This work is a theoretical-narrative review, and its objective was to point out the characteristics of Husserl’s Phenomenological Attitude and Rogers’ Facilitating Attitudes, proposing an approximation between the two concepts, verifying their influences in the construction of a psychotherapeutic attitude. The methodology used was a bibliographic review and the qualitative method. This approximation pointed out convergences between the two concepts, namely the refutation of the scientific model of psychology. Finally, we could reach the conclusion that the two concepts are not antagonistic and, in many moments, are close to each other, in a psychotherapeutic practice that addresses the psychotherapist’s posture, and, in this way, may imply in his ethics.
Atitude Fenomenológica representa a postura própria da fenomenologia husserliana, de Carl Rogers. Tal Atitude possibilitou a fundamentação de uma nova psicologia, a saber, a Psicologia Fenomenológica. Esta Psicologia é inaugurada por Edmund Husserl como "[...] a única possibilidade de uma psicologia autêntica", tal qual afirma Goto (2007, p. 185), e será uma alternativa à Psicologia Científica, uma psicologia objetivista, experimental, que ignora a subjetividade na sua busca de ser reconhecida como ciência. Holanda (2014, p. 46) afirma que "[.....] este
Dentre as principais abordagens que fazem forte oposição ao modelo de psicologia cientificista, está a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), na qual foi idealizada pelo psicólogo Carl Rogers; este, ao longo dos seus estudos, questiona os diversos conhecimentos fornecidos pela Psicologia Científica. Sobre as categorias psicopatológicas, por exemplo, Vieira e Freire (2012, p. 62) esclarecem-nos que, Rogers identificou essas categorias como peculiaridades das experiências de determinadas pessoas".
Rogers ainda estabeleceu algumas atitudes que podemos compreendê-las como alternativa às atitudes próprias do modelo de Psicologia Cientificista. Essas atitudes foram nomeadas por ele de Atitudes Facilitadoras. Tais atitudes implicam na postura do terapeuta de modo a estabelecer um novo modo de fazer psicoterapia, no qual se fundamenta na forma como o cliente, em relação ao terapeuta, comunica-se consigo e com o mesmo, tal qual afirma Vieira e Freire (2012, p. 7); nessa relação "fluida", terapeuta e cliente se apropriam de suas experiências. Esta relação tal como na fenomenologia, possui fundamental importância na constituição de uma psicologia genuína.
No entanto, a possibilidade da psicoterapia rogeriana, a ACP, ser ou não uma Psicologia Fenomenológica, isto é, ser fundamentada na fenomenologia descrita por Husserl, é muito discutível. Holanda (2014, p. 101), por exemplo, entende que a psicoterapia de Carl Rogers é um caminho que tem como direção a fenomenologia, partindo do entendimento da clínica psicoterápica como um processo e um lugar de troca de experiências entre terapeuta e cliente. Já Moreira (2007, p. 106), afirma que, "[....] a psicologia de Rogers não avança em uma direção fenomenológica por ter a pessoa como centro".
aproximá-los, na possibilidade de um diálogo, assim como suas possíveis contribuições na postura do psicoterapeuta e os desdobramentos dessa postura na clínica fenomenológica. O desenvolvimento se deu na busca da compreensão daquilo que fundamenta uma postura/atitude fenomenológica do psicoterapeuta por meio de uma releitura autores/pesquisadores da área de psicologia.
Para a investigação de tais objetivos, foi realizada uma pesquisa teórica à luz de Barros e Lehfeld (2000), uma vez que há pretensão de promover a discussão de conceitos da fenomenologia e da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), que impli cam na postura do psicoterapeuta na clínica e, consequentemente, na relação tera pêutica. Para tais autores, esse tipo de pesquisa visa um aprofundamento em deter minado assunto, promovendo uma discussão com a finalidade de tornar claro ou mesmo problematizar determinado conhecimento, sem a necessidade de desenvolver uma pesquisa de campo ou mesmo uma coleta de dados.
Para discorrer sobre a Fenomenologia de Husserl foram utilizadas, como fontes principais, a obra do próprio autor A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia e, também, a tese de doutorado A (re)constituição da psicologia fenomenológica em Ed mund Husserl, de Tommy Akira Goto.
Para discorrer sobre Carls Rogers foram utilizadas como fontes principais, as obras do próprio autor Tornar-se Pessoa, Um jeito de ser e Sobre o Poder Pessoal, e a tese de doutorado Ética e Psicologia: Uma Investigação sobre o Ethoi da Terapia Centrada na Pessoa, de Emanuel Meireles Vieira. Para as discussões, além do Tor nar-se Pessoa, foram utilizados os comentadores Adriano Holanda com seu livro Fe nomenologia e Humanismo: Reflexões Necessárias, e Roberto Novaes de Sá, com o seu livro Para além da técnica: Psicoterapia, Atenção e Cuidado, pelo fato de serem os nomes que mais surgiram no resultado da pesquisa à qual aplicamos.
## II. Caminho MetodolÓgico
Por se tratar de uma pesquisa teórica, a metodologia escolhida foi a revisão bibliográfica, visto que, conforme Gil (2002), é uma metodologia que vai focar em um material já publicado, valendo-se de livros e artigos científicos a respeito do tema es colhido. A análise escolhida foi a qualitativa, por não se tratar de uma representativi dade numérica, mas sim a compreensão do material estudado.
Foi realizada também uma ampla revisão bibliográfica em materiais publicados, como livros, artigos de revistas impressas ou eletrônicas, além de dissertações e teses já publicadas. Sites especializados em estudos científicos como o SciELO - Scientific Electronic Library Online e PePSiC - Periódicos
Eletrônicos em Psicologias, foram usados como ferramentas de pesquisa.
Na busca de obter as informações desejadas, os critérios de escolha das pu blicações nos periódicos supracitados foram publicações em língua portuguesa e com os descritores: Fenomenologia; Atitude Fenomenológica; Psicologia e; Atitudes Faci litadoras. Os critérios de exclusão adotados foram: artigos em línguas estrangeiras e artigos em português com mais de 15 anos publicados. Com exceção para dois artigos por considerar relevante o seu conteúdo, são eles: a tese de doutorado A (re)consti tuição da psicologia fenomenológica em Edmund Husserl, de Tommy Akira Goto.
## III. DESENVOLVImENTo
A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) é o avanço das pesquisas e dos es tudos desenvolvidos por Carl Rogers sobre a "relação com o outro", ou seja, existiram várias outras etapas, e cada uma recebeu um nome específico durante essa trajetória, tendo base na evolução do foco teórico em cada fase de seu trabalho. Holanda 1998 (apud MOREIRA 2010, p. 538) aponta três fases que dizem respeito à psicoterapia, a saber: "a) Fase Não-Diretiva;
b) Fase Reflexiva;
c) Fase Experiencial e; também aponta uma última fase, que diz respeito à ACP, nomeada como Fase Coletiva ou Inter-Humana".
A primeira fase psicoterápica é a Fase Não-Diretiva (1940-1950), compreende o terapeuta como um conselheiro, que era justamente o trabalho que Rogers realizava com crianças tidas como indisciplinadas. Nesta perspectiva psicoterápica, Rogers de fende que o terapeuta deve agir com certa permissividade e com pouquíssimas inter venções, tendo em vista que a pessoa possui recursos próprios para adquirir autono mia de sua vida, sua autocompreensão; daí o caráter de uma psicoterapia não-dire tiva. É nesse contexto que nasce o conceito de "Tendência Atualizante", que estará presente nos estudos de Rogers durante toda sua obra tal qual afirma Moreira (2010, p. 538).
Este conceito supracitado diz respeito a uma condição presente a todos os se res humanos, cujo organismo está sempre direcionado a uma regulação positiva, ou seja, um impulso individual para o crescimento e para a saúde. Ela também se carac teriza por ser espontânea, um movimento natural e sempre na direção das potenciali dades da pessoa, um processo de constante criação. Ainda sobre essa psicoterapia não-diretiva, apresenta-se como uma alternativa às perspectivas psicoterápicas domi nantes naquela época, à medida que prioriza aspectos emocionais em detrimento dos aspectos intelectuais. "Prioriza o presente do cliente em detrimento do seu passado, estabelecendo a importância da experiência na relação terapêutica", segundo aborda Moreira (2010, p. 538).
Nesta perspectiva, Rogers entende que o terapeuta (chamado de conselheiro) deve renunciar/ rejeitar a concepção do "profissional expert" e, consequentemente, concebendo o cliente (chamado de paciente) como digno de confiança para dirigir o processo psicoterápico na direção de sua autonomia.
Moreira (201o) destaca que essa Fase Não-Diretiva sofreu diversas críticas, principalmente na França, no que diz respeito à conduta do terapeuta que não fala/in tervém durante a sessão. Contudo, Rogers buscava tirar o terapeuta do centro da relação psicoterápica, tal qual ocorria na perspectiva clássica médica-psiquiátrica, isto é, um primeiro esforço para desconstruir a figura de autoridade do terapeuta, enfati zando pessoa/cliente e não a doença do cliente/ paciente. De todo modo, anos mais tarde, o próprio Carl Rogers optou por não utilizar mais o termo Não-Diretivo.
A segunda fase referente à psicoterapia, a Fase Reflexiva (1950-1957), é ca racterizada pela ação centrada no cliente, isto é, a concepção de Não-Diretividade deixaria de ser papel central. Nessa fase, o terapeuta passará a ter um papel mais ativo no qual estabelecerá condições propícias para que o processo de desenvolvi mento do cliente possa ocorrer. Moreira (2010, p. 532) fala da teoria desenvolvida por Carl Rogers no livro Psicoterapia Centrada no Cliente, "[...] para ajudar o cliente nesse processo de desenvolvimento. Essa teoria trata das Atitudes Facilitadoras sendo ne cessário o terapeuta utilizar-se delas para estabelecer um ambiente terapêutico des provido de ameaças que impossibilitem o desenvolvimento do cliente".
Nessa perspectiva, o terapeuta promove três condições facilitadoras para que a relação terapêutica possa ser benéfica, são elas: a) Empatia;
b) Aceitação Positiva Incondicional e;
c) Congruência. De acordo com Moreira (2010, p. 539) "[...] através da empatia, o psicoterapeuta busca perceber e compreender o mundo do cliente na perspectiva dele", ou seja, o terapeuta não visa explicar ou interpretar o cliente, mas sim compreender os significados apreendidos pelo cliente, na perspectiva do cliente.
Sobre a aceitação Positiva Incondicional, Moreira (2010, p. 539) fala do "[...] respeito incondicional do terapeuta à individualidade do cliente", isto é, um respeitar a particularidade e diferença do cliente de modo que não haja espaço para julgamentos de aprovação ou reprovação. Por fim, Moreira (2010, p. 535) prossegue ao discorrer da Congruência que seria o mesmo que Autenticidade, ou seja, o "[..] terapeuta sendo ele mesmo na relação com o cliente", em outras palavras, uma postura de transpa rência, em que este se apresenta sem "máscaras" na relação terapêutica.
Na terceira fase referente à psicoterapia, a Fase Experiencial (1957-1970) ini cia-se na publicação do célebre Tornar-se Pessoa. Nessa fase, Rogers vai destacar o papel relevante da experiência na psicoterapia. A experiência vivida do cliente, do terapeuta e de ambos na relação, sendo assim, passa a ser o "pilar" da psicoterapia. Ao passo em que Rogers (1987, p. 30) afirma: "A tendência das relações reais está mais para se modificarem do que para se manterem estáticas". Ele também afirma sobre o caráter dinâmico da experiência e o significado que ela passa a ter, ou seja, experiência como "suprema autoridade", uma vez que o próprio Rogers (1987, p. 35) a identifica como "autoridade primária".
Neste sentido, a relação terapêutica é concebida como um encontro existencial entre terapeuta e cliente, conforme afirma Moreira (2010, p. 540), sendo "[.] a expe riência considerada responsável pelo processo de mudança do cliente". Nesta fase, Rogers dá mais ênfase à congruência no sentido de que, quanto mais autêntico o terapeuta conseguir ser na relação com o cliente, maior será a possibilidade da modi ficação da personalidade do cliente.
Tal conceito de autenticidade deve ser entendido, conforme afirma Moreira (2010, p. 540) como um "[..] estar presente na experiência da relação terapêutica". Ela também enfatiza que esse momento da prática clínica rogeriana é o que mais se aproxima das abordagens de tradição fenomenológica, por focar uma relação inter subjetiva. No entanto, a autora também afirma - com base em suas pesquisas que na fase seguinte, essa aproximação não existirá mais, impossibilitando assim a reali zação dessa psicoterapia numa perspectiva fenomenológica.
A última fase que diz respeito à ACP é chamada de Fase Coletiva ou Inter Humana (1970- 1987). "É na obra Sobre o Poder Pessoal que Rogers nomeia como Abordagem Centrada na Pessoa", tal qual afirma Moreira (2010, p. 541), mudando a sua concepção de psicoterapia individual para uma abordagem, na qual Rogers pas sará a se preocupar com questões do mundo, ou - como afirma Meireles (2017, p. 37) - um pensamento onde há um aprofundamento das preocupações sociais. O pró prio Rogers (1986, p. 148) organizou um workshop indicando suas pretensões "[.] uma abordagem das relações humanas e do desenvolvimento humano, que reco nheça que o potencial para aprender e o poder de agir se encontram dentro da pessoa ao invés de um tratamento com um especialista que trate de um ou de uma cliente, ou ainda de um sistema controlador dele ou dela".
Nesta fase, o autor vai além da tendência à autorrealização. Rogers (2012, p. 50) assevera da Tendência Formativa do nosso universo que se evidência em todos os níveis. "Trata-se de uma tendência que permeia toda a vida orgânica que para ele - deu origem ao universo". Rogers qualifica assim esta Abordagem Centrada na Pessoa - fundamentada nessa Tendência Formativa - com o modo de ser que cami nha em direção à vida e, que também, valida/ confirma a mesma. Foi um grande feito de Rogers colocar a psicologia em um ambiente que era exclusivo da psiquiatria e da psicanálise, seguindo mais longe ainda quando aquilo que seria apenas uma proposta de psicoterapia se transformou como abordagem.
Edmund Husserl questiona todo o saber exposto pelas Ciências da Natureza fundamentado pela Atitude Natural. Ele afirma:
Nestas também se incluem as ciências do espírito, a história, as ciências que estudam as civilizações, as disciplinas sociológicas de toda e qualquer espé cie, no que podemos deixar provisoriamente em aberto se devem ser equiparadas ou contrapostas as Ciências da Natureza, se elas mesmas de vem ser tidas como Ciências da Natureza ou como um tipo essencialmente novo de ciência (2006, p. 2).
No entanto, ele não pretende ignorar o conhecimento das Ciências Naturais, ou mesmo, conforme afirma Goto (20017, p. 43), "[.....] substituir a psicologia, a lógica ou a epistemologia no geral [...]". Na verdade, há a pretensão em fundamentar, como dito anteriormente, uma teoria das teorias e, assim, resolver de vez a questão da fun damentação da teoria do conhecimento. Sobre o conhecimento protagonizado pelas Ciências da Natureza, Husserl (2006, p. 146) discorre:
Todo empenho metodológico se prende ao já dado, todo aprimoramento do método, a um método já existente; tratase de, no geral, de mero desenvolvi mento de métodos especiais, que se adaptam já prefixado e estável de uma metodologia científica verificada e seguem esse estilo em suas descobertas.
Para que possa ser possível superar essa abordagem acrítica sobre o conhe cimento, é necessária uma mudança de Atitude, ou seja, uma passagem da Atitude Natural para a Atitude Fenomenológica que proporciona um novo olhar para o mundo, isto é, uma postura crítica de se posicionar diante do conhecimento. A Fenomenologia será "[.] o fundamento do conhecimento que permitirá a Psicologia fenomenológica", tal qual afirma Goto (2007, p. 44), e essa Psicologia, como manifestação da subjetivi dade evidenciada na fenomenologia husserliana, será a possibilidade de exposição do conhecimento crítico e não ingênuo/científico-natural.
A Fenomenologia, com a atitude que Ihe é própria - isto é - a Atitude Fenome nológica, proporciona o acesso à subjetividade que, segundo a Psicologia (Fenome nológica), recuperará o sentido da experiência fundante/existência primária. Neste sentido, Porta (2013, p. 13) afirma que "[..] só é possível uma autêntica psicologia através da Fenomenologia Transcendental e, por meio desta, ou seja, é na
Fenome nologia Transcendental que a Psicologia Fenomenológica irá se realizar".
Husserl apresenta O mundo-da-vida (Lebenswelt), que visa a recuperação da experiência originária, isso significa dizer: a experiência humana pura, o mundo pré científico e, por isso, livre de todo julgamento. Para Goto (2007, p. 124), "[...] o mundo da-vida é o mundo da experiência fundante, direta e imediata; está sempre dado; é o mundo onde vivemos". Tal mundo está fora do alcance do conhecimento objetivo científico; e este mundo é acessado através da percepção após esta ser descoberta pela redução, ou seja, a Psicologia Fenomenológica, como aquela que buscará a ex periência primária, será única, capaz de esclarecer as estruturas no âmbito das rela ções cotidianas e apontar o horizonte dessas relações.
Antes de começarmos a discorrer sobre a possibilidade de aproximação da Ati tude Fenomenológica com as Atitudes Facilitadoras, é preciso esclarecer aqui que, em nenhum momento de sua obra, Rogers cita Husserl ou mesmo insinua algum con tato com qualquer publicação que seja acerca do tema Fenomenologia. O interesse em fomentar o diálogo nessa perspectiva entre esses dois autores parte exclusiva mente dos autores deste artigo. Dito isto, vamos ao que realmente interessa.
Os estudos de Carl Rogers sobre as características de uma relação de ajuda - onde também está incluída a relação terapêutica apontam uma postura a ser tomada pelo terapeuta que, no âmbito da clínica, podemos compreendê-la como uma Ati tude/Postura Psicoterápica. Neste sentido, Sá (2017), seguindo uma fenomenologia na perspectiva heideggeriana, propõe uma aproximação entre a Atitude Psicoterápica e a Atitude Fenomenológica, a fim de mostrar - em seus estudos - a passagem de uma atitude ingênua para uma atitude crítica em diferentes práticas psicoterápicas. Entretanto, Holanda (2014, p 95), seguindo uma fenomenologia na perspectiva hus serliana, apresenta uma concepção parecida com a de Sá, quando afirma que "[.] é na forma de Postura/Atitude Fenomenológica que a Fenomenologia deve ser compre endida na psicoterapia, isto é, uma prática clínica".
Dito isto, talvez nenhum outro teórico da Psicologia além de Carl Rogers con tribuiu tanto com estudos para uma fundamentação de uma psicoterapia; e, nesse sentido, os estudos desenvolvidos pelo psicólogo norte-americano parecem apontar para o mesmo horizonte da Atitude Fenomenológica exposta por Husserl em sua Epo chè, e, partindo do entendimento que o terapeuta deve ir ao encontro do seu cliente, Rogers, no seu livro "Tornar-se Pessoa", aponta algumas atitudes facilitadoras que cabem ao terapeuta em sua postura psicoterápica/prática clínica, a fim de atuar de forma que o processo de crescimento do cliente seja beneficiado.
A primeira Atitude Facilitadora destacada por Rogers diz respeito a uma atitude de congruência com o entendimento de que a experiência da vivência se comporta conforme a consciência do próprio terapeuta acerca dessa mesma experiência, isto é, uma afirmação do seu próprio modo de ser, mas para isso a segunda Atitude Facilita dora, apresentada por Rogers, trata da capacidade de expressão dessa congruência. Rogers afirma (1987, p. 55): "Quando assumo uma atitude de irritação para com outra pessoa e não tomo consciência dela, a minha comunicação passa encerrar mensa gens contraditórias". Vemos aqui a importância da percepção da própria experiência no sentido de uma postura acrítica, havendo uma necessidade de uma Atitude Feno menológica que proporcionará o acesso ao mundo-da-vida, que até então permanence esquecido devido ao conhecimento científico-natural ou mesmo senso comum.
Mais adiante, Rogers afirma (1987, p. 55): "[...] posso formar uma relação de ajuda comigo mesmo se puder estar afetivamente consciente dos meus próprios sentimentos e aceitá-los [.]". Acerca disso, podemos inferir daqui que as duas Atitu des Facilitadoras supracitadas parecem seguir a mesma direção da Atitude Fenome nológica se nós tomarmos o sentido desta última em desvelando esse mundo (esque cido) de experiência na busca em ter acesso à experiência fundante.
A terceira Atitude Facilitadora trata de uma Atitude Positiva que para funda mentá-la, Rogers apresenta uma outra atitude que ele chamou de atitude profissional. Esta atitude, na concepção de Rogers, serviria para manter a distância entre terapeuta e cliente. Podemos inferir aqui a ideia ortodoxa de postura clínica herdada pelo modelo médico, um modelo que fixa/determina o papel do médico/terapeuta e do paciente/cli ente. Um modelo onde "[..] a pessoa é encarada como objeto [...]", conforme afirma o próprio Rogers (1987, p. 56). Neste sentido, percebe-se a ausência de uma relação pessoa a pessoa em detrimento de uma relação de hierarquia, cujo terapeuta, deten tor do conhecimento e da verdade científico-natural, submete o cliente/paciente a complexas formulações de diagnósticos. Neste mesmo sentido, Holanda (2014, p. 96) distingue Atitude Fenomenológica de Atitude Fenomenista esclarecendo que esta úl tima diz respeito a postura do psicoterapeuta que enquadra determinadas emo ções/fenômenos em "arcabouços teóricos", dando prioridade a comprovação de de terminada tese em detrimento da compreensão do fenômeno. Partindo disso, pode mos pensar a Atitude Positiva no âmbito da relação indicada no munda-da-vida (Le benswelt), tal qual afirma Goto (2007, p. 202), "[...] antes de termos quaisquer relações profissionais, nós já estamos aí com os outros, inseridos em uma comunidade inter subjetiva humana".
Holanda (2014, p. 97) ainda nos esclarece que um dos sentidos da Atitude Fe nomenológica na clínica e concebida na postura do psicoterapeuta implica em uma consideração do outro (cliente) como um sujeito ativo e concreto, ou seja, não um objeto ou simplesmente um doente que espera uma intervenção por parte do tera peuta. O autor ainda destaca a qualidade da relação (pessoa a pessoa), dando ênfase à experiência e não ao produto desta experiência. A Atitude Positiva exposta por Carl Rogers, portanto, parece estar próxima da prática clínica (Atitude Fenomenológica) descrita por Holanda (2014, p. 96) quando este afirma ser "[...] o cliente o mais prepa rado para interpretar sua própria realidade".
A quarta, a quinta e a sexta Atitudes Facilitadoras apresentadas por Rogers, dizem respeito ao mesmo tema, a saber, a compreensão empática. O psicólogo norte americano levanta questionamentos a respeito da capacidade do terapeuta em man ter-se independente em relação ao cliente, da capacidade do terapeuta em permitir a independência do cliente de modo este a apresentar-se como sendo o que é e, por fim, a capacidade do terapeuta em se colocar no lugar do cliente de modo a não "es magar" os sentimentos deste último, isto é, a necessidade de compreender, aceitar e permitir a experiência do cliente sem julgá-lo.
Holanda (2014, p. 95) discorre da Postura Fenomenológica/Prática Clínica como compreensiva na medida em que a experiência do outro (cliente) é exclusiva deste, e menciona a teoria de campo proposta por Lewin, que indica a impossibilidade da troca de posição entre os campos fenomenológicos. Neste sentido, o autor aponta somente essa possibilidade (compreensiva) no âmbito da relação terapêutica, cujo terapeuta auxiliaria o cliente e este seria o único capaz de apontar seu próprio cami-nho.
Rogers conclui sua reflexão afirmando que quando ele (terapeuta) compreende o sentido da experiência do cliente, certamente a relação de ajuda é bem mais signi ficativa. Relembrando aqui que a perspectiva compreensiva representa um contra ponto à perspectiva explicativa; podemos inferir que esta Atitude Facilitadora parece compartilhar do mesmo propósito da Prática Clínica.
A sétima Atitude Facilitadora fala da necessidade de uma Atitude de Aceitação Incondicional acerca dos vários aspectos característicos do cliente, mas no sentido de que esta aceitação só poderá acontecer caso o terapeuta busque, primeiramente, o seu próprio crescimento. Rogers fala da necessidade do terapeuta em identificar tudo que possa causar medo, insegurança no terapeuta no que diz respeito aos sentimen tos do cliente. Segundo ele, esse movimento de insegurança implica em uma "aceita ção condicional", e que impede o crescimento do cliente.
A oitava Atitude Facilitadora apresentada por Rogers precede a questão ante rior. O autor discorre sobre ações do terapeuta que podem ser percebidas pelo cliente como ameaçadoras e, assim, prejudicar o seu desenvolvimento. Nesse sentido, o au tor recorre mais uma vez - a sua experiência na tentativa de identificar tudo que o contribui para essa "aceitação condicional".
Em outras palavras, é justamente recorrendo a sua própria experiência que o terapeuta consegue identificar nele tudo que possivelmente possa ter contribuído para uma incapacidade de aceitação do cliente. Esse movimento do psicólogo norte-ame ricano, voltando-se para a própria experiência, remete-nos mais uma vez à máxima da Atitude Fenomenológica no sentido de que esta indica buscar na própria experiên cia a verdade apodítica.
Sá (2017, p. 34), quando discorre da Atitude Clínica/Postura Psicoterápica,afirma a necessidade do terapeuta em experienciar a si mesmo como abertura de sentido para suspender as formas de objetivações do cliente". Esta afirmação pa rece fazer o mesmo percurso da afirmação de Rogers (1987, p. 58), quando conclui seu pensamento dizendo que: "Para poder prestar uma maior ajuda é necessário que me desenvolva a mim mesmo e aceite esses sentimentos assim mesmo".
Outra Atitude Facilitadora apresentada por Rogers, a nona, é a atitude de não julgamento. O autor discorre sobre os juízos de valores que estão presentes na nossa vida desde a infância até a velhice. Embora ele reconheça a importância de tais valo res na manutenção de determinadas instituições, ele problematiza mais uma vez com base em sua própria experiência, os juízos de valores no sentido de que provavel mente eles inibem uma relação de crescimento. Acerca disso Rogers afirma:
Deste modo cheguei à conclusão de que quanto mais conseguir manter uma relação livre de qualquer juízo de valor, mais isso permitirá a outra pessoa atingir um ponto em que ela própria reconhecerá que o lugar do julgamento, o centro da responsabilidade, reside dentro de si mesma. O sentido e o valor da sua experiência é algo que depende em última análise dela e nenhum juízo de valor externo os pode alterar (ROGERS, 1987, p. 59).
Neste sentido, a Atitude Fenomenológica parece apontar, também, para o mesmo caminho da dita Atitude Facilitadora, no sentido de que expõe, de acordo com Holanda (2014, p. 97), "[...] a concepção da psicoterapia como um processo, afirma que essa psicoterapia diz respeito a relação de sentido/ significados trazidos pelo cli ente e não pelo terapeuta", e ainda caracteriza essa Postura Psicoterápica como uma escuta ativa e uma observação atenta, visando o aparecimento do fenômeno do outro (cliente), cabendo ao terapeuta não julgar positivo ou negativamente as "expressões sintomáticas do cliente".
A décima Atitude Facilitadora é a atitude de confirmação do cliente no sentido de reconhecer, perceber o cliente como um ser em movimento, contudo, Rogers 1987, p. 59) afirma: "Se aceito a outra pessoa como alguma coisa definida, já diag nosticada e classificada, já cristalizada pelo seu passado, estou assim contribuindo para confirmar essa hipótese limitada". Portanto, para que essa percepção do cliente como um ser em movimento torne-se possível, é necessário que as verdades pré estabelecidas, as coisas dadas, o fato em si, ambos característicos da Atitude Natural, sejam "negados" para que o cliente e suas possibilidades de criação/ desenvolvi mento/ transformação sejam confirmadas. Holanda (2014, p. 96) usa o termo "[.] aber tura para designar o terapeuta como aberto à totalidade do cliente", isto é, suas pos sibilidades de transformação, e, neste sentido, o terapeuta poderá responder à de manda do cliente ou como na expressão adotada por Carl Rogers, confirmar o cliente. Juntamente com essa abertura, Holanda ainda destaca a responsabilidade do tera peuta em atender a demanda do cliente na clínica, seguindo a mesma perspectiva de Rogers quando este expõe essas atitudes facilitadoras como necessárias para o es tabelecimento de um ambiente terapêutico sem ameaças, e que possibilite o cresci mento de tal cliente.
Carl Rogers conclui que a capacidade do terapeuta em aplicar as Atitudes Facilitadoras que, consequentemente, criam uma relação de ajuda que contribui no crescimento do cliente como pessoa, é medida pelo próprio desenvolvimento que o terapeuta atingiu. E este cliente é capaz de caminhar na direção do seu próprio desenvolvimento com base no ambiente favorável caracterizado na relação supracitada. Da mesma forma, Holanda (2014, p. 97), "[.] elucida a Atitude Fenomenológica numa Prática Clínica que valoriza e prioriza o encontro terapeuta cliente numa relação intersubjetiva no aqui-e-agora, em que o cliente presentifica-se". Neste sentido, podemos perceber mais uma vez que ambos percorrem o mesmo ideal de psicoterapia, que sejam essenciais à boa compreensão do texto.
## IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo das discussões buscamos expor as similaridades entre as Atitudes Facilitadoras e a Atitude Fenomenológica, não sendo possível confirmar se estas fun damentam aquelas; de todo modo, não indica que não possa haver uma aproximação entre ambas. Isso não implicou a necessidade de uma substituição de um conceito pelo outro, nem tampouco negar esse conceito por aquele.
Pudemos observar que, em determinados momentos, a Atitude Fenomenoló gica parece caminhar lado a lado com as Atitudes Facilitadoras como se fossem con ceitos "irmãos"; o movimento crítico que Rogers faz a respeito de seus conhecimentos teóricos e afetivos, adquiridos no cotidiano de prática clínica para fundamentar suas condições facilitadoras é, basicamente, o mesmo que os comentadores brasileiros descreveram a respeito da fundamentação de uma Atitude Psicoterápica de perspec tiva fenomenológica, isto é, Rogers recorrendo à sua experiência, critica boa parte do conhecimento intelectual ao qual ele teve contato para poder constituir uma nova ma neira de fazer psicoterapia. Da mesma forma, Holanda e Sá descrevem um movimento parecido quando aproximam a Atitude Fenomenológica de uma Atitude Psicoterá pica/Prática Clínica.
Outro momento em que podemos perceber essa similaridade é quando Rogers expõe a relação terapêutica numa relação pessoa a pessoa num processo em que o terapeuta estando aberto a sua experiência, o cliente também poderá abrir-se à sua própria experiência de forma que a relação de ajuda possa se caracterizar; da mesma forma em que Holanda aborda uma relação intersubjetiva e que o terapeuta é conce bido como um facilitador da emergência do ser do seu cliente.
Mesmo que ainda haja controvérsias, se a ACP é ou não fenomenológica, pode-se inferir que a Psicologia Fenomenológica oriunda da Atitude Fenomenológica - fundamentando ou não a psicoterapia rogeriana - aponta um norte no qual o psicó logo norte-americano desenvolve suas Atitudes Facilitadoras, isto é, o ato reflexivo de Rogers em direção aos conhecimentos previamente dominados por ele resultou numa posição crítica a respeito de uma clínica psicoterápica tradicional (objetivista), no sen tido de confrontar o conhecimento científico-natural e do senso comum, e o levou a fundamentar uma psicologia alternativa a esses modelos que tem a experiência, a autoridade suprema, ou numa leitura fenomenológica, a evidência apodítica.
Um exemplo prático da afirmação supracitada é quando lembramos que Rogers teve que problematizar a ponto de suspender suas pesquisas, seus estudos e os co nhecimentos adquiridos em sua vivência no cotidiano para poder estabelecer as Ati tudes Facilitadoras e todas elas tiveram que passar pelo crivo de sua própria experi ência; e é o que podemos perceber também em todo seu percurso teórico, isto é, a ACP parece caminhar com a fenomenologia no sentido de uma fundamentação ina cabada.
Podemos concluir com base nas afirmações dos comentadores que ambos os conceitos implicam a postura do terapeuta de modo a fundamentar uma psicoterapia que caminha em direção a uma relação terapeuta-cliente e ateorética, podendo impli car numa ética do terapeuta em que este reconhece a autonomia do cliente.
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References
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How to Cite This Article
Marcel Pereira Pordeus. 2026. \u201cCharacterization of the Phenomenological Attitude and Facilitating Attitude between Husserl and Rogers\u201d. Global Journal of Human-Social Science - A: Arts & Humanities GJHSS-A Volume 23 (GJHSS Volume 23 Issue A8): .
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This work is a theoretical-narrative review, and its objective was to point out the characteristics of Husserl’s Phenomenological Attitude and Rogers’ Facilitating Attitudes, proposing an approximation between the two concepts, verifying their influences in the construction of a psychotherapeutic attitude. The methodology used was a bibliographic review and the qualitative method. This approximation pointed out convergences between the two concepts, namely the refutation of the scientific model of psychology. Finally, we could reach the conclusion that the two concepts are not antagonistic and, in many moments, are close to each other, in a psychotherapeutic practice that addresses the psychotherapist’s posture, and, in this way, may imply in his ethics.
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