- conjunto da produΓ§Γ£o literΓ‘ria do escritor e mΓ©dico Moacyr Scliar (1937-2011) figuram mais de setenta livros de gΓͺneros diferenciados, tais como romances, ensaios, crΓ΄nicas, ficΓ§Γ΅es infantojuvenis e contos. O escritor gaΓΊcho teve suas obras publicadas em mais de vinte paΓses e foi reconhecido quatro vezes com o "PrΓͺmio Jabuti", pelas obras: O olho enigmΓ‘tico (1986), categoria Contos; Sonhos tropicais (1992), categoria Romance; A mulher que escreveu a BΓblia (1999), categoria Romance; e Manual da paixΓ£o solitΓ‘ria (2008), categoria Romance, tambΓ©m escolhida obra de FicΓ§Γ£o do Ano. O escritor colaborou por dΓ©cadas como cronista em vΓ‘rios Γ³rgΓ£os da imprensa no paΓs, como a Folha de SΓ£o Paulo e o Jornal Zero Hora (RS), e foi membro da Academia Brasileira de Letras a partir de 2003.
e o Estado do Rio Grande do Sul. Isso foi pontuado por Regina Zilberman (2009), que dΓ‘ o nome a essa fase de suas publicaΓ§Γ΅es, entre 1972 e 1977, de "os romances de Porto Alegre", entre os quais se destacam Os mistΓ©rios de Porto Alegre (cujo tΓtulo alude a Os mistΓ©rios de Paris, de Eugene Sue, e a MistΓ©rios de Lisboa, de Castelo Branco), livro constituΓdo de contos e crΓ΄nicas, de 1975, e O ciclo das Γ‘guas, de 1977, reconhecido com o segundo lugar no PrΓͺmio Γrico VerΓssimo de Romance. O segundo perΓodo dessa cronologia literΓ‘ria atribuΓda Γ sua obra dΓ‘-se pelo predomΓnio temΓ‘tico na interface judaΓsmo-Brasil, abarcando obras como O centauro no jardim (1980), A estranha naΓ§Γ£o de Rafael Mendes (1983) e Cenas da vida minΓΊscula (1991), publicadas entre 1980 e 1991. O terceiro perΓodo abrange A mulher que escreveu a BΓblia (1999), Os vendilhΓ΅es do Templo (2006) e Manual da paixΓ£o solitΓ‘ria (2008), e se caracteriza por "privilegiar personagens sugeridas pela leitura da BΓblia hebraica" (Ibidem, p. 116).
Na sua maneira de produzir, muitas vezes num sΓ³ ano o autor publica obras de gΓͺneros diferenciados. Isso se nota em 1984, ano em que, alΓ©m do livro de crΓ΄nicas A massagista japonesa, Scliar lanΓ§a literatura infanto-juvenil (MemΓ³rias de um aprendiz de escritor) e as antologias Dez contos escolhidos e Os melhores contos de Moacyr Scliar. Em 1995 e em 2001, o mesmo fenΓ΄meno Γ© percebido: no primeiro, foram editadas as crΓ΄nicas do DicionΓ‘rio do viajante insΓ³lito e os infantojuvenis Um sonho do caroΓ§o do abacate e IntroduΓ§Γ£o Γ prΓ‘tica amorosa; em 2001, verifica-se a publicaΓ§Γ£o das crΓ΄nicas de O imaginΓ‘rio cotidiano junto ao infantojuvenil Ataque do comando P. Q. Nota-se, tambΓ©m nos casos assinalados, que a atuaΓ§Γ£o do Scliar cronista ocorre de forma contΓnua e paralela Γ publicaΓ§Γ£o de obras nos demais gΓͺneros literΓ‘rios.
Com relaΓ§Γ£o Γ s crΓ΄nicas, ele as escreveu por aproximadamente quarenta anos: publicou as primeiras no inΓcio dos anos 1970. Dos diversos gΓͺneros a que se debruΓ§ou, a crΓ΄nica de jornal esteve presente em sua trajetΓ³ria do comeΓ§o ao final, sendo, inclusive, "os ΓΊltimos textos que o autor legou a seus leitores" (ZILBERMAN, 2012, p. 9), no inΓcio de 2011. A atenΓ§Γ£o neste artigo recai justamente sobre esse nicho da produΓ§Γ£o do escritor, as crΓ΄nicas, e entre elas as crΓ΄nicas mΓ©dicas, no que poderia entender-se como manifestaΓ§Γ£o de sua experiΓͺncia de vida em sua literatura, visto que Scliar formou-se em medicina, em 1962, e doutorou-se em SaΓΊde PΓΊblica com a tese Da BΓblia Γ psicanΓ‘lise: saΓΊde, doenΓ§a e medicina na cultura judaica. Com relaΓ§Γ£o Γ repercussΓ£o da atuaΓ§Γ£o na medicina em sua literatura, pode-se considerar que tenha dado os primeiros passos de seu percurso literΓ‘rio ainda em tempos de faculdade, visto que, na seΓ§Γ£o "Sobre o autor" do livro DicionΓ‘rio do viajante insΓ³lito, lΓͺ-se que "ao ingressar na faculdade de medicina, [Scliar] comeΓ§ou a escrever para o jornal Bisturi" (SCLIAR, 2011, p. 133).
Do universo de suas crΓ΄nicas, selecionam-se aquelas com temas ligados Γ medicina, a partir das quais se analisa a recorrΓͺncia da menΓ§Γ£o ao cinema nessa parte da produΓ§Γ£o do autor. Expandindo a recorrente proposta de que o escritor fez uso de suas vivΓͺncias (Szklo, 1990; Waldman, 2003; Zilberman, 2009) e de assuntos de interesse para compor suas obras a cidade e o bairro onde cresceu, o judaΓsmo, a imigraΓ§Γ£o, a atuaΓ§Γ£o como mΓ©dico e a formaΓ§Γ£o em saΓΊde pΓΊblica - destaca-se que, como aspecto importante na segunda metade do sΓ©culo XX no paΓs, as mΓdias, e entre elas o cinema, sΓ£o alvo da atenΓ§Γ£o do escritor, aparecendo nas crΓ΄nicas mΓ©dicas como recurso composicional, no intertexto estabelecido com obras fΓlmicas (Gomes, 2009) E Como ReferΓͺncia IntermidiΓ‘tica (Rajewsky, 2012).
Identifica-se que o escritor recorre ao cinema como motivo e recurso composicional e de ambientaΓ§Γ£o, tomando-o como parte da paisagem cultural da cidade e da sociedade de seu tempo, como algo a ser considerado como parte da cena e da vida de todos os dias com a qual tece suas crΓ΄nicas. A sua proximidade das mΓdias eletrΓ΄nicas e da cultura popular e midiΓ‘tica se manifesta, tambΓ©m, no fato de escrever para jornal, ademais de trazer o cinema como motivo em sua obra.
Quanto Γ combinaΓ§Γ£o de elementos temΓ‘ticos, ou seja, do que se manifesta em sua obra como seleΓ§Γ£o (incluir e excluir) e hierarquia (no sentido de ser mais ou menos central na composiΓ§Γ£o) de certos elementos da realidade e da experiΓͺncia social, interessa explorar se a vivΓͺncia do escritor como mΓ©dico se expressa em sua obra, e sobre a intersecΓ§Γ£o que estabelece dos temas ligados Γ saΓΊde com a menΓ§Γ£o ao cinema. Observa-se que Scliar valeu-se de seus conhecimentos mΓ©dicos como material para as suas criaΓ§Γ΅es literΓ‘rias, o que se verifica, por exemplo, no fato de o escritor gaΓΊcho ser autor de 21 obras com temΓ‘tica mΓ©dica. Por essa trajetΓ³ria, diz-se que Scliar estΓ‘ inscrito numa linhagem de mΓ©dicos-escritores, como Pedro Nava (1903-1984) e GuimarΓ£es Rosa (1908-1967). No que tange especificamente Γ s crΓ΄nicas, essa temΓ‘tica aparece esparsa em seus livros, Γ© tema recorrente de muitas das suas
Na elaboraΓ§Γ£o desse artigo, as maiores dificuldades encontradas na etapa de procura, uma vez que nem todas as crΓ΄nicas de Scliar estΓ£o publicadas em livros. Devido a isso, foi necessΓ‘ria uma minuciosa pesquisa na Internet para encontrar as demais crΓ΄nicas, tendo em vista que a grande maioria das suas crΓ΄nicas foram escritas durante o perΓodo que ele trabalhou nos jornais Zero Hora e Folha de SΓ£o Paulo. Ou seja, das muitas crΓ΄nicas publicadas nesses jornais, ainda hΓ‘ aquelas que ainda nΓ£o foram compiladas em livros. Por isso, foram desenvolvidas pesquisas constantes no site do autor e na Internet de um modo geral a fim de se reunir todos os textos nos quais o autor menciona a enfermeira Florence Nightingale.
# a) A
No ensaio Cronista e leitor, Zilberman afirma que a crΓ΄nica Γ© um gΓͺnero de difΓcil demarcaΓ§Γ£o, pois pode tratar de fatos contemporΓ’neos, narrar tanto histΓ³rias verΓdicas como imaginΓ‘rias, relembrar pessoas e acontecimentos, realizar comentΓ‘rios sobre literatura ou outras expressΓ΅es culturais. Por sua lΓ³gica de produΓ§Γ£o e de consumo, a crΓ΄nica, assim como o folhetim, Γ© constitutivamente um gΓͺnero poroso Γ atualidade (MartΓn Barbero, 1987), ou tem porosidade de assuntos, segundo Granja (2015). A sua primeira acepΓ§Γ£o, explica Fischer (2004), derivava do latim chronica - relato, histΓ³ria escrita ou narrativa de fatos dispostos em ordem cronolΓ³gica -, mas o termo migrou desde o domΓnio do relato histΓ³rico para o literΓ‘rio, e logo depois passou a ser utilizado na literatura em um gΓͺnero especΓfico ligado ao jornalismo.
Dentre os escritores das crΓ΄nicas modernas estΓ‘ Moacyr Scliar, considerado um dos maiores cronistas brasileiros, escrevia regularmente em jornais de circulaΓ§Γ£o regional e nacional. O escritor foi um defensor da crΓ΄nica na literatura brasileira, considerando-a um gΓͺnero literΓ‘rio importante; seu uso, contudo, era mais ou menos imediato, diferente da ficΓ§Γ£o (romance), gΓͺnero no qual uma boa ideia pode ficar amadurecendo por anos (FISCHER, 2004, p. 7-17). Parte de suas crΓ΄nicas foram inspiradas em matΓ©rias de jornais. Em seu processo de criaΓ§Γ£o, dizia precisar de um elemento desencadeante e, nesse processo, a notΓcia de jornal cumpria esse papel, dizia Scliar:
[...] pode ser um episΓ³dio histΓ³rico, uma pessoa que conheci, uma histΓ³ria que me contaram, uma notΓcia de jornal. DaΓ em diante Γ© uma incΓ³gnita. Sou muito rΓ‘pido escrevendo para jornal, mas quando se trata de uma ficΓ§Γ£o mais longa Γ© diferente; aΓ perΓodos de rapidez se alternam com outros de muita lentidΓ£o, resultante de dΓΊvidas que vΓ£o desde a questΓ£o do foco narrativo atΓ© a incerteza quanto Γ validade do projeto \[...\](Zilberman, 2009, p. 118).
O trecho Γ© referente a uma entrevista concedida pelo escritor em 2009, quando hΓ‘ dΓ©cadas escrevia e publicava em jornais. TambΓ©m em sua autobiografia, intitulada O texto, ou: a vida: uma trajetΓ³ria literΓ‘ria, fala sobre seu processo de criaΓ§Γ£o e sobre as diferentes rotinas criativas relativas Γ elaboraΓ§Γ£o (i) de crΓ΄nicas para serem publicadas por jornais e (ii de romances, concebidos para serem lidos em livros.
Γ uma experiΓͺncia no mΓnimo curiosa passar da pΓ‘gina do livro para a pΓ‘gina do jornal. Sim, em ambos os casos tratase de texto impresso, destinado a um pΓΊblico, mas as diferenΓ§as sΓ£o grandes, e histΓ³ricas. [.] Os escritores escreviam para a eternidade; os jornalistas estavam presos aos assuntos do momento, nem sempre agradΓ‘veis. [...] Os escritores podiam fazer pesquisas formais, mesmo que estas resultassem em textos obscuros; os jornalistas tinham, e tΓͺm, a obrigaΓ§Γ£o da clareza. (SCLIAR, 2007a, p. 237-238).
O fragmento acima dialoga com parte do que Scliar menciona na entrevista intitulada Falar com Deus? SΓ³ se for com ligaΓ§Γ£o a cobrar, na qual esclarece que nΓ£o se considera jornalista, mas sim um colaborador de jornal que abomina ouvir gente que deprecia o jornalismo. Ele afirma: "[.....] o meu convΓvio com o jornalismo foi contΓnuo. Aprendi, em primeiro lugar, a fazer um texto enxuto. Aprendi a ir direto ao ponto, entregar o texto na hora", alΓ©m de precisar escrever "com muita antecedΓͺncia por causa dos problemas de ilustraΓ§Γ£o". Relacionando essas consideraΓ§Γ΅es Γ explanaΓ§Γ£o acerca do embate entre o livro e o jornal, Scliar pondera que no paΓs "surgiu um gΓͺnero que se tornou o elo de ligaΓ§Γ£o entre literatura e o espaΓ§o jornalΓstico: a crΓ΄nica". No jornal, a crΓ΄nica Γ© "um respiradouro, uma brecha na massa nΓ£o raro sufocante de notΓcias" (Scliar, 2007a, p. 239).
Este trabalho vale-se do depoimento de Scliar nΓ£o como intento de, como afirma Iser (2013) em O fictΓcio e o imaginΓ‘rio, indagar sobre a psique do autor para desvendar suas intenΓ§Γ΅es. Tal como sustenta Iser (2013, p. 37), entende-se que seja "provΓ‘vel que a intenΓ§Γ£o nΓ£o se revele nem na psique nem na consciΓͺncia, mas que possa ser abordada apenas atravΓ©s das qualidades de manifestaΓ§Γ£o que se evidenciam na seletividade do texto face a seus sistemas contextuais". Aqui o testemunho de Scliar Γ© entendido, de tal forma, como elemento transtextual, no sentido de Genette (2006), como forma estendida de paratextualidade ou metatextualidade, que acrescenta e desdobra aspectos de seus processos de criaΓ§Γ£o, e repercute em sua fortuna crΓtica.
Em termos de publicaΓ§Γ΅es, a atuaΓ§Γ£o de Scliar como cronista comeΓ§a em 1984, ano em que Γ© lanΓ§ada a primeira ediΓ§Γ£o de A massagista japonesa, seguida, em 1989, por Um paΓs chamado infΓ’ncia. Em 1995, vem Γ lume as crΓ΄nicas do DicionΓ‘rio do viajante insΓ³lito, que recebeu o PrΓͺmio AΓ§orianos, e um ano depois chega Γ s livrarias Minha mΓ£e nΓ£o dorme enquanto eu nΓ£o chegar. Em 2001, edita O imaginΓ‘rio cotidiano, tambΓ©m laureado com o PrΓͺmio AΓ§orianos, e neste mesmo ano publica A lΓngua de trΓͺs pontas: crΓ΄nicas e citaΓ§Γ΅es sobre a arte de falar mal e A face oculta: inusitadas e reveladoras histΓ³rias da medicina. Em 2004, trabalhando num projeto da Editora Global, Fischer seleciona textos para o livro Moacyr Scliar, expondo essa vertente do escritor para a ColeΓ§Γ£o Melhores CrΓ΄nicas. Em 2005 lanΓ§a O Olhar MΓ©dico, em 2009, HistΓ³rias que os jornais nΓ£o contam. Com a morte do autor, em 2011, as publicaΓ§Γ΅es passam a ser pΓ³stumas, e Zilberman seleciona crΓ΄nicas para as seguintes compilaΓ§Γ΅es: A poesia das coisas simples (2012) e TerritΓ³rio da emoΓ§Γ£o: crΓ΄nicas de medicina e saΓΊde, A banda na garagem (2014) e A nossa frΓ‘gil condiΓ§Γ£o humana (2017). Desses, apenas TerritΓ³rio da emoΓ§Γ£o, A face oculta e o Olhar mΓ©dico reΓΊnem crΓ΄nicas mΓ©dicas no todo, enquanto os livros de 2012 e de 2014 trazem algumas crΓ΄nicas mΓ©dicas esparsas entre textos de outro enfoque.
Por cerca de 40 anos, do inΓcio dos anos 70 a 2011, Moacyr Scliar publicou crΓ΄nicas regularmente no jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. Publicou nos cadernos Vida e Donna, na coluna A Cena MΓ©dica, mantendo uma coluna semanal no caderno de NotΓcias. Os temas, como sugerem as variadas editorias e suplementos onde publicava, eram diversos, abarcando desde questΓ΅es de saΓΊde, vida familiar, passando tambΓ©m por assuntos cotidianos da cidade e do estado, reservados principalmente Γ coluna das terΓ§asfeiras, na pΓ‘gina 2 do jornal. Sobre sua participaΓ§Γ£o para o Caderno Vida do Jornal Zero Hora, ele afirmou tratar-se de um trabalho importante, porque Γ© uma forma de escrever sobre Medicina de maneira mais humanista. JΓ‘ no jornal Folha de SΓ£o Paulo, Scliar escreveu a partir de 1993, na seΓ§Γ£o Cotidiano, com crΓ΄nicas inspiradas em notΓcias de jornais, sendo que algumas delas sΓ£o crΓ΄nicas mΓ©dicas. Atuou como cronista, ainda, no Correio Braziliense, do Distrito Federal, de 2006 a 2011, escrevendo para o caderno DiversΓ£o e arte.
Examinando as crΓ΄nicas de Scliar publicadas na Folha de SΓ£o Paulo, Lealis GuimarΓ£es (1999, p. 161) toma como corpus de anΓ‘lise cinco crΓ΄nicas e aponta que, nelas, "o humor Γ© inerente Γ criaΓ§Γ£o literΓ‘ria, manifestando-se atravΓ©s do procedimento parΓ³dico", que se combina, em seu efeito estΓ©tico, Γ exploraΓ§Γ£o de "assuntos insΓ³litos, ou constrangedores, do cotidiano veiculado pela notΓcia, para promover efeitos tragicΓ΄micos". Com respeito Γ leitura, com suas crΓ΄nicas passa-se "ao mundo do imaginΓ‘rio e, nesse transporte do real para o fictΓcio, [...] que funciona como crΓtica Γ s ordens e valores predeterminados". Do corpus analisado por GuimarΓ£es (1999), o ΓΊnico texto que se enquadra no perfil de crΓ΄nica mΓ©dica Γ© "Consultando no posto de saΓΊde fantasma", elaborada a partir de uma notΓcia desanimadora sobre o sistema de saΓΊde, na qual nota-se um "humor crΓtico diante do fato noticiado" (GUIMARΓES, 1999, p. 121-122).
O imaginΓ‘rio cotidiano, Moacyr Scliar (ColeΓ§Γ£o Melhores CrΓ΄nicas), HistΓ³rias que os jornais nΓ£o contam e A banda na garagem tΓͺm em comum reunirem crΓ΄nicas inspiradas em notΓcias de jornal. Esses livros apresentam a seguinte disposiΓ§Γ£o: logo apΓ³s o tΓtulo da crΓ΄nica, Γ© apresentada a notΓcia que serve de inspiraΓ§Γ£o e, em seguida, vem o texto de Scliar. Algumas das crΓ΄nicas desses livros apresentam temΓ‘ticas relacionadas Γ Medicina, que sΓ£o compostas de personagens em situaΓ§Γ΅es nas quais se reportam superficialmente aspectos da Medicina. Desses textos, pode-se mencionar "Ele (ex-ela) e ela (ex-ele)", cujo narrador cria uma histΓ³ria sobre as dificuldades de adaptaΓ§Γ£o vivenciadas por um casal que muda de sexo. Esse texto integra Moacyr Scliar (2004, p. 215- 216), "uma reuniΓ£o de crΓ΄nicas que o destacam no gΓͺnero com maior nitidez" (HANCiAU, 2012, p. 118). Sobre a pertinΓͺncia de classificΓ‘-los como crΓ΄nicas, os textos inspirados em manchetes de jornais, no entender de Zilberman (2012, p. 16), devem ser assim considerados, pois "crΓ΄nicas sΓ£o tambΓ©m narrativas de eventos efetivamente ocorridos ou imaginΓ‘rios". Para Scliar, porΓ©m, por serem ficcionais, esses textos nΓ£o seriam crΓ΄nicas. Em entrevista concedida a Fischer, o escritor comenta sobre os limites entre crΓ΄nica e outros gΓͺneros:
[..] acho, sim, que os limites da crΓ΄nica sΓ£o claros. CrΓ΄nica nΓ£o Γ© conto: Γ© um comentΓ‘rio sobre a realidade, portanto exclui ficΓ§Γ£o (ainda que, na Folha de SΓ£o Paulo, eu escreva um texto ficcional baseado em notΓcias de jornal. Mas eu nΓ£o o chamo de crΓ΄nica. Nem de conto. Γ uma espΓ©cie de crΓ΄nica ficcionalizada). CrΓ΄nica nΓ£o Γ© um gΓͺnero tΓ£o erudito quanto o ensaio. CrΓ΄nica nΓ£o Γ© tΓ£o factual quanto o artigo (sobre polΓtica, por exemplo). (SCLIAR apud FISCHER, 2011, p. 102).
O DicionΓ‘rio do viajante insΓ³lito reΓΊne uma coletΓ’nea de crΓ΄nicas inspiradas em viagens de Scliar, e contΓ©m apenas um texto no qual hΓ‘ referΓͺncia Γ medicina: "G de Gueixa", cujo personagem sonha em se deitar com uma gueixa. Seu chefe o convida para uma viagem ao JapΓ£o e, em seu quarto de hotel, ele "solicita" uma gueixa. A visitante Γ© velha e cega, ele tenta se desvencilhar dela e machuca a coluna, necessitando assim ceder aos cuidados da gueixa, que era, de fato, apenas massagista (SCLIAR, 2011, p. 35- 38). Publicada em 1996, Minha mΓ£e nΓ£o dorme enquanto eu nΓ£o chegar Γ© outra obra que dispΓ΅e uma ΓΊnica crΓ΄nica sobre saΓΊde. Intitulada "PietΓ‘", que narra o sofrimento do escritor com a perda de sua mΓ£e, acometida por um cΓ’ncer, e de sua impotΓͺncia, como mΓ©dico, perante a situaΓ§Γ£o (SCLIAR, 1996, p. 44-46).
Em A massagista japonesa, hΓ‘ textos que remetem a questΓ΅es relacionadas Γ saΓΊde. A narrativa que intitula o livro Γ©, com ligeiras modificaΓ§Γ΅es, a mesma de "G de Gueixa", de o DicionΓ‘rio do viajante insΓ³lito. HΓ‘ outros textos nos quais sΓ£o contadas histΓ³rias entremeadas de resquΓcios de conselhos mΓ©dicos, como "Ponte de safena", "A um bebΓͺ com cΓ³licas", "Data certa", "DecisΓ£o", "O homem que corria" (SCLIAR, 1984, p. 23-24, 53-54, 75-78, 107-109). A lΓngua de trΓͺs pontas: crΓ΄nicas e citaΓ§Γ΅es sobre a arte de falar mal (2001) dispΓ΅e um capΓtulo intitulado "Falando mal da medicina", no qual Scliar apresenta um histΓ³rico da evoluΓ§Γ£o da medicina, seguido das citaΓ§Γ΅es que coligiu relacionadas Γ desconfianΓ§a nutrida por muitos sobre a atuaΓ§Γ£o dos mΓ©dicos (SCLIAR, 2001, p. 54-66).
Observam-se, em suas crΓ΄nicas mΓ©dicas, como no dizer de Iser (2013, p. 37), as "qualidades de manifestaΓ§Γ£o que se evidenciam na seletividade do texto face a seus sistemas contextuais", identificando que a prΓ‘tica mΓ©dica serviu de mote para sua literatura. Sobre a presenΓ§a dessa prΓ‘tica em suas obras, Hanciau (2012, p. 114) afirma que "o texto exato, objetivo e cortante, Scliar certamente herdou dos prontuΓ‘rios mΓ©dicos, que escreveu ao longo da vida e que, embora frios, trazem implΓcitas todas as dores do mundo. Os anos de Medicina ensinaram a diagnosticar a insondΓ‘vel criaΓ§Γ£o literΓ‘ria".
Na trajetΓ³ria literΓ‘ria de Scliar, as crΓ΄nicas nΓ£o sΓ£o secundΓ‘rias. A inserΓ§Γ£o do escritor na imprensa Γ© notΓ³ria, tanto que Zilberman (2017, p. 5) observa que "alΓ©m de duradoura, a participaΓ§Γ£o de Scliar no jornalismo gaΓΊcho, em especial em Zero Hora, foi intensa, resultando em mais de 5 mil crΓ΄nicas". Antes do Zero Hora, escreve para o jornal universitΓ‘rio Bisturi, quando cursava Medicina, e, desde 1984, publica suas crΓ΄nicas tambΓ©m em livro. Ao todo, foram 37 anos de produΓ§Γ£o contΓnua no gΓͺnero, e em parte dessa produΓ§Γ£o se verifica a sistemΓ‘tica tematizaΓ§Γ£o da medicina e o intertexto com o cinema na composiΓ§Γ£o dos textos, muitas vezes de forma associada. Combinadas Γ s trΓͺs fases temΓ‘ticas atribuΓdas Γ sua literatura - a cidade de Porto Alegre, a interface judaΓsmo-Brasil e a releitura de personagens bΓblicas -, neste trabalho se propΓ΅e que, no tocante Γ s crΓ΄nicas, hΓ‘ outros dois temas significativos que marcam sua obra, as crΓ΄nicas mΓ©dicas: o tema da saΓΊde e da prΓ‘tica da medicina, por um lado, e o intertexto com filmes e a produΓ§Γ£o cinematogrΓ‘fica, por outro.
### b) Moacyr Scliar e a inserΓ§Γ£o das mulheres nas ciΓͺncias da saΓΊde
Em sua escritura, Moacyr Scliar demonstrou preocupaΓ§Γ£o nΓ£o somente com a saΓΊde das mulheres como tambΓ©m com a inserΓ§Γ£o delas nas ciΓͺncias da saΓΊde. Uma crΓ΄nica que exemplifica ambas as tendΓͺncias Γ© "A mulher e sua saΓΊde". Publicada originalmente em 08/03/2003 e compilada em TerritΓ³rio da emoΓ§Γ£o, nesse texto o escritor gaΓΊcho relembra um pouco do preconceito corrente acerca do elemento feminino no consultΓ³rio mΓ©dico, evidenciado pelo ditado "mulher podia adoecer mas nΓ£o podia curar". Scliar pondera que "atΓ© o sΓ©culo XIX, a profissΓ£o mΓ©dica estava praticamente vedada ao sexo feminino" ao ponto de uma mulher se passar por homem para poder cursar a faculdade de Medicina: James Barry "chamava a atenΓ§Γ£o por seu tipo fΓsico delicado, e que era descobriu-se quando de sua morte uma mulher (foi enterrado como homem, para evitar o escΓ’ndalo" (SCLIAR, 2013, p. 68). Nessa mesma crΓ΄nica, Scliar rememora parte da trajetΓ³ria das trΓͺs primeiras mulheres a se graduarem em Medicina no Brasil. Uma delas - a gaΓΊcha Ermelinda Lopes de Vasconcelos - recebeu o diploma em 1888 e foi vΓtima do machismo do historiador SΓlvio Romero, o qual publicou uma crΓ΄nica afirmando que jamais permitiria que sua esposa gestante fosse atendida por uma "machona". "Tempos depois, Ermelinda fez o parto da mulher de Romero. Uma boa resposta para o machista. Que a esta altura nΓ£o se atreveria a escrever desaforos" jΓ‘ que "as moΓ§as representam a metade dos mΓ©dicos formados no Brasil" (SCLIAR, 2013, p. 68).
Na crΓ΄nica "A mulher por trΓ‘s do DNA", Moacyr Scliar discorre uma sobre reflexΓ£o baseada no 08 de marΓ§o, Dia Internacional da Mulher, data anual escolhida para (re)lembrar a histΓ³ria das mulheres. Para destacar essa data tΓ£o importante, a luta da mulher para conquistar o lugar que quiser em sua vida profissional, o cronista destaca a difΓcil missΓ£o de ser mulher por meio da vida de Rosalind Elsie Franklin. Assim como muitas outras mulheres, ela teve de enfrentar uma sociedade extremamente patriarcal para realizar um projeto de vida.
Rosalind Franklin nasceu aos 25 de marΓ§o de 1920, era de uma famΓlia judia tradicional da Inglaterra. Desde muito cedo demonstrava gosto pela ciΓͺncia, mas o pai nΓ£o a apoiava, dizia ser uma carreira masculina, preferia que a filha fizesse assistΓͺncia social, e mesmo tendo condiΓ§Γ΅es de financiar os estudos dela, nΓ£o o fez, uma tia da jovem acabou proporcionando isso a ela.
HΓ‘ uma imagem estereotipada de que apenas os homens tΓͺm inteligΓͺncia cientΓfica e/ou dominam o desenvolvimento dessa Γ‘rea do conhecimento humano. O problema Γ© que, na maioria das vezes, como aconteceu com Rosalind Franklin, as meninas nΓ£o recebem incentivos de seus familiares e, por muitas vezes, nem a escola as motivava Γ carreira de cientista.
Rosalind Franklin graduou-se em Medicina, fez doutorado pela Universidade de Cambridge, trabalhou nas mudanΓ§as estruturais do carbono, estudou difraΓ§Γ£o de raios X, com o domΓnio no uso do raio X, iniciou o estudo de "uma das mais importantes descobertas cientΓficas da HistΓ³ria: a estrutura do DNA, o Γ‘cido desoxirribonucleico, substΓ’ncia responsΓ‘vel pela transmissΓ£o dos caracteres hereditΓ‘rios" (SCLIAR, 2012, p. 159).
Franklin desenvolveu esse estudo ao lado de Maurice Wilkins em Londres, no King's College, o maior, mais antigo e prestigiado colΓ©gio, fundado em 1829. Por lΓ‘ havia menos de 25 mulheres trabalhando, o local era anglicano, em 1953, o curso mais importante era o de Teologia, o seu refeitΓ³rio possuΓa duas partes, uma mista e outra exclusiva para homens. Por ser judia e mulher, Rosalind Franklin teve difΓcil aceitaΓ§Γ£o no lugar.
Moacyr Scliar, em sua crΓ΄nica, descreve a cientista como uma figura polΓͺmica e traumΓ‘tica, pois alΓ©m dos preconceitos vivenciados, teve de disputar seu trabalho com outros trΓͺs cientistas, o prΓ³prio "colega" Maurice Wilkins e os estudiosos Francis Crick e James Watson que desenvolviam os estudos paralelos na Universidade de Cambridge.
Usando raios X para estudar o DNA - as radiografias que fez eram obras-primas, pela precisΓ£o e tambΓ©m pela beleza - levantou hipΓ³tese de que a molΓ©cula teria a forma de uma hΓ©lice, mas nΓ£o quis adiantar nada sem provas mais concretas. Isso levou a uma briga com Wilkins, que decidiu mostrar os resultados de Franklin a Watson - sem consentimento de Rosy. "Meu coraΓ§Γ£o bateu mais forte quando vi as radiografias", disse Watson. As imagens foram uma revelaΓ§Γ£o. A partir daΓ ele e Crick aceleraram as pesquisas, e chegaram ao resultado que foi imediatamente reconhecido e que os consagrou. (SCLIAR, 2012, p. 160)
Um dos eventos mais importantes da HistΓ³ria cientΓfica foi apresentado pela primeira vez em 1953 na revista Nature, a estrutura do DNA. O trabalho empΓrico de Rosalind Franklin, que alcanΓ§ou nΓveis de excelΓͺncia na Γ©poca, nΓ£o teve o devido reconhecimento, ficando Γ margem da HistΓ³ria por muito tempo. Franklin acabou desistindo desse estudo, deixando o triunfo para os colegas. Estes ainda receberam o prΓͺmio Nobel de Medicina e Fisiologia pela pesquisa no ano de 1962.
Infelizmente, Rosalind Franklin nΓ£o pΓ΄de entrar na briga para disputar a premiaΓ§Γ£o, pois faleceu em 16 de abril de 1958, aos 38 anos de idade, vΓtima de um cΓ’ncer no ovΓ‘rio, doenΓ§a ocasionada pela consequΓͺncia de seu trabalho, ela ficava muito exposta Γ s radiaΓ§Γ΅es.
Moacyr Scliar se aproxima do desfecho de sua crΓ΄nica esperanΓ§oso sobre o lugar da mulher na Γ‘rea da ciΓͺncia, pois Rosalind Franklin vem ganhando destaque em estudos cientΓficos, sua histΓ³ria estΓ‘ sendo contada em livros e em filmes, mesmo com um nΓΊmero pequeno de mulheres cientistas, sempre surgem nomes de destaque, comprovando que o ramo cientΓfico nΓ£o Γ© sΓ³ para o homem, mas a mulher Γ© muito capaz de atingir resultados inesperados, "a vocaΓ§Γ£o para a ciΓͺncia nΓ£o estΓ‘ unicamente no DNA masculino" (SCLIAR, 2012, p. 161). Esta Γ© a liΓ§Γ£o deixada por Scliar: as mulheres precisam ser libertadas dos estereΓ³tipos, precisam ser incentivadas desde pequenas para as suas verdadeiras vocaΓ§Γ΅es. No prΓ³ximo segmento deste artigo, serΓ‘ demonstrado como Scliar relembra a trajetΓ³ria de Florence Nightingale, a pioneira da Enfermagem Moderna.
### c)Florence Nightingale nas crΓ΄nicas de Moacyr Scliar
Foi realizada uma pesquisa minuciosa nas crΓ΄nicas publicadas por Scliar e foi encontrada apenas uma na qual o escritor rememora a trajetΓ³ria de Florence Nightingale. Nesse sentido, no mesmo intuito de destacar a figura feminina na Γ‘rea da ciΓͺncia/saΓΊde, uma Γ‘rea que conhecia de perto, Moacyr Scliar escreveu a crΓ΄nica "Uma estranha, e admirΓ‘vel, mulher". O texto foi publicado pela primeira vez no jornal Zero Hora de Porto Alegre em 29 de agosto de 2010. Somente depois foi reunido com outras crΓ΄nicas do autor no livro A poesia das coisas simples (2012). A anΓ‘lise desta crΓ΄nica comeΓ§a pelo tΓtulo, este jΓ‘ chama atenΓ§Γ£o pelo uso da vΓrgula ao isolar os adjetivos. O destaque Γ© dado ao termo "estranha", cai numa suavidade com o termo "admirΓ‘vel" e recai na estranheza por isolar o substantivo "mulher" no final do tΓtulo.
Esse texto de tΓtulo chamativo trata justamente de uma figura feminina intrigante, a histΓ³ria da pioneira da enfermagem moderna - Florence Nightingale. Esta nasceu em 12 de maio de 1820, recebeu o nome inglΓͺs da cidade onde nasceu, FlorenΓ§a, na ItΓ‘lia. De famΓlia abastada, Florence viajava bastante, os pais eram tradicionais e religiosos, caracterΓsticas que jΓ‘ premeditavam o destino da garota, "Florence estava destinada a receber uma boa educaΓ§Γ£o, a casar com um cavalheiro de fina estirpe, a cuidar da casa e da famΓlia" (SCLIAR, 2012, p. 194).
O destino previsto para Nightingale era o mesmo que, para a maioria das mulheres que viveram no sΓ©culo XIX, segundo Dubby e Perrot (1991), sofriam com uma sociedade bastante machista e controladora. As mulheres estavam condicionadas apenas ao papel de genitoras, nΓ£o tinham o direito de pensar, agir, muito menos revolucionar. No quesito religiΓ£o, a mulher era vista como um modelo de fΓ© e perseveranΓ§a, algo pleno e sublime. A fΓ© feminina se demonstrava em comportamentos especΓficos, como a sentimentalidade e a obediΓͺncia ao cΓ΄njuge.
Eggert e Pereira (2019), no texto Freiras e religiosas - as mulheres consagradas, afirmam que obedecer a Deus significa seguir Maria como exemplo, e nΓ£o Eva. Pois a primeira representa submissΓ£o, santidade, modelo para todas as mulheres. JΓ‘ a segunda Γ© o contrΓ‘rio disso, pois Γ© sedutora, persuasiva e pulsante, tudo o que a sociedade patriarcal nΓ£o deseja, jΓ‘ que a insubmissΓ£o significa uma ameaΓ§a Γ s famΓlias. Eva Γ© pecadora, e Maria a redentora dos pecados.
Mesmo no contexto descrito, algumas mulheres comeΓ§aram a discursar de maneira mais expressiva, pedindo igualdade entre os sexos, surgiram tambΓ©m nesse perΓodo alguns movimentos feministas, requerendo mudanΓ§as sociais e politic as. "Mas logo ficou claro que a menina nΓ£o se conformaria com esse modelo. Era diferente, gostava de matemΓ‘tica, e era o que queria estudar" (SCLIAR, 2012, p. 194). EntΓ£o, Florence Nightingale negou a frustraΓ§Γ£o para a qual estava predestinada.
Esse feminismo praticado por parte das mulheres, inclusive por Nightingale, mesmo que involuntariamente, Γ© conhecido por feminismo liberal, segundo Carneiro (2019), pois defende a igualdade entre os gΓͺneros, igualdade de educaΓ§Γ£o, salΓ‘rio e oportunidade, representa a porta de entrada para as mulheres na vida profissional e acadΓͺmica.
Com apenas dezesseis anos de idade, Florence Nightingale escreveu em seu diΓ‘rio sobre sua vocaΓ§Γ£o, nΓ£o estava destinada Γ vida comum, tinha um chamado de Deus, este chamado seria servi-lo. Mas o servir a Deus para ela estava longe de ser como no sentido descrito acima, para a moΓ§a significava cuidar do prΓ³ximo, dos enfermos, mais especificamente dos que estavam hospitalizados. Assim, dedica sua vida para a enfermagem.
Os pais da garota nΓ£o viam com bons olhos a missΓ£o da filha, apesar de ser uma atividade considerada feminina, primeiro, porque as pessoas dessa Γ‘rea da saΓΊde eram rotuladas como de uma classe social inferior e possuΓam uma vida desregrada. Outro motivo seria as condiΓ§Γ΅es dos hospitais: eram perigosos para contraΓ§Γ£o de doenΓ§as e sΓ³ atendiam pobres.
Naquela Γ©poca, os hospitais curavam tΓ£o pouco e eram tΓ£o perigosos (por causa da sujeira, do risco de infecΓ§Γ£o) que os ricos preferiam tratar-se em casa. Hospitalizados eram sΓ³ os pobres, e Florence preparou-se para cuidar deles, praticando com indigentes que viviam prΓ³ximos a sua casa. (SCLIAR, 2012, p. 195).
ApΓ³s visitar vΓ‘rios hospitais, viajando pela Europa, logo surgiu a oportunidade de colocar em prΓ‘tica tudo o que aprendera. Um amigo de Florence Nightingale e membro do governo inglΓͺs pediu-lhe que coordenasse um grupo de enfermeiras na Guerra da Crimeia. Nessa guerra, cerca de 250 mil pessoas morreram, boa parte de doenΓ§as infectocontagiosas.
Florence Nightingale deu um novo conceito Γ enfermagem, desenvolvia um trabalho humanitΓ‘rio, criou lavanderia no hospital, fez melhorias nas dietas dos pacientes e manutenΓ§Γ£o nas enfermarias. Mais ainda, atravΓ©s de sua habilidade matemΓ‘tica, habilidade que se acreditava ser comum apenas aos homens, desenvolveu um estudo estatΓstico demonstrando a queda na taxa de mortalidade, resultado de pΓ©ssimas condiΓ§Γ΅es sanitΓ‘rias proporcionadas aos pacientes.
Devido a sua garra, bravura e determinaΓ§Γ£o, dando Γ enfermagem o estatuto socioprofissional, ganhou admiraΓ§Γ£o da rainha VitΓ³ria, ela recebeu uma importante condecoraΓ§Γ£o. ApΓ³s esse ato da rainha para com a enfermeira, Florence Nightingale adoeceu, adquiriu brucelose, provavelmente uma infecΓ§Γ£o proveniente do perΓodo que esteve na guerra. Mesmo com suas limitaΓ§Γ΅es, nΓ£o parou de trabalhar e, ainda, fundou uma escola de enfermagem e escreveu um livro sobre isso.
Moacyr Scliar finaliza sua crΓ΄nica revelando a real intenΓ§Γ£o de seu tΓtulo. Florence Nightingale era estranha por nΓ£o ser submissa a uma sociedade preconceituosa e machista, enfrentou tudo e se dedicou a cuidar das pessoas enfermas, independentemente de suas condiΓ§Γ΅es, escreveu seu prΓ³prio destino. E essa estranheza, tornou-a admirΓ‘vel, tudo isso sendo mulher.
Estranha, a Florence Nightingale? Talvez. Mas estranheza pode estar associada a qualidades admirΓ‘veis. Grande e estranho Γ© o mundo [..]; grandes, ainda que estranhas, sΓ£o muitas pessoas. E se elas tΓͺm grandeza, ao mundo pouco deve importar que sejam estranhas. (Scliar, 2012, p.196).
Florence deixou um legado para a enfermagem e uma liΓ§Γ£o de vida para todas as mulheres, nΓ£o se submeteu aos costumes patriarcais, enfrentou todos os preconceitos, viveu sua verdadeira vocaΓ§Γ£o/vontade, destacando-se e sendo reconhecida pelo que fez.
### d) ConsideraΓ§Γ΅es finais
Foi realizada uma pesquisa minuciosa nas crΓ΄nicas publicadas por Scliar e foi encontrada apenas uma na qual o escritor rememora a trajetΓ³ria de Florence Nightingale. Nela, a sua mensagem de reconhecimento pelo trabalho dela ficou bem delineado. Seu texto traz um mΓ©dico reverenciando a fundadora da Enfermagem Moderna. Ele Γ© um cavalheiro pontuando as principais contribuiΓ§Γ΅es trazidas por essa brilhante profissional.
De certa forma, pode-se afirmar que a referida crΓ΄nica tem um viΓ©s feminista jΓ‘ que relembrar a trajetΓ³ria de Florence evoca a luta dela contra o patriarcalismo vigente na sua Γ©poca. Inicialmente, seus pais se opuseram Γ sua ideia de se tornar enfermeira, assim como a sociedade da Γ©poca via com maus olhos a escolha da mulher por essa profissΓ£o. Apesar desses obstΓ‘culos, Florence nΓ£o desistiu dos seus sonhos e contribuiu para o progresso na Γ‘rea da saΓΊde. A escolha de Scliar pelo gΓͺnero crΓ΄nica de fato contribui para evidenciar o mΓ©rito de Florence, pois, em tom de conversa entre autor e leitor, leva este a uma importante reflexΓ£o acerca do protagonismo feminino.
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