>Avalia as experiências espírituals comuns. Inclui os aspectos como a admiraçãoPGA, paz inferior, gratidão, compaixão, senso de conexão com algo transcendente compaixão.</td><td>Psicologia da saúde e da religião.</td><td>Lynn, G Underwood, Jeanne A Teresi (2002).</td><td>Escala de Experiência Espíritual Diária (DSEs) (KIMURA et al., 2012; OLIVEIRA, 2011).</td></tr><tr><td>14.</td><td>Integrated Spiritual Intelligence Scale</td><td>Avalia a intolerência espíritual, sentido a consciência, Graça, Significado, Transcendência e Verdade.</td><td>Psicologia clinica</td><td>Amram e Dryer, (2008)</td><td>Escala Integrada de Intelligência Espíritual (ISIS) Jorge (2012)</td></tr><tr><td>15.</td><td>Estágios da Fé</td><td>Avalia as etapas do desenvolvimento da fé.</td><td>Psicologia do desenvolvimento to</td><td>Fowler (1992).</td><td>Livro traduzido para o portugues. (Mas não existe trabalhobrasileiros queutilizaram osestagens da fé como medida.</td></tr><tr><td>16.</td><td>Functional Assessment of Chronic Illness Therapy-Spiritual Well-Being-FACIT SP 12</td><td>MedeTRS sub-dimensores de bem-estar espíritual.</td><td>Psicologia da saúde e religião</td><td>(PETERMAN et al., 2002).</td><td>FACIT SP 12. Alvarenga (2017).</td></tr><tr><td>17.</td><td>Francis Scale of Attitude Towards Christianity</td><td>Mede as respostas afetivas acerca do Cristianismo. Avalia as respostas afetivas em relação à Deus, Jesus, a Biblia, a oração e a ireja.</td><td>Teologia cristã</td><td>(FRANCIS, 1978).</td><td>Não possui tratuição</td></tr><tr><td>18.</td><td>Index of Core Spiritual Experiences</td><td>Avalia o sentimento de proximidade com Deus</td><td>Teologia cristã</td><td>(KASS et al., 1991).</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>19.</td><td>The Spirituality Index of Well-Being (SIWB)</td><td>Avalia as experiências espírituals emcontexto de saúde.</td><td>Saúde - medicina</td><td>Daaleman e Frey (2004).</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>20.</td><td>Indice de Mudanças Resultantes das Experiências</td><td>Avalia as experiências paranormais e transcendentais.</td><td>Psicologia da religião</td><td>Parra e Corbetta (2013).</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>21.</td><td>Inspir R (The Index of Core Spiritual Experience)</td><td>Busca identificar as experiências mais intensas e concretas relativas à existência de Deus ou um Ser Superior.</td><td>Psicologia da religião</td><td>Kass (1991).</td><td>Aplicado e adaptado, mas não traduzido (VERONEZ et al., 2011).</td></tr><tr><td>22.</td><td>Intrinsic Religious Motivation Scale</td><td>Avalia a religiositye intrínseca e extrínseca.</td><td>Psicologia da religião</td><td>(HOGE, 1972).</td><td>Livre traduzido. Escala de Motivação Religiosa Intrainseca e Extrínseca. (GOLDSTEIN, 1993).</td></tr><tr><td>23.</td><td>Spiritual Intelligence Self-Report Inventory (SISRI-24).</td><td>Avalia o pensamento existencialístico; A reprodução de significado pessoal; A percepção transcendental; e expansão do estado consciente.</td><td>Psicologia do desenvolvimento</td><td>King,Decicco (2009).</td><td>Inventário de Auto-Relato de Inteligência Espiritual-24. Adaptação para IAIE-16 Antunes (2016).</td></tr><tr><td>24.</td><td>Inventário de Orientação Espiritual (Spiritual Orientation Inventory)</td><td>Avalia as dimensores transcendentes, significado e propósito na vida, misseda na vida, sacralidade da vida, valores materiais, altruismo, idealismo, consciência do trágico e frutos da Espiritualidade.</td><td>Psicologia da religião</td><td>Elkins et al. (1988).</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>25.</td><td>Intrinsic Religiousness Inventory (IRI)</td><td>Avalia a religiositye intrínseca.</td><td>Psicologia da Saudê e da religião</td><td>(TAUNAY et al., 2012).</td><td>Desenvolvida no Brasil fundamentalada nas escalas: - WHOQOL - BREF indices DUKE de religiosityde (DUREL)</td></tr><tr><td>26.</td><td>Intrapersonal religious conflict</td><td>Avalia os conflitos religiosos e espírituais.</td><td>Psicologia da religião</td><td>(TRENHOL;TRENT; COMPTON, 1998),</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>27.</td><td>Lista de Efeitos das Experiências Paranormais</td><td>Avalia os efeitos das Experiências paranormais e espírituais como bem-estar.</td><td>Psicologia da religião</td><td>Parra e Corbetta (2013).</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>28.</td><td>Negative Religious Coping Scale</td><td>Avalia os conflitos religiosos e espírituais.</td><td>Psicologia da religião</td><td>(PARGAMENT et al., 1998)</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>29.</td><td>Perceived religious support</td><td>Avalia as medidas de apoio religioso.</td><td>Psicologia da religião</td><td>(FIALA; BJORCK; GORSUCH, 2002),</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>30.</td><td>Private and Social Religious Practice Scale</td><td>Avalia a frequência de oração, frequência religiosa, leitura religiosa, animos da religião.</td><td>Psicologia da religião</td><td>(LUCCHETT;VALL ADA, 2013).</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>31.</td><td>PsychoMatrix Spirituality Inventory, ou PSI</td><td>Avalia a divindade; intelectualidade; comunidade; percepção extra-sensorial; espíritualidade infantil; e trauma.</td><td>Psicologia do desenvolvimento to</td><td>Wolman (2001).</td><td>Inventário de Intelligência Espiritual - PSI. Traduzido Schaeffer (2003); validad por Grendene (2009).</td></tr><tr><td>32.</td><td>Quest Scale</td><td>Avalia os conflitos religiosos e espiritualis.</td><td>Psicologia da religião</td><td>(BATSON; SCHOENRADE; VENTIS, 1993).</td><td>Não possui traduição</td></tr><tr><td>33.</td><td>Spiritual Well-being Questionnaire - SWBQ</td><td>Avalia as dimensores: pessoal, comunitária, Ambiental, transcendental e bem-estar espiritual global.</td><td>Psicologia da saúde e religião</td><td>Gomez e Fisher (2003).</td><td>Questionário de Bem-Estar Espiritual (SWBQ). Gouveia (2009).</td></tr><tr><td>34.</td><td>Questionário de Experiências de Vida</td><td>Avalia o estado de saúde, bem-estar e significado da vida.</td><td>Psicologia da religião</td><td>Parra (2008).</td><td>Não foi traduzido</td></tr><tr><td>35.</td><td>Sources of Meaning and Meaning in Life Questionnaire (SoMe)</td><td>Avalia a presence de sentido de vida, crises existenciais e fontes de sentido de vida.</td><td>Psicologia da religião</td><td>Schnell e Becker (2006).</td><td>Questionário de Fontes de Significado e Sentido na Vida (SoMe-BR). Damásio (2013).</td></tr><tr><td>36.</td><td>Purpose in Life Test - PIL Test</td><td>Avalia a presence de sentido e ausência de vázuo existencial.</td><td>Psicologia clínica</td><td>Crumbaugh e Maholick (1964).</td><td>PIL-Test Aquino (2009).</td></tr><tr><td>37.</td><td>Meaning in Life Questionnaire</td><td>Avalia a presence de sentido de vida e busca por sentido.</td><td>Psicologia clínica</td><td>Steger, Frazier, Oishi e Kaler (2006).</td><td>Questionário de Sentido de Vida (QSV). Portugal (2017)</td></tr><tr><td>38.</td><td>The Christian Religious Internal</td><td>Avalia as medidas relacionadas às forças motivações e de orientação religiosas do cristianismo.</td><td>Teologia cristã</td><td>(RYAN; RIGBY; KING, 1993).</td><td>Não foi traduição</td></tr><tr><td>39.</td><td>Religious Problem-Solving Scale</td><td>Avalia o sentimento de proximidade com Deus</td><td>Psicologia da religião</td><td>(PARGAMENT et al., 1988).</td><td>Não possuês traduição</td></tr><tr><td>40.</td><td>Religious strain</td><td>Avalia as medidas de conflitos religiosos e espiritualis, tais como, o suicício e a depressão.</td><td>Psicologia da religião</td><td>(EXLINE; YALI; SANDERSON, 2000).</td><td>Não possuês traduição</td></tr><tr><td>41.</td><td>Religious support</td><td>Avalia as medidas de apoio religioso</td><td>Psicologia da religião</td><td>(KRAUSE, 1999).</td><td>Não possuês traduição</td></tr><tr><td>42.</td><td>Self reported religiosity</td><td>Avalia a importante que a religiosity tem para o indivíduo. Avalia uma religiosity subjetiva.</td><td>Psicologia da saúde e religião</td><td>(LUCCHETT; VALLADA, 2013).</td><td>Não possuês traduição</td></tr><tr><td>43.</td><td>Spiritual Assessment Inventory</td><td>Avalia o desenvolvimento ou maturidade espiritual, tanto no sentido dos relacionamentos quanto da espiritualidade contemplativa.</td><td>Psicologia da religião</td><td>(HALL; EDWARDS, 1996).</td><td>Não possuês traduição</td></tr><tr><td>44.</td><td>Spiritual History Scale</td><td>Avalia as medidas de conflitos religiosos e espiritualis</td><td>Psicologia da saúde e da religião</td><td>(HAYS et al., 2001).</td><td>Não possuês traduição</td></tr><tr><td>45.</td><td>Spiritual Intelligence Assessment Instrument (SQ21)</td><td>Avalia a Inteligência espiritual.</td><td>Psicologia do desenvolvimento to</td><td>Wigglesworth (2012).</td><td>Não possuês traduição</td></tr><tr><td>46.</td><td>Spiritual Intelligence Scale (SIS)</td><td>Avalia Inteligência espiritual.</td><td>Psicologia do desenvolvimento to</td><td>Nasel (2004).</td><td>Não possuês traduição</td></tr><tr><td>47.</td><td>Spiritual Support Scale</td><td>Avalia o sentimento de proximidade com Deus. E as créncas como suporte para o bem-estar</td><td>Psicologia da saúde e da religião</td><td>(MATON, 1989).</td><td>Não possuês traduição</td></tr><tr><td>48.</td><td>Strayhorn Religious Scale</td><td>Avalia o desenvolvimento religioso, coping religioso espiritual (CRE), entre outras dimensoes.</td><td>Psicologia da Saúde e da religião</td><td>(MOSCHELLA et al., 1997).</td><td>A versão em portugues não possuínc prelimiamento teste- reteste e não foi validada quando a consistência interna ou habilhade concorrente e discriminativa. Gonçalves (2000).</td></tr><tr><td>49.</td><td>Versão-piloto do Único de Espiritualidade (IE)</td><td>Avalia a satisfação em relação à vida e o componente cognitivo do bem-estar.</td><td>Psicologia da Saúde e religião</td><td>Estrada et al. (2012).</td><td>Não possuíu traduição</td></tr><tr><td>50.</td><td>Treatment Spirituality/ Religiosity Scale TSRS</td><td>Avalia a religiosity e a espiritualidade nos tratamentos para problemas relacionados ao uso desubstências,</td><td>Saúde e medicina</td><td>Lillis J, Gifford E, Humphreys K, Moss R. (2008).</td><td>Treatment Spirituality/Religiosity Scale: versão Brasileira (TSRS-br).(GONÇALVES; N,2016)</td></tr></table>
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## III. Panorama Sobre As Medidas De MEnsuraÇÃo E AvaliaÇÃo Da Espiritualidade - RElIgiosidadE
Nas últimas décadas, observa-se um crescente interesse acadêmico pela religiosidade e espiritualidade (ALVES, GERONE, NOGAS, 2021). Esse panorama é corroborado pelo ano de publicação, desenvolvimento e validação das 50 medidas, das quais 5 medidas $( 9\% )$ foram concebidas entre as décadas de 60 e 80, enquanto as demais 45 medidas $( 95\% )$ foram elaboradas entre as décadas de 90 e 2017. De maneira geral, constata-se que a área da saúde concentra a maior parte das pesquisas sobre espiritualidadereligiosidade (ALVES, GERONE, NOGAS, 2021), fato que se alinha com os resultados deste estudo, onde a maioria das medidas encontradas pertence a essa área.
Dentre as 50 medidas, vinte e duas (22) $(42\% )$ pertencem à área da psicologia da religião, cujo escopo abrange a avaliação da força da fé, motivação, suporte, apoio e conflito religioso, conexão com o sagrado, experiências paranormais, religiosidade intrínseca e extrínseca. Observa-se que, nesse contexto, a espiritualidade é analisada predominantemente sob uma perspectiva religiosa, evidenciada pelo uso de termos como "pecado", "comunhão", "Espírito Santo", "Deus", "oração", "igreja" e "fé" nas perguntas das medidas. Esse viés possivelmente reflete a influência cultural e religiosa do contexto no qual essas medidas foram desenvolvidas, aplicadas e validadas.
É relevante destacar que algumas medidas foram concebidas por universidades ou autores com vínculos institucionais religiosos, nos quais a psicologia da religião está intrinsicamente ligada aos cursos ou áreas de estudo religiosas, e não necessariamente a departamentos de psicologia em sua totalidade. Portanto, os estudos desenvolvidos precisam estar alinhados com a cultura organizacional, evitando conflitos com a história e ideologia religiosa da instituição. Essas observações são condizentes com o cenário da psicologia da religião no Brasil, cujas origens remontam à influência da tradição cristã europeia. Na década de 50, em São Paulo, o médico italiano Enzo Azzi fundou o primeiro departamento de Psicologia da Religião na PUc-SP, enquanto Antonius Benkö, sacerdote húngaro, realizou as primeiras pesquisas empíricas em Psicologia da Religião na PUC-RJ (PAIVA et alii, 2009). Atualmente, a psicologia da religião enfrenta o desafio de estabelecer interações com outras áreas do conhecimento além da religião, como as ciências biológicas, fisiologia, psiconeuroimunologia e as ciências sociais, como a antropologia (PAIVA et alii, 2009).
A espiritualidade-religiosidade também é objeto de interesse em outras áreas da psicologia, conforme demonstrado nas 50 medidas. Treze (13) medidas $( 26\% )$ pertencem à Psicologia da Saúde, estabelecendo uma interface com a religião. Ao contrário da psicologia da religião, cujo foco primário é o fenômeno religiosoespiritual, as medidas da psicologia da saúde visam, primariamente, avaliar, medir e mensurar a saúde. Nesse processo, estabelece-se uma relação entre a espiritualidade-religiosidade e o estado de saúdedoença, abordando questões como qualidade de vida, bem-estar, estratégias de enfrentamento (coping), impactos e conflitos religiosos, comportamento religioso e sua influência na saúde.
No âmbito da psicologia clínica, três (3) medidas $( 6\% )$ foram identificadas, onde o fenômeno religioso-espiritual é abordado como um método para compreender a realidade comportamental e psíquica da pessoa, ou é utilizado como forma de prevenção, aconselhamento, psicoterapia e reabilitação. Dentro da psicologia do desenvolvimento, seis (6) medidas $(12\% )$ exploram a associação entre o fenômeno religiosoespiritual e os sentimentos e comportamentos ao longo da vida, influenciando o desenvolvimento cognitivo, social e emocional.
Cinco (5) medidas $( 10\% )$ fazem parte da área geral da saúde, incluindo enfermagem e medicina, onde a espiritualidade-religiosidade está associada à prática de cuidado e tratamento em saúde, transtornos mentais, qualidade de vida, bem-estar e coping religioso-espiritual.
A área da teologia é abordada por três (3) medidas $( 6\% )$, as quais avaliam a frequência e experiências de práticas religiosas cristãs, cultos, dogmas, símbolos, liturgias e textos bíblicos. A escassez de medidas nessa área pode ser atribuída à ênfase da teologia na pesquisa sobre fé e Deus, que alguns teólogos consideram inquantificáveis. No entanto, é possível estudar e analisar o comportamento religioso dentro do âmbito da teologia, assemelhandose ao enfoque adotado pela psicologia da religião.
Dentre as 50 medidas identificadas, vinte e cinco (25) ainda não foram validadas e traduzidas no Brasil. Quatro (4) medidas foram desenvolvidas no país, duas (2) foram traduzidas, mas não validadas ou aplicadas, uma (1) medida foi aplicada, mas não traduzida, e dezenove (19) medidas foram traduzidas, validadas e aplicadas no contexto brasileiro. Isso implica que apenas $38\%$ das medidas de mensuração e avaliação da espiritualidade-religiosidade são aplicáveis à realidade sociocultural brasileira. Algumas considerações podem ser inferidas a partir dessa constatação:
1. A espiritualidade ainda é percebida como pertencente à esfera da religião, uma dimensão mística e sobrenatural, e, portanto, não aplicável a outras áreas da psicologia, ciências e conhecimento. Isso explicaria a predominância das medidas na área da psicologia da religião.
2. Apesar do interesse acadêmico crescente em espiritualidade-religiosidade, há uma lacuna na avaliação
## IV. As NoçÕes De Espiritualidade E Religiosidade Nas Medidas
As medidas identificadas na área da psicologia da religião apresentam uma série de questionamentos que amalgamam as noções de espiritualidade e religiosidade, tornando desafiante uma avaliação eficaz de cada fenômeno. A espiritualidade não apenas é associada à religiosidade, mas frequentemente é interpretada ou considerada como sinônimo desta última. Ao analisar a dimensão da espiritualidade, as perguntas acabam delineando um perfil religioso, evidenciando destaque para comportamentos, crenças e experiências religiosas. Adicionalmente, as indagações sobre espiritualidade são frequentemente integradas a seções contendo perguntas sobre religiosidade, o que propicia ao participante associar diretamente ambas as noções. Dada a predominância da religiosidade nas pesquisas sobre espiritualidade, a utilização excessiva da linguagem e vocabulário típicos da área religiosa pode gerar confusão e prejudicar o acesso e compreensão por parte de interessados de outras áreas de pesquisa, induzindo erroneamente à crença de que espiritualidade é exclusivamente um tema religioso.
Áinda que não haja uma noção acadêmica universal sobre espiritualidade e religiosidade, há uma certa concordância em pesquisas acadêmicas e nas medidas da área da saúde de que essas noções podem estar associadas, mas são distintas. Considerando que a espiritualidade faz parte do estado e natureza do espírito, constituindo uma ontologia, ela apresenta uma dimensão na busca de sentido de vida que se manifesta em experiências, sentimentos e comportamentos humanos, como solidariedade, empatia, alegria, amizade, valores, um espaço de reflexão sobre a vida e uma transcendência do material e genérico, podendo ou não se expressar em uma religião. Em outras palavras, a espiritualidade, enquanto qualidade do estado de espírito, é inerente à condição de vida e precede a religiosidade, configurando-se como uma forma de expressão, uma qualidade, comportamento e prática que pode derivar da religião (GERONE; BATAGLIA, 2020).
No contexto de religiosidade e religião, compreende-se como um sistema de crenças e práticas seguido por um grupo de pessoas que se apoiam em ritos, doutrinas, ensinamentos, normas e idolatram uma figura personificada do Sagrado, do Divino ou de um Deus. Em outras palavras, há uma forma, aspecto, qualidades, características e padrões daquilo que é incorporado. Nas medidas da área da teologia, o que é considerado espiritualidade tem sua origem no Sagrado, no Divino ou em Deus. Nesse sentido, o aspecto religioso percebe o que é espiritualidade como parte da construção humana, porém, antes disso, como um aspecto da Criação e essência Divina. Por exemplo, no Cristianismo, Deus, por meio de seu Espírito, emana em toda a vida, como expresso na passagem bíblica $^ { 11 } \bigcirc$ Espírito de Deus me criou, e o sopro do Todo-poderoso me deu a vida" (Jó 33.4). Assim, o sentido da vida é interpretado à luz das crenças religiosas, e o modo de viver a vida, as experiências, sentimentos e comportamentos humanos são manifestações da espiritualidade.
É pertinente ressaltar que o exemplo do Cristianismo é utilizado devido às medidas identificadas terem sido desenvolvidas em países com tradição cristã, o que pode ter influenciado a construção e validação dessas medidas, inclusive na concepção de espiritualidade e religiosidade como conceitos intercambiáveis.
Especialmente no âmbito da psicologia do desenvolvimento, focalizada neste estudo, Antunes (2016) conceitua a espiritualidade no Inventário de Autoavaliação de Inteligência Espiritual-24 como aquilo que engloba o sentido individual, os relacionamentos ou a conexão com uma determinada força ou poder no universo que transcende o contexto atual da realidade. Segundo Antunes (2016), a espiritualidade é considerada um componente da inteligência, representando um conjunto de capacidades mentais que contribuem para a conscientização, integração e aplicação adaptativa dos aspectos imateriais e transcendentes da vida. Em termos mais amplos, a espiritualidade é a habilidade de envolver-se em pensamento crítico existencial, atribuir sentido e propósito a todas as experiências físicas e mentais, perceber as dimensões transcendentes do self, dos outros e do mundo físico (como auto transcendência, imaterialismo, holismo, interligação) e entrar em estados expandidos ou espirituais de consciência por vontade própria.
Antunes (2016) fundamentou sua avaliação da espiritualidade enquanto inteligência na escala original SISRI-24 (King, 2008), composta por 24 itens distribuídos em 4 dimensões. No entanto, não encontrou correspondência com o componente do fator "consciência transcendental" em relação ao estudo final da versão portuguesa do Inventário de Autoavaliação de Inteligência Espiritual (IAIE) com 16 questões em escala de Likert. O autor justifica tal diferença cultural e religiosa entre Portugal e Canadá, ambos países com tradição cristã semelhante à do Brasil, mas com variações nas experiências religiosas. Além disso, as diferenças decorreram dos sujeitos de pesquisa; enquanto no Canadá, a pesquisa envolveu estudantes universitários, a amostra na versão em português incluiu vários sujeitos em geral, o que proporcionou à escala IAIE-16 melhores resultados de validação e confiabilidade. Nesta versão, a noção de espiritualidade está subentendida na consciência, sentido e propósito de vida, reflexão sobre a natureza humana, vida e morte, bem-estar. Antunes (2016) salienta que a IAIE-16, ao avaliar a inteligência espiritual, não utiliza explicitamente termos como espiritualidade, espírito ou espiritual. Ele adverte sobre a necessidade de cuidado, pois as medidas que avaliam a inteligência espiritual frequentemente capturam mais o aspecto espiritual em si do que a inteligência espiritual. Assim, a proposta de Antunes não é avaliar a espiritualidade em seu conceito amplo, mas sim como integrante da inteligência espiritual, uma noção mais restrita e, portanto, mais facilmente mensurável.
O Inventário de Inteligência Espiritual PSI, de Wolman (2001), define a espiritualidade como uma condição humana, um movimento interno ou amadurecimento da personalidade, destacando a capacidade de formular questões fundamentais sobre o significado da vida e experimentar, simultaneamente, uma conexão perfeita entre o indivíduo e o mundo. Geralmente, essas questões surgem em momentos desafiadores da vida, evidenciando que a inteligência espiritual está principalmente relacionada à formulação de questões existenciais e à compreensão do significado das experiências e dos relacionamentos. Essa compreensão proporciona uma conexão que sustenta e fortalece nos momentos mais difíceis da existência.
Embora Wolman (2001) tenha proposto uma noção de espiritualidade desprovida de um viés religioso, uma análise do Inventário de Inteligência Espiritual - PSI, com suas 49 questões centradas em sete fatores, revela que muitas delas possuem um perfil religioso. O fator Comunidade, por exemplo, aborda não apenas atividades sociais, mas também a frequência a uma comunidade e cerimônias religiosas. No fator Divindade, encontramos questões sobre a benção de Deus e a presença divina. O fator Extrassensorial inclui eventos psíquicos paranormais, como receber telefonemas ao pensar em alguém, experiências fora do corpo ou quase morte, falar com os mortos e interação com anjos da guarda. O fator Infância aborda valores religiosos, como a importância da leitura da Bíblia, a prática de rezar todas as noites e a frequência a cerimônias e cultos religiosos. O fator Intelectualidade envolve o compromisso com a leitura, estudo ou discussão de textos sagrados ou espirituais e o questionamento ativo dos ensinamentos tradicionais da religião. Apesar do PSI apresentar uma proposta válida para analisar a espiritualidade enquanto inteligência, sua inclinação fortemente religiosa sugere que a espiritualidade é avaliada como uma dimensão religiosa. Portanto, apesar de situado na psicologia do desenvolvimento por Schaeffer (2003), entende-se que o PSI é mais congruente com a psicologia da religião do que com a psicologia do desenvolvimento.
Outras duas medidas que abordam a espiritualidade como inteligência espiritual na psicologia do desenvolvimento são o Spiritual Intelligence Assessment Instrument (SQ21), de Wigglesworth (2012), e a Spiritual Intelligence Scale (SIS), de Nasel (2004). Contudo, por não possuírem tradução para o português, essas medidas não são discutidas neste estudo.
Dentro do contexto da psicologia do desenvolvimento, mas fora do escopo da inteligência espiritual, encontramos duas medidas de avaliação e mensuração da espiritualidade-religiosidade. A primeira é "Os Estágios da $\mathsf { F e } ^ { \prime \prime }$ de Fowler, que utiliza o termo teológico "fé" para definir a espiritualidade, acunhando uma visão compatível com a psicologia do desenvolvimento e a educação. Nessa perspectiva, a fé é entendida como uma condição inata a todos os seres humanos, universal e interativa, influenciada pelo modo como a criança é recebida no mundo e pelo ambiente em que cresce. A segunda medida é a Escala de Crenças Pós-Crítica (PCBS), na qual a espiritualidade está subjacente à religiosidade, especialmente na orientação e nos conteúdos religiosos. Ao possibilitar uma reflexão sobre a moral e a educação, a PCBS é discutida separadamente neste estudo.
Tanto "Os Estágios da Fé" quanto a PCBS são fortemente influenciados pela teoria do desenvolvimento moral de Kohlberg. James Fowler (1992) desenvolveu os "Estágios da Fé" inspirado na pesquisa cognitivo-desenvolvimental de Kohlberg sobre o desenvolvimento moral. De acordo com Bataglia (2020), a PCBS busca avaliar a relação entre religião e competência moral, investigando a influência da religiosidade na competência do juízo moral.
Kohlberg (1981) destaca que, no desenvolvimento moral, além do dever moral, há questões morais respondidas pela religiosidadeespiritual, como o sentido da vida, o propósito de ser moral, ser uma pessoa melhor e enfrentar o desespero existencial. Ele enfatiza o pensamento religioso como uma dimensão ontológica e psicológica da espiritualidade, relacionando a vida e a moralidade a um fundamento transcendente ou a um sentido abrangente. Ao expressar o pensamento religioso nas religiões, Kohlberg menciona o cristianismo e o judaísmo como exemplos que consideram a moralidade centrada no amor e na justiça, não apenas na adoração cultual.
## V. As Medidas No Contexto do Desenvolvimento Moral E Religioso
Não foram identificadas medidas que abordem ou avaliem diretamente a espiritualidade correlacionando-a com o desenvolvimento moral e a educação. Em outras palavras, a moral e a educação são frequentemente contextualizadas dentro de aspectos culturais, sociais e religiosos, refletindo-se nas orientações de valores religiosos. As medidas existentes foram predominantemente desenvolvidas nas áreas da psicologia da saúde, teologia ou religião. Dessa forma, observa-se um foco maior em temas como saúde, qualidade de vida, bem-estar, enfrentamento, impactos e conflitos religiosos, comportamento religioso, frequência e experiências de práticas religiosas, e conceitos de fé e religião. Há, portanto, uma carência de medidas na área da psicologia do desenvolvimento que avaliem e mensurem a espiritualidade em correlação com a moral e a educação.
Kohlberg (1981) argumenta que O desenvolvimento moral ocorre em um contexto mais amplo que inclui o aspecto da fé (espiritualidade) e destaca que a melhor maneira de abordar questões e teorias filosóficas e psicológicas sobre a fé e a moral é considerar suas implicações para a educação. Logo, a espiritualidade e a educação podem ser interligadas nos estudos e pesquisas da área do desenvolvimento moral.
Dentro do âmbito educacional, Kohlberg (1981) ressalta que o desenvolvimento religioso, associado ao desenvolvimento moral, não deve ser fundamentado de maneira fundamentalista religiosa, onde a moralidade é rigidamente definida ou fundamentada no Comando Divino revelado por textos religiosos. Ele argumenta contra uma abordagem educacional moral e religiosa que adota uma visão única e fundamentada religiosamente, como observado em algumas escolas confessionais ou com influência política-religiosa. Além disso, Kohlberg rejeita a associação da educação e desenvolvimento moral com teorias ateístas que consideram a moralidade e a religião como meras "ilusões".
Para Kohlberg, a educação e O desenvolvimento moral podem ser fundamentados na Lei Natural, que postula a existência de princípios universais de justiça, independentes de revelações ou fé religiosa específica, incluindo intuições psicológicas religiosas sobre a natureza e a realidade última (sentidos da vida). Essa perspectiva torna a espiritualidade universal. James Fowler (1992) desenvolveu os estágios da fé considerando a Lei Natural. Fowler relaciona a fé ao desenvolvimento humano, sendo algo inerente a todos os seres humanos e servindo como guia para valores morais, éticos e comportamento social.
Apesar de os estágios da fé de Fowler terem sido identificados nesta revisão de literatura como uma das duas medidas que se aproximam da espiritualidade e religiosidade para reflexão sobre moral e educação, eles não se dedicam especificamente à análise do desenvolvimento moral ou da inteligência. Fowler enfatiza aspectos da fé, como conceituação, distinção entre fé, crença e religião, dimensão relacional e imaginativa, e descreve seis estágios da fé, incluindo o estágio pré-fé. Contudo, sua abordagem é mais apropriada para a área da teologia e religião, uma vez que, sendo um pastor e teólogo, Fowler pode ter sido influenciado por fundamentos teológicos na elaboração dos estágios da fé.
Críticas às medidas de Fowler incluem a ampla definição de fé, a falta de distinção clara dos estágios morais, a utilização de fundamentos teológicos em detrimento de psicológicos e filosóficos, bem como desafios na aplicação prática e análise dos estágios. Apesar de Fowler ter desenvolvido um guia para entrevistas sobre o desenvolvimento da fé, a aplicação e análise dos estágios não são tarefas simples. Além disso, não foram encontrados estudos no Brasil que tenham utilizado os estágios da fé, indicando uma lacuna na pesquisa nacional.
Uma crítica adicional sugere que Fowler, inspirado nos estágios morais de Kohlberg, utliza o termo "fé" de forma ampla e não faz distinção clara entre os estágios morais, o que pode gerar confusões. Fowler argumenta que cada estágio moral, por si só, não é suficiente para responder à pergunta "Por que ser moral?", e que a fé, mesmo que tácita, é pressuposta em todas as decisões e ações morais. Kohlberg concorda que os estágios morais por si só não fornecem uma resposta suficiente à pergunta, mas discorda da abordagem ampla e não distinta da fé por Fowler. Isso, segundo Kohlberg, cria confusões que complicam a investigação empírica da relação entre religião e moralidade.
Kohlberg destaca que, embora existam correlações teóricas e empíricas entre seus estágios morais e os estágios de fé de Fowler, a concepção holística e ampla dos estágios da fé não se mostra eficaz para mensurar a dimensão da fé (espiritualidade) em relação à moralidade. Kohlberg argumenta que a principal função da religião não é fornecer prescrições morais, mas apoiar o julgamento moral e a ação como atividades humanas intencionais. Dessa forma, a religião seria uma resposta consciente à busca de um significado último para o julgamento e a ação moral.
Em resumo, embora Kohlberg e Fowler apontem para uma relação entre desenvolvimento religioso, espiritualidade, moral e educação, suas abordagens distintas e as críticas a cada uma evidenciam desafios na compreensão e mensuração desses fenômenos complexos e interligados.
## VI. A VALIDAÇÃO DAS MEDIDAS NO CONTEXTO BRASILEIRO: UMA REFLEXÃO SObRE A PCBs
A Post-Critical Belief Scale (PCBS), ou Escala de Crenças Pós-Crítica, foi concebida por Duriez, B., Soenens, B. & Hutsebaut, D., pesquisadores da Universidade de Lovaina, Bélgica, durante a década de 1990. O propósito fundamental da Post-Critical Belief Scale é elucidar a orientação religiosa do entrevistado. Por meio da PCBS, torna-se possível situar a dimensão religiosa em dois eixos distintos.
O primeiro eixo, de natureza vertical, representa a 'exclusão versus inclusão' do transcendente, permitindo diagnosticar o nível de religiosidade. Já o segundo eixo, de caráter horizontal, refere-se aos "conteúdos religiosos entre o modelo literal ou simbólico, indicando-se as expressões, representações e símbolos religiosos são interpretados literal ou simbolicamente" (MORAES, 2016, p. 86). A interseção desses dois eixos resulta em quatro quadrantes, cada um correlacionado a uma dimensão religiosa específica.
Na versão adaptada para a língua portuguesa por Bataglia (2020), o primeiro quadrante corresponde ao grupo dos Ortodoxos, o segundo quadrante engloba os de Crítica Externa, o terceiro quadrante abrange os Relativistas, enquanto o quarto quadrante é denominado Segunda Ingenuidade (MORAES, 2016, p. 86). Para uma melhor compreensão, podemos exemplificar:
- $1 ^ { \circ }$ Quadrante: Mesmo considerando que isso vá contra a racionalidade moderna, acredito que Maria era verdadeiramente uma virgem quando deu a luz a Jesus.
- $2 ^ { \circ }$ Quadrante: A fé é como um sonho já que os dois, quando diante da dureza da vida, são apenas ilusões.
- $3 ^ { \circ }$ Quadrante: Qualquer entendimento dos homens sobre Deus é determinado pela época vivida.
- $4 ^ { \circ }$ Quadrante: A Bíblia possui uma verdade profunda que somente pode ser revelada por meio da reflexão pessoal (FERREIRA, 2016, p.47).
Diante desse contexto, surgem quatro quadrantes na escala PCBS, representando a inclusão da transcendência de modo simbólico, a inclusão de modo literal, a negação de modo simbólico e a negação de modo literal. Assim, a PCBS procura abarcar os tipos de crenças (ou ausência delas), alinhando-se com o propósito deste estudo, que visa compreender os níveis de religiosidade ou espiritualidade.
Na adaptação da PCBS para o contexto brasileiro, consideraram-se alguns pontos, tais como: a) a predominância do cristianismo no Brasil, com $87\%$ da população identificando-se como cristã, sendo a maioria católica $( 64,4\% )$ e uma diversidade de grupos protestantes $( 22\% )$, espíritas e outras religiões $( 5\% )$; b) a crescente tendência ao secularismo, evidenciada pelos $8\%$ da população que se declara sem religião; c) a presença da laicidade, que fortalece o pluralismo religioso. Contudo, apesar desses dados semelhantes, observou-se discrepância nos resultados da validação da PCBS no Brasil.
Essa disparidade pode ser atribuída, em parte, às diferenças no fenômeno religioso e espiritual entre a Bélgica e o Brasil. No cenário brasileiro, o sincretismo religioso é mais pronunciado, com o catolicismo integrando-se a outras tradições religiosas afrodescendentes e à cultura indígena, influenciando a percepção do que é literal e simbólico no contexto religioso. Além disso, a diversidade de correntes cristãs no Brasil, como os protestantes, tradicionais, pentecostais, neo-pentecostais, católicos ortodoxos, apostólicos e carismáticos, contribui para distintas interpretações do que é literal ou simbólico.
Por outro lado, na Bélgica, a PCBS foi desenvolvida na década de 1990, e sua concepção pode ter sido influenciada por pesquisas sobre o fenômeno religioso da época. Embora não haja um censo oficial de religião na Bélgica, pesquisas indicam que, na década de 1990, cerca de $65\%$ da população se identificava como católica, mesmo considerando o aumento da laicidade. A posterior diminuição desse percentual, em parte devido a novos marcos legais em 2001, evidencia a transformação do panorama religioso na Bélgica.
Entre 1990 e 2018, tanto no Brasil quanto na Bélgica, observou-se uma diminuição do interesse na crença religiosa cristã tradicional. Esse declínio pode ser associado à modernidade, que trouxe uma discussão moral autônoma em relação à religião, reconfigurando o papel do aspecto religioso na sociedade. Na modernidade, a vivência religiosa tornase mais individual, influenciada pelo simbólico, pela linguagem, pela laicidade e pela busca por uma espiritualidade que vá além das tradições estabelecidas.
Em resumo, a adaptação da PCBS para o Brasil enfrentou desafios devido às diferenças culturais e religiosas, resultando em discrepâncias nos resultados de validação. Essas diferenças refletem as particularidades do fenômeno religioso em cada país, destacando a complexidade de compreender a espiritualidade em contextos diversos.
## VII. CONsIdErAÇÕeS FINaIs
Considera-se que a espiritualidade é um tema de significativo interesse para estudos e pesquisas voltados ao desenvolvimento moral e à educação. Embasando-se no sétimo estágio de Kohlberg, a religião é percebida como fenômeno que abrange regras e deveres, configurando a noção de religiosidade. Paralelamente, a dimensão psicológica da religião, concernente ao sentido da vida e à moralidade, é entendida como espiritualidade. Nesse contexto, é discernível que, em Kohlberg, duas noções distintas emergem acerca do fenômeno religioso: a religiosidade e a espiritualidade, embora interrelacionadas.
A revisão de literatura de Gerone e Bataglia (2020) ratifica essa distinção, apontando que, nas reconfigurações contemporâneas do fenômeno religioso, há uma ênfase preponderante na religiosidade. Dessa maneira, ressalta-se a importância de criar uma medida específica para avaliar a espiritualidade, separadamente da religiosidade, uma vez que tais conceitos, embora relacionados, são distintos no âmbito acadêmico e teórico. Esta abordagem permitirá uma compreensão mais precisa da influência da espiritualidade e religiosidade no desenvolvimento moral e na educação.
Ao abordar a espiritualidade, percebida como uma dimensão biopsicossocial e existencial, destaca-se sua contribuição para reflexões ético-morais, manifestando-se em comportamentos de solidariedade, altruísmo e justiça. Tal dimensão é identificada como fator propulsor da autonomia moral, autoconhecimento e capacidade de aprendizado. Por outro lado, a religiosidade é associada a normas, deveres, doutrinas e ensinamentos religiosos, inclinando-se mais à heteronomia moral.
Portanto, a proposição de uma medida exclusiva para a espiritualidade, desvinculada da religiosidade, torna-se essencial para a compreensão das nuances dessa influência sobre a autonomia moral. Sugerir uma correlação dessa medida com avaliações morais, como a Moral Judgment Interview (MJI) ou o Moral Competence Test (MCT), pode proporcionar uma compreensão mais aprofundada dessa interação. Kohlberg evidenciou a influência da espiritualidade nos estágios mais elevados da justiça e do sentido de vida, enquanto Lind observou que valores religiosos impactam argumentos morais.
Analisando as limitações de medidas existentes, como os Estágios da Fé e a PCBS, concluise que ambas não se revelam eficazes para a proposta de mensurar exclusivamente a espiritualidade. Os Estágios da Fé estão mais associados à teologia e religião, e sua aplicação é dificultada, enquanto a PCBS, concebida num contexto religioso cristão, não é eficaz para avaliar espiritualidade laica, além de apresentar uma terminologia teológica cristã predominante.
Considerando a construção da PCBS na Bélgica, onde a influência cristã era marcante na década de 1990, ressalta-se a necessidade de novas aplicações que contemplem os avanços de outras religiões e as mudanças nas vivências espirituais e religiosas modernas. Sugere-se a criação de uma versão da PCBS que se dedique exclusivamente à espiritualidade, evitando interferências de terminologia teológica cristã.
A dinâmica do fenômeno religioso no Brasil, com o aumento de evangélicos pentecostais e neopentecostais, adiciona uma camada adicional de complexidade. Assim, a construção de uma medida eficaz de espiritualidade requer um olhar crítico para as nuances culturais, sociais e morais, bem como a consideração de diferentes visões simbólicas e literais presentes nos distintos grupos religiosos.
Em síntese, a elaboração de uma medida de espiritualidade eficaz necessita ser cuidadosamente planejada, considerando-se a correlação com medidas morais existentes, embasamento teórico sólido, uma abordagem específica para a psicologia do desenvolvimento, consciência das limitações metodológicas, e uma postura universalista fundamentada na Lei Natural. Este empreendimento, orientado pelos princípios apresentados, poderá contribuir significativamente para a compreensão da relação entre espiritualidade, moralidade e educação.
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