In recent decades, the publishing market and the classroom have sought to accept the demands defended by social movements regarding the promotion of affirmative actions in favor of equality and diversity. In this context, issues of gender, race, as well as female representation in different spaces stand out. In this sense, this research aims to analyze the representation of gender equality on the covers of four children’s books published by Boitatá, the children’s seal of Boitempo Editora, based on the foundations of Multimodal Social Semiotics (KRESS; VAN LEEUWEN, 1996) which conceives language as a semiotic system of choices and is not restricted only to the linguistic semiotic mode, but to other semiotic modes, such as the visual. As for the methodological categories of analysis, the visual metafunctions proposed by the Grammar of Visual Design were adopted, precisely the representational, interactive and compositional meanings.
## I. INTRODUÇÃO
estímulo à literatura no período da infância é essencial para a construção de uma prática leitora na vida adulta. É também na fase infantil que se inicia a formação de valores e da visão de mundo do indivíduo. Com efeito, a leitura engajada com questões ligadas a[^1] representações sociais1, que serão vivenciadas por este indivíduo no decorrer da vida, deve ser estimulada desde a infância.
Conforme discutido por Martins e Carvalho (2023), são recentes e embrionárias as pesquisas acadêmicas no contexto brasileiro voltadas para o estudo da representação feminina e da igualdade de gênero em obras infantis, sob um ponto de vista problematizador, em termos de rompimento de antigos paradigmas tradicionalmente estabelecidos em nossa cultura.
Uma pesquisa bibliográfica feita por Canazart e Souza (2017) evidenciou como o mercado editorial do século XXI se destaca pelo lançamento de obras literárias marcadas pelo questionamento dos estereótipos ligados à discussão de gênero. Em se tratando do cenário editorial brasileiro, o surgimento de obras com esse enfoque é, inclusive, relativamente recente.
Atualmente, questões políticas, de gênero, de classe, de etnia, entre outras, também ganharam espaço no mercado brasileiro de edição de livros infantis.[^2] Como difusora dessas questões, a editora Boitempo2 se destaca pelo seu selo infantil Boitatá, lançado em 2015. Buscando dar continuidade aos trabalhos realizados pela casa editorial, a Boitatá aposta no potencial e na inteligência das crianças, comprometida com a missão de "promover, por meio da literatura, o aprendizado, o pensamento crítico e a construção de u senso de justiça social" nos pequenos (BOITATÁ, 2021).
Dada a importância da linguagem visual na sociedade contemporânea e, sobretudo, na leitura de mundo das nossas crianças, identificamos um nicho de pesquisas ainda incipiente[^3]3 no que se refere a estudos com enfoque nas representações envolvendo igualdade de gênero em obras literárias infantis, sob a ótica da multimodalidade, mais precisamente, da gramática do design visual (KRESS; VAN LEEUWEN, 1996).
Em virtude disso, acreditamos que este estudo pode ser relevante ao contribuir para a ampliação das pesquisas envolvendo a interface teórica entre Semiótica Social Multimodal e Igualdade de Gênero no contexto da Literatura Infantil, por meio da análise de como a igualdade de gênero é representada nas capas de quatro livros publicados pelo selo editorial Boitatá, a partir dos recursos semióticos visuais nelas configurados.
## II. Algumas Notas Sobre Feminismo, GÊNero, INFÂNCIA E EDUCAÇÃo
Em se tratando de estudos de construção de gênero na infância, Cagnin e Spaziani (2022) salientam a existência de diversos investimentos sociais para que pessoas plurais correspondam às expectativas binárias de gênero.
As autoras chamam de "Pedagogia de Gênero" todo processo de regulação da feminilidade nas crianças. Segundo elas, essa regulação é reproduzida por grupos, instituições, artefatos culturais, publicitários e midiáticos, de maneira explícita ou velada, ensinando a meninas, desde cedo, que ser mulher é acordar com os padrões impostos socialmente.
Os artefatos culturais voltados às infâncias também são pedagogias de gênero. Filmes, animações, músicas e livros transmitem imagens de controle indicando uma aparência ideal às meninas e mulheres, relacionada à jovialidade, magreza e branquitude, assim como expectativas em torno de seus comportamentos (CAGNIN; SPAZIANI, 2022, p.126).
Utilizando do conceito proposto por Joan Scott, neste artigo, entendemos por 'gênero' o "elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e [...] uma forma primária de dar significado às relações de poder" (SCOTT, 1995, p. 85).
Assim como tudo o que é construído socialmente é constituído por partes e seus entrelaçamentos, partimos, portanto, da possibilidade da reformulação dessas partes, bem como do reestabelecimento de diferentes relações e ligações entre estes símbolos impostos socialmente.
Sendo assim, Cagnin e Spaziani denominam de "pedagogias feministas" os movimentos teóricos e práticos que consideram a dimensão social na construção de gênero, bem como as relações de poder desiguais decorrentes de tal processo, tendo como horizonte ético-político a transformação social.
Fróis (2020) afirma que a construção da expressão de gênero perpassa por diversas linhas de tensão em constante operação, por haver diferentes discursos e modos de ser homem e mulher sobre os quais as crianças são expostas. Além disso, a autora salienta a importância da escola nesse processo.
No ambiente escolar, a criança encontra discursos diversos a se aglomerarem no processo dialógico: os ditos das famílias, das educadoras, os que estão presentes nas atividades realizadas, nas práticas do brincar, na relação com outros meninos e meninas (FRÓIS, 2020, p. 13).
Considerando as normas que regem o âmbito escolar brasileiro, faz-se importante abordar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB)4, que dispõe em seus incisos os princípios pelos quais o ensino deve ser baseado. Nessa perspectiva, a LDB define que deve haver pluralismo de ideias e concepções pedagógicas; liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; bem como a vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.
No âmbito da educação infantil, por sua vez, é pertinente notar as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEl). Os seus princípios apontam para novas formas de se construir a própria subjetividade e o rompimento com as formas de dominação, dentre elas, a dominação de gênero.
Ao pesquisarmos pela palavra "gênero", encontramos 320 ocorrências do termo no texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que visa a normatizar e definir o conjunto orgânico e progressivo de competências a serem desenvolvidas por estudantes ao longo das etapas e modalidades da educação básica no Brasil. Dada a importância deste documento, os docentes buscam, nele, o amparo e o direcionamento de suas práticas em sala de aula. No entanto, em todas essas correspondências, a palavra "gênero" se refere a gêneros textuais, literários, discursivos, multissemióticos, multimidiáticos ou digitais o que indica o silenciamento do debate em torno do assunto por parte da BNCC.
Sendo assim, mesmo que a LDB e as DCNEl apontem para o rompimento com as formas de dominação de gênero, o professor de educação básica não encontra o acolhimento necessário e desejado nas bases nacionais para trabalhar tais conteúdos na sala de aula.
Face a essa conjuntura, este trabalho busca contribuir para docentes de educação básica e pesquisadores de gênero e de infância que desejam trabalhar essa questão com seus alunos e ampliar os horizontes dos pequenos em relação à temática, acreditando na formação de uma sociedade mais justa e igualitária.
## III. A SEMiótiCA SOCIal Multimodal E aS CATeGOriaS Da GRaMÁticA DO Design Visual
Este estudo se fundamenta na Semiótica Social Multimodal, ao recorrer às categorias propostas pela Gramática do Design Visual (GDV), formulada por Kress e van Leeuwen (1996). Trata-se de um método de análise descritiva e sistemática da linguagem visual formulado para investigar os significados construídos por padrões de experiência representados em composições visuais. Dessa perspectiva, concebem as estruturas visuais como passíveis de interpretações particulares da experiência e de formas de interação social, assim como as estruturas linguísticas. Ademais, os autores partem da noção de texto como um fenômeno multimodal, isto é, como harmonicamente orquestrado por outros modos semióticos para além do verbal, a fim de produzir um determinado sentido.
A vertente teórica na qual a GDV se assenta é a Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), proposta pelo linguista britânico Michael Halliday, na década de 1960. Nessa seara, a linguagem é concebida pela LSF como uma semiose social, isto é, a língua é vista como um sistema estratificado de significados à disposição dos usuários para que possam realizar trocas e negociações de sentidos de modo a cumprir diferentes funções em contextos socialmente situados (MARTINS; CARVALHO, 2023, p. 209). Uma das grandes dimensões semióticas globais dessa teoria é a dimensão da metafunção - funções complexas que organizam o próprio sistema linguístico, sistematizadas por meio da gramática sistêmico-funcional (GSF). Nesse sentido, segundo Halliday (1985), todo texto, em qualquer cultura, realiza ao mesmo tempo estas três funções: metafunção ideacional (construção e articulação de experiências externas e internas ao indivíduo), metafunção interpessoal (avaliação e negociação) e metafunção textual (coesão e composição).
Influenciados pela LSF e pela visão sociossemiótica de Halliday é que os linguistas Gunther Kress e Theo van Leeuwen (1996) estenderam a perspectiva metafuncional da linguagem para o âmbito das imagens com a GDV, adequando as metafunções da GSF para o modo semiótico visual, que passaram a ser denominadas: metafunção representacional (representação de experiências), metafunção interativa (configuração de diferentes tipos de interações sociais entre os participantes) e metafunção composicional (organização da estrutura visual, hierarquização da leitura, coesão e coerência entre as informações).
Os significados representacionais são instanciados a partir de um conjunto de escolhas que representam os participantes e as suas ações e/ou relações com outros participantes, bem como as circunstâncias nas quais são representados.
Na GDV, Kress e van Leeuwen (2006 apud SILVA; CARVALHO; CONDE, 2019, p. 211-212) identificam duas estruturas possíveis de representação imagética: a representação narrativa, na qual os participantes estabelecem relações entre si e participam em eventos e ações, ou seja, estão envolvidos em processos de transformação; e a representação conceitual, que descreve os participantes como eles/as são, em termos de classe, estrutura e/ou significado, isto é, em termos de uma essência percebida, que é estabilizada e tornada intemporal, conforme pode ser observado na Figura 1:
 Fig1 Metafunção representacional e suas categorias principais.
Já os significados interativos expressam diferentes tipos de interação e relações de poder entre os participantes da imagem e seus espectadores, por meio do contato visual (oferta ou demanda), da distância social (primeiro plano, plano médio ou plano geral) e do tipo de atitude (ângulos horizontais e verticais). A Figura 2 traz uma síntese de tais recursos:
 F Metafunção interativa e suas categorias principais.
Os significados composicionais, por sua vez, se referem à forma pela qual os elementos do layout são integrados a fim de conferir-lhes coesão, coerência e importância, a partir de três sistemas inter-relacionados: valor informacional (relações Dado/Novo, Ideal/Real, Centro/Margem), saliência (disposição das informações visuais em primeiro plano;
tamanho relativo; perspectiva; contrastes de tonalidade ou cor; diferenças de brilho etc.) e moldura (graus de conexão ou desconexão visual entre os elementos ou grupos de elementos dispostos na página). A Figura 3 apresenta um esquema de tais recursos:
 Fig. 3: Metafunção composicional e suas categorias principais.
Feita essa breve descrição das categorias da GDV, a próxima seção demonstra como podem ser aplicadas com a finalidade de realizar uma leitura visual das representações de igualdade de gênero nas capas dos livros infantis da Boitatá.
princesa (2019) e Julián é uma sereia (2021) - todos ilustrados por mulheres. A Figura 4 abaixo apresenta a imagem da capa e a ficha técnica de cada uma das obras em questão:
## IV. ANALISANdO aS REPRESENTAÇÕES DE Igualdade de Gênero Nas Capas Dos Livros do Selo Boitatá
Conforme já mencionado, este estudo se debruça sobre a análise de quatro capas de livros publicados pela Boitatá, quais sejam: As mulheres e os homens (2016), Pode pegar! (2017), Lute como uma
 Autoria: Equipo Plantel llustrações: Luci Gutiérrez Ano: 2016 Faixa etária: 6 anos
 Autoria e llustrações: Janaína Tokitaka Ano: 2017 Faixa etária: livre
 Autoria: Vita Murrow trações: Julia Bereciartu Ano: 2019 Faixa etária: 7 anos
 Autoria e llustrações: Jessica Love Ano: 2021 Faixa etária: 4 anos Fig. 4: Corpus de análise.
Na capa do livro As Mulheres e os Homens, um homem e uma mulher são mostrados em plano geral de mãos dadas, rostos próximos, trajando uma vestimenta que, supostamente, contrariaria padrões tradicionalmente estabelecidos em nossa cultura para os gêneros masculino e feminino: aquele, usando vestido e lenço no pescoço; esta, terno e gravata. Tratase de uma estrutura narrativa transacional bidirecional, ou seja, homem e mulher são apresentados como elementos centrais da página, ao mesmo tempo, como Ator e Meta, em relação de igualdade e como informação principal e mais saliente.
A comunhão e a igualdade entre ambos se dá, ainda, pela rima visual das cores branca, vermelha e preta, presentes em suas roupas - escapando, portanto, da dicotomia azul para meninos e rosa para meninas -, bem como por estarem de pé, com braços em posições parecidas, frontalmente olhando e sorrindo para o leitor, demandando dele engajamento com a causa e com ele construindo uma relação de envolvimento e despida de qualquer assimetria de poder.
Em relação ao título, cumpre salientar a topicalização verbal do léxico "mulheres", ao passo que na imagem, o homem aparece em primeiro lugar, à esquerda, e vice-versa, reforçando a ideia de bidirecionalidade dos papéis sociais de ambos os gêneros. Quanto à tipografia, a escolha de uma fonte serifada, em caixa alta, regular, dotada de inclinação e orientação vertical, remete a uma identidade associada à proatividade, à altivez, à robusteza, à persistência, o que parece fortalecer a luta pela igualdade de gênero e combater pensamentos sexistas presentes em nossa sociedade.
Já a capa do livro Pode Pegar! apresenta uma coelha jogando seus sapatinhos para um coelho. Tratase de uma estrutura narrativa, precisamente uma ação transacional unidirecional, em que a coelha é Agente do processo, e o coelho, a Meta, o participante alvo da ação, que recebe os sapatos - apresentando, desse modo, a figura masculina numa posição de subserviência em relação à figura feminina, representada como agente, dotada de poder de transformação sobre ele.
Cabe assinalar, inclusive, que o título da obra parece complementar a representação visual, já que pode ser compreendido como a fala da coelha para o coelho: "Pode pegar!" [os meus sapatinhos de salto]. Por outro lado, em termos de tipografia, é feita uma associação com coelho, já que há uma rima visual construída em função da cor azul presente tanto no título como no colete do coelho. Ademais, a presença de uma fonte em caixa alta, sem serifas, com inclinação e orientação verticais, sugerem a força, a importância e o poder do enunciado supostamente proferido pela coelha.
Por meio de um plano geral e de um ângulo oblíquo, o coelho, que usa um colete azul é mostrado à esquerda; a coelha, que usa saia rosa, à direita, ambos sem estabelecer contato visual com os leitores. Desse modo, a interação entre os participantes representados é que figura como objeto de nossa contemplação, sendo que a ação praticada pela coelha é que aparece como informação nova, provavelmente contestadora dos valores sociais dados, tradicionalmente consolidados, ao oferecer seus sapatos para o coelho. Dessa maneira, temos a impressão de que a dicotomia rosa associado ao gênero feminino versus azul associado ao gênero masculino aparece constantemente em jogo na representação, sugerindo que ambas as cores "podem" ser usadas independentemente do nosso gênero.
Em se tratando da capa do livro Lute como uma princesa, as personagens Bela e Branca de Neve posam de uma maneira diferente da que tradicionalmente conhecemos nos contos de fadas. Localizadas como elementos centrais da capa e encostadas de pé em uma árvore, Bela aparece com o cabelo preso por um laço verde, usando uma jaqueta policial com o brasão "Polícia do Reino" sobre um vestido amarelo, segurando uma rosa vermelha em posição invertida, com uma das pétalas a cair. Branca de Neve, por sua vez, usa calça jeans, uma blusa verde com detalhes em amarelo e vermelho, e está comendo uma maçã vermelha. Trata-se de uma estrutura conceitual simbólica, na qual os atributos, as vestimentas e a postura adotadas pelas participantes cumprem a função de representá-las com uma nova identidade: a de mulheres associadas tanto ao universo do trabalho, como à luta contra a sociedade conservadora. Ambas as personagens são apresentadas como tendo o controle sobre os elementos simbólicos que tradicionalmente associados à maldição: a rosa e a maçã. Em termos de vestimenta, ambas usam jeans, cuja gênese se vincula historicamente a uma peça utilizada pelos jovens como símbolo de resistência contra a sociedade conservadora.
O enquadramento das participantes por meio do plano médio e do ângulo oblíquo, olhando para a criança leitora, parece dela aproximar-se, convocandoa a engajar-se ao seu mundo e às causas por elas defendidas, quais sejam, a coragem e o culto à beleza interior.
Ademais, o predomínio de tonalidades mais frias, como o azul, o lilás, marrom e preto, bem como das formas angulares, tanto nos atributos e poses das personagens como no cenário onde se encontram, contribui para representá-las associadas a valores tradicionalmente masculinos, tais como força, proteção, agenciamento e determinação.
Com efeito, cabe enfatizar a ausência da cor rosa para caracterizar as princesas, afastando-se de qualquer ideia de doçura ou artificialidade, e a prevalência da cor vermelha na capa, talvez, associada a atributos que remetam à sua força, coragem e resistência.
Quanto ao título, destacado em tonalidade dourada, podemos observar a fusão entre valores tradicionais e valores progressistas: por um lado, o estilo clássico, caligráfico e feminino vinculado ao léxico "princesa", por outro, o estilo moderno, funcional, industrial do termo em caixa alta "Lute como".
Na capa da obra Julián é uma sereia, por seu turno, o protagonista figura individualizado, em plano geral, aparentemente na calçada de uma rua, com lábios pintados de vermelho, trajando uma espécie de saia branca comprida e um arranjo de flores na cabeça, com uma das mãos na cintura e outra posicionada para cima. Trata-se de uma estrutura conceitual simbólica, em que a postura e os atributos associados ao protagonista cumprem a função de reforçar a sua identidade. Ou seja, um menino que se veste altivamente como menina, mas que ultrapassa as dicotomias azul, figurada no chão onde pisa e rosa, presente nos muros atrás dele. Tal representação parece evocar significados de paz e pureza, em virtude da cor branca usada por ele como vestimenta que, inclusive, é também empregada nas cores do título, reforçando essa sua identidade.
Situado ao lado direito da página e mostrado por meio de um ângulo oblíquo e de olhos fechados, a identidade de Julián é evocada como uma informação nova, ainda não consensualmente estabelecida em nossa sociedade, apenas como objeto de contemplação do leitor, sem com ele estabelecer qualquer tipo de interação, como se ambos pertencessem a mundo distintos.
O título do livro, por sua vez, aponta para uma construção declaradamente categórica, no sentido de afirmar a identidade de Julián, não permitindo a possibilidade de questionamentos ou vozes dissonantes, corroborando a postura altiva de sua representação visual.
Assim como na obra As Mulheres e os Homens, foram adotadas escolhas tipográficas providas de fonte serifada, em caixa alta, regular, com inclinação e orientação vertical, bem como uma espécie de floreio na letra S, remetendo a uma identidade associada, ao requinte, à elegância, a um toque de feminilidade e ao empoderamento, na tentativa de estabelecer outras representações possíveis de gênero em nossa sociedade.
Por fim, quanto ao layout, podemos apontar para uma tendência de padronização da localização do título da obra, geralmente situada no domínio superior, evocando os ideais e a proposta da estória, bem como do logotipo do selo Boitatá, no canto inferior direito, sugerindo a inclinação da empresa para o campo da prática, da ação e da contestação de valores sociais estabelecidos.
## V. CONSIDERAÇÕeS FINAIS
A análise ora realizada aponta para reflexões significativas em torno das possibilidades de representação da igualdade e da diversidade de gênero nas capas das obras. Com efeito, é possível notar, em todas as capas, a quebra de padrões, contestação de valores impostos, bem como ideais ligados à criatividade, liberdade e aceitação.
Estes significados são reforçados pelas escolhas das vestimentas das figuras representadas: em As Mulheres e os Homens, pela inversão dos trajes; em Pode Pegar! pelas cores das vestimentas; em Lute como uma princesa pela escolha de roupas que transgridem o padrão estabelecido, assim como em Julián é uma sereia.
Os atributos escolhidos para representar as princesas, assim como os de Julián, permitem uma aproximação entre as duas obras em relação ao rompimento com os padrões pré-estabelecidos do que é dito masculino e feminino. Com sua criatividade, Julián evoca delicadeza em sua saia e em suas flores; já as princesas carregam robustez e contestação ao usarem o jeans. Ademais, essas duas obras conversam entre si pela escolha da estrutura conceitual simbólica ao representar as personagens da capa, sugerindo a necessidade de afirmação de identidade por parte deles, identidades essas transgressoras. Este fenômeno acontece, também, em As Mulheres e os Homens.
Outra comparação relevante se dá em relação à dicotomia de cores (rosa x azul, verde x vermelho) em Pode Pegar! e As Mulheres e os Homens, direcionando para a liberdade de escolha do espectador em relação a esta simbologia tão polêmica®, principalmente, no contexto brasileiro.
Cumpre salientar que a composição das imagens, precisamente em termos de valor informacional parece posicionar os leitores de diferentes maneiras, seja pela comunhão entre os gêneros, contestação de valores impostos socialmente, afirmação de identidade e empoderamento. As obras As Mulheres e os Homens e Lute como uma princesa fazem uso da centralização das figuras representadas, enquanto Pode Pegar! e Julián é uma sereia exploram a polarização das capas. Nas capas em que as figuras aparecem de modo central, as personagens se tocam, trazendo a ideia de fusão, de pertencimento. Já nas restantes, o distanciamento (dos coelhos) e a solitude7 (de Julián) indicam a necessidade de diferenciação e singularidade das personagens, conferindo ênfase ao caráter novo dessas outras possibilidades de representação de gênero.
Desse modo, os principais resultados deste estudo apontam para a transgressão de padrões imagéticos machistas de representação de crianças, homens e mulheres; para a promoção da independência por parte das crianças leitoras em relação às escolhas feitas por elas; bem como para a necessidade do olhar de docentes para obras que abordem a representação da diversidade de gênero de forma mais inclusiva e plural.
Concluímos, assim, que as obras analisadas e comercializadas pela Boitempo Editora, além de cumprir com as ideias defendidas pela casa editorial, permitem abordar a igualdade de gênero por meio de diferentes recursos semióticos visuais - sejam eles subversivos em relação às desigualdades de gênero, sejam fomentadores de empoderamento. Dessa forma, por meio da utilização destas obras em sala de aula, é possível que haja a reformulação tanto do que se entende por gênero como das práticas simbólicas em relação aos papéis de gênero impostos socialmente às crianças.
Destarte, os docentes conseguiriam explorar, por meio de análises discursivas e multissemióticas, as diferentes construções de gênero existentes na sociedade, bem como permitir que os discentes tenham acesso a diferentes discursos e valores a respeito da temática, contribuindo para a autonomia, o pensamento crítico e a construção de um senso de justiça social nos pequenos.
Dado o exposto, é possível afirmar que o enfoque teórico-metodológico da Semiótica Social Multimodal e da Gramática do Design Visual se mostra produtivo para a realização de outras futuras pesquisas voltadas para a ampliação das discussões em torno de gênero em sala de aula e a construção de uma sociedade livre e igualitária.
[^2]: Fundada em 1995 por Ivana Jinkings, filha do livreiro e intelectual comunista Raimundo Jinkings, a Boitempo é reconhecida em todo o Brasil como “a casa do pensamento crítico", ao assumir um posicionamento abertamente de esquerda e promover debates a respeito de diversos temas discutidos atualmente na sociedade. _(p.1)_
[^3]: Dentre as poucas pesquisas com esse enfoque encontradas em uma busca no Google Acadêmico, encontramos os trabalhos de Rafael e Maia (2022) e Martins e Carvalho (2023). _(p.1)_
[^5]: Em sua gênese, o uso do jeans estava associado a atividades que necessitavam de segurança, como o trabalho em fábricas ou em da Segunda Guerra Mundial. Foram os meios de comunicação que o transformaram em uma peça utilizada pelos jovens como símbolo de resistência contra a sociedade conservadora (NEPOMUCENO; SILVA, 2017). _(p.6)_
[^29]: out. 2023. _(p.2)_
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References
21 Cites in Article
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Boitatá (2021). Catálogo Boitatá.
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É Fróis (2018). A construção da expressão de gênero na infância: do gesto à palavra.
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F Rafael,D Maia (2022). Leitura das ilustrações de "Barbazul" de Anabella López e os novos significados desse conto na contemporaneidade Kiri-kerê: Pesquisa em Ensino.
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Janaina Tokitaka (2017). Pode pegar! São Paulo: Boitempo.
E Veiga (2023). Dia das Crianças: como a ideia de infância mudou ao longo do tempo.
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In recent decades, the publishing market and the classroom have sought to accept the demands defended by social movements regarding the promotion of affirmative actions in favor of equality and diversity. In this context, issues of gender, race, as well as female representation in different spaces stand out. In this sense, this research aims to analyze the representation of gender equality on the covers of four children’s books published by Boitatá, the children’s seal of Boitempo Editora, based on the foundations of Multimodal Social Semiotics (KRESS; VAN LEEUWEN, 1996) which conceives language as a semiotic system of choices and is not restricted only to the linguistic semiotic mode, but to other semiotic modes, such as the visual. As for the methodological categories of analysis, the visual metafunctions proposed by the Grammar of Visual Design were adopted, precisely the representational, interactive and compositional meanings.
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