I. INTRODUΓΓO
Segundo o ΓΊltimo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatΓstica (IBGE) realizado em 2010, hΓ‘ 45,6 milhΓ΅es de pessoas com deficiΓͺncia no Brasil, o que compreende 24% da populaΓ§Γ£o. Deste nΓΊmero, cerca de 10 milhΓ΅es de pessoas sΓ£o surdas, o que equivale atualmente a 5% da populaΓ§Γ£o brasileira. Com o passar dos anos, as comunidades surdas cresceram no paΓs, expandindo de forma significativa a comunicaΓ§Γ£o por meio da lΓngua de sinais. Apesar disso, o capacitismo ainda estΓ‘ presente nos diversos setores sociais, polΓticos e culturais, o que interfere diretamente no devido reconhecimento da LΓngua Brasileira de Sinais enquanto lΓngua, e na divulgaΓ§Γ£o e incentivo das produΓ§Γ΅es artΓsticas de pessoas surdas.
Na tentativa de resistir a esse cenΓ‘rio, as expressΓ΅es artΓsticas surdas que compreendem a literatura surda, danΓ§a, performance art, mΓΊsica, entre outras linguagens, tΓͺm contribuΓdo de forma efetiva na construΓ§Γ£o e disseminaΓ§Γ£o das identidades e culturas surdas por meio de suas histΓ³rias e vivΓͺncias.
Neste trabalho, destacamos a poesia surda como um gΓͺnero de grande expressΓ£o artΓstica nas comunidades surdas no Brasil, inserida tambΓ©m na atividade Slam poetry.
II. SOBRE O SLAM POETRY
O Slam poetry foi criado nos Estados Unidos (EUA) em meados da dΓ©cada de 1980 por Marc Kelly Smith. Em entrevista para o documentΓ‘rio Slam: Voz de levante (2017), de Roberta Estrela D'Alva e Tatiana Lohmann (BRA), Marc relata que estava cansado do elitismo e do tΓ©dio que habitavam os saraus de poesias que aconteciam em bibliotecas e bares. Assim, resolveu "abrir o microfone", dando espaΓ§o para uma nova forma de representaΓ§Γ£o da poesia, acrescentando alguns ingredientes como a competiΓ§Γ£o, a performance, o jogo. O flyer da primeira ediΓ§Γ£o do Slam poetry dizia: "Saia do caixΓ£o! Microfone aberto", fazendo uma crΓtica Γ s formas jΓ‘ estabelecidas de se fazer, recitar, performar poesias. Podemos ressaltar que no Slam nΓ£o Γ© somente a poesia que conta para impressionar o pΓΊblico e os jurados, mas tambΓ©m a performance, ou seja, o modo como ela Γ© apresentada pelo slammer. Quanto maior for a interaΓ§Γ£o e desenvoltura entre poesia, corpo/voz, entonaΓ§Γ£o, gesto, movimento, maior a possibilidade de acalorar os Γ’nimos, provocar os sentidos dos espectadores e, consequentemente, conquistar a atenΓ§Γ£o e euforia da plateia e dos jurados, nesse jogo performΓ‘tico e competitivo.
Em trabalhos anteriores a esta pesquisa, tentamos definir o Slam poetry como uma espΓ©cie de competiΓ§Γ£o de poesias, em que os slammers devem apresentar em atΓ© 3 minutos suas obras autorais, sem acompanhamento musical e/ou adereΓ§os, para receber a nota de 0 a 10 dos jurados que sΓ£o escolhidos eventualmente na plateia (SANTOS, 2018). Atualmente, percebemos que essa definiΓ§Γ£o Γ© apenas uma das inΓΊmeras caracterΓsticas presentes nessa atividade. De fato, o Slam possui algumas regras bΓ‘sicas como as citadas acima, porΓ©m isso vem se modificando ao longo dos anos, devido Γ multiplicidade cultural que essa modalidade apresenta em diversos paΓses, sendo acrescentadas outras regras e caracterΓsticas de acordo com cada grupo. Ao longo dos anos, influΓͺncias como o movimento Hip Hop nos Estados Unidos, por exemplo, incrementaram o Slam com novas formas e temΓ‘ticas para as poesias. Segundo Marc, "os artistas do Hip Hop chegaram no Slam no comeΓ§o dos anos 90, e eles vieram porque eram escritores e alguns deles queriam fazer mais do que letras de mΓΊsicas" .
Hoje no Brasil, temos um panorama significativo com relaΓ§Γ£o aos adeptos dessa atividade, inΓΊmeros grupos e campeonatos surgem ao longo do paΓs. Podemos citar como exemplo, o evento Slam BR (Campeonato Brasileiro de Poesia Falada) que reΓΊne os principais slammers do paΓs, grupos como Slam da ResistΓͺncia, Slam da Guilhermina, Slam das Minas e o Slam do Corpo, nosso principal objeto nessa pesquisa.
III. O SLAM DO CORPO E A POESIA SURDA
O Slam do Corpo Γ© o primeiro Slam de surdos e ouvintes do Brasil, idealizado pelo grupo Corpo Sinalizante, formado por jovens surdos e ouvintes com Γͺnfase no estudo da LΓngua Brasileira de Sinais (Libras) ligada Γ arte. Geralmente, o Slam do Corpo acontece em museus e parques de SΓ£o Paulo (SP), tendo algumas ediΓ§Γ΅es pontuais realizadas em alguns eventos espalhados pelo Brasil. Ele divide-se em dois momentos: corpo aberto, em que qualquer pessoa pode apresentar uma poesia e a batalha, em que ocorre a competiΓ§Γ£o de poesias. HΓ‘ algumas regras dentro dessa atividade, como por exemplo, a nΓ£o utilizaΓ§Γ£o de figurinos, adereΓ§os, cenΓ‘rios e acompanhamentos musicais. Os vencedores desse Slam recebem livros e outros prΓͺmios educativos, apΓ³s o somatΓ³rio de notas do grupo de jurados escolhidos no dia das apresentaΓ§Γ΅es.
O ator, poeta e educador surdo Leonardo Castilho, um dos fundadores da modalidade, afirma que no Slam hΓ‘ um compartilhamento do trabalho entre surdos e ouvintes, e nΓ£o uma fusΓ£o entre essas culturas. A fusΓ£o deixa subentendida uma junΓ§Γ£o entre as duas lΓnguas citadas, jΓ‘ o compartilhamento pressupΓ΅e uma relaΓ§Γ£o mΓΊtua entre as duas lΓnguas, sem que estas percam as suas particularidades, numa espΓ©cie de complemento e nΓ£o de sobreposiΓ§Γ£o de uma com a outra. Ele ainda utiliza a metΓ‘fora "beijo de lΓngua" para simbolizar essa quebra de barreiras, pois o beijo significa conhecer o outro, a lΓngua do outro, e para acontecer precisa das duas pessoas juntas, disponΓveis a este momento. Γ exatamente o que ocorre na batalha: Γ© formada uma dupla de surdo e ouvinte, que se apresenta para os jurados e para a plateia. Neste momento as poesias devem ser autorais, com temΓ‘tica livre e ter duraΓ§Γ£o de, no mΓ‘ximo, trΓͺs minutos. SΓ£o realizadas duas rodadas de apresentaΓ§Γ΅es, contando com a presenΓ§a dos jurados composto por surdos e ouvintes, que dΓ£o notas de 0 a 10. HΓ‘ um ritual antes da apresentaΓ§Γ£o dos slammers, marcando o inΓcio das poesias: colocam-se as mΓ£os para frente, deslizando-a sobre os braΓ§os e batendo uma na outra, como uma espΓ©cie de "grito de guerra" dando inΓcio Γ performance de cada competidor.
Durante o estudo de algumas poesias da literatura surda, percebemos que a palavra muitas vezes nΓ£o Γ© o foco, mas sim a sensaΓ§Γ£o que ela provoca dentro do que estΓ‘ sendo apresentado. Sobre isso, Spence (2021) afirma que "o foco estΓ‘ na linguagem estΓ©tica que, geralmente, Γ© fortemente visual e cuidadosamente construΓda para maximizar o impacto dos sentidos". Assim, o VernΓ‘culo Visual se apresenta como uma tΓ©cnica essencial na literatura surda, pois potencializa o visual, sem condicionar a poesia apenas ao vocabulΓ‘rio em sinais.
Como exemplo disso, cito a poesia "Todas as ManhΓ£s" da autora negra brasileira ConceiΓ§Γ£o Evaristo (1998), interpretada pelos surdos brasileiros Edinho dos Santos e Nayara Rodrigues, em vΓdeo disponibilizado no Youtube. Vejamos o primeiro trecho: "Todas as manhΓ£s acoito sonhos e acalento entre a unha e a carne uma agudΓssima dor". Para "Todas as manhΓ£s", Edinho faz o sinal de nascer do sol com movimentos circulares repetidos que prolongam o tempo do sinal, indicando este ciclo no qual a frase se refere (nascer, se pΓ΄r, nascer, se pΓ΄r, nascer...) e criando ritmo Γ poesia. Em "agudΓssima dor", o movimento se inicia com as mΓ£os expressando uma dor no peito, que depois se espalha pelos braΓ§os, a face em dor e angΓΊstia, e nΓ£o o simples sinal de "dor" em LΓngua Brasileira de Sinais (Libras). Dessa forma, a Γͺnfase nos gestos, nos movimentos, nas expressΓ΅es corporais e faciais, se torna tambΓ©m um elemento importante na poesia surda. Erika Mota, tradutora e intΓ©rprete de Libras, parceira do Leonardo Castilho nos Slam do Corpo, em entrevista, relata que "a rima na lΓngua de sinais estΓ‘ na configuraΓ§Γ£o de mΓ£o, no ritmo", o que torna essa poesia ainda mais caracterΓstica e particular acerca da expressividade e compreensΓ£o.
Neste ponto, Γ© necessΓ‘rio diferenciar gestos e sinais. Para McNeill (1992) os gestos sΓ£o movimentos corporais e expressΓ΅es faciais livres, espontΓ’neas presentes na linguagem humana. JΓ‘ os sinais sΓ£o constituΓdos de aspectos linguΓsticos e gramaticais. Karnopp (2004) afirma que Γ© "complexa a distinΓ§Γ£o entre sinais e gestos, pois ambos sΓ£o referenciais, comunicativos e produzidos manualmente." Entretanto, a autora tambΓ©m afirma que hΓ‘ equΓvoco em entender sinais como gestos. Segundo ela,
Na verdade, os sinais sΓ£o palavras, apesar de nΓ£o serem orais-auditivas. Os sinais sΓ£o tΓ£o arbitrΓ‘rios quanto Γ s palavras. A produΓ§Γ£o gestual na lΓngua de sinais tambΓ©m acontece como observado nas lΓnguas faladas. A diferenΓ§a Γ© que no caso dos sinais, os gestos tambΓ©m sΓ£o visuais-espaciais tornando as fronteiras mais difΓceis de serem estabelecidas. Os sinais das lΓnguas de sinais podem expressar quaisquer ideias abstratas. Podemos falar sobre as emoΓ§Γ΅es, os sentimentos, os conceitos em lΓngua de sinais, assim como nas lΓnguas faladas. (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 31-37)
Assim, entendemos que os gestos sΓ£o elementos de linguagem que fazem parte das lΓnguas de sinais, porΓ©m nΓ£o sΓ£o a prΓ³pria lΓngua, jΓ‘ que esta tem estrutura morfolΓ³gica e sintΓ‘tica.
Do ponto de vista identitΓ‘rio e cultural, nΓ£o podemos deixar de ressaltar a importΓ’ncia de atividades artΓsticas como o Slam do Corpo, no fortalecimento da construΓ§Γ£o das identidades surdas e valorizaΓ§Γ£o da lΓngua de sinais. Historicamente, as comunidades surdas espalhadas pelo mundo sofreram diversas opressΓ΅es acerca de sua lΓngua, identidade e cultura. Portanto, a poesia surda tambΓ©m se torna um ato de resistΓͺncia e fortalecimento das comunidades surdas.
Devido Γ pandemia Covid-19, em marΓ§o de 2021 o Slam do Corpo apresentou uma ediΓ§Γ£o online dentro do Festival Corpo da Palavra, realizado pelo Museu de Arte Moderna de SΓ£o Paulo (MAM) com transmissΓ£o no Youtube. De forma dinΓ’mica e criativa, poetas surdos e ouvintes performaram suas poesias em frente Γ s cΓ’meras, lidando com o distanciamento social e com as ferramentas tecnolΓ³gicas. O pΓΊblico que atΓ© entΓ£o interagia com gritos e gestos nos eventos presenciais, manifestou-se por meio de chat com mensagens acaloradas e encorajadoras. Os slammers adicionaram no seu repertΓ³rio, poesias que retratavam sobre o momento atual da pandemia, bem como temΓ‘ticas jΓ‘ recorrentes como a valorizaΓ§Γ£o das identidades surdas, a violΓͺncia, o racismo, entre outras.
IV. CONSIDERAΓΓES FINAIS
Podemos identificar durante esse breve estudo, as particularidades relacionadas Γ poesia surda e suas manifestaΓ§Γ΅es, sobretudo, relacionadas Γ atividade do Slam poetry. Como apontamos nesse artigo, os gestos e sinais estΓ£o presentes nessa performance, que tem o corpo como um elemento em que a poesia se faz; o corpo torna-se ponto de partida e principal local de realizaΓ§Γ£o da poesia surda. AlΓ©m disso, o Slam do Corpo fomenta nΓ£o sΓ³ a interaΓ§Γ£o entre a LΓngua Brasileira de Sinais e a LΓngua Portuguesa, mas tambΓ©m a valorizaΓ§Γ£o das identidades e culturas surdas, incentivando cada vez mais a inserΓ§Γ£o de artistas surdos no Slam, no teatro, na performance art, na danΓ§a, na mΓΊsica, na fotografia, e em diversas linguagens.
Os estudos sobre a literatura surda demonstram que ela se apresenta nΓ£o sΓ³ de forma escrita, mas tambΓ©m em vΓdeo, e isso contribui no processo de autorrepresentaΓ§Γ£o do povo surdo, de como ele se vΓͺ e nΓ£o como a sociedade ouvinte costuma retratΓ‘-lo, sob o ponto de vista clΓnico/patolΓ³gico. Esta pesquisa que segue em andamento, busca a compreensΓ£o acerca da performance do corpo tΓ£o presente na poesia surda, envolvendo nΓ£o sΓ³ a representaΓ§Γ£o, mas tambΓ©m os processos criativos desenvolvidos pelos slammers surdos e ouvintes. NΓ£o podemos deixar de ressaltar que essas histΓ³rias e vivΓͺncias, que sΓ£o compartilhadas por meio das mΓ£os, dos gestos, dos sinais, do corpo, atravessam geraΓ§Γ΅es e tambΓ©m se configuram como aΓ§Γ£o de resistΓͺncia das comunidades surdas no paΓs.