- conjunto da produção literária do escritor e médico Moacyr Scliar (1937-2011) figuram mais de setenta livros de gêneros diferenciados, tais como romances, ensaios, crônicas, ficções infantojuvenis e contos. O escritor gaúcho teve suas obras publicadas em mais de vinte países e foi reconhecido quatro vezes com o "Prêmio Jabuti", pelas obras: O olho enigmático (1986), categoria Contos; Sonhos tropicais (1992), categoria Romance; A mulher que escreveu a Bíblia (1999), categoria Romance; e Manual da paixão solitária (2008), categoria Romance, também escolhida obra de Ficção do Ano. O escritor colaborou por décadas como cronista em vários órgãos da imprensa no país, como a Folha de São Paulo e o Jornal Zero Hora (RS), e foi membro da Academia Brasileira de Letras a partir de 2003.
e o Estado do Rio Grande do Sul. Isso foi pontuado por Regina Zilberman (2009), que dá o nome a essa fase de suas publicações, entre 1972 e 1977, de "os romances de Porto Alegre", entre os quais se destacam Os mistérios de Porto Alegre (cujo título alude a Os mistérios de Paris, de Eugene Sue, e a Mistérios de Lisboa, de Castelo Branco), livro constituído de contos e crônicas, de 1975, e O ciclo das águas, de 1977, reconhecido com o segundo lugar no Prêmio Érico Veríssimo de Romance. O segundo período dessa cronologia literária atribuída à sua obra dá-se pelo predomínio temático na interface judaísmo-Brasil, abarcando obras como O centauro no jardim (1980), A estranha nação de Rafael Mendes (1983) e Cenas da vida minúscula (1991), publicadas entre 1980 e 1991. O terceiro período abrange A mulher que escreveu a Bíblia (1999), Os vendilhões do Templo (2006) e Manual da paixão solitária (2008), e se caracteriza por "privilegiar personagens sugeridas pela leitura da Bíblia hebraica" (Ibidem, p. 116).
Na sua maneira de produzir, muitas vezes num só ano o autor publica obras de gêneros diferenciados. Isso se nota em 1984, ano em que, além do livro de crônicas A massagista japonesa, Scliar lança literatura infanto-juvenil (Memórias de um aprendiz de escritor) e as antologias Dez contos escolhidos e Os melhores contos de Moacyr Scliar. Em 1995 e em 2001, o mesmo fenômeno é percebido: no primeiro, foram editadas as crônicas do Dicionário do viajante insólito e os infantojuvenis Um sonho do caroço do abacate e Introdução à prática amorosa; em 2001, verifica-se a publicação das crônicas de O imaginário cotidiano junto ao infantojuvenil Ataque do comando P. Q. Nota-se, também nos casos assinalados, que a atuação do Scliar cronista ocorre de forma contínua e paralela à publicação de obras nos demais gêneros literários.
Com relação às crônicas, ele as escreveu por aproximadamente quarenta anos: publicou as primeiras no início dos anos 1970. Dos diversos gêneros a que se debruçou, a crônica de jornal esteve presente em sua trajetória do começo ao final, sendo, inclusive, "os últimos textos que o autor legou a seus leitores" (ZILBERMAN, 2012, p. 9), no início de 2011. A atenção neste artigo recai justamente sobre esse nicho da produção do escritor, as crônicas, e entre elas as crônicas médicas, no que poderia entender-se como manifestação de sua experiência de vida em sua literatura, visto que Scliar formou-se em medicina, em 1962, e doutorou-se em Saúde Pública com a tese Da Bíblia à psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica. Com relação à repercussão da atuação na medicina em sua literatura, pode-se considerar que tenha dado os primeiros passos de seu percurso literário ainda em tempos de faculdade, visto que, na seção "Sobre o autor" do livro Dicionário do viajante insólito, lê-se que "ao ingressar na faculdade de medicina, [Scliar] começou a escrever para o jornal Bisturi" (SCLIAR, 2011, p. 133).
Do universo de suas crônicas, selecionam-se aquelas com temas ligados à medicina, a partir das quais se analisa a recorrência da menção ao cinema nessa parte da produção do autor. Expandindo a recorrente proposta de que o escritor fez uso de suas vivências (Szklo, 1990; Waldman, 2003; Zilberman, 2009) e de assuntos de interesse para compor suas obras a cidade e o bairro onde cresceu, o judaísmo, a imigração, a atuação como médico e a formação em saúde pública - destaca-se que, como aspecto importante na segunda metade do século XX no país, as mídias, e entre elas o cinema, são alvo da atenção do escritor, aparecendo nas crônicas médicas como recurso composicional, no intertexto estabelecido com obras fílmicas (Gomes, 2009) E Como Referência Intermidiática (Rajewsky, 2012).
Identifica-se que o escritor recorre ao cinema como motivo e recurso composicional e de ambientação, tomando-o como parte da paisagem cultural da cidade e da sociedade de seu tempo, como algo a ser considerado como parte da cena e da vida de todos os dias com a qual tece suas crônicas. A sua proximidade das mídias eletrônicas e da cultura popular e midiática se manifesta, também, no fato de escrever para jornal, ademais de trazer o cinema como motivo em sua obra.
Quanto à combinação de elementos temáticos, ou seja, do que se manifesta em sua obra como seleção (incluir e excluir) e hierarquia (no sentido de ser mais ou menos central na composição) de certos elementos da realidade e da experiência social, interessa explorar se a vivência do escritor como médico se expressa em sua obra, e sobre a intersecção que estabelece dos temas ligados à saúde com a menção ao cinema. Observa-se que Scliar valeu-se de seus conhecimentos médicos como material para as suas criações literárias, o que se verifica, por exemplo, no fato de o escritor gaúcho ser autor de 21 obras com temática médica. Por essa trajetória, diz-se que Scliar está inscrito numa linhagem de médicos-escritores, como Pedro Nava (1903-1984) e Guimarães Rosa (1908-1967). No que tange especificamente às crônicas, essa temática aparece esparsa em seus livros, é tema recorrente de muitas das suas
Na elaboração desse artigo, as maiores dificuldades encontradas na etapa de procura, uma vez que nem todas as crônicas de Scliar estão publicadas em livros. Devido a isso, foi necessária uma minuciosa pesquisa na Internet para encontrar as demais crônicas, tendo em vista que a grande maioria das suas crônicas foram escritas durante o período que ele trabalhou nos jornais Zero Hora e Folha de São Paulo. Ou seja, das muitas crônicas publicadas nesses jornais, ainda há aquelas que ainda não foram compiladas em livros. Por isso, foram desenvolvidas pesquisas constantes no site do autor e na Internet de um modo geral a fim de se reunir todos os textos nos quais o autor menciona a enfermeira Florence Nightingale.
a) A
No ensaio Cronista e leitor, Zilberman afirma que a crônica é um gênero de difícil demarcação, pois pode tratar de fatos contemporâneos, narrar tanto histórias verídicas como imaginárias, relembrar pessoas e acontecimentos, realizar comentários sobre literatura ou outras expressões culturais. Por sua lógica de produção e de consumo, a crônica, assim como o folhetim, é constitutivamente um gênero poroso à atualidade (Martín Barbero, 1987), ou tem porosidade de assuntos, segundo Granja (2015). A sua primeira acepção, explica Fischer (2004), derivava do latim chronica - relato, história escrita ou narrativa de fatos dispostos em ordem cronológica -, mas o termo migrou desde o domínio do relato histórico para o literário, e logo depois passou a ser utilizado na literatura em um gênero específico ligado ao jornalismo.
Dentre os escritores das crônicas modernas está Moacyr Scliar, considerado um dos maiores cronistas brasileiros, escrevia regularmente em jornais de circulação regional e nacional. O escritor foi um defensor da crônica na literatura brasileira, considerando-a um gênero literário importante; seu uso, contudo, era mais ou menos imediato, diferente da ficção (romance), gênero no qual uma boa ideia pode ficar amadurecendo por anos (FISCHER, 2004, p. 7-17). Parte de suas crônicas foram inspiradas em matérias de jornais. Em seu processo de criação, dizia precisar de um elemento desencadeante e, nesse processo, a notícia de jornal cumpria esse papel, dizia Scliar:
[...] pode ser um episódio histórico, uma pessoa que conheci, uma história que me contaram, uma notícia de jornal. Daí em diante é uma incógnita. Sou muito rápido escrevendo para jornal, mas quando se trata de uma ficção mais longa é diferente; aí períodos de rapidez se alternam com outros de muita lentidão, resultante de dúvidas que vão desde a questão do foco narrativo até a incerteza quanto à validade do projeto [...](Zilberman, 2009, p. 118).
O trecho é referente a uma entrevista concedida pelo escritor em 2009, quando há décadas escrevia e publicava em jornais. Também em sua autobiografia, intitulada O texto, ou: a vida: uma trajetória literária, fala sobre seu processo de criação e sobre as diferentes rotinas criativas relativas à elaboração (i) de crônicas para serem publicadas por jornais e (ii de romances, concebidos para serem lidos em livros.
É uma experiência no mínimo curiosa passar da página do livro para a página do jornal. Sim, em ambos os casos tratase de texto impresso, destinado a um público, mas as diferenças são grandes, e históricas. [.] Os escritores escreviam para a eternidade; os jornalistas estavam presos aos assuntos do momento, nem sempre agradáveis. [...] Os escritores podiam fazer pesquisas formais, mesmo que estas resultassem em textos obscuros; os jornalistas tinham, e têm, a obrigação da clareza. (SCLIAR, 2007a, p. 237-238).
O fragmento acima dialoga com parte do que Scliar menciona na entrevista intitulada Falar com Deus? Só se for com ligação a cobrar, na qual esclarece que não se considera jornalista, mas sim um colaborador de jornal que abomina ouvir gente que deprecia o jornalismo. Ele afirma: "[.....] o meu convívio com o jornalismo foi contínuo. Aprendi, em primeiro lugar, a fazer um texto enxuto. Aprendi a ir direto ao ponto, entregar o texto na hora", além de precisar escrever "com muita antecedência por causa dos problemas de ilustração". Relacionando essas considerações à explanação acerca do embate entre o livro e o jornal, Scliar pondera que no país "surgiu um gênero que se tornou o elo de ligação entre literatura e o espaço jornalístico: a crônica". No jornal, a crônica é "um respiradouro, uma brecha na massa não raro sufocante de notícias" (Scliar, 2007a, p. 239).
Este trabalho vale-se do depoimento de Scliar não como intento de, como afirma Iser (2013) em O fictício e o imaginário, indagar sobre a psique do autor para desvendar suas intenções. Tal como sustenta Iser (2013, p. 37), entende-se que seja "provável que a intenção não se revele nem na psique nem na consciência, mas que possa ser abordada apenas através das qualidades de manifestação que se evidenciam na seletividade do texto face a seus sistemas contextuais". Aqui o testemunho de Scliar é entendido, de tal forma, como elemento transtextual, no sentido de Genette (2006), como forma estendida de paratextualidade ou metatextualidade, que acrescenta e desdobra aspectos de seus processos de criação, e repercute em sua fortuna crítica.
Em termos de publicações, a atuação de Scliar como cronista começa em 1984, ano em que é lançada a primeira edição de A massagista japonesa, seguida, em 1989, por Um país chamado infância. Em 1995, vem à lume as crônicas do Dicionário do viajante insólito, que recebeu o Prêmio Açorianos, e um ano depois chega às livrarias Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Em 2001, edita O imaginário cotidiano, também laureado com o Prêmio Açorianos, e neste mesmo ano publica A língua de três pontas: crônicas e citações sobre a arte de falar mal e A face oculta: inusitadas e reveladoras histórias da medicina. Em 2004, trabalhando num projeto da Editora Global, Fischer seleciona textos para o livro Moacyr Scliar, expondo essa vertente do escritor para a Coleção Melhores Crônicas. Em 2005 lança O Olhar Médico, em 2009, Histórias que os jornais não contam. Com a morte do autor, em 2011, as publicações passam a ser póstumas, e Zilberman seleciona crônicas para as seguintes compilações: A poesia das coisas simples (2012) e Território da emoção: crônicas de medicina e saúde, A banda na garagem (2014) e A nossa frágil condição humana (2017). Desses, apenas Território da emoção, A face oculta e o Olhar médico reúnem crônicas médicas no todo, enquanto os livros de 2012 e de 2014 trazem algumas crônicas médicas esparsas entre textos de outro enfoque.
Por cerca de 40 anos, do início dos anos 70 a 2011, Moacyr Scliar publicou crônicas regularmente no jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. Publicou nos cadernos Vida e Donna, na coluna A Cena Médica, mantendo uma coluna semanal no caderno de Notícias. Os temas, como sugerem as variadas editorias e suplementos onde publicava, eram diversos, abarcando desde questões de saúde, vida familiar, passando também por assuntos cotidianos da cidade e do estado, reservados principalmente à coluna das terçasfeiras, na página 2 do jornal. Sobre sua participação para o Caderno Vida do Jornal Zero Hora, ele afirmou tratar-se de um trabalho importante, porque é uma forma de escrever sobre Medicina de maneira mais humanista. Já no jornal Folha de São Paulo, Scliar escreveu a partir de 1993, na seção Cotidiano, com crônicas inspiradas em notícias de jornais, sendo que algumas delas são crônicas médicas. Atuou como cronista, ainda, no Correio Braziliense, do Distrito Federal, de 2006 a 2011, escrevendo para o caderno Diversão e arte.
Examinando as crônicas de Scliar publicadas na Folha de São Paulo, Lealis Guimarães (1999, p. 161) toma como corpus de análise cinco crônicas e aponta que, nelas, "o humor é inerente à criação literária, manifestando-se através do procedimento paródico", que se combina, em seu efeito estético, à exploração de "assuntos insólitos, ou constrangedores, do cotidiano veiculado pela notícia, para promover efeitos tragicômicos". Com respeito à leitura, com suas crônicas passa-se "ao mundo do imaginário e, nesse transporte do real para o fictício, [...] que funciona como crítica às ordens e valores predeterminados". Do corpus analisado por Guimarães (1999), o único texto que se enquadra no perfil de crônica médica é "Consultando no posto de saúde fantasma", elaborada a partir de uma notícia desanimadora sobre o sistema de saúde, na qual nota-se um "humor crítico diante do fato noticiado" (GUIMARÃES, 1999, p. 121-122).
O imaginário cotidiano, Moacyr Scliar (Coleção Melhores Crônicas), Histórias que os jornais não contam e A banda na garagem têm em comum reunirem crônicas inspiradas em notícias de jornal. Esses livros apresentam a seguinte disposição: logo após o título da crônica, é apresentada a notícia que serve de inspiração e, em seguida, vem o texto de Scliar. Algumas das crônicas desses livros apresentam temáticas relacionadas à Medicina, que são compostas de personagens em situações nas quais se reportam superficialmente aspectos da Medicina. Desses textos, pode-se mencionar "Ele (ex-ela) e ela (ex-ele)", cujo narrador cria uma história sobre as dificuldades de adaptação vivenciadas por um casal que muda de sexo. Esse texto integra Moacyr Scliar (2004, p. 215- 216), "uma reunião de crônicas que o destacam no gênero com maior nitidez" (HANCiAU, 2012, p. 118). Sobre a pertinência de classificá-los como crônicas, os textos inspirados em manchetes de jornais, no entender de Zilberman (2012, p. 16), devem ser assim considerados, pois "crônicas são também narrativas de eventos efetivamente ocorridos ou imaginários". Para Scliar, porém, por serem ficcionais, esses textos não seriam crônicas. Em entrevista concedida a Fischer, o escritor comenta sobre os limites entre crônica e outros gêneros:
[..] acho, sim, que os limites da crônica são claros. Crônica não é conto: é um comentário sobre a realidade, portanto exclui ficção (ainda que, na Folha de São Paulo, eu escreva um texto ficcional baseado em notícias de jornal. Mas eu não o chamo de crônica. Nem de conto. É uma espécie de crônica ficcionalizada). Crônica não é um gênero tão erudito quanto o ensaio. Crônica não é tão factual quanto o artigo (sobre política, por exemplo). (SCLIAR apud FISCHER, 2011, p. 102).
O Dicionário do viajante insólito reúne uma coletânea de crônicas inspiradas em viagens de Scliar, e contém apenas um texto no qual há referência à medicina: "G de Gueixa", cujo personagem sonha em se deitar com uma gueixa. Seu chefe o convida para uma viagem ao Japão e, em seu quarto de hotel, ele "solicita" uma gueixa. A visitante é velha e cega, ele tenta se desvencilhar dela e machuca a coluna, necessitando assim ceder aos cuidados da gueixa, que era, de fato, apenas massagista (SCLIAR, 2011, p. 35- 38). Publicada em 1996, Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar é outra obra que dispõe uma única crônica sobre saúde. Intitulada "Pietá", que narra o sofrimento do escritor com a perda de sua mãe, acometida por um câncer, e de sua impotência, como médico, perante a situação (SCLIAR, 1996, p. 44-46).
Em A massagista japonesa, há textos que remetem a questões relacionadas à saúde. A narrativa que intitula o livro é, com ligeiras modificações, a mesma de "G de Gueixa", de o Dicionário do viajante insólito. Há outros textos nos quais são contadas histórias entremeadas de resquícios de conselhos médicos, como "Ponte de safena", "A um bebê com cólicas", "Data certa", "Decisão", "O homem que corria" (SCLIAR, 1984, p. 23-24, 53-54, 75-78, 107-109). A língua de três pontas: crônicas e citações sobre a arte de falar mal (2001) dispõe um capítulo intitulado "Falando mal da medicina", no qual Scliar apresenta um histórico da evolução da medicina, seguido das citações que coligiu relacionadas à desconfiança nutrida por muitos sobre a atuação dos médicos (SCLIAR, 2001, p. 54-66).
Observam-se, em suas crônicas médicas, como no dizer de Iser (2013, p. 37), as "qualidades de manifestação que se evidenciam na seletividade do texto face a seus sistemas contextuais", identificando que a prática médica serviu de mote para sua literatura. Sobre a presença dessa prática em suas obras, Hanciau (2012, p. 114) afirma que "o texto exato, objetivo e cortante, Scliar certamente herdou dos prontuários médicos, que escreveu ao longo da vida e que, embora frios, trazem implícitas todas as dores do mundo. Os anos de Medicina ensinaram a diagnosticar a insondável criação literária".
Na trajetória literária de Scliar, as crônicas não são secundárias. A inserção do escritor na imprensa é notória, tanto que Zilberman (2017, p. 5) observa que "além de duradoura, a participação de Scliar no jornalismo gaúcho, em especial em Zero Hora, foi intensa, resultando em mais de 5 mil crônicas". Antes do Zero Hora, escreve para o jornal universitário Bisturi, quando cursava Medicina, e, desde 1984, publica suas crônicas também em livro. Ao todo, foram 37 anos de produção contínua no gênero, e em parte dessa produção se verifica a sistemática tematização da medicina e o intertexto com o cinema na composição dos textos, muitas vezes de forma associada. Combinadas às três fases temáticas atribuídas à sua literatura - a cidade de Porto Alegre, a interface judaísmo-Brasil e a releitura de personagens bíblicas -, neste trabalho se propõe que, no tocante às crônicas, há outros dois temas significativos que marcam sua obra, as crônicas médicas: o tema da saúde e da prática da medicina, por um lado, e o intertexto com filmes e a produção cinematográfica, por outro.
b) Moacyr Scliar e a inserção das mulheres nas ciências da saúde
Em sua escritura, Moacyr Scliar demonstrou preocupação não somente com a saúde das mulheres como também com a inserção delas nas ciências da saúde. Uma crônica que exemplifica ambas as tendências é "A mulher e sua saúde". Publicada originalmente em 08/03/2003 e compilada em Território da emoção, nesse texto o escritor gaúcho relembra um pouco do preconceito corrente acerca do elemento feminino no consultório médico, evidenciado pelo ditado "mulher podia adoecer mas não podia curar". Scliar pondera que "até o século XIX, a profissão médica estava praticamente vedada ao sexo feminino" ao ponto de uma mulher se passar por homem para poder cursar a faculdade de Medicina: James Barry "chamava a atenção por seu tipo físico delicado, e que era descobriu-se quando de sua morte uma mulher (foi enterrado como homem, para evitar o escândalo" (SCLIAR, 2013, p. 68). Nessa mesma crônica, Scliar rememora parte da trajetória das três primeiras mulheres a se graduarem em Medicina no Brasil. Uma delas - a gaúcha Ermelinda Lopes de Vasconcelos - recebeu o diploma em 1888 e foi vítima do machismo do historiador Sílvio Romero, o qual publicou uma crônica afirmando que jamais permitiria que sua esposa gestante fosse atendida por uma "machona". "Tempos depois, Ermelinda fez o parto da mulher de Romero. Uma boa resposta para o machista. Que a esta altura não se atreveria a escrever desaforos" já que "as moças representam a metade dos médicos formados no Brasil" (SCLIAR, 2013, p. 68).
Na crônica "A mulher por trás do DNA", Moacyr Scliar discorre uma sobre reflexão baseada no 08 de março, Dia Internacional da Mulher, data anual escolhida para (re)lembrar a história das mulheres. Para destacar essa data tão importante, a luta da mulher para conquistar o lugar que quiser em sua vida profissional, o cronista destaca a difícil missão de ser mulher por meio da vida de Rosalind Elsie Franklin. Assim como muitas outras mulheres, ela teve de enfrentar uma sociedade extremamente patriarcal para realizar um projeto de vida.
Rosalind Franklin nasceu aos 25 de março de 1920, era de uma família judia tradicional da Inglaterra. Desde muito cedo demonstrava gosto pela ciência, mas o pai não a apoiava, dizia ser uma carreira masculina, preferia que a filha fizesse assistência social, e mesmo tendo condições de financiar os estudos dela, não o fez, uma tia da jovem acabou proporcionando isso a ela.
Há uma imagem estereotipada de que apenas os homens têm inteligência científica e/ou dominam o desenvolvimento dessa área do conhecimento humano. O problema é que, na maioria das vezes, como aconteceu com Rosalind Franklin, as meninas não recebem incentivos de seus familiares e, por muitas vezes, nem a escola as motivava à carreira de cientista.
Rosalind Franklin graduou-se em Medicina, fez doutorado pela Universidade de Cambridge, trabalhou nas mudanças estruturais do carbono, estudou difração de raios X, com o domínio no uso do raio X, iniciou o estudo de "uma das mais importantes descobertas científicas da História: a estrutura do DNA, o ácido desoxirribonucleico, substância responsável pela transmissão dos caracteres hereditários" (SCLIAR, 2012, p. 159).
Franklin desenvolveu esse estudo ao lado de Maurice Wilkins em Londres, no King's College, o maior, mais antigo e prestigiado colégio, fundado em 1829. Por lá havia menos de 25 mulheres trabalhando, o local era anglicano, em 1953, o curso mais importante era o de Teologia, o seu refeitório possuía duas partes, uma mista e outra exclusiva para homens. Por ser judia e mulher, Rosalind Franklin teve difícil aceitação no lugar.
Moacyr Scliar, em sua crônica, descreve a cientista como uma figura polêmica e traumática, pois além dos preconceitos vivenciados, teve de disputar seu trabalho com outros três cientistas, o próprio "colega" Maurice Wilkins e os estudiosos Francis Crick e James Watson que desenvolviam os estudos paralelos na Universidade de Cambridge.
Usando raios X para estudar o DNA - as radiografias que fez eram obras-primas, pela precisão e também pela beleza - levantou hipótese de que a molécula teria a forma de uma hélice, mas não quis adiantar nada sem provas mais concretas. Isso levou a uma briga com Wilkins, que decidiu mostrar os resultados de Franklin a Watson - sem consentimento de Rosy. "Meu coração bateu mais forte quando vi as radiografias", disse Watson. As imagens foram uma revelação. A partir daí ele e Crick aceleraram as pesquisas, e chegaram ao resultado que foi imediatamente reconhecido e que os consagrou. (SCLIAR, 2012, p. 160)
Um dos eventos mais importantes da História científica foi apresentado pela primeira vez em 1953 na revista Nature, a estrutura do DNA. O trabalho empírico de Rosalind Franklin, que alcançou níveis de excelência na época, não teve o devido reconhecimento, ficando à margem da História por muito tempo. Franklin acabou desistindo desse estudo, deixando o triunfo para os colegas. Estes ainda receberam o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia pela pesquisa no ano de 1962.
Infelizmente, Rosalind Franklin não pôde entrar na briga para disputar a premiação, pois faleceu em 16 de abril de 1958, aos 38 anos de idade, vítima de um câncer no ovário, doença ocasionada pela consequência de seu trabalho, ela ficava muito exposta às radiações.
Moacyr Scliar se aproxima do desfecho de sua crônica esperançoso sobre o lugar da mulher na área da ciência, pois Rosalind Franklin vem ganhando destaque em estudos científicos, sua história está sendo contada em livros e em filmes, mesmo com um número pequeno de mulheres cientistas, sempre surgem nomes de destaque, comprovando que o ramo científico não é só para o homem, mas a mulher é muito capaz de atingir resultados inesperados, "a vocação para a ciência não está unicamente no DNA masculino" (SCLIAR, 2012, p. 161). Esta é a lição deixada por Scliar: as mulheres precisam ser libertadas dos estereótipos, precisam ser incentivadas desde pequenas para as suas verdadeiras vocações. No próximo segmento deste artigo, será demonstrado como Scliar relembra a trajetória de Florence Nightingale, a pioneira da Enfermagem Moderna.
c)Florence Nightingale nas crônicas de Moacyr Scliar
Foi realizada uma pesquisa minuciosa nas crônicas publicadas por Scliar e foi encontrada apenas uma na qual o escritor rememora a trajetória de Florence Nightingale. Nesse sentido, no mesmo intuito de destacar a figura feminina na área da ciência/saúde, uma área que conhecia de perto, Moacyr Scliar escreveu a crônica "Uma estranha, e admirável, mulher". O texto foi publicado pela primeira vez no jornal Zero Hora de Porto Alegre em 29 de agosto de 2010. Somente depois foi reunido com outras crônicas do autor no livro A poesia das coisas simples (2012). A análise desta crônica começa pelo título, este já chama atenção pelo uso da vírgula ao isolar os adjetivos. O destaque é dado ao termo "estranha", cai numa suavidade com o termo "admirável" e recai na estranheza por isolar o substantivo "mulher" no final do título.
Esse texto de título chamativo trata justamente de uma figura feminina intrigante, a história da pioneira da enfermagem moderna - Florence Nightingale. Esta nasceu em 12 de maio de 1820, recebeu o nome inglês da cidade onde nasceu, Florença, na Itália. De família abastada, Florence viajava bastante, os pais eram tradicionais e religiosos, características que já premeditavam o destino da garota, "Florence estava destinada a receber uma boa educação, a casar com um cavalheiro de fina estirpe, a cuidar da casa e da família" (SCLIAR, 2012, p. 194).
O destino previsto para Nightingale era o mesmo que, para a maioria das mulheres que viveram no século XIX, segundo Dubby e Perrot (1991), sofriam com uma sociedade bastante machista e controladora. As mulheres estavam condicionadas apenas ao papel de genitoras, não tinham o direito de pensar, agir, muito menos revolucionar. No quesito religião, a mulher era vista como um modelo de fé e perseverança, algo pleno e sublime. A fé feminina se demonstrava em comportamentos específicos, como a sentimentalidade e a obediência ao cônjuge.
Eggert e Pereira (2019), no texto Freiras e religiosas - as mulheres consagradas, afirmam que obedecer a Deus significa seguir Maria como exemplo, e não Eva. Pois a primeira representa submissão, santidade, modelo para todas as mulheres. Já a segunda é o contrário disso, pois é sedutora, persuasiva e pulsante, tudo o que a sociedade patriarcal não deseja, já que a insubmissão significa uma ameaça às famílias. Eva é pecadora, e Maria a redentora dos pecados.
Mesmo no contexto descrito, algumas mulheres começaram a discursar de maneira mais expressiva, pedindo igualdade entre os sexos, surgiram também nesse período alguns movimentos feministas, requerendo mudanças sociais e politic as. "Mas logo ficou claro que a menina não se conformaria com esse modelo. Era diferente, gostava de matemática, e era o que queria estudar" (SCLIAR, 2012, p. 194). Então, Florence Nightingale negou a frustração para a qual estava predestinada.
Esse feminismo praticado por parte das mulheres, inclusive por Nightingale, mesmo que involuntariamente, é conhecido por feminismo liberal, segundo Carneiro (2019), pois defende a igualdade entre os gêneros, igualdade de educação, salário e oportunidade, representa a porta de entrada para as mulheres na vida profissional e acadêmica.
Com apenas dezesseis anos de idade, Florence Nightingale escreveu em seu diário sobre sua vocação, não estava destinada à vida comum, tinha um chamado de Deus, este chamado seria servi-lo. Mas o servir a Deus para ela estava longe de ser como no sentido descrito acima, para a moça significava cuidar do próximo, dos enfermos, mais especificamente dos que estavam hospitalizados. Assim, dedica sua vida para a enfermagem.
Os pais da garota não viam com bons olhos a missão da filha, apesar de ser uma atividade considerada feminina, primeiro, porque as pessoas dessa área da saúde eram rotuladas como de uma classe social inferior e possuíam uma vida desregrada. Outro motivo seria as condições dos hospitais: eram perigosos para contração de doenças e só atendiam pobres.
Naquela época, os hospitais curavam tão pouco e eram tão perigosos (por causa da sujeira, do risco de infecção) que os ricos preferiam tratar-se em casa. Hospitalizados eram só os pobres, e Florence preparou-se para cuidar deles, praticando com indigentes que viviam próximos a sua casa. (SCLIAR, 2012, p. 195).
Após visitar vários hospitais, viajando pela Europa, logo surgiu a oportunidade de colocar em prática tudo o que aprendera. Um amigo de Florence Nightingale e membro do governo inglês pediu-lhe que coordenasse um grupo de enfermeiras na Guerra da Crimeia. Nessa guerra, cerca de 250 mil pessoas morreram, boa parte de doenças infectocontagiosas.
Florence Nightingale deu um novo conceito à enfermagem, desenvolvia um trabalho humanitário, criou lavanderia no hospital, fez melhorias nas dietas dos pacientes e manutenção nas enfermarias. Mais ainda, através de sua habilidade matemática, habilidade que se acreditava ser comum apenas aos homens, desenvolveu um estudo estatístico demonstrando a queda na taxa de mortalidade, resultado de péssimas condições sanitárias proporcionadas aos pacientes.
Devido a sua garra, bravura e determinação, dando à enfermagem o estatuto socioprofissional, ganhou admiração da rainha Vitória, ela recebeu uma importante condecoração. Após esse ato da rainha para com a enfermeira, Florence Nightingale adoeceu, adquiriu brucelose, provavelmente uma infecção proveniente do período que esteve na guerra. Mesmo com suas limitações, não parou de trabalhar e, ainda, fundou uma escola de enfermagem e escreveu um livro sobre isso.
Moacyr Scliar finaliza sua crônica revelando a real intenção de seu título. Florence Nightingale era estranha por não ser submissa a uma sociedade preconceituosa e machista, enfrentou tudo e se dedicou a cuidar das pessoas enfermas, independentemente de suas condições, escreveu seu próprio destino. E essa estranheza, tornou-a admirável, tudo isso sendo mulher.
Estranha, a Florence Nightingale? Talvez. Mas estranheza pode estar associada a qualidades admiráveis. Grande e estranho é o mundo [..]; grandes, ainda que estranhas, são muitas pessoas. E se elas têm grandeza, ao mundo pouco deve importar que sejam estranhas. (Scliar, 2012, p.196).
Florence deixou um legado para a enfermagem e uma lição de vida para todas as mulheres, não se submeteu aos costumes patriarcais, enfrentou todos os preconceitos, viveu sua verdadeira vocação/vontade, destacando-se e sendo reconhecida pelo que fez.
d) Considerações finais
Foi realizada uma pesquisa minuciosa nas crônicas publicadas por Scliar e foi encontrada apenas uma na qual o escritor rememora a trajetória de Florence Nightingale. Nela, a sua mensagem de reconhecimento pelo trabalho dela ficou bem delineado. Seu texto traz um médico reverenciando a fundadora da Enfermagem Moderna. Ele é um cavalheiro pontuando as principais contribuições trazidas por essa brilhante profissional.
De certa forma, pode-se afirmar que a referida crônica tem um viés feminista já que relembrar a trajetória de Florence evoca a luta dela contra o patriarcalismo vigente na sua época. Inicialmente, seus pais se opuseram à sua ideia de se tornar enfermeira, assim como a sociedade da época via com maus olhos a escolha da mulher por essa profissão. Apesar desses obstáculos, Florence não desistiu dos seus sonhos e contribuiu para o progresso na área da saúde. A escolha de Scliar pelo gênero crônica de fato contribui para evidenciar o mérito de Florence, pois, em tom de conversa entre autor e leitor, leva este a uma importante reflexão acerca do protagonismo feminino.