## I. INTRODUÇÃO
tualmente, a sífilis é um grave problema de saúde pública no Brasil, e no mundo, estimando-se que 12 milhões de pessoas sejam infectadas a cada ano (OMS, 2008). A doença é especialmente preocupante no período gestacional, pois a mãe pode transmitir a infecção ao seu feto, que pode desenvolver sífilis congênita (OMS, 2008). A sífilis congênita é uma doença grave, responsável por altos índices de morbimortalidade fetal e neonatal (WHO, 2008; WHO,
Author α: Médica egressa da Universidade Federal do Pará, Campus universitário de Altamira, Faculdade de Medicina.
Author σ: Professor Assistente 1 Universidade Federal do Pará, Campus Universitário de Altamira, Faculdade de Medicina.
2016). Segundo a Organização Mundial de Saúde, há mais recém-nascidos acometidos por sífilis congênita do que por qualquer outra infecção neonatal, incluindo a infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (WHO, 2008; WHO, 2016).
A sífilis gestacional é definida como a infecção por Treponema pallidum em mulheres grávidas (BRASIL, 2019; OMS, 2008). A doença em gestantes é semelhante à sífilis adquirida na população geral em relação ao modo de transmissão, quadro clínico, diagnóstico e tratamento (BRASIL, 2019).
A sífilis congênita é uma doença grave causada pela disseminação hematogênica da bactéria Treponema pallidum da gestante para o seu feto, por via transplacentária ou intraparto (BRASIL, 2019; MAGALHÃES et al., 2011; SES-SP, 2016). A transmissão pelo aleitamento materno é possível somente se houver lesão mamária por sífilis (SES-SP, 2016).
A transmissão pode ocorrer em qualquer período da gestação e em qualquer estágio da doença materna (BRASIL, 2019; SES-SP, 2016). As fases mais infectantes são a primária e secundária, com risco de transmissão vertical de $70 - 100\%$, essa taxa é de $30\%$ nas fases tardias da infecção materna (BRASIL, 2020a). Com o tratamento adequado, esse risco de transmissão vertical de $70 - 100\%$ cai para $1 - 2\%$ (BRASIL, 2020a; SES-SP, 2016). Dessa forma, ao contrário de muitas infecções neonatais, a sífilis congênita pode ser realmente evitada com o diagnóstico e tratamento adequado de mulheres grávidas infectadas e seus parceiros sexuais (OMS, 2008).
Embora tenha agente etiológico conhecido, modo de transmissão estabelecido e tratamento fácil, barato e eficaz, a sífilis gestacional e congênita são graves problemas de saúde pública, sendo responsáveis por altos índices de morbimortalidade fetal e neonatal no Brasil e no mundo (BRASIL, 2020a).
O número de casos de sífilis gestacional no mundo em 2016 era de, aproximadamente, 988.000 casos (taxa de detecção: 473/100.000 nascidos vivos) (KORENROMP et al., 2019). Em relação a sífilis congênita, o número estimado de casos era de 661.000 casos no mesmo ano, com mais de 200.000 mortes fetais ou neonatais. (KORENROMP et al., 2019).
No Brasil, em 2019, o número total de casos de sífilis gestacional foi de 61.127 (taxa de detecção: 20,8/1000 nascidos vivos), (BRASIL, 2020b). Nesse mesmo ano, foram notificados 24.130 casos de sífilis congênita (taxa de incidência: 8,2/1.000 nascidos vivos), resultando em 173 óbitos (taxa de mortalidade: 5,9/100.000 nascidos vivos) (BRASIL, 2020b).
Na Região Norte, em 2019, o número total de casos notificados de sífilis gestacional foi de 6.026 (taxa de detecção: 18,9/100o nascidos vivos), valor que representa $9\%$ do total de casos do Brasil, (BRASIL, 2020b). No mesmo ano, notificaram 2.219 casos de sífilis congênita, (taxa de incidência: 7,0/1.000 nascidos vivos), e a taxa de mortalidade foi de 5,6/1000 nascidos vivos (BRASIL, 2020b).
No Pará, 2.218 casos de sífilis gestacional foram registrados em 2019 (taxa de detecção: 15,6/1000 nascidos vivos). No mesmo período, houve 944 casos de sífilis congênita (taxa de incidência: 6,7/1.000 nascidos vivos), resultando em uma taxa de mortalidade de 4,9/1000 nascidos vivos (BRASIL, 2020b).
Nesse contexto, a sífilis gestacional e congênita são agravos que apresentaram crescimento expressivo a partir do ano de 2009 na Região do Xingu (SiLVEIRA, 2016). Artigos estabeleceram uma relação de causalidade entre essa alteração na epidemiologia e a construção da Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte nos municípios da Área de Influência Direta da usina de Belo Monte, especialmente no município de Altamira (GRISOTTI, 2016; SILVEIRA, 2016).
O município de Altamira é a sede administrativa da Região Xingu, e centro de referência em atendimentos de saúde para os nove municípios da Região. Em Altamira, no ano de 2020, o número total de casos de sífilis gestacional foi de 50 casos (taxa de detecção: 21,3/100o nascidos vivos). Nesse mesmo ano, foram notificados 32 casos de sífilis congênita (taxa de incidência: 13,6/ 1000 nascidos vivos (BRASIL, 2021).
A UHE Belo Monte, construída na bacia do Rio Xingu, é a terceira maior hidrelétrica do mundo e a maior usina hidrelétrica inteiramente brasileira (OLIVEIRA, 2013; SILVEIRA, 2016). O projeto da hidrelétrica surgiu na década de 1970, durante o regime militar, porém a sua construção se iniciou efetivamente apenas em 2011 (OLIVEIRA, 2013; SILVEIRA, 2016). Dessa maneira, atraídos pela possibilidade de emprego e aquisição de renda, houve um rápido e intenso deslocamento de contingente humano para região, acarretando inúmeras transformações socioeconômicas, demográficas e epidemiológicas (SILVEIRA, 2016).
Os processos migratórios apresentam importantes desafios para a saúde pública por aumentarem o risco de disseminação de doenças infecciosas, dos migrantes às comunidades receptores e vice-Versa (DIAS e GONÇALVEZ, 2007; WILSON, 1995). Diante dessa perspectiva, o aumento no número de casos de sífilis gestacional e congênita na Região Xingu pode estar associado ao intenso fluxo migratório para a região em virtude do empreendimento (SILVEIRA, 2016).
A construção de uma barragem hidrelétrica é um grande projeto de desenvolvimento, que afeta as trajetórias de uma região, em curto e longo prazo (GRISOTTI, 2016; MORAN, 2016).
De modo geral, as localidades onde se instalam grandes hidrelétricas sofrem profundas transformações ambientais, demográficas e socioeconômicas (GRISOTTI, 2016; MORAN, 2016). No entanto, há poucos estudos em relação aos impactos à saúde decorrentes desse processo (GRISOTTI, 2016). Assim, mudanças como o aumento de doenças como a sífilis gestacional e sífilis congênita são negligenciadas devido à escassez de pesquisas que avaliem amplamente essas alterações (GRISOTTI, 2016).
Diante do impacto dessa problemática na saúde pública, é essencial realizar uma pesquisa abrangente sobre a epidemiologia da sífilis gestacional e congênita, no sentido de ampliar a informação da comunidade científica, profissionais de saúde atuantes e da população. Além de obter um banco de dados consistentes que permita a adoção de ações de prevenção e controle.
Então, pretende-se analisar a influência do intenso fluxo migratório decorrente da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte sífilis congênita na Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no período de janeiro de 2007 a dezembro de 2019.
- Determinar o número de casos de sífilis congênita na Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no período de 2007 a 2019.
- Determinar o perfil clínico-epidemiológico das gestantes cujos filhos foram diagnosticados com sífilis congênita na Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no período de 2007 a 2019.
- Analisar o acompanhamento pré-natal das gestantes com sífilis gestacional na Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no período de 2007 a 2019.
- Analisar o tratamento materno adequado e o tratamento concomitante do parceiro das gestantes com sífilis gestacional na Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no período de 2007 a 2019.
## II. Material e MÉtodos
Trata-se de um estudo ecológico, retrospectivo, de caráter analítico-descritivo.
O trabalho apresenta como área de estudo a Região Xingu, especificamente a Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
A Região Xingu é dividida em Áreas de Influência Direta e Indireta, indicadas pelo Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da UHE de Belo Monte, realizado pela empresa Eletrobrás.
A Área de Influência Direta (AID) é definida como a que pode sofrer com as interferências diretas da usina hidrelétrica, sendo composta pela área ocupada pela obra e pelo reservatório, bem como pela área em volta dessas localidades (ELETROBRÁS, 2009). Engloba 5 municípios: Altamira, Vitória do Xingu, Brasil Novo, Anapu e Senador José Porfírio (ELETROBRÁS, 2009; SILVEIRA, 2016).
A Área de Influência Indireta (All) é definida como área mais distante, que pode sofrer modificações indiretas ocasionadas pelo empreendimento (ELETROBRÁS, 2009). É composta por outros 5 municípios: Placas, Uruará, Medicilândia, Pacajá e Porto de Moz (ELETROBRÁS, 2009; SILVEIRA, 2016).
A população da pesquisa compreende todos os casos notificados de sífilis congênita nos municípios que compõe a Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no período de 2007 a 2019.
De acordo com o exigido pelas diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos, previstos na Resolução número 466 de 2012, o projeto de pesquisa foi submetido à aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Pará no dia 21/01/2021. O projeto foi aprovado pelo CEP, com parecer de número: 42343121.9.0000.0018.
Não houve a necessidade da utilização do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, pois ao longo da pesquisa, a identidade dos indivíduos foi mantida em sigilo.
Os pesquisadores envolvidos no projeto assinaram o Termo de Confidencialidade e Sigilo, seguindo assim, os princípios estabelecidos pela Resolução $\mathsf { n } ^ { \circ } \ 466$ do Conselho Nacional de Saúde.
Os dados foram obtidos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) da Região Xingu, coletados na Secretária de Estado de Saúde Pública do Pará (SESPA). O SINAN contém informações provenientes das fichas de notificação de e de sífilis congênita, que estão em anexo A.
Critérios de Inclusão: todos os casos de sífilis gestacional e congênita notificados nos munícipios que compõe a Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no período de 2007 a 2019 foram incluídos na pesquisa.
Critérios de Exclusão: não houve exclusão de fichas, sendo analisadas, inclusive, as fichas contendo alguns dados não informados ou referidos como ignorados.
No que se refere aos dados de sífilis gestacional, foi calculado o número total de casos notificados no período analisado, e a taxa de incidência para cada ano e para cada município. A taxa de incidência foi calculada dividindo o número total de casos novos de sífilis gestacional em cada ano e para cada município pelo número de nascidos vivos no mesmo local e período, e multiplicado por 1000. O número de nascidos vivos foi obtido no Sistema de Informações sobre nascidos vivos (SINASC).
As variáveis sociodemográficas avaliadas foram: munícipio de residência, faixa etária, etnia, escolaridade e zona de moradia. Foram avaliadas também a seguintes características clínicas: trimestre de gestação, classificação clínica da sífilis, VDRL e FTA-Abs no pré-natal, esquema de tratamento da gestante e tratamento concomitante do parceiro.
Com relação a sífilis congênita, foi calculado o número total de casos notificados no período analisado, e a taxa de incidência para cada ano e para cada município. A taxa de incidência foi calculada dividindo o número total de casos novos de sífilis congênita em cada ano e para cada município pelo número de nascidos vivos no mesmo local e período, e multiplicado por 1000.
Foram avaliados também os antecedentes clínico-epidemiológicos das mães cujos recémnascidos foram diagnosticados com sífilis congênita: realização do pré-natal, faixa etária, etnia, escolaridade, momento do diagnóstico, esquema de tratamento, adequação do tratamento e tratamento concomitante do parceiro.
Para a descrição do perfil epidemiológico, foram realizadas análises estatísticas descritivas. O programa utilizado para a organização dos dados em tabelas e gráficos foi o software Microsoft Office Excel versão 2010.
O programa estatístico utilizado para a realização das análises foi o BioEstat 5.2. Os testes de hipótese Qui-quadrado de Pearson e Teste G de Aderência foram utilizados para verificar associação estatística entre as variáveis.
O teste de Risco Relativo foi utilizado para verificar se houve aumento relativo do risco de desenvolver sífilis gestacional e sífilis congênita no período antes, durante e após a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Para essa análise, foram considerados os anos de 2007 a 2010 como período anterior a construção, o período de 2011 a 2014 como período durante a construção, e os anos de 2015 a 2018 como período posterior. O ano de 2019 foi desconsiderado para essa análise estatísticas para que todas as fases possuíssem 4 anos. Para cada período, utilizou-se como eventos a soma da taxa de incidência dos 4 anos considerados, e como tamanho da amostra, foi considerado o número de 1000 nascidos vivos.
Para todas as análises estatísticas realizadas foi considerado como indicativo de diferença estatística significante um valor de $\mathsf { p } \leq 0,05$.
## III. REsulTAdOS
Foram notificados 294 casos de sífilis congênita no período de 2007 a 2019 na Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Dessa maneira, a taxa de transmissão vertical de sífilis na Região Xingu é de $46,88\%$. Analisando a amostra, nota-se que houve um aumento do número de casos de 2009 até 2011. Entre os anos 2011 e 2016 houve variação da taxa de incidência, e a partir de 2016 houve novamente um aumento substancial do número de casos da doença. O gráfico 1 mostra a distribuição de casos de sífilis congênita para cada ano e para cada município.
 Gráfico 1: Taxa de Incidência de Congênita na Área de Influência Direta da UHE de Belo Monte de 2007 a 2019 Fonte: Elaborado pelo autor (2021)
O teste do Risco Relativo demonstrou que houve aumento relativo do risco de $186\%$ de sífilis congênita na Região Xingu quando comparado o período antes e durante a construção da UHE de Belo monte (RR: 2,86, p: 0,01), e esse aumento relativo do risco foi de $31\%$ quando comparado o período anterior com o período posterior a construção do empreendimento (RR: 4,14, p: 0,0002).
Em relação a análise comparativa da taxa de incidência de sífilis congênita na Região Xingu com a taxa de incidência nacional e estadual, constatou-se, por meio do Teste G de Aderência, que não houve diferença estatística significativa com o Brasil (Teste G de Aderência: 19,43, com p < 0,078). Já em comparação com o estado do Pará, houve diferença estatística significativa (Teste G de Aderência: 52,84, com $\mathsf { p } < 0,0001$ ). O gráfico 2 demonstra as taxas de incidência de sífilis congênita do Brasil, do estado do Pará e da Região Xingu.
 Gráfico 2: Comparação das taxas de Incidência de Sífilis Congênita de 2007 a 2019 Fonte: Elaborado pelo autor (2021)
Quanto ao perfil clínico-epidemiológico das gestantes com sífilis cujos filhos foram diagnosticados com sífilis congênita, as gestantes mais acometidas estavam na faixa etária de 16-20 anos $( 37,41\% )$, eram pardas $( 91,49\% )$ e possuíam ensino fundamental incompleto $( 37,41\% )$. Quanto ao nível de escolaridade, é importante pontuar que $18 {, } 36\%$ das fichas de notificação apresentaram esse dado como ignorado. A tabela 1 apresenta dados clínico-epidemiológicos das mães de recém-nascidos com sífilis congênita na Área de Influência Direta da UHE de Belo Monte.
Tabela Dados Clínico-epidemiológicos das mães de recém-nascidos com sífilis congênita na Área de Influência Direta da UHE de Belo Monte de 2007 a 2019
<table><tr><td></td><td>Dados Clínico-epidemiológicos da maior</td><td>Númos
absolutos (%)</td></tr><tr><td colspan="3">Faixa etária</td></tr><tr><td>≤ 15</td><td>21 (6,86%)</td><td></td></tr><tr><td>16-20</td><td>110 (37,41%)</td><td></td></tr><tr><td>21-25</td><td>74 (24,18%)</td><td></td></tr><tr><td>26-30</td><td>50 (17%)</td><td></td></tr><tr><td>31-35</td><td>23 (7,82%)</td><td></td></tr><tr><td>> 35</td><td>16 (5,44%)</td><td></td></tr><tr><td colspan="3">Etnia</td></tr><tr><td>Branca</td><td>14 (4,76%)</td><td></td></tr><tr><td>Preta</td><td>4 (1,36%)</td><td></td></tr><tr><td>Amarela</td><td>1 (0,34%)</td><td></td></tr><tr><td>Parda</td><td>269 (91,49%)</td><td></td></tr><tr><td>Indígena</td><td>2 (0,68%)</td><td></td></tr><tr><td>Ignorado</td><td>4 (1,36%)</td><td></td></tr><tr><td colspan="3">Escolaridade</td></tr><tr><td>Analfabeto</td><td>3 (1,02%)</td><td></td></tr><tr><td>Ensino fundamental incomplete</td><td>110 (37,41%)</td><td></td></tr><tr><td>Ensino fundamentalcomplete</td><td>25 (8,50%)</td><td></td></tr><tr><td>Ensino médio incompleto</td><td>55 (18,70%)</td><td></td></tr><tr><td>Ensino médiocomplete</td><td>40 (13,60%)</td><td></td></tr><tr><td>Ensino superior</td><td>7 (2,38%)</td><td></td></tr><tr><td>Ignorado</td><td>54 (18,36%)</td><td></td></tr><tr><td colspan="3">Mãe realizou o pré-natal</td></tr><tr><td>Sim</td><td>262 (89,11%)</td><td></td></tr><tr><td>Não</td><td>27 (9,18%)</td><td></td></tr><tr><td>Ignorado</td><td>5 (1,70%)</td><td></td></tr></table>
Diagnóstico de Sífilis Materna Durante o pré-natal No momento do parto Após o parto Ignorado Esquema de tratamento da gestante Adequado Inadequado Não realizado Ignorado Parceiro tratado concomitante Sim Não Ignorado
<table><tr><td colspan="2">Diagnóstico de Sífilis Materna</td></tr><tr><td>Durante o pré-natal</td><td>151 (51,36%)</td></tr><tr><td>No momento do parto</td><td>29 (9,86%)</td></tr><tr><td>Após o parto</td><td>104 (35,37%)</td></tr><tr><td>Ignorado</td><td>10 (3,40%)</td></tr><tr><td>Esquema de tratamento da gestante</td><td></td></tr><tr><td>Adequado</td><td>61 (20,74%)</td></tr><tr><td>Inadequado</td><td>182 (61,90%)</td></tr><tr><td>Não realizado</td><td>42 (14,28%)</td></tr><tr><td>Ignorado</td><td>9 (3,06%)</td></tr><tr><td>Parceiro tratado concomitante</td><td></td></tr><tr><td>Sim</td><td>92 (31,29%)</td></tr><tr><td>Não</td><td>182 (61,90%)</td></tr><tr><td>Ignorado</td><td>20 (6,80%)</td></tr></table>
Em relação à assistência pré-natal, observa-se que 89,11% das gestantes realizaram o pré-natal. Quanto ao momento de diagnóstico da sífilis materna, 51, $36\%$ dos casos foram diagnosticados durante o acompanhamento pré-natal, $9,86\%$ dos casos foram descobertos no momento do parto, e $35 {, } 37\%$ após o parto.
A maioria das mães dos recém-nascidos diagnosticados com sífilis congênita receberam tratamento inadequado $( 61,90\% )$. Em relação ao tratamento da sífilis pelo parceiro da gestante, notou-se que 61, $90\%$ dos parceiros sexuais das gestantes não foram tratados concomitantemente.
## IV. DISCuSsÃo
Foram diagnosticados e notificados 294 casos de sífilis congênita nos municípios da Área de Influência Direta da Usina Hidrelétrica de Belo monte entre 2007 e 2019. O teste do Risco Relativo demonstrou que houve aumento relativo do risco de desenvolver sífilis congênita na Região Xingu de $314\%$ quando comparado o período anterior com o período posterior a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (RR: 4,14, p: 0,0002). Resultado semelhante foi observado em um trabalho realizado no município sede da implantação da Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó, que demonstrou aumento de $389,6\%$ no número de casos de infecções sexualmente transmissíveis, entre elas, a sífilis congênita, no período antes e após a construção do empreendimento (BEZ et al., 2019). Essa correlação indica uma ligação entre esses grandes projetos de infraestrutura e o aumento de agravos a saúde da população. Todavia, comparações com outras cidades e ou regiões com populações semelhantes na formação e composição podem trazer novas revelações sobre esse processo.
Com relação ao perfil sociodemográfico das gestantes infectadas cujos filhos foram acometidos por sífilis congênita, a maioria estava na faixa etária de 16- 20 anos $( 37,41\% )$, eram pardas $( 91,49\% )$ e possuíam ensino fundamental incompleto $( 37,41\% )$. Quanto ao nível de escolaridade, é importante pontuar que $18 {, } 36\%$ das fichas de notificação apresentaram esse dado como ignorado. Dessa maneira, não houve diferença entre o perfil sociodemográfico das gestantes com sífilis gestacional das gestantes com sífilis gestacional cujos filhos foram diagnosticados com sífilis congênita de acordo os dados publicados por Loureiro et al., 2022. Esses dados chamam atenção para o maior risco de mulheres jovens (menores de 20 anos) e com baixa escolaridade estão expostas a ISTs.
O estudo demonstrou que $89,11\%$ das mulheres que tiveram seus recém-nascidos diagnosticados com sífilis congênita receberam assistência pré-natal. Resultados semelhantes foram encontrados em outros estudos realizados em diferentes regiões do Brasil (CAVALCANTE et al., 2017; MASCHIO-LIMA et al., 2019; SILVA et al., 2020). Diante disso, questiona-se a qualidade das consultas de pré- natal ofertadas, já que essas mulheres tiveram acesso ao serviço de saúde em algum momento da gravidez e mesmo assim ocorreu transmissão vertical, onde o manejo adequado deveria reduzir o risco de sífilis congênita para $2\%$.
Segundo um estudo do IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e a Fundação Instituto Oswaldo Cruz realizado com mulheres de todo o território nacional, cerca de $97,4\%$ das mulheres do Brasil tem acesso ao pré-natal (NUNES et al., 2017). No entanto, esse estudo revelou a baixa qualidade da assistência prestada no Norte do país, que apresentou menor taxa de início precoce do pré-natal, menor número de consultas e menor proporção de realização de exames complementares preconizados durante a gestação (NUNES et al., 2017). Nesse contexto, a ausência de assistência pré-natal ou assistência pré-natal incompleta ou incorreta impede o diagnóstico precoce e o tratamento adequado de sífilis gestacional, limitando as possibilidades de redução de transmissão vertical (BRASIL, 2019).
Quanto ao momento de diagnóstico da sífilis materna, apenas 51, $36\%$ das mulheres foram diagnosticadas durante o acompanhamento pré-natal, o que revele novamente deficiência na qualidade do serviço de saúde ofertado, já que $89,11\%$ dessas mulheres receberam assistência pré-natal. Além disso,
- estudo demonstrou que $9,86\%$ dos casos foram descobertos no momento do parto, e $35 {, } 37\%$ após o parto. O diagnóstico tardio da doença na gestante reduz o tempo hábil para a conclusão do tratamento e, portanto, aumenta o risco de transmissão vertical (SOUZA et al., 2018).
A maioria das mães dos recém-nascidos diagnosticados com sífilis congênita receberam tratamento inadequado $( 61,90\% )$. o tratamento é considerado inadequado quando se utiliza outra droga que não seja a penicilina ou se utiliza penicilina em dose inadequada para o estágio da doença, quando é realizado com menos de 30 dias antes do parto, quando não há a avaliação sobre o risco de reinfecção, o que inclui o não tratamento do parceiro, e quando não se observa a queda dos títulos de VDRL após o tratamento (BRASIL, 2019). Outros estudos também evidenciaram essa alta taxa de tratamento inadequado de sífilis gestacional nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Tocantins, São Paulo e Paraná (ALCÂNTARA et al., 2017; HOLANDA et al., 2011; MASCHIO-LIMA et al., 2019; SILVA et al., 2020).
Outro dado preocupante encontrado na pesquisa foi que 61, $90\%$ dos parceiros sexuais das gestantes não realizaram o tratamento. Outros estudos realizados no Brasil também apresentaram alto percentual de parceiros não tratados (ALCÂNTARA et al., 2017; CAVALCANTE et al. 2017; HOLANDA et al., 2011; MASCHIO-LIMA et al., 2019; SILVA et al., 2020; SOUZA et al., 2018). A terapia do parceiro é imprescindível para o sucesso do tratamento da gestante com sífilis, pois a ausência do tratamento concomitante do parceiro representa um risco de reinfecção para parturiente e, consequentemente aumenta o risco de transmissão vertical (BRASIL, 2019).
A sífilis congênita ocorre em $70\%$ a $100\%$ das gestantes não tratadas, ou tratadas inadequadamente, em comparação com apenas $1\%$ a $2\%$ das mulheres adequadamente tratadas (BRASIL, 2020a). Estima-se que, na ausência de tratamento eficaz, $11\%$ das gestações resultarão em morte fetal e $13\%$ em partos prematuros ou baixo peso ao nascer, portanto, a sífilis congênita é uma patologia grave, mas que pode ser evitada por meio do diagnóstico precoce e tratamento adequado das gestantes com sífilis e seus parceiros sexuais (BRASIL, 2020a; OMS, 2008; WHO, 2016). Diante dessa perspectiva, é fundamental melhorar a qualidade da assistência pré-natal ofertada na Região Xingu para reduzir a transmissão vertical da doença.
## V. CONclusÃO
- √ Houve influência da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no número de casos de sífilis gestacional e sífilis congênita nos municípios
- da Região Xingu que compõe a Área de Influência Direta da UHE Belo Monte.
- √ Foram notificados 294 casos de sífilis congênita no período de 2007 a 2019 nos municípios da Região Xingu que compõe a Área de Influência Direta da UHE Belo Monte.
- √ O perfil clínico-epidemiológico das gestantes cujos filhos foram diagnosticados com sífilis congênita na Região Xingu foi semelhante ao encontrado para as gestantes portadoras de sífilis gestacional.
- O estudo revelou inúmeras falhas na assistência pré-natal prestada na Região Xingu, como diagnóstico tardio, incompatibilidade entre a classificação clínica da doença e o esquema terapêutico adotado e as altas taxas de tratamento considerado inadequado. Todos esses erros se refletem na alta taxa de transmissão vertical de sífilis na região.
- A análise do perfil sociodemográfico apresentado representa importante instrumento para o desenvolvimento de estratégias e ações em saúde voltadas para a prevenção de agravos como a sífilis gestacional e a sífilis congênita alinhadas à realidade territorial. Além disso, o registro da qualidade da assistência em saúde prestada constitui efetivo subsídio para permitir a elaboração de políticas públicas que melhorem a qualidade dos serviços em saúde, e assim, reverter o quadro epidemiológico de sífilis gestacional e congênita observado na Região Xingu.
- Funding: Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-graduação daUniversidade Federal do Pará (PROPESP/UFPA): PROPESP/UFPA (PAPQ).
### SINAN
República Federativa do Brasil
Ministério da Saúde
#### SISTEMA DE INFORMAÇÃO DE AGRAVOS,DE NOTIFICAÇÃQ
#### FICHA DE NOTIFICAÇÃO /INVESTIGAÇÃO SIFILIS CONGENITA
#### Definição de caso:
Sçã- a Ver definição de sífilis em gestante (situações 1, 2 ou 3).
rtama enquadrem nesses critérios serão consideradas como tratadas de forma não adequada.
Para fins de notificação de caso de sífilis congênita, não se considera o tratamento da parceria sexual da mãe.
Situação $\pmb { 2 } ^ { \mathrm { d } }$:Toda criança com menos de 13 anos de idade com pelo menos uma das seguintes situações:
-Manifestação clínica, liquórica ou radiológica de sífilis congênita E teste não treponêmico reagente;
coletadas simultaneamente no momento do parto;
-Ttulos de testes não treponêmicos ascendentes e pelo menos duas diluições no seguimento da criança exposta
-Testes treponêmicos reagentes após 18 meses de idade, sem diagnóstico prévio de síflis congênita.
d Nessa situação, deve ser sempre afastada a possibilidade de sífilis adquirīda e Seguimento da criança exposta: 1, 3, 6, 12 e 18 meses de idade
Saçãçãção de criança, aborto ou natimorto.
fDeteccãodTrnema lidur me xames diretos mioscoiae cao escro cmatrial
 Panel label: Dados Complementares.
 Fonte: SVS/MS
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Anexo A Ficha de Notificação da Sífilis Congênita do Sistema de Informação de Agravos de Notificação.
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How to Cite This Article
Ciro Francisco Moura de Assis Neto. 2026. \u201cPossible Impact of the Construction of the Belo Monte Hydroelectric Power Plant on Cases of Congenital Syphilis in the Xingu Region\u201d. Global Journal of Medical Research - E: Gynecology & Obstetrics GJMR-E Volume 23 (GJMR Volume 23 Issue E2).
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