This study seeks is a research on the migration of Cearenses to the municipality of Governador Valadares-MG, known for being an international emigration center. Bibliographical and documentary research and a field work are its methodology. The outcome of this research shows that the Ceará’s community created spaces, reproducing its original culture and keeping its own identity alive. These migrants created a territory with hybrid characteristics, living in a constant multiterritoriality.
Funding
No external funding was declared for this work.
Conflict of Interest
The authors declare no conflict of interest.
Ethical Approval
No ethics committee approval was required for this article type.
Data Availability
Not applicable for this article.
Dr. Renato Conrado. 2026. \u201cFrom the Northeast to Minas: The Reterritorialization of immigrants from Ceará in Governador Valadares-MG*\u201d. Global Journal of Human-Social Science - E: Economics GJHSS-E Volume 25 (GJHSS Volume 25 Issue E1): .
## I. INTRODUÇÃO
município brasileiro de Governador Valadares ficou amplamente conhecido como um polo de emigração internacional. Esse movimento emigratório foi favorecido pela rede que começou ser construída na década de 1960, quando vários jovens de classe média participaram de programas de intercâmbio ou viajaram no espírito de aventura, para viver um "tempo" na América. Esse movimento inicial, ao mesmo tempo, respondia à crescente influência do "american way of life" e à forte presença de cidadãos daquele país, em Governador Valadares, nos anos de 19501. Nas duas décadas seguintes, num quadro regional de crise estrutural provocada pelo esgotamento da fronteira agrícola, esse fluxo migratório internacional se intensifica e adquire a relevância nacional e internacional, entre meados da década de 1980 e, a nas décadas de 1990 e 2000, se irradiando por toda região de influência de Governador Valadares e, ao mesmo tempo, incorpora outros destinos, tais como Portugal e Reino Unido2 (SIQUEIRA, 2009; SIQUEIRA, ASSIS, 2010; SIQUEIRA, SANTOS, 2012).
A emigração internacional é o fenômeno mais conhecido, porém a Região Geográfica Intermediária de Governador Valadares também se particulariza pela perda expressiva de população para as outras regiões brasileiras, com o saldo migratório líquido negativo dos mais expressivos do Brasil, entre 1960 e 1991 (SOARES, 2002). Em proporção menor, essa tendência de perda de população persistiu nas décadas seguintes. Para a microrregião de Governador Valadares3, considerando os dados do Censo Demográfico de 2010, o saldo migratório negativo era de $10.396 ^ { 4 }$ emigrantes. Ou seja, saíram mais pessoas saneamento do Vale do Rio Doce, a reforma da Estrada de Ferro Vitória a Minas e a criação da Companhia Vale do Rio Doce, abrangendo os anos de 1940 e 1950.
da microrregião do que entraram. Considerando que 26.676 pessoas emigraram de Governador Valadares e que 18.736 pessoas imigraram para o município, temos que o município apresentou um saldo migratório negativo de 7.940 migrantes, representando, sozinho, $76,4\%$ da perda populacional da microrregião para outros estados do Brasil (CUNHA et al, 2016; CUNHA et al, 2017).
Ainda utilizando os dados do último censo, considerando ser Governador Valadares, o principal município dentro da microrregião que levava o seu nome, é possível perceber seu baixíssimo poder de atração dessa. Os dados apontam que 6.742 indivíduos estavam residindo em algum município dentro da microrregião em 2005 e foram recenseados em outro município, também pertencente a microrregião. Se considerarmos que a população total da microrregião era de 415.696 habitantes, que Governador Valadares possuía uma população de 263.689 habitantes - ou seja, $63,4\%$ da população da micro e que apenas os municípios de Itambacuri, Coroaci e Itanhomi possuíam uma população maior que dez mil habitantes, impressiona o fato de que Governador Valadares tenha atraído apenas 2.201 desses migrantes, algo próximo a um terço do total (CUNHA et al., 2016; CUNHA et al., 2017).
Dentro deste contexto de perda populacional e de fraco poder de atração que caracteriza Governador Valadares, este trabalho busca analisar um movimento populacional inverso, ou seja, de chegada de imigrantes ao município. O foco está em um grupo populacional que deixou seus locais de origem e optaram por aqui viver, especificamente os que possuem como origem o estado do Ceará e que passaram a residir, em sua maioria, em um determinado bairro da cidade de Governador Valadares (Santa Rita). A pesquisa busca identificar no bairro os lugares e elementos culturais/simbólicos que estão ligados ao processo de reterritorialização desses migrantes.
PALAZzOLO (1973), em sua história sobre o aldeamento de Itambacuri, menciona os retirantes do Ceará e Bahia que fugiam da fome e das doenças que se seguiram a grande seca de 1890, se estabelecendo na região, até Figueira (Governador Valadares). Com a construção da rodovia federal Rio-Bahia (BR 116), migrantes nordestinos que rumavam para São Paulo, ao passar por Governador Valadares, tomavam a decisão de "apear" do pau-de-arara, se estabelecendo na cidade conforme suas qualidades técnicas, muitos no ramo do couro (ESPINDOLA, 1998, p. 158-159). Entretanto, as alterações ambientais e a concentração da propriedade fundiária na região de Governador Valadares, bem como a rodovia federal, fizeram com que a cidade polarizasse na verdade a pobreza, conforme observa Brito et al. (1997).
Governador Valadares, de fato, polarizava a pobreza da região, o que se tornaria ainda mais agudo com a inauguração da rodovia Rio-Bahia no início da década de 1950. Além de atrair os imigrantes que abandonavam o campo no próprio vale do Rio Doce, a cidade passou a funcionar como "corredor migratório" para baianos e nordestinos (BRITO et al., 1997, p. 65).
Portanto, a presença nordestina e, mais especificamente cearense, não se constitui uma novidade. Todavia, a presença de uma comunidade concentrada em um bairro em específico, é uma característica que justifica o presente estudo.
Como metodologia, além da pesquisa bibliográfica e documental, se utilizou o trabalho de campo com o objetivo de levantar os aspectos locais e as práticas cotidianas desse grupo, segundo as orientações de Certeau (1998). Como esse recomenda, buscou-se caminhar pelo bairro como um "andarilhovoyeur", observando as práticas cotidianas e não apenas estabelecendo um olhar de cima. As caminhadas permitiram um contato mais aprofundado com a área de estudo, principalmente com os territórios relacionados ao grupo pesquisado, possibilitando, por meio desse procedimento, sentir cheiros, ouvir sons e ver mais de perto esse território.
O artigo se divide em quatro seções, incluindo essa introdução. Na seção seguinte, são descritas as principais características das regiões de origem dos emigrantes, assim, como de Governador Valadares e, mais especificamente, do bairro Santa Rita. Na terceira seção é descrito o processo de reterritorialização dos cearenses e, por fim, temos as considerações finais.
## II. Um Rápido Panorama da Origem E do DeStino
O Ceará, devido à conjunção das características físicas do seu território e o seu posicionamento geográfico, possui uma distribuição irregular das chuvas, sofrendo com as secas periódicas - como os demais Estados dentro do semiárido. O Estado, segundo Queiroz (2013), tem apresentado, a partir da década de 1980, uma tendência à diminuição das suas taxas de mortalidade e fecundidade e dos seus saldos migratórios negativos. Queiroz ressalta que,
Dado esse quadro [de secas], conjugado com o baixo desenvolvimento econômico e falta de oportunidades de trabalho, historicamente o Ceará tipifica como área de evasão populacional, alta taxa de mortalidade e de fecundidade, com impactos sobre o seu crescimento populacional (QUEIROZ, 2013, p. 43)
Queiroz (2013, p. 102), analisando os dados dos Censos Demográficos de 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010, ressalta que, nos últimos três censos, embora o estado não tenha revertido o processo histórico de perda populacional, esse não é tão intenso como nas décadas de 1960, 1970 e 1980. A autora aponta para a tendência a reversão das perdas populacionais, "caso a diminuição nas saídas se mantenha e o fluxo migratório interestadual de retorno permaneça".
Um dos destinos da migração de cearenses é o estado de Minas Gerais, no qual destacamos o município de Governador Valadares. De acordo com os dados do Censo Demográfico de 2010, havia 5.060 indivíduos nascidos no Nordeste e que estavam residindo no município, sendo o maior grupo composto pelos baianos $( 59,7\% )$, com oS cearenses representando o segundo maior grupo, com 571 indivíduos $( 11,3\% )$ e os pernambucanos o terceiro, com 418 indivíduos $( 8,3\% )$.
Governador Valadares é um município localizado no Leste do estado de Minas Gerais, dando nome à região geográfica intermediária (RGiNT) e à região geográfica imediata(RGiME) a que pertence. O município está situado é um entroncamento rodoferroviário, ocupando uma posição central na bacia hidrográfica do rio Doce. Pelo Censo Demográfico de 2010 a população do município era de 263.689 habitantes - sendo que $96,1\%$ residiam na área urbana - e sua população estimada em 2020 era de 281.046 habitantes. Considerando essa estimativa, Governador Valadares era o nono município mais populoso de Minas Gerais, sendo também o mais extenso entre os 58 municípios da REGINT e totalizando $36 {, } 3\%$ da população dessa (774.437 habitantes). Já considerando a RGIME, formada por 26 municípios, sua população representa $61,7\%$ do total (455.614 habitantes). É o município polo, exercendo grande influência econômica em relação aos municípios próximos, respondendo também a boa parte da demanda desses em relação a saúde e educação.
O município possui uma localização privilegiada (veja Figura 01), sendo cortado por três rodovias federais, com destaque para a BR 116, conhecida como Rio-Bahia (neste trecho chama-se Santos Dumont), ficando a meio caminho entre Feira de Santana (Bahia) e a cidade de São Paulo, sendo um ponto de parada obrigatória de todas as rotas que partem do Nordeste em direção às cidades do Rio de Janeiro e São Pauloo. Além das rodovias, o município é ainda cortado pela Estrada de Ferro Vitória-Minas, pertencente à mineradora Vale, única ferrovia nacional com tráfico diário regular de passageiros, ligando a cidade à capital mineira (Belo Horizonte) à capital do Espírito Santo (Vitória).
Fica claro na Figura 1, que a condição de entroncamento rodoferroviário que cortam Governador Valadares faz com que o município seja um local de passagem de muitas pessoas provenientes dos quatro pontos cardeais, particularmente do Nordeste para o Rio de Janeiro e São Paulo.
 Fonte: Adaptado de imagem do Google Maps. Figura 1: Governador Valadares e as Rodovias que cortam o Município
O produto interno bruto (PIB) do município de Governador Valadares, em 2017, foi de pouco mais de 5,2 bilhões de reais, sendo o $14 ^ { \mathrm { o } }$ maior dentro do estado de Minas Gerais, representando $1,05\%$ do PIB estadual, $49,6\%$ do PIB da região geográfica intermediária e $76,1\%$ do PIB da região geográfica imediata. Além do peso da economia valadarense em relação aos municípios do seu entorno, fica evidente o peso do setor de serviços na economia do município $( 64,8\% ) ^ { 9 }$. O IDH do município passou da faixa muito baixa, com 0,508 em 1991, para 0,635 em 2000, fincando incluído no grupo de municípios com médio grau de desenvolvimento humano, segundo a classificação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Em 2010, o município alcançou um índice de 0,727, mostrando uma considerável melhora nos seus indicadores sociais, sendo classificado como possuindo um alto desenvolvimento humano.
Como indicado na introdução, o foco da pesquisa é o grupo de migrantes originário do estado do Ceará residente no bairro Santa Rita, na cidade de Governador Valadares. O bairro está localizado próximo ao distrito industrial e ao aeroporto municipal, sendo delimitado, de um lado, pela avenida Euzébio Cabral, que dá continuidade à BR 381, e do outro pelo rio Doce, apresentando, por esse fato, áreas aluviais sujeitas a alagamentos nos períodos chuvosos. Como pode ser observado na Figura 2, até a década de 1980, o bairro ainda se encontrava separado da malha urbana por remanescentes de áreas rurais (chácaras agrícolas). "Além da BR 116, o único bairro que apresentava alguns dos serviços de infraestrutura citados era o Santa Rita, identificado como moradia da classe média-baixa" (GUIMARÃES, 2009, p. 181-182). Exceto a áreas central e os bairros adjacentes de classe média, o bairro Santa Rita era um dos poucos que contava com coleta de lixo, ruas principais pavimentadas e serviço de água e rede de esgoto. Ele se diferenciava principalmente por possuir um comércio próprio, em um contexto em que o restante da cidade dependia praticamente do comércio da área central.
 Figura 2: Bairro de Santa Rita, em Governador Valadares, 1980 FonMaistribuiçãoadistr-sovrdor Vladar aoado comsinóst realizado pelo Fundação João Pinheiro, 180 (GUIMARÃE, 0, p.81.
O bairro Santa Rita é o maior da cidade de Governador Valadares, tanto em termos populacionais quanto em extensão territorial. De acordo com os dados do Censo Demográfico de 2010, sua população era de 19.687 habitantes, um pouco menos que a de Conselheiro Pena (22.242 habitantes), segunda maior população entre os municípios que compõe a região geográfica imediata de Governador Valadares. A instalação de migrantes cearenses no bairro Santa Rita teve início em meados dos anos de 1980, inicialmente se dedicando ao comércio ambulante, porém se estabelecendo posteriormente em estabelecimentos fixos. Pode-se afirmar, que o grupo aproveitou a fase de melhoria do IDH do município, como mostrado anteriormente, quando esse passou de muito baixa (0,508), em 1991, para um alto desenvolvimento humano (0,727), em 2010. Como o bairro Santa Rita apresentava uma tendência de autonomia em relação à área central da cidade, essa melhoria foi acompanhada do crescimento dos setores de comércio e serviços localizados no bairro.
Nesse contexto de melhoria do IDH e de crescimento dos setores de comércio e serviços, os migrantes cearenses se estabeleceram em pontos determinados do bairro com diferentes estabelecimentos. Assim, foi se estruturando uma rede social ligada a esses migrantes estabelecidos no bairro Santa Rita e os bons resultados obtidos por uns serviram de incentivo para que outros viessem do Ceará para as terras mineiras. Hoje há um número considerável de cearenses residindo no bairro, embora seja difícil de se estimar a quantidade exata. Entretanto, basta destacar que, apenas entre os membros da Associação da Comunidade Cearense de Governador Valadares - ACC-GV, eram 178 associados que, no ano de 2019, residiam no bairro.
As redes sociais possuem um papel essencial para a manutenção e perpetuação dos movimentos migratórios. Tratando sobre a migração internacional, Massey et al., (1993), afirmam que a existência dessas redes aumentaria a probabilidade de o movimento migratório acontecer - o que também pode ser aplicado as migrações internas. Segundo esses autores, as redes "reduzem os custos e riscos do movimento e aumentam a expectativa de retorno com a migração. As redes migratórias constituiriam uma forma de capital social que propiciaria às pessoas terem acesso ao mercado de trabalho no exterior" (MAsSEY et al., 1993, p. 448).
Embora não tenha sido objetivo desse trabalho estudar as formas como essa rede atuou no sentido de servir de suporte a esses migrantes cearenses, pela organização do grupo, não é difícil levantar a hipótese que ela tem atuado no sentido de minimizar os riscos relativos a migração, principalmente no que diz respeito a informação sobre o local de destino e suporte no momento de chegada e durante o processo de adaptação, particularmente considerando a existência da Associação da Comunidade Cearense de Governador Valadares.
## III. Um Rápido Panorama da Origem E do DeStino
O ato de migrar é visto como um processo de desenraizamento do local de origem e um aventurar-se no local de destino. Marandola Jr. e Dal Gallo (2010) mostram que o migrar é sair de um território com o qual estamos familiarizados e no qual temos certa segurança e lançar-se no mundo, em lugares poucos conhecidos e, portanto, que se apresentam como pouco seguros.
O processo de desenraizamento original iniciado pelo movimento migratório se dá, em termos existenciais, pela alteração da territorialidade consolidada, a modificação desta relação originária self-lugar, saindo do lugar-natal, o que implica deixar os lugares de infância, juventude ou idade adulta, responsáveis pela nossa formação enquanto pessoa e sobre os quais está edificada nossa identidade. Implica, portanto, sair dos territórios da segurança e lançarse no mundo, em lugares de pouca ou nenhuma familiaridade, onde há pouco ou nenhum controle, uma das raízes da insegurança (MARANDOLA JR.; DAL GALLO, 2010, p. 410).
O migrante vive em múltiplos territórios no local de destino, buscando se reterritorializar nesse novo local que escolheu para viver. Haesbaert (1997), que estudou o processo de migração de gaúchos para às regiões do cerrado no Centro Oeste brasileiro, mostra como estes migrantes se reterritorializavam no local de destino, "colocando em questão acima de tudo a formação de "novos territórios", ou melhor, as novas formas de territorialização dos sulistas frente à desterritorialização dominante (mas não exclusiva) entre os nordestinos" (HAESBAERT, 1997, p. 28).
Os novos espaços criados ou, quando já existentes, escolhidos por esses migrantes, possibilitam que as suas práticas cotidianas continuem a ser realizadas. Para isso, "eles reproduzem os geossímbolos e a organização socioespacial de seu antigo território
Ao restabelecer os elos espaciais e identitários o grupo migrante é capaz de se enraizar e dar fundamento à sua identidade que, evidentemente, não será a mesma, pois agora são migrantes num outro lugar e não estão isentos das influências locais, incorporando-as mesmo que parcialmente (MARANDOLA JR; DAL GALLO, 2010, p. 415)
Um importante ponto de encontro e de vivência da comunidade de migrantes proveniente do estado do Ceará que se estabeleceu no bairro Santa Rita e com certeza o mais importante - é a Associação da Comunidade Cearense de Governador Valadares (ACC-GV). O projeto foi idealizado por alguns cearenses durante uma confraternização no final do ano de 2001. A ideia inicial dos seus dezenove fundadores foi a de criação de um espaço que, além de se configurar como um local de lazer e de confraternização dos associados, fosse aberto a toda a população Valadarense no sentido mostrar a essa um pouco da cultura do estado do Ceará. O terreno onde a associação está instalada fica cerca de dois quilômetros da área comercial do bairro Santa Rita, no bairro Distrito Industrial, próximo ao aeroporto municipal.
A ACC-GV foi algo pensado e trabalhado durante alguns anos até a sua fundação. Os migrantes realizaram vários encontros até chegarem a um consenso sobre o objetivo e organização da associação, o que seria oferecido a seus sócios e quem assumiria a diretoria. Sua fundação se deu no dia 16 de março de 2008, contando com a presença de autoridades políticas da cidade. Em 2010, a partir da Lei $\mathsf { n } ^ { \mathrm { o } } \ 6.160$, de dezembro de 2010, foi reconhecida pelo município de Governador Valadares como entidade de utilidade pública. A associação foi declarada de utilidade pública estadual, pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, por meio da Lei n. 23.080, de 9 agosto de 2018.
Em lista fornecida pela ACC-GV, em 26 de novembro de 2019, constavam inscritos 302 sócios, sendo que desses, 178 residiam no bairro Santa Rita $(59\% )$. Embora quase $95,0\%$ dos associados residam em Governador Valadares, como pode ser observado na Tabela 1, que a ACC-GV também possui associados residentes em outros dez municípios mineiros próximos a sede da associação e em quatro municípios do estado do Espírito Santo.
Tabela 1: Município de residência dos associados da ACC-GV em 2019
<table><tr><td colspan="2">Local de residência</td><td>Freq.</td><td>%</td></tr><tr><td rowspan="3">Governador Valadares</td><td>Governador Valadares</td><td>286</td><td>94,70</td></tr><tr><td>Bairro Santa Rita</td><td>178</td><td>58,94</td></tr><tr><td>Outros bairros</td><td>108</td><td>35,76</td></tr><tr><td rowspan="10">Outros Municipios Minas Gerais (10)</td><td>Capitão Andrade-MG</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Ipaba-MG</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Teófilo Otoni-MG</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Nova Módica-MG</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Caratinga-MG</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Mantena-MG</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Resplendor-MG</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Coluna-MG</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Ipatinga-MG</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Coronel Fabriciano-MG</td><td>3</td><td>0,99</td></tr><tr><td rowspan="4">Outros Municipios Espirito Santo (4)</td><td>Nova Venécia-ES</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Ibatiba-ES</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Alto Rio Novo-ES</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Serra-ES</td><td>1</td><td>0,33</td></tr><tr><td>Total</td><td></td><td>302</td><td>100,00</td></tr></table>
A ideia dos fundadores era a de criar um espaço de encontro e de vivência para os migrantes, onde se pudesse ser servida a comida típica cearense, contando com uma loja onde seriam comercializados produtos típicos e artesanato, além do projeto futuro da construção de um museu relacionado a comunidade cearense e sua cultura, no geral. Atualmente o espaço conta com uma área coberta, com uma cozinha, banheiros e churrasqueiras, o que possibilita que ali sejam realizadas confraternizações. A ACC-GV também oferece cursos de confecção de tapetes, toalhas e outros assessórios de cama, mesa e banho. Os cursos são abertos para associados e para a comunidade externa.
No projeto da ACC-GV, está previsto a ampliação do espaço de lazer, com as seguintes melhorias: construção de um campo de futebol, de quadras e de uma piscina. No sentido de ser um espaço também aberto à população valadarense, há a previsão de se contar, além da loja em funcionamento com os produtos regionais do Ceará, com um espaço onde possam ser realizadas apresentações de artistas locais interpretando canções de músicos cearenses (Amelinha, Belchior, Fagner, Ednardo, entre outros) e de outros estados do Nordeste. Há também o projeto de que o espaço conte com uma biblioteca, onde estejam estivessem disponíveis obras literárias de escritores nordestinos. Enfim, o espaço foi pensado e está sendo construído visando que a cultura do Ceará e, de modo geral a nordestina, sejam expostas e vivenciadas pela comunidade cearense e por toda a população de Governador Valadares. A ACC-GV seria um pedaço do Ceará em Minas Gerais.
Fica claro a intensão de utilizar a associação como um instrumento de reterritorialização dos migrantes, como se pode ver e ler na página da ACC- $\mathsf { G V } ^ { 10 }$, ao apresentar a bandeira da entidade, na qual se fundem as bandeiras do Ceará e de Minas Gerais, acompanhada do poema Construindo um Ceará, da associada e uma das fundadoras, Verônica Oliveira Lima. O poema é dividido em duas partes distintas. A primeira trata da saudade do Ceará, a exemplo de "Canção do Exílio", escrito pelo maranhense Gonçalves Dias, em 1843, quando era estudante de Direito na Universidade de Coimbra, Portugal. Verônica tem "saudade no coração" da terra que está distante e começa constando que se encontra "em terra estranha", porque está "Ionge" do seu sertão. Na segunda parte ela apresenta a solução para essa saudade, que é construir no destino sua terra de origem.
Sua terra é o Ceará e é nele que se encontra a felicidade, daí ela afirma "Feliz é o filho que sonha/Aos braços da mãe voltar/E os mares do Ceará/Hão de me banhar o peito". Isso porque somente pode ficar satisfeito aquele que retorna um dia para sua terra. É no Ceará "que tudo anima a gente". Aí a autora lista a chuva quando cai, a fogueira junina, o cultivo da terra. A saudade é tanta, que ela diz "chega a ficar duído", pois a autora duvida que exista melhor lugar para se viver. Portanto, seu projeto, como o de Gonçalves Dias, é voltar para sua terra: "Volto antes deu morrer/Pois lá ficou meu umbigo".
Na segunda parte, ela propõe um projeto para os cearenses que vieram morar "Aqui nas Minas Gerais". Um projeto que deve ser realizado, enquanto não for possível voltar: "Em edificar aqui; Um pedacim do Ceará". Isso é possível porque "Cearense tem demais/Já tem forró e baião /Tem até associação/E o que faltar a gente faz. / É construindo um Ceará/Aqui nas Minas Gerais".
Como foi dito, a bandeira da ACC-GV também transmite a ideia de recriar um território cearense dentro do estado de Minas Gerais, porém também demonstra a adesão a nova terra, a reterritorialização realizada com sucesso, visto que se promove a hibridização das bandeiras dos dois estados. Esse mecanismo simbólico é significativo, pois indica que não é uma simples transposição ou um saudosismo superficial, mas um elaborado mecanismo de ressignificação na nova terra sem deixar as raízes da origem. Como pode ser visualizado na Figura 3, a bandeira é formada por uma composição na qual o brasão existente no centro da bandeira do Ceará, cujo fundo é verde, é colocado no centro do triângulo vermelho da bandeira de Minas Gerais. Em torno do triângulo vermelho, em vez dos dizeres que aparecem na bandeira mineira (Libertas quae sera tamen), temos o nome da associação.
Como já destacado anteriormente, Marandola Jr. e Dal Gallo (2010) apontam que a migração implicaria na desestabilização ser-lugar, com o migrante perdendo a segurança proporcionada pelo seu local de origem, que faz parte da sua própria existência enquanto ser, para se aventurar em lugares desconhecidos, o que gerará a sensação de insegurança. Segundo os autores,
A necessidade por parte do migrante de preservar sua personalidade, sua identidade e voltar a ter a sensação do pertencimento leva a um gradual e contínuo processo de edificação de "lugares próprios", os quais permitem ao migrante enraizar-se. Estes lugares e suas articulações são, na verdade, o território dos migrantes. Esses lugares se configuram como base e fundamento das redes sociais estabelecidas por eles (MARANDOLA JR.; DAL GALLO, 2010, p. 412).
 Fonte: Site da ACC-GV Figura 3: Bandeira da Associação da Comunidade Cearense de Governador Valadares
Ao se estudar a experiência da comunidade cearense residente no bairro Santa Rita, na cidade de Governador Valadares, se constata que essa buscou construir esses lugares próprios. Ainda segundo Marandola Jr. e Dal Gallo (201o), o migrante irá construir uma nova rede de relacionamentos ligada a esses locais específicos, o que aumentará gradativamente a sensação de segurança, levando-o a enraizar-se no local de destino. Essa nova rede geralmente é constituída a partir da rede migratória que o trouxe para algum determinado lugar.
O papel das redes no fenômeno migratório permite entender a dimensão estrutural das escolhas e motivos da migração. Por outro lado, a partir das redes sociais, é possível compreender também o capital simbólico e material a que o migrante tem acesso no local de destino. É neste sentido que pensamos o papel da rede social e suas relações com a territorialidade e os lugares migrantes: em que medida elas conseguem diminuir o impacto da ruptura com o lugar de origem, em termos familiares, culturais e existenciais? (MARANDOLA JR.; DAL GALLO, 2010. p. 412).
Também Haesbaert (1997, p. 92) destaca o papel fundamental das redes sociais como "malha cada vez mais globalizante dentro da qual os territórios podem se tornar meros pontos, ou seja, momentos ou parcelas elementares das redes".
Respondendo à questão formulada por Marandola Jr. e Dal Gallo, pelo até aqui apresentado, é fácil perceber entre a comunidade cearense de Governador Valadares a importância da ACC-GV como um desses lugares próprios no processo de reterritorialização desses migrantes e, ao visitarmos esse lugar é impossível não perceber a importância da rede social criada, no sentido de minimizar para o migrante os riscos inerentes a todo processo migratório, como também de, dentro do contexto traumático de ruptura com o lugar de origem, possibilitar a identificação desse no local de destino, não apenas pela presença de seus conterrâneos - gente que compartilha os mesmos hábitos e costumes -, mas também pela criação de lugares, onde esses hábitos e costumes deixados para trás, possam ser revividos. Voltando ao poema apresentado anteriormente: "E o que faltar a gente faz. É construindo um Ceará aqui nas Minas Gerais".
Vale ressaltar a intensa multiterritorialidade vivenciada por esses migrantes, que estão completamente reterritorializados no município que, longe de seus locais de origem, escolheram para viver, mas recriam no destino laços de identidade com a sua terra natal. Esses migrantes estão de forma material e simbólica ligados a ambas territorialidades: a do território que escolheram para viver, em Minas Gerais, e a do território que deixaram no Ceará.
## IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Migrar sempre se apresenta como uma oportunidade para a maioria dos seres humanos, quando não se trata de migração forçada por diferentes motivos (ambiental, econômico, político, conflito militar, desastres etc.). A oportunidade de migrar e a decisão de partir raramente é tomada de forma isolada, por um único indivíduo, a partir do uso de sua racionalidade. Normalmente envolve outras pessoas, sejam elas familiares ou amigos. Ao escolherem um novo local para residirem, o migrante imagina que esse oferece as condições almejadas. Eles carregam consigo as suas territorialidades - constituídas no seu local de origem e, como ressaltam Espindola et al. (2018, p. 22), levam também "outros seres, alguns escolhidos para irem junto, outros que vão escondidos na sua bagagem".
A migração que ocorreu e que ainda ocorre entre o estado do Ceará e o município de Governador Valadares é, antes de tudo, movida pelo mercado de trabalho e pelas redes sociais que se formaram entre os migrantes que aqui chegaram. Alguns migrantes que aqui primeiro chegaram, e se consolidaram, acabaram por motivar outros a fazerem o mesmo processo, sendo que muitos escolheram o bairro Santa Rita como local para estabelecerem suas novas residências, comércio e atividades laborais. Desse movimento nasceu uma comunidade cearense que deu origem à ACC-GV. Os pioneiros não apenas incentivaram a migração, como apoiaram esses novos migrantes, oferecendo − condições para trabalharem como vendedores ambulantes ou em outros tipos de atividades. Com o aumento da presença desses cearenses no bairro Santa Rita, esses passaram a construir pontos de referência culturais/simbólicas de sua comunidade dentro do bairro ou próximos desse, que foram identificados nas caminhadas.
A comunidade cearense criou espaços dentro do bairro e próximos a ele, reproduzindo nesses a sua cultura e mantendo viva a sua identidade. Essa nova configuração é percebida pela população do bairro onde a comunidade está inserida. Antes não tão conhecidos, hoje esses espaços estão presentes e são, antes de tudo, planejados para serem espaços de convivência não apenas para a comunidade cearense, mas também para todos aqueles que desejam conhecer, aprofundar e participar de projetos desenvolvidos pela comunidade de migrantes ou que simplesmente desejem conhecer um pouco da cultura dessa comunidade.
No processo de reterritorialização, o migrante acaba criando um território com características híbridas, vivendo uma constante multiterritorialidade. Ele mantém os vínculos identitários e a comunicação com o Ceará, seu local de origem, ao mesmo tempo que experimenta todas as territorialidades do local que escolheu para viver, no caso, Governador Valadares.
Aqui em Minas Gerais, eles buscaram criar ou se apropriar simbolicamente de espaços onde podem se encontrar, vivenciar a sua cultura e, de certa forma, se sentirem mais perto do Ceará. Nesses locais, até mesmo na forma de conversar com as pessoas, o sotaque parece mais carregado com palavras que muitas vezes somente os cearenses conhecem. Como no poema que se encontra no site da ACC-GV e que é mencionado anteriormente nesse trabalho, os indivíduos dessa ativa comunidade se sentem "construindo um Ceará aqui nas Minas Gerais".
Obviamente este trabalho não tem a pretensão de esgotar o tema por ele abordado. A identificação dos lugares e os elementos culturais e simbólicos que estão ligados ao processo de reterritorialização dos migrantes cearenses, representa uma primeira e modesta contribuição no estudo das características, particularidades e história desse grupo, que somados aos outros migrantes vindos de outros estados do Nordeste, representam uma parcela significativa da população do município. Novas pesquisas se fazem necessárias para melhor caracterizar esses migrantes e o processo de reterritorialização deles em Governador Valadares. Entretanto, como não se deve medir a relevância de um trabalho apenas pela quantidade de respostas por ele alcançadas, mas também pelas novas questões por ele suscitadas, espera-se que este estudo contribua para aumentar o interesse de outros pesquisadores por este objeto de estudo tão rico e interessante.
[^1]: Essa presença de cidadãos dos EUA em Governador Valadares era decorrente dos Acordos de Washington que previram o programa de _(p.1)_
[^2]: Para se avaliar o impacto da emigração em Governador Valadares, basta ressaltar que entre os dez municípios brasileiros com maior número de emigrantes internacionais, de acordo com os dados do Censo Demográfico de 2010, o município ocupava a sétima posição, dentro de um grupo no qual só figuraram capitais de estados (SIQUEIRA, SANTOS, 2012). - Microrregião de Governador Valadares era composta por 25 municípios: Alpercata, Campanário, Capitão Andrade, Coroaci, Divino das Laranjeiras, Engenheiro Caldas, Fernandes Tourinho, Frei Inocêncio, Galiléia, Governador Valadares, Itambacuri, Itanhomi, Jampruca, Marilac, Nacip Raydan, Nova Módica, Pescador, São Geraldo da Piedade, São Geraldo do Baixio, São José da Safira, São José do Divino, Sobrália, Tumiritinga, Mathias Lobato e Virgolândia. A partir de 2017, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou a utilizar uma nova divisão territorial brasileira na qual as antigas microrregiões foram substituídas pelas regiões geográficas imediatas, continuando Governador Valadares e ser um polo, mas perdeu cinco municípios para Teófilo Otoni e recebeu seis novos municípios _(p.1)_
[^4]: Considerando o quesito de data fixa, ou seja, indivíduos que foram recenseados em 2010 em um município mas que, em 2005, residiam em outro. _(p.1)_
[^5]: O Estado possui uma área de $1 4 8. _(p.2)_
[^8]: Além da BR 116, a cidade de Governador Valadares é cortada pela BR 381, que liga o município a capital do estado, Belo Horizonte (distante $3 2 4 \ \mathsf { K m } _ { \mathsf { \Lambda } } ^ { \prime }$, e a cidade de São Paulo; no seu outro terminal com o norte capixaba. A cidade também é cortada pela BR 259, que liga a cidade ao Espírito Santo e ao centro do estado de Minas Gerais, até encontrar a BR 040, ao norte Belo Horizonte, ligando a cidade a Brasília. _(p.3)_
[^9]: O setor industrial foi responsável por $1 1 \mathrm { {, } } 2 \%$ do valor adicionado bruto e o agropecuário por apenas $0 {, } 6 \%$. O PIB per capita no ano do município foi de R$20.957,24, $23 \%$ menor que o de Minas Gerais (R$27.282,75), mas $2 5, 7 \%$ maior que o da região geográfica imediata (R$16.666,30) e $4 1, 8 \%$ maior que o da região geográfica intermediária (R$14.782,16). _(p.4)_
This study seeks is a research on the migration of Cearenses to the municipality of Governador Valadares-MG, known for being an international emigration center. Bibliographical and documentary research and a field work are its methodology. The outcome of this research shows that the Ceará’s community created spaces, reproducing its original culture and keeping its own identity alive. These migrants created a territory with hybrid characteristics, living in a constant multiterritoriality.
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