The attention in this article falls on an expressive niche of Moacyr Scliar’s literature -the chronicles. Expanding the proposal that the writer made use of his experiences to compose his works, it is highlighted that the media, and among them cinema, are the target of the writer’s attention, they appear as a theme in his chronicles and appear in them as an intertext and intermidiatic reference. It is identified that his performance as a chronicler is marked by the logic of the press, with publications in newspapers and books. After mapping the phases attributed to his literature, there is a thematic association between medicine and cinema in his chronicles, in which cinema and film works appear as a compositional resource, as a motive or setting, to exemplify complex issues or to illustrate reflections in a concrete way about racism.
### 1. INTRODUÇÃO
- conjunto da produção literária do escritor e médico Moacyr Scliar (1937-2011) figuram mais de setenta livros de gêneros diferenciados, tais como romances, ensaios, crônicas, ficções infantojuvenis e contos. O escritor gaúcho teve suas obras publicadas em mais de vinte países e foi reconhecido quatro vezes com o "Prêmio Jabuti", pelas obras: O olho enigmático (1986), categoria Contos; Sonhos tropicais (1992), categoria Romance; A mulher que escreveu a Bíblia (1999), categoria Romance; e Manual da paixão solitária (2008), categoria Romance, também escolhida obra de Ficção do Ano. O escritor colaborou por décadas como cronista em vários órgãos da imprensa no país, como a Folha de São Paulo e o Jornal Zero Hora (RS), e foi membro da Academia Brasileira de Letras a partir de 2003.
Na primeira etapa de sua carreira literária, Scliar elabora obras que tematizam a cidade de Porto Alegre e o Estado do Rio Grande do Sul. Isso foi pontuado por Regina Zilberman (2009), que dá o nome a essa fase de suas publicações, entre 1972 e 1977, de "os romances de Porto Alegre", entre os quais se destacam Os mistérios de Porto Alegre (cujo título alude a Os mistérios de Paris, de Eugene Sue, e a Mistérios de Lisboa, de Castelo Branco), livro constituído de contos e crônicas, de 1975, e O ciclo das águas, de 1977, reconhecido com o segundo lugar no Prêmio Érico Veríssimo de Romance. O segundo período dessa cronologia literária atribuída à sua obra dá-se pelo predomínio temático na interface judaísmo-Brasil, abarcando obras como O centauro no jardim (1980), A estranha nação de Rafael Mendes (1983) e Cenas da vida minúscula (1991), publicadas entre 1980 e 1991. O terceiro período abrange A mulher que escreveu a Bíblia (1999), Os vendilhões do Templo (2006) e Manual da paixão solitária (2008), e se caracteriza por "privilegiar personagens sugeridas pela leitura da Bíblia hebraica" (Ibidem, p. 116).
Na sua maneira de produzir, muitas vezes num só ano o autor publica obras de gêneros diferenciados. Isso se nota em 1984, ano em que, além do livro de crônicas A massagista japonesa, Scliar lança literatura infanto-juvenil (Memórias de um aprendiz de escritor) e as antologias Dez contos escolhidos e Os melhores contos de Moacyr Scliar. Em 1995 e em 2001, o mesmo fenômeno é percebido: no primeiro, foram editadas as crônicas do Dicionário do viajante insólito e os infantojuvenis Um sonho do caroço do abacate e Introdução à prática amorosa; em 2001, verifica-se a publicação das crônicas de O imaginário cotidiano junto ao infantojuvenil Ataque do comando P. Q. Nota-se, também nos casos assinalados, que a atuação do Scliar cronista ocorre de forma contínua e paralela à publicação de obras nos demais gêneros literários.
Com relação às crônicas, ele as escreveu por aproximadamente quarenta anos: publicou as primeiras no início dos anos 1970. Dos diversos gêneros a que se debruçou, a crônica de jornal esteve presente em sua trajetória do começo ao final, sendo, inclusive, "os últimos textos que o autor legou a seus leitores" (ZILBERMAN, 2012, p. 9), no início de 2011. A atenção neste artigo recai justamente sobre esse nicho da produção do escritor, as crônicas, e entre elas as crônicas médicas, no que poderia entender-se como manifestação de sua experiência de vida em sua literatura, visto que Scliar formou-se em medicina, em 1962, e doutorou-se em Saúde Pública com a tese Da Bíblia à psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica. Com relação à repercussão da atuação na medicina em sua literatura, pode-se considerar que tenha dado os primeiros passos de seu percurso literário ainda em tempos de faculdade, visto que, na seção "Sobre o autor" do livro Dicionário do viajante insólito, lê-se que "ao ingressar na faculdade de medicina, [Scliar] começou a escrever para o jornal Bisturi" (SCLIAR, 2011, p. 133).
Do universo de suas crônicas, selecionam-se aquelas com temas ligados à medicina, a partir das quais se analisa a recorrência da menção ao cinema nessa parte da produção do autor. Expandindo a recorrente proposta de que o escritor fez uso de suas vivências (SZKLO, 1990; WALDMAN, 2003; ZILBERMAN, 2009) e de assuntos de interesse para compor suas obras a cidade e o bairro onde cresceu, o judaísmo, a imigração, a atuação como médico e a formação em saúde pública - destaca-se que, como aspecto importante na segunda metade do século XX no país, as mídias, e entre elas o cinema, são alvo da atenção do escritor, aparecendo nas crônicas médicas como recurso composicional, no intertexto estabelecido com obras fílmicas (GOMES, 2009) e como referência intermidiática (RAJEWSKY, 2012).
Identifica-se que o escritor recorre ao cinema como motivo e recurso composicional e de ambientação, tomando-o como parte da paisagem cultural da cidade e da sociedade de seu tempo, como algo a ser considerado como parte da cena e da vida de todos os dias com a qual tece suas crônicas. A sua proximidade das mídias eletrônicas e da cultura popular e midiática se manifesta, também, no fato de escrever para jornal, ademais de trazer o cinema como motivo em sua obra.
Quanto à combinação de elementos temáticos, ou seja, do que se manifesta em sua obra como seleção (incluir e excluir) e hierarquia (no sentido de ser mais ou menos central na composição) de certos elementos da realidade e da experiência social, interessa explorar se a vivência do escritor como médico se expressa em sua obra, e sobre a intersecção que estabelece dos temas ligados à saúde com a menção ao cinema. Observa-se que Scliar valeu-se de seus conhecimentos médicos como material para as suas criações literárias, o que se verifica, por exemplo, no fato de o escritor gaúcho ser autor de 21 obras com temática médica. Por essa trajetória, diz-se que Scliar está inscrito numa linhagem de médicos-escritores, como Pedro Nava (1903-1984) e Guimarães Rosa (1908-1967). No que tange especificamente às crônicas, essa temática aparece esparsa em seus livros, é tema recorrente de muitas das suas publicações, assim como esteve regularmente presente nas que publicou exclusivamente em jornal.
Na elaboração desse artigo, as maiores dificuldades encontradas na etapa de procura, uma vez que nem todas as crônicas de Scliar estão publicadas em livros. Devido a isso, foi necessária uma minuciosa pesquisa na Internet para encontrar as demais crônicas, tendo em vista que a grande maioria das suas crônicas foram escritas durante o período que ele trabalhou nos jornais Zero Hora e Folha de São Paulo. Ou seja, das muitas crônicas publicadas nesses jornais, ainda há aquelas que ainda não foram compiladas em livros. Por isso, foram desenvolvidas pesquisas constantes no site do autor e na Internet de um modo geral a fim de se reunir todos os textos nos quais o autor menciona o racismo. A leitura dos textos encontrados levou à constatação de que o escritor gaúcho menciona o racismo não somente nas suas crônicas médicas, pois ele também desenvolve essa temática quando escreve sobre outros assuntos como o futebol e a política. Todavia há que se observar que, como o cerne dessa pesquisa foi o racismo nas crônicas médicas, essa foi a abordagem estritamente seguida tanto na investigação como na divulgação dos resultados obtidos. As crônicas médicas são os textos que abordam diretamente questões relacionadas à saúde ou à atuação dos médicos.
## II. A Crônica E o Cronista Moacyr SCLIAR
No ensaio Cronista e leitor, Zilberman afirma que a crônica é um gênero de difícil demarcação, pois pode tratar de fatos contemporâneos, narrar tanto histórias verídicas como imaginárias, relembrar pessoas e acontecimentos, realizar comentários sobre literatura ou outras expressões culturais. Por sua lógica de produção e de consumo, a crônica, assim como o folhetim, é constitutivamente um gênero poroso à atualidade (MARTÍN BARBERO, 1987), ou tem porosidade de assuntos, segundo Granja (2015). A sua primeira acepção, explica Fischer (2004), derivava do latim chronica - relato, história escrita ou narrativa de fatos dispostos em ordem cronológica -, mas o termo migrou desde o domínio do relato histórico para o literário, e logo depois passou a ser utilizado na literatura em um gênero específico ligado ao jornalismo.
Dentre os escritores das crônicas modernas está Moacyr Scliar, considerado um dos maiores cronistas brasileiros, escrevia regularmente em jornais de circulação regional e nacional. O escritor foi um defensor da crônica na literatura brasileira, considerando-a um gênero literário importante; seu uso, contudo, era mais ou menos imediato, diferente da ficção (romance), gênero no qual uma boa ideia pode ficar amadurecendo por anos (FISCHER, 2004, p. 7-17). Parte de suas crônicas foram inspiradas em matérias de jornais. Em seu processo de criação, dizia precisar de um elemento desencadeante e, nesse processo, a notícia de jornal cumpria esse papel, dizia Scliar:
[..] pode ser um episódio histórico, uma pessoa que conheci, uma história que me contaram, uma notícia de jornal... Daí em diante é uma incógnita. Sou muito rápido escrevendo para jornal, mas quando se trata de uma ficção mais longa é diferente; aí períodos de rapidez se alternam com outros de muita lentidão, resultante de dúvidas que vão desde a questão do foco narrativo até a incerteza quanto à validade do projeto \[...\](ZILBERMAN, 2009, p. 118).
O trecho é referente a uma entrevista concedida pelo escritor em 2009, quando há décadas escrevia e publicava em jornais. Também em sua autobiografia, intitulada O texto, ou: a vida: uma trajetória literária, fala sobre seu processo de criação e sobre as diferentes rotinas criativas relativas à elaboração (i) de crônicas para serem publicadas por jornais e (ii) de romances, concebidos para serem lidos em livros.
É uma experiência no mínimo curiosa passar da página do livro para a página do jornal. Sim, em ambos os casos trata-se de texto impresso, destinado a um público, mas as diferenças são grandes, e históricas. [...] Os escritores escreviam para a eternidade; os jornalistas estavam presos aos assuntos do momento, nem sempre agradáveis. [...] Os escritores podiam fazer pesquisas formais, mesmo que estas resultassem em textos obscuros; os jornalistas tinham, e têm, a obrigação da clareza. (SCLIAR, 2007a, p. 237-238).
O fragmento acima dialoga com parte do que Scliar menciona na entrevista intitulada Falar com Deus? Só se for com ligação a cobrar, na qual esclarece que não se considera jornalista, mas sim um colaborador de jornal que abomina ouvir gente que deprecia o jornalismo. Ele afirma: "[.....] o meu convívio com o jornalismo foi contínuo. Aprendi, em primeiro lugar, a fazer um texto enxuto. Aprendi a ir direto ao ponto, entregar o texto na hora", além de precisar escrever "com muita antecedência por causa dos problemas de ilustração". Relacionando essas considerações à explanação acerca do embate entre o livro e o jornal, Scliar pondera que no país "surgiu um gênero que se tornou o elo de ligação entre literatura e o espaço jornalístico: a crônica". No jornal, a crônica é "um respiradouro, uma brecha na massa não raro sufocante de notícias" (SCLIAR, 2007a, p. 239).
Este trabalho vale-se do depoimento de Scliar não como intento de, como afirma Iser (2013) em O fictício e o imaginário, indagar sobre a psique do autor para desvendar suas intenções. Tal como sustenta Iser (2013, p. 37), entende-se que seja "provável que a intenção não se revele nem na psique nem na consciência, mas que possa ser abordada apenas através das qualidades de manifestação que se evidenciam na seletividade do texto face a seus sistemas contextuais". Aqui o testemunho de Scliar é entendido, de tal forma, como elemento transtextual, no sentido de Genette (2006), como forma estendida de paratextualidade ou metatextualidade, que acrescenta e desdobra aspectos de seus processos de criação, e repercute em sua fortuna crítica.
Em termos de publicações, a atuação de Scliar como cronista começa em 1984, ano em que é lançada a primeira edição de A massagista japonesa, seguida, em 1989, por Um país chamado infância. Em 1995, vem à lume as crônicas do Dicionário do viajante insólito, que recebeu o Prêmio Açorianos, e um ano depois chega às livrarias Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Em 2001, edita O imaginário cotidiano, também laureado com o Prêmio Açorianos, e neste mesmo ano publica A língua de três pontas: crônicas e citações sobre a arte de falar mal e A face oculta: inusitadas e reveladoras histórias da medicina. Em 2004, trabalhando num projeto da Editora Global, Fischer seleciona textos para o livro Moacyr Scliar, expondo essa vertente do escritor para a Coleção Melhores Crônicas. Em 2005 lança O Olhar Médico, em 2009, Histórias que os jornais não contam. Com a morte do autor, em 2011, as publicações passam a ser póstumas, e Zilberman seleciona crônicas para as seguintes compilações: A poesia das coisas simples (2012) e Território da emoção: crônicas de medicina e saúde, A banda na garagem (2014) e A nossa frágil condição humana (2017). Desses, apenas Território da emoção, A face oculta e o Olhar médico reúnem crônicas médicas no todo, enquanto os livros de 2012 e de 2014 trazem algumas crônicas médicas esparsas entre textos de outro enfoque.
Por cerca de 40 anos, do início dos anos 70 a 2011, Moacyr Scliar publicou crônicas regularmente no jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. Publicou nos cadernos Vida e Donna, na coluna A Cena Médica, mantendo uma coluna semanal no caderno de Notícias. Os temas, como sugerem as variadas editorias e suplementos onde publicava, eram diversos, abarcando desde questões de saúde, vida familiar, passando também por assuntos cotidianos da cidade e do estado, reservados principalmente à coluna das terçasfeiras, na página 2 do jornal. Sobre sua participação para o Caderno Vida do Jornal Zero Hora, ele afirmou tratar-se de um trabalho importante, porque é uma forma de escrever sobre Medicina de maneira mais humanista. Já no jornal Folha de São Paulo, Scliar escreveu a partir de 1993, na seção Cotidiano, com crônicas inspiradas em notícias de jornais, sendo que algumas delas são crônicas médicas. Atuou como cronista, ainda, no Correio Braziliense, do Distrito Federal, de 2006 a 2011, escrevendo para o caderno Diversão e arte.
Examinando as crônicas de Scliar publicadas na Folha de São Paulo, Lealis Guimarães (1999, p. 161) toma como corpus de análise cinco crônicas e aponta que, nelas, "o humor é inerente à criação literária, manifestando-se através do procedimento paródico", que se combina, em seu efeito estético, à exploração de "assuntos insólitos, ou constrangedores, do cotidiano veiculado pela notícia, para promover efeitos tragicômicos". Com respeito à leitura, com suas crônicas passa-se "ao mundo do imaginário e, nesse transporte do real para o fictício, [...] que funciona como crítica às ordens e valores predeterminados". Do corpus analisado por Guimarães (1999), o único texto que se enquadra no perfil de crônica médica é Consultando no posto de saúde fantasma, elaborada a partir de uma notícia desanimadora sobre o sistema de saúde, na qual nota-se um "humor crítico diante do fato noticiado" (GUIMARÃES, 1999, p. 121-122).
O imaginário cotidiano, Moacyr Scliar (Coleção Melhores Crônicas), Histórias que os jornais não contam e A banda na garagem têm em comum reunirem crônicas inspiradas em notícias de jornal. Esses livros apresentam a seguinte disposição: logo após o título da crônica, é apresentada a notícia que serve de inspiração e, em seguida, vem o texto de Scliar. Algumas das crônicas desses livros apresentam temáticas relacionadas à Medicina, que são compostas de personagens em situações nas quais se reportam superficialmente aspectos da Medicina. Desses textos, pode-se mencionar "Ele (ex-ela) e ela (ex-ele)", cujo narrador cria uma história sobre as dificuldades de adaptação vivenciadas por um casal que muda de sexo. Esse texto integra Moacyr Scliar (2004, p. 215- 216), "uma reunião de crônicas que o destacam no gênero com maior nitidez" (HANCIAU, 2012, p. 118). Sobre a pertinência de classificá-los como crônicas, os textos inspirados em manchetes de jornais, no entender de Zilberman (2012, p. 16), devem ser assim considerados, pois "crônicas são também narrativas de eventos efetivamente ocorridos ou imaginários". Para Scliar, porém, por serem ficcionais, esses textos não seriam crônicas. Em entrevista concedida a Fischer, o escritor comenta sobre os limites entre crônica e outros gêneros:
[...] acho, sim, que os limites da crônica são claros. Crônica não é conto: é um comentário sobre a realidade, portanto exclui ficção (ainda que, na Folha de São Paulo, eu escreva um texto ficcional baseado em notícias de jornal. Mas eu não o chamo de crônica. Nem de conto. É uma espécie de crônica ficcionalizada). Crônica não é um gênero tão erudito quanto o ensaio. Crônica não é tão factual quanto o artigo (sobre política, por exemplo). (SCLIAR apud FISCHER, 2011, p. 102).
O Dicionário do viajante insólito reúne uma coletânea de crônicas inspiradas em viagens de Scliar, e contém apenas um texto no qual há referência à medicina: G de Gueixa, cujo personagem sonha em se deitar com uma gueixa. Seu chefe o convida para uma viagem ao Japão e, em seu quarto de hotel, ele "solicita" uma gueixa. A visitante é velha e cega, ele tenta se desvencilhar dela e machuca a coluna, necessitando assim ceder aos cuidados da gueixa, que era, de fato, apenas massagista (SCLIAR, 2011, p. 35-38). Publicada em 1996, Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar é outra obra que dispõe uma única crônica sobre saúde. Intitulada Pietá, que narra o sofrimento do escritor com a perda de sua mãe, acometida por um câncer, e de sua impotência, como médico, perante a situação (SCLIAR, 1996, p. 44-46).
Em A massagista japonesa, há textos que remetem a questões relacionadas à saúde. A narrativa que intitula o livro é, com ligeiras modificações, a mesma de "G de Gueixa", de o Dicionário do viajante insólito. Há outros textos nos quais são contadas histórias entremeadas de resquícios de conselhos médicos, como Ponte de safena, A um bebê com cólicas, Data certa, Decisão, O homem que corria (SCLIAR, 1984, p. 23-24, 53-54, 75-78, 107-109). A língua de três pontas: crônicas e citações sobre a arte de falar mal (2001) dispõe um capítulo intitulado Falando mal da medicina, no qual Scliar apresenta um histórico da evolução da medicina, seguido das citações que coligiu relacionadas à desconfiança nutrida por muitos sobre a atuação dos médicos (SCLIAR, 2001, p. 54-66).
Observam-se, em suas crônicas médicas, como no dizer de Iser (2013, p. 37), as "qualidades de manifestação que se evidenciam na seletividade do texto face a seus sistemas contextuais", identificando que a prática médica serviu de mote para sua literatura. Sobre a presença dessa prática em suas obras, Hanciau (2012, p. 114) afirma que "o texto exato, objetivo e cortante, Scliar certamente herdou dos prontuários médicos, que escreveu ao longo da vida e que, embora frios, trazem implícitas todas as dores do mundo. Os anos de Medicina ensinaram a diagnosticar a insondável criação literária".
Na trajetória literária de Scliar, as crônicas não são secundárias. A inserção do escritor na imprensa é notória, tanto que Zilberman (2017, p. 5) observa que "além de duradoura, a participação de Scliar no jornalismo gaúcho, em especial em Zero Hora, foi intensa, resultando em mais de 5 mil crônicas". Antes do Zero Hora, escreve para o jornal universitário Bisturi, quando cursava Medicina, e, desde 1984, publica suas crônicas também em livro. Ao todo, foram 37 anos de produção contínua no gênero, e em parte dessa produção se verifica a sistemática tematização da medicina e o intertexto com o cinema na composição dos textos, muitas vezes de forma associada. Combinadas às três fases temáticas atribuídas à sua literatura - a cidade de Porto Alegre, a interface judaísmo-Brasil e a releitura de personagens bíblicas, neste trabalho se propõe que, no tocante às crônicas, há outros dois temas significativos que marcam sua obra, as crônicas médicas: o tema da saúde e da prática da medicina, por um lado, e o intertexto com filmes e a produção cinematográfica, por outro.
## III. O Racismo Nas Crônicas Médicas De Moacyr Scliar
Ao longo da sua trajetória, Scliar produziu poucas crônicas médicas abordando o racismo, mas nelas a sua mensagem antirracista ficou bem delineada. Por ser médico e professor de História da Medicina, o escritor gaúcho denunciou o preconceito racial nesse meio. Nesse sentido, veio a lume o texto O amante latino: raízes biológicas no qual Scliar relembra uma fala proferida pelo cientista James Dewey Watson (1928), laureado com o Prêmio Nobel de Medicina quando tinha 34 anos. Conferencista reverenciado, aos 72 anos Watson "escandalizou o público na Universidade de Berkeley com suas — para dizer o mínimo — heterodoxas ideias sobre sexualidade" (SCLIAR, 2001b, p. 157). Watson afirmou que homens com mais melanina o pigmento que dá cor escura à pele teriam mais desejo sexual que os de pele clara. "Nada disso, naturalmente, está confirmado", mas veio "ao encontro de dois estereótipos norte-americanos. Um deles: os negros teriam um desejo sexual excessivo, especialmente por mulheres brancas. O número de infelizes linchados pela Ku Klux Klan com base nesse argumento [...] foi enorme" (SCLIAR, 2001b, p. 157-159).
Na visão de Scliar, James Watson quis dar base científica a um estereótipo, mesmo sendo notório que "sexo não depende só de moléculas" (SCLIAR, 2001b, p. 159). Sabe-se que o estereótipo é baseado no senso comum, que é utilizado para definir/ categorizar um indivíduo quanto a sua identidade ou comportamento a partir do seu gênero, condição social, religião, cultura e entre outros. Há diversos tipos de estereótipos, na crônica nota-se o estereótipo racial que, assim como os demais, é inaceitável. Retomando o contexto da crônica, observa-se que outro estudioso norte-americano denunciou o quanto James Watson foi vil ao querer dar base científica a um preconceito fundamentado em estereótipos. Após a polêmica, Watson precisou se desculpar perante a comunidade científica e também perante a sociedade. Felizmente houve essa refutação, pois esses equívocos perniciosos provêm do período colonial e foram usados como justificativas para muitas outras injustiças, como os estupros praticados contra mulheres negras nas sociedades escravistas: "vistas como portadoras de uma sensualidade exagerada ou como mulheres passivas - interpretação adotada pelo abolicionismo inglês [..] -, quase sempre a culpa do abuso era atribuída às vítimas" (MACHADO, 2018, p. 338).
É evidente que Scliar deixa bem delineada sua perspectiva antirracista na referida crônica, mas também se percebe, em outra parte dela, o humor que costuma acompanhar os escritos do médico gaúcho. Ele admite que a fala equivocada de Watson pode incluir uma "versão mais light, mais aceitável — e mais conveniente". Nesses termos, Scliar destaca o mito da história do amante latino, consagrado por Hollywood. A primeira figura dentro do paradigma foi o lendário Rodolfo Valentino (1895-1926). Nascido Rodolfo d'Antonguolia, era um imigrante vindo do sul da Itália, que trabalhou como dançarino até ser descoberto pelo cinema, tornando-se o primeiro ator com sex appeal que não correspondia ao tipo americano clássico. De imediato, a indústria cinematográfica descobriu o filão. E também a indústria do turismo. A Cuba de Fulgencio Batista, o Caribe em geral, [] tornaram-se destinos preferenciais para mulheres americanas de meia-idade, endinheiradas e sexualmente insatisfeitas [] Nem todos (e nem todas) eram fãs do amante latino. Em 1936 apareceu na Esquire um artigo da jornalista Helen Brown Norden, [...] que viajara a Cuba em busca de amantes, voltou decepcionada. Os tais latinos, disse, vestem-se mal, bebem demais, não sabem dançar, estão sempre se coçando ou contando anedotas inconvenientes sobre gases. E, por fim, a grande denúncia: fracassam na cama, mesmo fazendo uso dos mais variados afrodisíacos. Norden citava a opinião de uma amiga de Manhattan, para quem, no sexo, "os piores americanos são melhores do que os melhores cubanos". (SCLIAR, 2001b, p. 158-159)
Publicada originalmente em 29 de abril do ano 2000 e posteriormente compilada no livro Território da emoção (2013), na crônica Medicina e racismo Scliar conta a história do Dr. Cecil Helman que é um médico comunitário e teve uma experiência comovente na África do Sul na época do apartheid. Nesse texto, ele relata que esteve em um hospital onde existiam as alas dos brancos e as dos "não brancos". O hospital apresentava uma maneira de organização nitidamente racista a tal ponto de até os termômetros destinados aos pacientes brancos serem separados dos utilizados pelas pessoas negras. Como forma de protesto contra essa discriminação, um dos médicos propositalmente invertia os termômetros. Sua intenção era reafirmar ao menos para si - que todos somos iguais independentemente da cor da pele (SCLIAR, 2013, p. 61-62).
Outro texto no qual Scliar aborda a temática do racismo é Em busca de tolerância. Publicada originalmente em 15 de abril de 2006 e atualmente disponibilizada apenas no site do escritor, nessa crônica o intelectual gaúcho escreve sobre o filme que conta a história de um menino que é cristão e foi obrigado a se tornar judeu devido a falta de alimento e os bombardeios em seu território. Ele enfrentou diversos problemas para conseguir sobreviver e tornarse médico, porém, ao alcançar esse objetivo, o preconceito contra a cor de sua pele se torna um dos seus maiores obstáculos.
Em uma tentativa de fazer com que seu filho de apenas nove anos sobrevivesse, sua mãe o batizou como judeu dando-lhe o nome de Schlomo (Salomão em hebraico) e o colocou para adoção, ele foi adotado por uma família de Tel Aviv (capital de Israel). Com isso, Schlomo consegue estudar para medicina, mas lá ele começa a ser chamado de Kushi (negro em hebraico). Essa história foi transposta para o cinema. Tornou-se um filme na França conhecido como "Um herói de nosso tempo", foi lançado em 2005 e tem uma duração de 2 horas e 22 minutos, esse filme teve o apoio de diversas instituições, de professores, de ONGs. Scliar ainda diz que dificilmente iremos encontrar um filme que tenha um apelo tão grande à coexistência e à tolerância.
Na época em que se passa a história do filme, o preconceito em relação à cor da pele e à religião era demasiadamente alto. Scliar resolveu trazer essa película como indicação para a população, para que eles percebessem o quanto as pessoas naquele país sofriam com todo aquele preconceito, fosse pelo racismo, pela intolerância religiosa ou pelas guerras, eles não tinham paz em momento algum. Esse filme é um espetáculo, a história passa em dois países que a realidade era cruel, nele não existe nenhum tipo de humor, apenas a realidade que aqueles países viveram e vivem até os dias de hoje. No passado a África sofreu com a fome e com o racismo; infelizmente pouco mudou, e Scliar queria mostrar isso para a sociedade.
## IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que nas crônicas médicas nas quais Scliar aborda o racismo a postura desse escritor é a de se posicionar contra o preconceito, ou seja, Scliar é nitidamente antirracista. Num desses textos, o escritor demonstra-se preocupado com o enraizamento do racismo no nicho médico no sentido de que até mesmo cientistas renomados podem vir a incorrer nessa prática repugnante. Por outro lado, o médico da crônica "Medicina e racismo" agia de modo contrário aos seus colegas racistas, pois de forma intencional invertia os termômetros destinados a pacientes brancos e pacientes negros. Sua atitude pode ser compreendia como uma forma de resistência a uma prática racista da qual ele é um dos poucos que não concorda no nicho médico do qual faz parte. Noutra crônica percebe-se a sociedade agindo com preconceito para com um indivíduo que tanto se dedicou para se graduar em Medicina e servir às pessoas. O cinema, constante da atenção do escritor, comparece nas crônicas médicas como um importante recurso composicional, no intertexto estabelecido com obras fílmicas, sinalizando para o leitor o quanto a sétima arte pode ajudar no processo de conscientização contra o racismo.
É necessário denunciar e combater a prática racista e a literatura de Scliar faz-se engajada num importante projeto humanista e humanizador no sentido de conscientizar a sociedade a erradicar esse retrocesso. Scliar esforçou-se muito nesse projeto e nossa exposição se debruçou em delinear essa ação meritória.
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Funding
No external funding was declared for this work.
Conflict of Interest
The authors declare no conflict of interest.
Ethical Approval
No ethics committee approval was required for this article type.
Data Availability
Not applicable for this article.
Lemuel de Faria Diniz. 2026. \u201cRacism in the Chronicles of Doctor Moacyr Scliar\u201d. Global Journal of Human-Social Science - H: Interdisciplinary GJHSS-H Volume 24 (GJHSS Volume 24 Issue H6): .
The attention in this article falls on an expressive niche of Moacyr Scliar’s literature -the chronicles. Expanding the proposal that the writer made use of his experiences to compose his works, it is highlighted that the media, and among them cinema, are the target of the writer’s attention, they appear as a theme in his chronicles and appear in them as an intertext and intermidiatic reference. It is identified that his performance as a chronicler is marked by the logic of the press, with publications in newspapers and books. After mapping the phases attributed to his literature, there is a thematic association between medicine and cinema in his chronicles, in which cinema and film works appear as a compositional resource, as a motive or setting, to exemplify complex issues or to illustrate reflections in a concrete way about racism.
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