Obstetric Violence in the Perspective of Health Professionals: The Naturalization of Gender Violence as Part of Childbirth Care

Send Message

To: Author

Obstetric Violence in the Perspective of Health Professionals: The Naturalization of Gender Violence as Part of Childbirth Care

Article Fingerprint

ReserarchID

TVGS6

Obstetric Violence in the Perspective of Health Professionals: The Naturalization of Gender Violence as Part of Childbirth Care Banner

AI TAKEAWAY

Connecting with the Eternal Ground
  • English
  • Afrikaans
  • Albanian
  • Amharic
  • Arabic
  • Armenian
  • Azerbaijani
  • Basque
  • Belarusian
  • Bengali
  • Bosnian
  • Bulgarian
  • Catalan
  • Cebuano
  • Chichewa
  • Chinese (Simplified)
  • Chinese (Traditional)
  • Corsican
  • Croatian
  • Czech
  • Danish
  • Dutch
  • Esperanto
  • Estonian
  • Filipino
  • Finnish
  • French
  • Frisian
  • Galician
  • Georgian
  • German
  • Greek
  • Gujarati
  • Haitian Creole
  • Hausa
  • Hawaiian
  • Hebrew
  • Hindi
  • Hmong
  • Hungarian
  • Icelandic
  • Igbo
  • Indonesian
  • Irish
  • Italian
  • Japanese
  • Javanese
  • Kannada
  • Kazakh
  • Khmer
  • Korean
  • Kurdish (Kurmanji)
  • Kyrgyz
  • Lao
  • Latin
  • Latvian
  • Lithuanian
  • Luxembourgish
  • Macedonian
  • Malagasy
  • Malay
  • Malayalam
  • Maltese
  • Maori
  • Marathi
  • Mongolian
  • Myanmar (Burmese)
  • Nepali
  • Norwegian
  • Pashto
  • Persian
  • Polish
  • Portuguese
  • Punjabi
  • Romanian
  • Russian
  • Samoan
  • Scots Gaelic
  • Serbian
  • Sesotho
  • Shona
  • Sindhi
  • Sinhala
  • Slovak
  • Slovenian
  • Somali
  • Spanish
  • Sundanese
  • Swahili
  • Swedish
  • Tajik
  • Tamil
  • Telugu
  • Thai
  • Turkish
  • Ukrainian
  • Urdu
  • Uzbek
  • Vietnamese
  • Welsh
  • Xhosa
  • Yiddish
  • Yoruba
  • Zulu
Font Type
Font Size
Font Size
Bedground

Abstract

The pattern of childbirth care widespread in our society is marked by the uses of interventions and technologies, permeated by obstetric violence in terms of excessive medicalisation and loss of female autonomy. This is an exploratory research made with a qualitative approach through semi-structured interviews, which analyzed the obstetric violence witnessed and pointed out from then arrative of health professionals who provide childbirth care, analyzed from Bardin’s content analysis. In this research we show that childbirth care is surpassed for many violences forms: physical and verbal abuses, moves restriction, physical exposure, lack of consent and orientation, from the trivialization of individuality and the female autonomy, as of the trivialization of good practices assistance on the childbirth and birth.

I. INTRODUÇÃO

parto e o nascimento sΓ£o fenΓ΄menos Γ­mpares na vida das mulheres que vivenciam a maternidade. SΓ£o eventos complexos que envolvem aspectos sociais, emocionais, espirituais, culturais e levam Γ  interaΓ§Γ£o de pessoas e grupos sociais distintos em instituiΓ§Γ΅es de saΓΊde (SENS; STAMM, 2019).

Historicamente a gestaΓ§Γ£o e o parto sempre pertenceram Γ  privacidade do universo feminino. A assistΓͺncia Γ s parturientes e aos recΓ©m-nascidos era realizada em domicΓ­lio por mulheres conhecidas como parteiras, aparadeiras ou comadres (BRENES, 1991; AGUIAR, 2010).

No sΓ©culo XIX sucedeu a consolidaΓ§Γ£o da medicina como saber cientΓ­fico, trazendo consigo a visΓ£o da medicalizaΓ§Γ£o dos corpos. A medicina transformou as mulheres em objetos de intervenΓ§Γ£o, numa ideologia que presume que o corpo feminino Γ© patolΓ³gico. Esse discurso mΓ©dico pautado no modelo anatomopatolΓ³gico permitiu que os profissionais que ofertassem cuidados Γ s gestantes pudessem intervir a qualquer sinal anatΓ΄mico que indicasse "risco". Para tal, foi necessΓ‘rio transferir o parto para o ambiente hospitalar, resultando na elaboraΓ§Γ£o e na proliferaΓ§Γ£o de rituais sobre a parturiΓ§Γ£o e o nascimento, revelando um medo extremo da nossa sociedade tecnocrata aos processos naturais (BRENES, 1991; DAVIS-FLOYD, 1992 apud DINIZ, 2005; SILVA; GOTARDO, 2007; AGUIAR, 2010).

Na atualidade, vigora um modelo de atenΓ§Γ£o no qual o parto Γ© assistido com intensa intervenΓ§Γ£o de profissionais e uso massivo de tecnologias, resultando em iatrogenias. Este modelo leva distΓ’ncia entre a mulher e o profissional de saΓΊde e reflete uma assistΓͺncia obstΓ©trica frΓ‘gil, por nΓ£o conseguir articular a tecnologia e o cuidado de modo a garantir a interaΓ§Γ£o entre as partes envolvidas e principalmente o respeito Γ  totalidade da mulher (DINIZ, 2001; DOMINGUES; SANTOS; LEAL2004; SILVA; GOTARDO, 2007).

Na expectativa de ampliar o debate acerca da violΓͺncia obstΓ©trica no Brasil, contribuir com o aprofundamento sobre o tema e subsidiar medidas para a melhoria da assistΓͺncia oferecida Γ s parturientes, este artigo discute11 como profissionais de saΓΊde (mΓ©dicos e enfermeiros obstetras, alΓ©m de residentes de medicina e enfermagem em obstetrΓ­cia) percebem a violΓͺncia obstΓ©trica que as mulheres sofrem na atenΓ§Γ£o ao parto, com o objetivo de analisar as formas de violΓͺncia observadas por eles a partir das recomendaΓ§Γ΅es da OrganizaΓ§Γ£o Mundial de SaΓΊde (OMS)para assistΓͺncia ao parto e nascimento.

a) CaracterizaΓ§Γ£o do termo violΓͺncia obstΓ©trica

A violΓͺncia obstΓ©trica foi tipificada no art. 15 da "LeyorgΓ‘nica sobre elderecho de lasmujeres a una vida libre de violΓͺncia" (Lei No 38.668, de 23 de abril de 2007, Venezuela) como a apropriaΓ§Γ£o do corpo e dos procedimentos reprodutivos das mulheres por profissionais de saΓΊde, utilizando-se de tratamento desumano, excesso de medicalizaΓ§Γ£o, considerando processos naturais como patolΓ³gicos, levando Γ  perda de autonomia e capacidade de decisΓ£o sobre seus corpos ou sexualidade.

Essa forma de violΓͺncia contra a mulher ganhou relevΓ’ncia e foi legitimada como problema de saΓΊde pΓΊblica.No Brasil, alguns estados, como SΓ£o Paulo (Lei N ∘ 15.759/2015) e Santa Catarina (LeiNΒ° 17.097/2017), e municΓ­pios tais como Diadema (Lei NΒ° 3.363/2013) passaram a adotar em suas legislaΓ§Γ΅es o conceito de violΓͺncia obstΓ©trica, como forma de interromper uma realidade que afeta 1 em cada 4 mulheres brasileiras (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 2010). Os atos de desrespeito e abuso durante o parto abrangem violΓͺncia fΓ­sica, humilhaΓ§Γ£o, violΓͺncia verbal, procedimentos mΓ©dicos coercivos ou sem consentimento, falta de confidencialidade, violaΓ§Γ£o de privacidade e negligΓͺncia na assistΓͺncia, gerando complicaΓ§Γ΅es evitΓ‘veis, levando a possΓ­veis riscos de vida, sendo equivalentes a uma violaΓ§Γ£o de direitos humanos fundamentais (DINIZet al.,2015; WHO, 2014).

A violΓͺncia sofrida por parturientes durante o trabalho de parto e parto Γ© uma realidade com tamanha gravidade no Brasil que foi citada na ComissΓ£o Parlamentar Mista de InquΓ©rito (CPMI) de ViolΓͺncia Contra Mulher no Brasil, realizada pelo Senado Federal. Em seu relatΓ³rio final, a CPMI recomenda que as aΓ§Γ΅es do MinistΓ©rio da SaΓΊde sejam intensificadas para prevenir e punir tais aΓ§Γ΅es de violΓͺncia (BRASIL, 2014).

b) Programas e polΓ­ticas pΓΊblicas voltadas para assistΓͺncia Γ s mulheres

Algumas medidas para a melhoria da assistΓͺncia Γ s gestantes foram tomadas ao longo dos anos. O Programa de AtenΓ§Γ£o Integral Γ  SaΓΊde da Mulher, (PAISM) elaborado pelo MinistΓ©rio da SaΓΊde, caracteriza a assistΓͺncia ao parto como um ponto crΓ­tico para a saΓΊde da mulher e apresenta, entre outros objetivos, o propΓ³sito de melhorar a assistΓͺncia ao parto com profissionais treinados que realizem o acompanhamento dos estΓ‘gios do trabalho de parto (dilataΓ§Γ£o, expulsΓ£o e dequitaΓ§Γ£o), garantindo que ocorram, sempre que possΓ­vel, de maneira natural com a gestante participando ativamente deles. Γ€ vista disso, desde a dΓ©cada de 80 jΓ‘ era apresentada a recomendaΓ§Γ£o para a preservaΓ§Γ£o dos eventos no trabalho de parto como naturais, conservando a autonomia da parturiente (BRASIL, 1984).

Em 1996, temos a divulgaΓ§Γ£o do documento da OrganizaΓ§Γ£o Mundial de SaΓΊde (OMS) com a classificaΓ§Γ£o das prΓ‘ticas utilizadas no trabalho de parto, contraindicando uma sΓ©rie de procedimentos de rotina que desrespeitavam a autonomia da mulher e tinham comprovaΓ§Γ΅es cientΓ­ficas de prejuΓ­zo para a saΓΊde da parturiente e/ou do feto, tais como uso rotineiro de episiotomia, manobra de Kristeller,venΓ³clise, ocitocina, toques vaginais frequentes, e outros(BRASIL, 2001).

AtravΓ©s da PortariaGM/MSNΒ°569, de 1 de junho de 2000, Γ© instituΓ­do o Programa de HumanizaΓ§Γ£o no PrΓ©-natal e Nascimento pelo MinistΓ©rio da SaΓΊde. O programa se baseava em dois aspectos fundamentais: o dever da instituiΓ§Γ£o de saΓΊde em atender a mulher, seus familiares e o neonato com dignidade, ambiente acolhedor, evitando o isolamento da mulher; e a adoΓ§Γ£o de uma assistΓͺncia com prΓ‘ticas comprovadamente benΓ©ficas ao parto e nascimento, evitando intervenΓ§Γ΅es desnecessΓ‘rias que nΓ£o beneficiam o binΓ΄mio mΓ£e e filho.

Em 2003 Γ© lanΓ§ada a PolΓ­tica Nacional de HumanizaΓ§Γ£o, que busca qualificar e aprimorar a assistΓͺncia em saΓΊde e gestΓ£o desenvolvida pelo Sistema Único de SaΓΊde (SUS). Posteriormente, foi instituΓ­da a PolΓ­tica Nacional de AtenΓ§Γ£o ObstΓ©trica e Neonatal, a partir da Portaria do MinistΓ©rio da SaΓΊde N ∘ 1.067, de 4 de julho de 2005, que tem como princΓ­pios e diretrizes o direito da gestante ao atendimento digno e de qualidade, Γ  assistΓͺncia humanizada e segura, a ter acompanhante (instituΓ­do pela Lei federal N ∘ 11.108 de 2005), entre outros. A portaria ainda discorre sobre procedimentos a serem adotados, como: oferecer lΓ­quido via oral, respeitar a escolha da mulher sobre o local do parto, fornecer explicaΓ§Γ΅es, permitir liberdade de posiΓ§Γ£o, oferecer mΓ©todos nΓ£o invasivos de alΓ­vio da dor, usar a episiotomia de maneira restrita, e outros (BRASIL, 2005a).

Em 2008 a AgΓͺncia Nacional de VigilΓ’ncia SanitΓ‘ria (ANVISA) lanΓ§a a RDC 36/2008, que aborda 0 regulamento tΓ©cnico para o funcionamento dos serviΓ§os de atenΓ§Γ£o obstΓ©trica e neonatal, com o objetivo de estabelecer padrΓ΅es para o funcionamento do referido serviΓ§o, com fundamentaΓ§Γ£o na qualificaΓ§Γ£o e na humanizaΓ§Γ£o da atenΓ§Γ£o aos usuΓ‘rios. O documento discorre ainda sobre a garantia do acompanhante, a promoΓ§Γ£o da ambiΓͺncia acolhedora, o estabelecimento de rotinas de acordo com as evidΓͺncias cientΓ­ficas, a garantia de privacidade eo uso de mΓ©todos nΓ£o farmacolΓ³gicos de alΓ­vio da dor (ANVISA, 2008).

A partir da Portaria do MinistΓ©rio da SaΓΊde N ∘ 1.459 , de 24 de junho de 2011, Γ© instituΓ­da a Rede Cegonha no SUS. A Rede Cegonha vem aprimorar a assistΓͺncia prestada durante a gestaΓ§Γ£o e o nascimento, garantindo Γ s mulheres o direito ao planejamento reprodutivo e Γ  atenΓ§Γ£o humanizada Γ  gravidez, ao parto e puerpΓ©rio, a partir de quatro componentes: PrΓ©-natal; Parto e Nascimento; PuerpΓ©rio e atenΓ§Γ£o integral Γ  saΓΊde da crianΓ§a; e Sistema logΓ­stico transporte sanitΓ‘rio e regulaΓ§Γ£o. No que se refere ao componente parto e nascimento, a melhoria da assistΓͺncia Γ© garantida pela suficiΓͺncia de leitos, ambiΓͺncia das maternidades conforme a jΓ‘ citada RDC NΒ°36/2008 da ANVISA, realizaΓ§Γ£o de prΓ‘ticas de atenΓ§Γ£o Γ  saΓΊde baseadas em evidΓͺncias cientΓ­ficas, garantia de acompanhante, acolhimento e classificaΓ§Γ£o de risco, e estΓ­mulo Γ s equipes horizontais do cuidado. Uma das diretrizes da Rede Cegonha Γ© justamente a utilizaΓ§Γ£o de boas prΓ‘ticas e seguranΓ§a na atenΓ§Γ£o ao parto e nascimento (BRASIL, 2011).

Em fevereiro de 2017 sΓ£o aprovadas as Diretrizes Nacionais de AssistΓͺncia ao Parto Normal, a partir da Portaria NΒ° 353/2017. Esse documento sintetiza e avalia a informaΓ§Γ£o cientΓ­fica disponΓ­vel com relaΓ§Γ£o Γ s prΓ‘ticas frequentemente utilizadas durante o trabalho de parto e nascimento, fornecendo orientaΓ§Γ£o com relaΓ§Γ£o Γ  assistΓͺncia a ser realizada, com o objetivo de promover mudanΓ§as na prΓ‘tica clΓ­nica, uniformizar e padronizar as prΓ‘ticas mais comuns utilizadas; diminuir a variabilidade de condutas entre os profissionais; reduzir intervenΓ§Γ΅es desnecessΓ‘rias durante a assistΓͺncia; difundir as prΓ‘ticas baseadas em evidΓͺncias cientΓ­ficas e recomendar boas prΓ‘ticas de atenΓ§Γ£o ao parto e nascimento (BRASIL, 2017).As diretrizes disponΓ­veis para a atenΓ§Γ£o humanizada ao parto e nascimentono Brasil, anteriormente descritas, consolidam prΓ‘ticas que podem interromper a violΓͺncia obstΓ©trica e que ainda sΓ£o comuns na realidade de muitos hospitais.

II. METODOLOGIA

Foi realizado um estudo exploratΓ³rio com abordagem qualitativa, implementado a partir de entrevistas com profissionais que realizam assistΓͺncia Γ s mulheres durante o trabalho de parto e parto, em hospital pΓΊblico, conveniado ao SUs, localizado em BelΓ©m do ParΓ‘/PA, no setor de PrΓ©-parto, Parto e PuerpΓ©rio (PPP). Os atendimentos sΓ£o realizados a partir de referΓͺncias dos municΓ­pios do estado do ParΓ‘ e por demanda espontΓ’nea, com atendimento de urgΓͺncia de maneira ininterrupta. A instituiΓ§Γ£o atende aproximadamente 900 partos por mΓͺs e Γ© caracterizada como uma maternidade que vem fortalecendo ao longo de sua histΓ³ria as aΓ§Γ΅es de melhoria na assistΓͺncia Γ  saΓΊde da mulher (VIANNA, 2014).

Foi utilizada uma amostra de conveniΓͺncia com 20 entrevistas de um universo de 79 profissionais elegΓ­veis para o estudo. Foram incluΓ­dos os profissionais das Γ‘reas de medicina e enfermagem que tivessem concluΓ­do o ensino superior, residentes de medicina e enfermagem obstΓ©trica que estivessem atuando na sala de parto e realizassem assistΓͺncia direta Γ s mulheres durante o trabalho de parto e parto. Foram excluΓ­dos profissionais que atuavam como professores ou preceptores de instituiΓ§Γ΅es de ensino, uma vez que se tratava de um hospital-escola, ou seja, foram excluΓ­dos aqueles que nΓ£o tinham vΓ­nculo profissional com a instituiΓ§Γ£o e os que atuavam em perΓ­odo noturno, uma vez que a coleta de dados ocorreu durante o perΓ­odo diurno.

Todas as entrevistas foram realizadas na sala de parto, durante os intervalos de atendimento, de maneira individual, com a prΓ©via exposiΓ§Γ£o dos objetivos da pesquisa, de seus riscos e benefΓ­cios. Vale ressaltar que as entrevistas foram gravadas, com autorizaΓ§Γ£o prΓ©via dos participantes, e transcritas. ApΓ³s a transcriΓ§Γ£o, as falas dos participantes foram codificadas e categorizadas. As categorias aqui analisadas se referem ao critΓ©rio de tipos de violΓͺnciasobstΓ©tricas observados na instituiΓ§Γ£o, conforme apontado nas entrevistas. Sendo assim, foram encontradas 5 subcategorias: abuso fΓ­sico; abuso verbal; falta de orientaΓ§Γ£o sobre o atendimento e procedimentos; exposiΓ§Γ£o e restriΓ§Γ£o de movimentaΓ§Γ£o; e posiΓ§Γ£o no parto. Por fim, foi realizada a anΓ‘lise de conteΓΊdo dessas categorias e a interpretaΓ§Γ£o dos dados com o enfoque de Bardin (BARDIN, 2011).

O estudo foi avaliado e aprovado pelo comitΓͺ de Γ©tica e pesquisa da instituiΓ§Γ£o de ensino superior ao qual estΓ‘ vinculado, com CAAE: 69070117.4.0000.5172, e pelo comitΓͺ de Γ©tica da maternidade escolhida, com CAAE: 69070117.4.3001.5171. Todos os participantes da pesquisa assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

III. REsultados e DiscussÃo

Foi realizada a abordagem de 23 profissionais durante os intervalos de atendimento, porΓ©m, 3 profissionais nΓ£o participaram deste estudo, pois dois deles alegaram que, devido Γ  rotina de atendimento, nΓ£o possuΓ­am tempo para realizar a entrevista, e outro alegou nΓ£o concordar com a proposta do estudo, recusando-se a participar.

A maioria dos participantes da pesquisa era do sexo feminino, representada por 16 entrevistadas ( 80 % ) A respeito da categoria profissional, 11 entrevistados eram mΓ©dicos ( 55 % ) , somando-se mΓ©dicos em especializaΓ§Γ£o e mΓ©dicos jΓ‘ especialistas. A maioria dos participantes estava realizando especializaΓ§Γ£o durante a coleta de dados, caracterizados como residentes, com 16 participantes ( 65 % ) . A idade dos O perfil dos participantes estΓ‘ disposto na Tabela 1.

entrevistados variou entre 23 e 56 anos, com predominΓ’ncia na faixa etΓ‘ria de 20 a 29 anos, com 11 entrevistados ( 55 % ) .

Tabela 1: DistribuiΓ§Γ£o dos participantes, por caracterΓ­sticas demogrΓ‘ficas e profissionais BelΓ©m/PA, 2018

VariavelN%
Sexo
Feminino1680%
Masculino420%
Categoria professional
Residentes de enfermagem obstΓ©trica635%
Residentes de medicina em ginecologia e obstΓ©trica735%
Ginecologistas obstetras420%
Enfermeiros obstetras315%
Idade
20 - 29 anos1155%
30 - 39 anos210%
40 - 49 anos525%
50 - 59 anos210%

Fonte: ElaboraΓ§Γ£o prΓ³pria.

1 Abuso verbal

Neste estudo, 12 participantes ( 60 % ) puderam identificar o abuso verbal como uma prΓ‘tica rotineira na unidade. Destacamos as falas mais relevantes:"Tem as violΓͺncias verbais que eu imagino sΓ£o essas, de tΓ©cnico falando frases desse cunho, como eu jΓ‘ tinha dito, nΓ©, ah... 'NΓ£o doeu pra fazer, mas tΓ‘ doendo pra nascer', nΓ©... E outras coisinhas mais" (Residente de medicina 2). "Eu vejo as pessoas gritarem com as pacientes, com as acompanhantes... Vejo um desrespeito verbal" (Residente de medicina 3).

[...] Γ© mais como forma de insulto realmente, a paciente pelo fato de... Hoje mesmo eu presenciei isso, hoje realmente como o PPP tava cheio de paciente, aΓ­ o profissional de saΓΊde pegou e falou: ''isso Γ© que dΓ‘, nΓ£o quer parar de ter filho... AΓ­ quer ficar sofrendo aqui, olha como a gente tΓ‘, tΓ‘ lotado aqui, nΓ£o tΓ‘ dando pra dar assistΓͺncia pra ninguΓ©m'. (Residente de enfermagem 1).

A partir do depoimento dos entrevistados, podemos observar a prΓ‘tica da violΓͺncia verbal na atenΓ§Γ£o dispensada Γ s mulheres, alΓ©m da reproduΓ§Γ£o de um discurso moralista que estabelece um julgamento sobre a sexualidade feminina utilizando-se de jargΓ΅es que menosprezam a mulher (HOTIMsKYet al., 2002). A clΓ‘ssica frase que retrata a violΓͺncia obstΓ©trica e foi aqui reproduzida por um dos entrevistados,"nΓ£o doeu pra fazer, mas tΓ‘ doendo pra nascer", foi observada em estudo sobre o tema (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 2010) e revela a manutenΓ§Γ£o de um padrΓ£o de violΓͺncia de gΓͺnero naturalizado na atenΓ§Γ£o ao parto. Como analisa Diniz (2009):

Os abusos verbais voltados para a humilhaΓ§Γ£osexual do tipo "quando vocΓͺ fez vocΓͺ gostou"sΓ£o uma constante nos estudos e fazem parte doaprendizado informal dos profissionais sobrecomo disciplinar as pacientes, desmoralizandoseu sofrimento e desautorizando eventuais pedidosde ajuda. (DINiz, 2009, p. 320, grifos da autora).

O relato de violΓͺncia verbal Γ© observado nas anΓ‘lises sobre o tema como demonstrado na pesquisa de Sena (2016), na qual as entrevistadas mencionaram essa forma de violΓͺncia como uma prΓ‘tica recorrente durante o trabalho de parto, principalmente quando as mesmas se recusavam ou agiam de maneira contrΓ‘ria ao que era imposto pelo profissional.

Aguiar, D'Oliveira e Schraiber (2013) apontam resultados semelhantes em sua pesquisa, na qual os entrevistados revelaram uso cotidiano de frases ofensivas,demonstrando a banalizaΓ§Γ£o dessas prΓ‘ticas. PorΓ©m, diferentemente dos entrevistados pelos autores, que consideraram o uso dessas agressividades verbais como "brincadeiras desrespeitosas", os profissionais deste estudo consideraram como uma forma de violΓͺncia verbal.

A recomendaΓ§Γ£o para assistΓͺncia ao parto proposta pelo MinistΓ©rio da SaΓΊde disserta que o profissional deve respeitar a integralidade da parturiente e Γ© sua responsabilidade manter um padrΓ£o de comunicaΓ§Γ£o eficaz, e estar consciente do seu tom de voz e das palavras utilizadas, bem como de suas atitudes, buscando manter uma relaΓ§Γ£o de confianΓ§a entre ambos (BRASIL, 2017).

2. Abuso fΓ­sico

Nesta categoria, 7 entrevistados ( 35 % ) reconheceram a ocorrΓͺncia do abuso fΓ­sico, o qual transcorre da seguinte forma: "EntΓ£o uso de ocitocina, episiotomia sem o consentimento, eu jΓ‘ vi casos atΓ© de pessoas que nΓ£o fazem anestΓ©sico pra fazer episio [...]. Eu jΓ‘ vi isso aqui, entendeu? [...] Kristeller tambΓ©m tem, eu jΓ‘ vi Kristeller" (Enfermeiro obstetra 1).

O profissional nΓ£o vΓͺ se uma conduta Γ© necessΓ‘ria realmente naquele momento, mas ele faz aquela conduta pra adiantar um trabalho que ele poderia ter mais lΓ‘ na frente. [..] Principalmente a questΓ£o de uso indiscriminado de ocitocina, amniotomia, o bebΓͺ tΓ‘ alto, tΓ‘ mΓ³vel, mas querem fazer amniotomia. QuestΓ΅es de tΓ‘ fazendo a orquestra do perΓ­neo, ficar fazendo puxo dirigido, entΓ£o tudo isso Γ© muito observado aqui (Residente de enfermagem 3).

Os profissionais apontaram como formas de abuso a realizaΓ§Γ£o de procedimentos que sΓ£o utilizados como rotina, tais quais as intervenΓ§Γ΅es desnecessΓ‘rias para acelerar o trabalho de parto, alΓ©m da falta de orientaΓ§Γ£o sobre procedimentos, ignorando a necessidade do consentimento da parturiente para realizΓ‘-los.

Desde 1996, a OMS afirma que a prΓ‘tica de episiotomia rotineira, o uso de ocitΓ³citos indiscriminadamente e da manobra de Kristeller sΓ£o consideradas prΓ‘ticas comprovadamente malΓ©ficas durante o trabalho de parto e que deveriam ser eliminadas. Somado a isso, tambΓ©m Γ© apontado que a amniotomia precoce Γ© considerada uma prΓ‘tica normalmente utilizada de maneira equivocada (BRASIL, 2001).

A episiotomia é o único procedimento cirúrgico realizado sem o consentimento da paciente e sem que Ihe seja dada informaçáes quanto aos riscos, benefícios ou às indicaçáes, sendo uma forma de apropriação do corpo feminino, uma vez que é a única prÑtica realizada em um indivíduo saudÑvel, sem a sua autorização (DINIZ, 2001; PARTO DO PRINCÍPIO, 2012).

Tal procedimento provoca danos sexuais, dor, aumenta o risco de incontinΓͺncia tanto fecal como urinΓ‘ria, alΓ©m da possibilidade de complicaΓ§Γ΅es infecciosas. O uso dessa prΓ‘tica como rotina evidencia uma grave violaΓ§Γ£o dos direitos reprodutivos e sexuais da mulher, alΓ©m de violar sua integridade corporal (REDE FEMINISTA DE SAÚDE, 2002; PARTO DO PRINCÍPIO, 2012).

Qualquer intervenΓ§Γ£o realizada de rotina para simplesmente acelerar o trabalho de parto Γ© malΓ©fica, podendo aumentar o risco de morbimortalidade da mΓ£e e do feto. A necessidade que os profissionais tΓͺm de acelerar o parto nos remete a uma linha de montagem, desconsiderando a fisiologia do nascimento e provocando uma sΓ©rie de intervenΓ§Γ΅es e iatrogenias (PARTO DO PRINCÍPIO, 2012).

Quando o profissional desconsidera a necessidade de obter o consentimento da mulher para realizar uma intervenΓ§Γ£o no prΓ³prio corpo desta mulher, ele viola os direitos relacionados Γ  condiΓ§Γ£o de pessoa e faz com que a parturiente se torne apenas um corpo reprodutivo sob domΓ­nio da medicina (SENS, STAMM, 2019).

3. Falta de orientaΓ§Γ£o sobre atendimento e procedimentos

A respeito da falta de orientaΓ§Γ£o das parturientes, analisamos as seguintes falas:

Os casos que eu vi foram de profissionais nΓ£o-sensΓ­veis tratando a paciente mal, de uma forma agressiva, nΓ£o.. AtΓ© mesmo o fato de vocΓͺ nΓ£o explicar pro paciente o que tΓ‘ acontecendo com ele, o que vai acontecer nΓ©, o estado dele, deixar ele sem informaΓ§Γ£o jΓ‘ Γ© uma forma de violΓͺncia, principalmente a grΓ‘vida. (Ginecologista obstetra 1).

[.]vi muito Kristeller ser realizado aqui [.] procedimentos sendo feitos Γ  forΓ§a, sem o devido esclarecimento da paciente, uma episiotomia por exemplo[...)Γ€s vezes o mΓ©dico acaba ficando nervoso, acaba fazendo procedimento que nΓ£o deveria...Deveria ter esclarecido antes. (Residente de medicina 2).

Vianna (2014) aponta em seu estudo que as parturientes receberam pouca ou nenhuma informaΓ§Γ£o durante o trabalho de parto.Deslandes e Dias (2006) analisam em seu estudo que essa falta de orientaΓ§Γ£o culmina na geraΓ§Γ£o de inseguranΓ§a tanto por parte da mulher quanto de seu acompanhante. A ausΓͺncia de informaΓ§Γ΅es Γ© comum em maternidades, pois legitima o poder mΓ©dico, justificando a realizaΓ§Γ£o de condutas sem o devido esclarecimento, evidenciando, assim, a anulaΓ§Γ£o do protagonismo feminino (BARBOZA; MOTA, 2016).

Γ‰ importante ressaltar que a mulher, normalmente, desconhece a fisiologia do trabalho de parto, sendo fundamental uma orientaΓ§Γ£o humanizada por parte dos profissionais que prestam o atendimento, como recomenda as diretrizes brasileiras de assistΓͺncia ao parto. O documento orienta que a mulher deve ser atendida com tratamento respeitoso e fornecimento de informaΓ§Γ΅es baseadas em evidΓͺncias cientΓ­ficas, para que possa ser inserida na tomada de decisΓ΅es, estabelecendo uma relaΓ§Γ£o de confianΓ§a entre profissional e parturiente e respeitando o protagonismo da mulher durante a parturiΓ§Γ£o (BRASIL, 2017).

4. ExposiΓ§Γ£o fΓ­sica

A prΓ‘tica de exposiΓ§Γ£o da parturiente tambΓ©m foi sinalizada pelos profissionais, destacamos as falas mais relevantes: "Γ s vezes vejo as pacientes sendo expostas fisicamente, porque deixam as portas abertas, que eu me lembre" (Residente de medicina 3).

[] diversos profissionais com diversos alunos desrespeitando aquele momento com a mulher, que acaba que lotam a sala do PPP e isso jΓ‘ Γ© uma questΓ£o vista como violΓͺncia, porque muitas delas nem querem a quantidade de pessoas que tem naquela sala, tem vergonha, porque tem homem, porque tem aluno homem, porque tem muitos alunos, e isso jΓ‘ por si jΓ‘ caracteriza. (Residente de enfermagem 4).

Com base nas entrevistas coletadas, foi possΓ­vel observar a falta de privacidade das mulheres, pois os profissionais acabam expondo-as fisicamente ao deixarem as portas de seus quartos abertas apΓ³s a avaliaΓ§Γ£o, alΓ©m disso, por se tratar de um hospitalescola, a instituiΓ§Γ£o possui uma grande quantidade de alunos. Durante as avaliaΓ§Γ΅es ou partos propriamente ditos, os PPPs se encontram repletos de alunos, Γ‘vidos a aprender, sem o consentimento da mulher, expondo-a fisicamente para diversas pessoas.

Como apontam Wolff e Waldow(2008), os profissionais devem tratar a mulher com respeito, preservando sua privacidade, evitando, assim, causar constrangimentos ou inibiΓ§Γ£o, pois isto pode afetar a evoluΓ§Γ£o do trabalho de parto, dificultando-o. Os mesmos autores corroboram que durante a criaΓ§Γ£o moralista de homens e mulheres, Ihes foi ensinado que a genitΓ‘lia deve ser escondida e, portanto, quando a mulher Γ© nΓ£o somente exposta para um desconhecido, como para vΓ‘rios desconhecidos no momento Γ­ntimo do parto, Γ© vergonhoso e intimidante, como foi demonstrado pelas puΓ©rperas entrevistadas no estudo.

5. RestriΓ§Γ£o da livre mobilidade

A restriΓ§Γ£o da mobilidade da parturiente foi percebidapelos profissionaisa partir das seguintes falas:"ainda tem muitos mΓ©dicos, muitos profissionais que querem que a paciente tenha bebΓͺ naquela posiΓ§Γ£o... Deitada ou semi-deitada, nΓ©." (Residente de enfermagem 2).

[...]falar que Γ© pra ela parar de gritar, falar que ela tΓ‘ gritando muito, que se ela continuar fazendo isso, ele vai embora, vai deixar ela sozinha lΓ‘ pra ter o bebΓͺ, nΓ£o vai mais ajudar ela, ela tΓ‘ atrapalhando o bebΓͺ a nascer porque ela tΓ‘ se movimentando, nΓ£o quer ficar na cama[.. (Residente de enfermagem 6).

Alguns profissionais ainda tΓͺm preferΓͺncia pela posiΓ§Γ£o litotΓ΄mica, por ser a posiΓ§Γ£o mais confortΓ‘vel para o profissional, mais fΓ‘cil para a manipulaΓ§Γ£o do perΓ­neo feminino. Dessa forma, muitos obrigam a mulher a ficar restrita ao leito, sem liberdade para movimentaΓ§Γ£o e escolha da posiΓ§Γ£o para o parto.

Para Niyet al. (2019), as limitaΓ§Γ΅es para a livre movimentaΓ§Γ£o durante o trabalho de parto configuram uma forma de violΓͺncia contra mulher. Neste sentido, as autoras afirmam:

Nos paΓ­ses da AmΓ©rica Latina, e no Brasil em especial, tem se construΓ­do o entendimento de que a restriΓ§Γ£o ao leito durante o trabalho de parto e a obrigatoriedade de dar Γ  luz em posiΓ§Γ£o supina podem configurar formas de violΓͺncia institucional contra a mulher, uma vez que ferem a autonomia daparturiente, prejudicam o desenrolar fisiolΓ³gico do parto e impedem que ela decida livremente sobre seu corpo. Essa apropriaΓ§Γ£o do corpo das mulheres e de seus processos reprodutivos tambΓ©m tem sido denominada violΓͺncia obstΓ©trica, ou abuso, desrespeito e maus-tratos, e a cada dia crescem as evidΓͺncias de que esse fenΓ΄meno estΓ‘ intimamente ligado Γ  baixa qualidade da assistΓͺncia e a piores desfechos, inclusive em serviΓ§os especializados. (NIY, et al., 2019, p.3).

As evidΓͺncias cientΓ­ficas apontam que as posiΓ§Γ΅es verticalizadas durante o parto possuem mais vantagens, tais como: melhor padrΓ£o de contraΓ§Γ΅es, processo de dilataΓ§Γ£o mais eficaz, diminuiΓ§Γ£o da duraΓ§Γ£o do primeiro e do segundo estΓ‘gio do parto, menor incidΓͺncia de sofrimento fetal devido ao maior fluxo sanguΓ­neo que chega ao feto, e diminuiΓ§Γ£o da dor por parte das parturientes (BALASKAS, 2015). Podemos ainda ressaltar aspectos psicolΓ³gicos, como o aumento da sensaΓ§Γ£o de controle e autonomia da mulher, fazendo com que a experiΓͺncia da parturiΓ§Γ£o seja mais satisfatΓ³ria (NIY et al., 2019).

O MinistΓ©rio da SaΓΊderecomenda ainda que as mulheres devem ser encorajadas a adotar posiΓ§Γ΅es verticalizadas, se movimentar e buscar posiΓ§Γ΅es que considerem confortΓ‘veis e desencorajadas a adotarem posiΓ§Γ΅es horizontais (BRASIL, 2017).

Portanto, quando o profissional de saΓΊde nΓ£o permite que a mulher se movimente ou adote posiΓ§Γ΅es verticalizadas durante o trabalho de parto, este demonstra falta de conhecimento ou descrenΓ§a nas evidΓͺncias cientΓ­ficas, culminando no aumento de complicaΓ§Γ΅es que levam Γ s intervenΓ§Γ΅es e iatrogenias. TambΓ©m podemos relacionar a preferΓͺncia por posiΓ§Γ΅es horizontais como uma necessidade de manipular o perΓ­neo para utilizaΓ§Γ£o de outras prΓ‘ticas obsoletas no segundo estΓ‘gio do parto, como a episiotomia.

IV. CONcluSÃO

A assistΓͺncia tradicional ao parto e nascimento, baseada no modelo tecnocrata e permeado por intervenΓ§Γ΅es nocivas e sem respaldo cientΓ­fico, vem sendo questionada Γ  medida que novas evidΓͺncias surgem indicando melhores resultados perinatais. PorΓ©m, como foi observado pelo discurso dos profissionais, ainda existe um longo caminho para que prΓ‘ticas obsoletas, e consequentemente a violΓͺncia obstΓ©trica, deixem de fazer parte da assistΓͺncia, uma vez que todos os atos mencionados pelos entrevistados, como o abuso verbal, o abuso fΓ­sico, a falta de orientaΓ§Γ£o e consentimento, a exposiΓ§Γ£o fΓ­sica e a restriΓ§Γ£o da livre movimentaΓ§Γ£o sΓ£o criticados e desaconselhados de acordo com os estudos cientΓ­ficos atuais.

Como apontado na falas dos entrevistados, a assistΓͺncia ao parto depende do profissional que a realiza e,aparentemente, nΓ£o tem sido pautada nas orientaΓ§Γ΅es cedidas pelos documentos da OMS e do MinistΓ©ro da SaΓΊde, uma vez que os entrevistados apontam episΓ³dios de objetificaΓ§Γ£o das mulheres a partir de imposiΓ§Γ΅es e artifΓ­cios cruΓ©is para Ihes transformar em pessoas passivas e colaborativas com o trabalho de parto idealizado pelo profissional, centrado nΓ£o na mulher e sim no obstetra (inclue-se aqui mΓ©dicos e enfermeiros).

Podemos observar que ao longo dos anos o MinistΓ©rio da SaΓΊde vem implementando diversas aΓ§Γ΅es para efetivar o uso de boas prΓ‘ticas durante o parto e nascimento, melhorando a assistΓͺncia prestada Γ  parturiente e ao recΓ©m-nascido e, consequentemente, visando tambΓ©m diminuir a incidΓͺncia de maus tratos e violΓͺncia contra essas mulheres, por meio de vΓ‘rios documentos, enfatizando a assistΓͺncia humanizada, centrada no bem-estar da famΓ­lia e na autonomia da mulher, a partir de prΓ‘ticas com embasamento cientΓ­fico, com o propΓ³sito de obter um recΓ©m-nascido saudΓ‘vel e uma mΓ£e satisfeita e nΓ£o traumatizada.

Portanto, foi possΓ­vel perceber que para a diminuiΓ§Γ£o da prΓ‘tica de violΓͺncia obstΓ©trica Γ© necessΓ‘rio que nΓ£o sΓ³ os profissionais e as instituiΓ§Γ΅es de saΓΊde tomem conhecimento e apliquem todas as recomendaΓ§Γ΅es abordadas como boas prΓ‘ticas assistenciais para o manejo do parto, implementando intervenΓ§Γ΅esbaseadas em protocolos de assistΓͺncia, pautados nas orientaΓ§Γ΅es do MinistΓ©rio da SaΓΊde e/ou evidΓͺncias cientΓ­ficas atuais, alΓ©m de oferecer cursos de educaΓ§Γ£o continuada a fim de sensibilizar os profissionais que estΓ£o em atuaΓ§Γ£o, para que se desestruture a cultura da violΓͺncia durante o parto, bem como se faz necessΓ‘rio investir em mΓ©todos eficazes para fiscalizaΓ§Γ£o da qualidade da assistΓͺncia oferecida nas instituiΓ§Γ΅es.

Compreendemos que parte do problema que envolve a violΓͺncia obstΓ©trica na atenΓ§Γ£o ao parto se relaciona Γ  violΓͺncia de gΓͺnero e ao desconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Assim como a violΓͺncia contra as mulheres se manifesta na sociedade de forma rotineira, essa cultura atravessa a atenΓ§Γ£o ao parto, em que pese as recomendaΓ§Γ΅es baseadas nas boas prΓ‘ticas.

Esperamos assim alcanΓ§ar um modelo de atenΓ§Γ£o no qual o parto possa ser visto como um evento fisiolΓ³gico, sem a necessidade de intervenΓ§Γ΅es rotineiras ou uso de tecnologias intensivas, centrado na mulher e sua famΓ­lia, enfatizando o bem-estar do binΓ΄mio mΓ£e e filho e respeitando a individualidade de cada gestante e cada nascimento.

Para que tais prΓ‘ticas possam ser incorporadas em uma atenΓ§Γ£o humanizada Γ© fundamental que a formaΓ§Γ£o do profissional de saΓΊde inclua as recomendaΓ§Γ΅es baseadas nas evidΓͺncias cientΓ­ficas, bem como conheΓ§a os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres,rompendo com uma cultura de violΓͺncia de gΓͺnero que ainda Γ© observada em muitas maternidades.

ContribuiΓ§Γ΅es das autoras

Todas as autoras participaram ativamente de todas as etapas de elaboraΓ§Γ£o do manuscrito.

Abreviaturas

CPMI- ComissΓ£o Parlamentar Mista de InquΓ©rito

PAISM- Programa de AtenΓ§Γ£o Integral Γ  SaΓΊde da Mulher

OMS- OrganizaΓ§Γ£o Mundial de SaΓΊde

SUS- Sistema Único de saúde

ANVISA- AgΓͺncia Nacional de VigilΓ’ncia SanitΓ‘ria

PPP- PrΓ©-parto, Parto e PuerpΓ©rio

Footnotes

  1. SΓ£o apresentados alguns resultados da monografia de conclusΓ£o de residΓͺncia em enfermagem obstΓ©trica, defendida em 2018, trabalho para o qual foram entrevistados profissionais de saΓΊde (p.1) ↩

References

37 Cites in Article
  1. JanaΓ­na Aguiar,Marques De (2010). ViolΓͺncia institucional em maternidades pΓΊblicas: hostilidade ao invΓ©s de acolhimento como uma questΓ£o de gΓͺnero.
  2. Janaina Aguiar,Ana D'oliveira,Lilia Schraiber (2013). ViolΓͺncia institucional, autoridade mΓ©dica e poder nas maternidades sob a Γ³tica dos profissionais de saΓΊde.
  3. Artur Iuri Alves De Sousa,Ana Dias Vieira Da Costa,Claudia Passos GuimarΓ£es Rabelo,Mary Fontenele Martins (2008). Editorial.
  4. Janet Balaskas (2015). Parto ativo: guia prΓ‘tico para o parto natural.
  5. Luciana Barboza,AlessivΓ’nia Mota (2016). VIOLÊNCIA OBSTΓ‰TRICA: VIVÊNCIAS DE SOFRIMENTO ENTRE GESTANTES DO BRASIL.
  6. Laurence Bardin (2011). AnΓ‘lise de ConteΓΊdo. Trad. Luis Antero Reto.
  7. MinistΓ©rio Brasil,Da SaΓΊde (1984). AssistΓͺncia integral Γ  saΓΊde da mulher: bases de aΓ§Γ£o programΓ‘tica.
  8. Brasil (2000). Institui, no Òmbito do Sistema Único de Saúde, o Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento. Brasília.
  9. Brasil,MinistΓ©rio (2001). da Mulher. Parto, aborto e puerpΓ©rio: assistΓͺncia humanizada Γ  mulher.
  10. Brasil (2004). de HumanizaΓ§Γ£o: a humanizaΓ§Γ£o como eixo norteador das prΓ‘ticas de atenΓ§Γ£o e gestΓ£o em todas as instΓ’ncias do SUS. BrasΓ­lia.
  11. Brasil (2005). Unknown Title.
  12. Brasil (2005). Unknown Title.
  13. Brasil (2011). Unknown Title.
  14. Brasil (2014). MinistΓ©rio da SaΓΊde Cadernos HumanizaSUS: HumanizaΓ§Γ£o do parto e do nascimento.
  15. Brasil,MinistΓ©rio (2017). Unknown Title.
  16. Anayansi Brenes,Correa (1991). HistΓ³ria da parturiΓ§Γ£o no Brasil, sΓ©culo XIX.
  17. Diadema (2013). Unknown Title.
  18. Marcos Dias,Suely Deslandes (2006). Expectativas sobre a assistΓͺncia ao parto de mulheres usuΓ‘rias de uma maternidade pΓΊblica do Rio de Janeiro, Brasil: os desafios de uma polΓ­tica pΓΊblica de humanizaΓ§Γ£o da assistΓͺncia.
  19. Carmen Diniz,Grillo (2001). Entre a tΓ©cnica e os direitos humanos: possibilidades e limites da humanizaΓ§Γ£o da assistΓͺncia ao parto. Tese (Doutorado em Medicina) -Faculdade de Medicina.
  20. Carmen Diniz,Grillo (2005). HumanizaΓ§Γ£o da assistΓͺncia ao parto no Brasil: os muitos sentidos de um movimento.
  21. Carmen Diniz,Grillo (2009). GΓͺnero, saΓΊde materna e o paradoxo perinatal.
  22. Simone Diniz,Heloisa Salgado,Halana Aguiar Andrezzo,Paula Cardin De Carvalho,Priscila Albuquerque Carvalho,ClΓ‘udia Azevedo Aguiar,Denise Niy (2015). ABUSE AND DISRESPECT IN CHILDBIRTH CARE AS A PUBLIC HEALTH ISSUE IN BRAZIL: ORIGINS, DEFINITIONS, IMPACTS ON MATERNAL HEALTH, AND PROPOSALS FOR ITS PREVENTION.
  23. Rosa Domingues,Elizabeth Santos,Maria Leal (2004). Aspectos da satisfaΓ§Γ£o das mulheres com a assistΓͺncia ao parto: contribuiΓ§Γ£o para o debate.
  24. FundaΓ§Γ£o,Abramo (2010). Unknown Title.
  25. Sonia Hotimsky,Daphne Rattner,Sonia Venancio,ClΓ‘udia BΓ³gus,MarinΓͺs Miranda (2002). O parto como eu vejo... ou como eu o desejo?: expectativas de gestantes, usuΓ‘rias do SUS, acerca do parto e da assistΓͺncia obstΓ©trica.
  26. Denise Niy,ValΓ©ria Oliveira,Luma Oliveira,Bruna Alonso,Carmen Diniz (2019). Como superar a cultura da imobilizaΓ§Γ£o fΓ­sica das parturientes? Resultados parciais de estudo de intervenΓ§Γ£o em SΓ£o Paulo, SP, Brasil.
  27. Parto,PrincΓ­pio (2012). USO DA NEUROMODULAÇÃO EM MULHERES COM DOR GENITAL CRΓ”NICA.
  28. Rede Feminista De SaΓΊde (2002). DossiΓͺ HumanizaΓ§Γ£o do Parto. Rede Nacional Feminista de SaΓΊde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos.
  29. Elisa Henning,AndrΓ©a Konrath,Andreza Kalbusch,Isadora Zoldan,Nathalia Correa (2017). AplicaΓ§Γ£o de grΓ‘ficos de controle em redes de abastecimento predial de Γ‘gua.
  30. Larissa Ventura Ribeiro Bruscky,Ana De Souza Murta,Fabiano Castro Albrecht,Maycon Juglas Linhares MagalhΓ£es,Renato Borges Filho,YonΓ‘ Afonso Francisco (2015). DIAGNOSTICO DIFERENCIAL DAS CARDIOMIOPATIAS QUE CURSAM COM HIPERTROFIA VENTRICULAR.
  31. Marcelo Borges,Juliano Faria,Elizandro Brick (2016). FenΓ΄menos como mediadores do processo educativo em CiΓͺncias da Natureza e MatemΓ‘tica na EducaΓ§Γ£o do Campo.
  32. Maristela Sens,Ana Stamm (2019). PercepΓ§Γ£o dos mΓ©dicos sobre a violΓͺncia obstΓ©trica na sutil dimensΓ£o da relaΓ§Γ£o humana e mΓ©dico-paciente.
  33. Isilia Silva,; Aparecida,GlΓ³ria InΓͺs Gotardo,Beal (2007). Refletindo sobre a prΓ‘tica obstΓ©trica Γ  luz de um modelo de relacionamento humano.
  34. (2007). Unknown Title.
  35. Aline Martins,Camila Fernandes,GΓ©ssica MororΓ³ (2014). Pesquisa como forma de resistΓͺncia dos assistentes sociais e resposta Γ s polΓ­ticas neoliberais.
  36. Who (2014). PrevenΓ§Γ£o e eliminaΓ§Γ£o de abusos, desrespeito e maus-tratos durante o parto em instituiΓ§Γ΅es de saΓΊde.
  37. Leila Wolff,Vera Waldow (2008). ViolΓͺncia consentida: mulheres em trabalho de parto e parto.

Funding

No external funding was declared for this work.

Conflict of Interest

The authors declare no conflict of interest.

Ethical Approval

No ethics committee approval was required for this article type.

Data Availability

Not applicable for this article.

How to Cite This Article

Amanda Trajano, Edna Barreto. 2026. "Obstetric Violence in the Perspective of Health Professionals: The Naturalization of Gender Violence as Part of Childbirth Care". Global Journal of Medical Research - E: Gynecology & Obstetrics GJMR-E Volume 22 (GJMR Volume 22 Issue E1).

Download Citation

Obstetric violence, gender-based healthcare issues, childbirth care, research, health professionals, reproductive rights.
Journal Specifications

Crossref Journal DOI 10.17406/gjmra

Print ISSN 0975-5888

e-ISSN 2249-4618

Keywords
Classification
GJMR-E Classification NLMC Code: WQ 400
Version of record

v1.2

Issue date
April 7, 2022

Language
Portuguese
Experiance in AR

Explore published articles in an immersive Augmented Reality environment. Our platform converts research papers into interactive 3D books, allowing readers to view and interact with content using AR and VR compatible devices.

Read in 3D

Your published article is automatically converted into a realistic 3D book. Flip through pages and read research papers in a more engaging and interactive format.

Article Matrices
Total Views: 815
Total Downloads: 50
All Trends

Request Access

Please fill out the form below to request access to this research paper. Your request will be reviewed by the editorial or author team.
X

This is the heading

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.

High-quality academic research articles on global topics and journals.

Obstetric Violence in the Perspective of Health Professionals: The Naturalization of Gender Violence as Part of Childbirth Care

Amanda Trajano
Amanda Trajano
Edna Barreto
Edna Barreto