I. INTRODUΓΓO
educaΓ§Γ£o Γ© um campo em construΓ§Γ£o (SILVA, 2015), Γ© complexa (APPLE, 2001) e dinΓ’mica, tendo, em suas bases, concepΓ§Γ΅es polΓticas que sΓ£o inerentes ao processo polΓtico de cada Γ©poca, repercutindo nas normatizaΓ§Γ΅es e nas diretrizes para a Γ‘rea. A escola pΓΊblica, por sua vez, apresenta, em todo o seu percurso, diferentes histΓ³rias, memΓ³rias, posturas e nuances que sΓ£o desencadeados no processo histΓ³rico e polΓtico, oriundo da polΓtica educacional e das concepΓ§Γ΅es de sociedade que sΓ£o postas no contexto global.
No cenΓ‘rio das mudanΓ§as, cabe levantar uma discussΓ£o sobre as percepΓ§Γ΅es postas na ConstituiΓ§Γ£o Federal de 1988 e na Diretrizes e Bases da EducaΓ§Γ£o Nacional, Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, as quais apresentam uma concepΓ§Γ£o de educaΓ§Γ£o democrΓ‘tica e inclusiva, oriunda de um anseio de construΓ§Γ£o coletiva de uma sociedade para todos, sendo que o projeto da educaΓ§Γ£o Γ© o caminho possΓvel para direcionar as aΓ§Γ΅es e as propostas planejadas pela polΓtica educacional (BRASIL, 1988; 1996).
A polΓtica educacional tem um espaΓ§o singular na organizaΓ§Γ£o da escola, sendo o caminho viΓ‘vel para a concretizaΓ§Γ£o dos anseios e dos objetivos polΓticos estabelecidos na concepΓ§Γ£o de sociedade posta nas configuraΓ§Γ΅es macro da polΓtica nacional e internacional. As repercussΓ΅es da polΓtica educacional causam impactos na gestΓ£o escolar, no currΓculo e na avaliaΓ§Γ£o da aprendizagem, redimensionando novas posturas e aΓ§Γ΅es aos envolvidos, desvirtuando as proposiΓ§Γ΅es de construΓ§Γ£o de uma educaΓ§Γ£o para todos, com caracterΓsticas emancipatΓ³rias, democrΓ‘ticas e inclusivas, advindas dos preceitos constitucionais.
Diante das conquistas alcanΓ§adas na legislaΓ§Γ£o, especificamente, na ConstituiΓ§Γ£o Federal de 1988, Γ© possΓvel perceber, na arena polΓtica, que movimentos e organizaΓ§Γ΅es sociais estiveram presentes na luta pelo avanΓ§o da educaΓ§Γ£o em suas mΓΊltiplas dimensΓ΅es, ocasionando um esforΓ§o coletivo para viabilizar os anseios de grande parte da populaΓ§Γ£o brasileira. Nesse contexto, organizaΓ§Γ΅es sindicais, polΓticas e entidades educacionais tiveram o protagonismo importante na configuraΓ§Γ£o das lutas e das conquistas constitucionais.
Um grupo de profissionais, especialmente integrantes da AssociaΓ§Γ£o Nacional pela FormaΓ§Γ£o dos Profissionais da EducaΓ§Γ£o (ANFOPE); da AssociaΓ§Γ£o Nacional de PolΓtica e AdministraΓ§Γ£o da EducaΓ§Γ£o (ANPAE); da AssociaΓ§Γ£o Nacional de PΓ³s-GraduaΓ§Γ£o e Pesquisa em EducaΓ§Γ£o (ANPED) e do Centro de Estudos EducaΓ§Γ£o e Sociedade (CEDES), esteve em diΓ‘logo constante com a sociedade, profissionais da educaΓ§Γ£o e lideranΓ§as polΓticas com a finalidade de apresentar os anseios da populaΓ§Γ£o em relaΓ§Γ£o Γ concepΓ§Γ£o de educaΓ§Γ£o, bem como os caminhos da polΓtica educacional, tornando, assim, a polΓtica como uma aΓ§Γ£o coletiva com caracterΓstica complexa, dinΓ’mica e dialΓ³gica.
Nessa arena de lutas e de tensΓ΅es polΓticas, o espaΓ§o da participaΓ§Γ£o na concretizaΓ§Γ£o de polΓticas educacionais tornou-se um aspecto relevante, uma vez que toda a comunidade Γ© motivada para dialogar, refletir, apresentar ideias e mencionar os seus anseios diante das problemΓ‘ticas apresentadas. A ConstituiΓ§Γ£o Federal de 1988 apresentou possibilidades de participaΓ§Γ£o como pano de fundo de uma administraΓ§Γ£o pΓΊblica e democrΓ‘tica.
A concepΓ§Γ£o de educaΓ§Γ£o postulada pelos educadores e movimentos em defesa da educaΓ§Γ£o pΓΊblica desde a dΓ©cada de 1930, com a divulgaΓ§Γ£o do Manifesto dos Pioneiros da EducaΓ§Γ£o Nova, tem, em suas bases, a participaΓ§Γ£o, o envolvimento de todos no processo de planejamento e avaliaΓ§Γ£o das propostas realizadas, a concretizaΓ§Γ£o da gestΓ£o democrΓ‘tica que congrega com uma educaΓ§Γ£o inclusiva e referenciada socialmente.
Outra dimensΓ£o defendida no contexto das pautas dos movimentos de educadores e pesquisadores Γ© a concepΓ§Γ£o de educaΓ§Γ£o cuja finalidade Γ© contribuir com a emancipaΓ§Γ£o dos estudantes, dando-lhes condiΓ§Γ΅es de efetivar um protagonismo estudantil por meio de suas experiΓͺncias e suas visΓ΅es de mundo. Assim, o objetivo da pesquisa foi conhecer as aΓ§Γ΅es desenvolvidas pela gestΓ£o escolar e pelos profissionais da educaΓ§Γ£o na perspectiva de contribuir com o protagonismo estudantil no Programa Parlamento Jovem Brasileiro (PJB).
A metodologia esteve pautada na abordagem qualitativa, tendo, como tΓ©cnica de pesquisa, o estudo de caso (Yin, 2010). Desse modo, a pesquisa foi desenvolvida na Unidade Escolar LetΓcia MacΓͺdo, no municΓpio de AnΓsio de Abreu, no estado do PiauΓ. Participaram da pesquisa cinco profissionais da educaΓ§Γ£o, sendo trΓͺs gestores (diretor e coordenadores pedagΓ³gicos) e dois professores. AlΓ©m desses, participarem tambΓ©m 15 estudantes que estiveram envolvidos diretamente no PJB nos anos de 2014 a 2020.
A coleta de dados foi realizada por meio de dois formulΓ‘rios pelo Google Forms, devido ao isolamento social, ocasionado pelo Covid-19, no perΓodo de 12 a 17 de agosto de 2020 para oS profissionais e de 12 a 18 de agosto de 2020 para os estudantes. Os dados foram analisados a partir da AnΓ‘lise do ConteΓΊdo, na perspectiva de Bardin (2002), tendo, como categorias Programa Parlamento Jovem Brasileiro, Protagonismo Estudantil e GestΓ£o Escolar. O ponto de partida foi perceber a percepΓ§Γ£o dos gestores, dos professores e dos estudantes, traΓ§ando os caminhos percorridos na escola para o sucesso dos estudantes em relaΓ§Γ£o Γ vivΓͺncia no Programa, de modo que possibilitasse a reflexΓ£o acerca do protagonismo estudantil no Γ’mbito escolar e como essas aΓ§Γ΅es sΓ£o percebidas, implementadas e vivenciadas.
O texto estΓ‘ estruturado em trΓͺs partes que se completam, alΓ©m da introduΓ§Γ£o e das consideraΓ§Γ΅es finais. Na primeira, dialoga-se acerca da gestΓ£o escolar, da participaΓ§Γ£o e do protagonismo estudantil como dimensΓ΅es importantes para a concretizaΓ§Γ£o de uma educaΓ§Γ£o emancipatΓ³ria. Na segunda parte, evidencia-se o Programa Parlamento Jovem Brasileiro, por meio das normatizaΓ§Γ΅es que o regulamentam. E, por fim, destacam-se as vozes dos participantes acerca das experiΓͺncias no Programa Parlamento Jovem Brasileiro.
II. A
A gestΓ£o escolar Γ© a dimensΓ£o da estrutura educacional, a qual viabiliza o processo de organizaΓ§Γ£o pedagΓ³gica, financeira, administrativa, relacional e social das prΓ‘ticas educativas estabelecidas no chΓ£o da escola. Desse modo, os princΓpios da autonomia, da descentralizaΓ§Γ£o e da participaΓ§Γ£o sΓ£o defendidos pelos dispositivos legais, que regulamentam a educaΓ§Γ£o nos Γ’mbitos nacional, estaduais e municipais (BRASIL, 1988; 1996; 2014).
A organizaΓ§Γ£o pedagΓ³gica, financeira, administrativa, relacional e social constitui-se como um processo complexo, pois demanda decisΓ΅es e compartilhamento do poder com a finalidade de concretizar os apelos e as diferentes visΓ΅es que permeiam o espaΓ§o escolar. Nessa configuraΓ§Γ£o, a participaΓ§Γ£o dos diferentes segmentos Γ© uma aΓ§Γ£o que mobiliza profissionais da educaΓ§Γ£o, pais, estudantes e as comunidades local e escolar para a organicidade das prΓ‘ticas desenvolvidas no chΓ£o da escola.
A gestΓ£o da escola em meio aos seus inΓΊmeros desafios apresenta, em sua base epistemolΓ³gica, o objetivo de contribuir para a organizaΓ§Γ£o do espaΓ§o escolar, em uma perspectiva crΓtica e emancipatΓ³ria, incluindo, nessa seara, todos os integrantes internos e externos. Na visΓ£o de LibΓ’neo (2004, p. 56), a escola tem o compromisso de:
Reduzir a distΓ’ncia entre a ciΓͺncia cada vez mais complexa e a formaΓ§Γ£o cultural bΓ‘sica a ser provida pela escolarizaΓ§Γ£o. O fortalecimento das lutas sociais e a conquista da cidadania dependem de uma ampliaΓ§Γ£o, cada vez mais, do nΓΊmero de pessoas que possam participar das decisΓ΅es primordiais que dizem respeito aos seus interesses.
A participaΓ§Γ£o, nesse contexto, Γ© um elo que possibilita a experiΓͺncia do compartilhamento das decisΓ΅es, assim como a vivΓͺncia da gestΓ£o democrΓ‘tica, concepΓ§Γ£o de gestΓ£o escolar defendida nos dispositivos legais, promovendo autonomia, mobilizaΓ§Γ£o social e estudantil e melhoria das propostas realizadas. A participaΓ§Γ£o, na visΓ£o de Bordenave (1983, p. 72-73), pode ser entendida como um processo sΓ³cio-humano e suscetΓvel de crescimento:
Ela pode ser aprendida e aperfeiΓ§oada pela prΓ‘tica e a reflexΓ£o. A qualidade da participaΓ§Γ£o se eleva quando as pessoas aprendem a conhecer a sua realidade; a refletir; a superar contradiΓ§Γ΅es reais ou aparentes; a identificar premissas subjacentes; a antecipar consequΓͺncias; a entender novos significados das palavras; a distinguir efeitos de causas, observaΓ§Γ΅es de inferΓͺncias e fatos de julgamentos. A qualidade da participaΓ§Γ£o aumenta tambΓ©m quando as pessoas aprendem a manejar conflitos; clarificar sentimentos e comportamentos; tolerar divergΓͺncias; respeitar opiniΓ΅es; adiar gratificaΓ§Γ΅es. A participaΓ§Γ£o Γ© incrementada quando as pessoas aprendem a organizar e coordenar encontros, assembleias e mutirΓ΅es; a formar comissΓ΅es de trabalho; pesquisar problemas; elaborar relatΓ³rios; usar meios e tΓ©cnicas de comunicaΓ§Γ£o.
Como Γ© possΓvel perceber, a participaΓ§Γ£o qualificada exige aΓ§Γ£o de todos os envolvidos, caracterizada como uma questΓ£o complexa, a qual requer atuaΓ§Γ£o, compromisso, experiΓͺncias e disposiΓ§Γ£o para atuar em prol do coletivo e das decisΓ΅es da maioria. A participaΓ§Γ£o qualificada Γ© a aΓ§Γ£o configurada nos princΓpios democrΓ‘ticos, os quais estΓ£o presentes nos dispositivos legais da educaΓ§Γ£o. Assim, o desenvolvimento da participaΓ§Γ£o na educaΓ§Γ£o, em todos os nΓveis, deve ser percebido como uma configuraΓ§Γ£o complexa, uma vez que ela tanto pode inibir e limitar aspectos de organizaΓ§Γ£o participativa, como pode estar condicionada a dimensΓ΅es burocrΓ‘ticas (GUTIERREZ, 2004).
Em meio Γ complexidade da participaΓ§Γ£o, pode-se afirmar que "participar faz referΓͺncia Γ possibilidade de um indivΓduo incorporar as prΓ‘ticas e as caracterΓsticas de um grupo mais amplo, de forma a vir a ser reconhecido e aceito como parte ou membro dele" (GUTIERREZ, 2004, p. 7). Na perspectiva da educaΓ§Γ£o, a participaΓ§Γ£o Γ© um princΓpio necessΓ‘rio para a conquista de espaΓ§o e de efetivaΓ§Γ£o dos anseios dos diferentes segmentos.
No Γ’mbito da atuaΓ§Γ£o estudantil, a participaΓ§Γ£o mobiliza diferentes caracterΓsticas aos envolvidos, possibilitando a autonomia e o desenvolvimento na luta por suas ideias e favorecendo uma organizaΓ§Γ£o estudantil com os princΓpios da coletividade e da mobilizaΓ§Γ£o social. Desse modo, a gestΓ£o escolar, preocupada com o desenvolvimento social e com a formaΓ§Γ£o integral dos estudantes, constrΓ³i espaΓ§os para a sua constante atuaΓ§Γ£o.
Neste sentido, consoante com Silva e Santos (2019), as diferentes formas de mobilizaΓ§Γ£o e de participaΓ§Γ£o dos estudantes nas decisΓ΅es escolares congregam-se no grΓͺmio estudantil, nas representaΓ§Γ΅es de turmas e na participaΓ§Γ£o ativa no planejamento dos projetos e nas experiΓͺncias de fortalecimento de causas e de lutas no cenΓ‘rio social. Para os pesquisadores (2019, p. 8):
No direcionamento da aΓ§Γ£o educativa do grΓͺmio estudantil, o estudante percebe novos valores do ambiente educacional que lhe cabe por direito, em um exercΓcio contΓnuo do protagonismo juvenil, expondo-se para as tomadas de decisΓ΅es escolares, contribuindo para sua formaΓ§Γ£o social.
Cabe fazer a ressalva de que a gestΓ£o escolar assume um papel importante para a abertura de um espaΓ§o polΓtico e ativo dos estudantes, mobilizando a sua organizaΓ§Γ£o, atuaΓ§Γ£o e apoiando-os em todos os processos propostos. A gestΓ£o escolar, neste sentido, cumpre os princΓpios estabelecidos na ConstituiΓ§Γ£o Federal de 1988, quando sinaliza a educaΓ§Γ£o como um direito social, possibilitando uma formaΓ§Γ£o integral nas diferentes dimensΓ΅es social, polΓtica, econΓ΄mica, cultural e educacional, bem como segue as diretrizes do atual Plano Nacional de EducaΓ§Γ£o, especificamente em sua meta 19, quando trata da criaΓ§Γ£o dos grΓͺmios estudantis.
O protagonismo estudantil Γ© o itinerΓ‘rio formativo que pode contribuir para a conquista dos espaΓ§os sociais apΓ³s a concretizaΓ§Γ£o da educaΓ§Γ£o bΓ‘sica, oportunizando a experiΓͺncia de atuaΓ§Γ£o em diferentes dimensΓ΅es, direcionando discussΓ΅es e compreendendo os caminhos sociais e polΓticos que as decisΓ΅es macro e micro determinam para a sociedade, uma vez que a leitura de mundo e as suas experiΓͺncias na escola geram expectativas reflexivas concernentes ao alcance de atuaΓ§Γ΅es em diferentes campos sociais.
Na visΓ£o de Freire (2015, p. 45), as relaΓ§Γ΅es estabelecidas na sociedade sΓ£o importantes para a constituiΓ§Γ£o do ser polΓtico e social. Assim:
A partir das relaΓ§Γ΅es do homem com a realidade, resultantes de estar com ela e de estar nela, pelos atos de criaΓ§Γ£o, recriaΓ§Γ£o e decisΓ£o, vai ele dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai humanizando-a. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo Γ© o fazedor. Vai temporalizando os espaΓ§os geogrΓ‘ficos. Faz cultura. E Γ© ainda o jogo destas relaΓ§Γ΅es do homem com o mundo e do homem com os homens, desafiado e respondendo ao desafio, alterando, criando, que nΓ£o permite a imobilidade, a nΓ£o ser em termos de relativa preponderΓ’ncia, nem das sociedades nem das culturas. E, Γ medida que cria, recria e decide, vΓ£o se conformando as Γ©pocas histΓ³ricas. Γ tambΓ©m criando, recriando e decidindo que o homem deve participar destas Γ©pocas.
De um modo geral, a participaΓ§Γ£o dos estudantes no contexto das reflexΓ΅es e discussΓ΅es sociais Γ© o itinerΓ‘rio para a construΓ§Γ£o de pessoas ativas, abertas ao diΓ‘logo e Γ s perspectivas contrΓ‘rias as suas ideias, portanto, contribuir para aΓ§Γ΅es desse porte Γ© o caminho da educaΓ§Γ£o e, consequentemente, da gestΓ£o escolar. Os estudantes necessitam de aΓ§Γ΅es escolares que favoreΓ§am a sua autonomia e o seu protagonismo no dinamismo na prΓ‘tica formativa (LΓCK, 2013).
Para Durkheim (2013, p. 78), "a educaΓ§Γ£o vigente em determinada sociedade e considerada em determinado momento de sua evoluΓ§Γ£o Γ© um conjunto de prΓ‘ticas, maneiras de agir e costumes que constituem fatos praticamente definidos e tΓ£o reais como os outros fatos sociais". Dessa forma, Γ© possΓvel construir aΓ§Γ΅es que mobilizem os estudantes para a atuaΓ§Γ£o em projetos, grΓͺmios estudantis, nos momentos de decisΓ΅es e na construΓ§Γ£o de prΓ‘ticas reflexivas que contribuam para o engajamento nas dimensΓ΅es polΓtica e social.
A educaΓ§Γ£o centrada no protagonismo estudantil estΓ‘ vinculada ao paradigma da educaΓ§Γ£o como caminho para a transformaΓ§Γ£o social, congregando aΓ§Γ΅es que estΓ£o presentes no diΓ‘logo, na atuaΓ§Γ£o, no movimento, na escuta, na empatia, sinalizando que os itinerΓ‘rios formativos da juventude devem conter princΓpios de mobilizaΓ§Γ£o e experiΓͺncias de cidadania (KILPATRICK, 1996). De um modo geral, a dinamicidade do processo formativo, envolvendo os estudantes, Γ© a perspectiva para a construΓ§Γ£o do protagonismo e do desenvolvimento juvenil.
As polΓticas e os programas no Brasil tΓͺm incentivado a participaΓ§Γ£o dos estudantes em diferentes frentes. AlΓ©m das proposiΓ§Γ΅es sinalizadas no atual Plano Nacional de EducaΓ§Γ£o, na meta 19, que trata da gestΓ£o democrΓ‘tica, sobre a importΓ’ncia do grΓͺmio estudantil, como mecanismo de aΓ§Γ£o do estudante na concretizaΓ§Γ£o da gestΓ£o participativa, hΓ‘ programas, como o Parlamento Jovem Brasileiro, que incentivam os estudantes do ensino mΓ©dio a desenvolverem projetos para serem discutidos na CΓ’mara Federal, evidenciando o protagonismo do jovem como difusor de ideias para o avanΓ§o polΓtico e social do paΓs.
Na prΓ³xima seΓ§Γ£o, dialoga-se acerca do PJB, apresentando os seus princΓpios e as suas normatizaΓ§Γ΅es, por meio da resoluΓ§Γ£o nΓΊmero 12, de 18 de novembro de 2003, e do regimento interno aprovado pela CΓ’mara Federal em 25 de outubro de 2004.
III. O Programa Parlamento Jovem
O PJB foi idealizado no Γ’mbito da CΓ’mara Federal, com o objetivo de "possibilitar aos alunos de escolas pΓΊblicas e particulares a vivΓͺncia do processo democrΓ‘tico mediante participaΓ§Γ£o em uma jornada parlamentar na CΓ’mara dos Deputados, com diplomaΓ§Γ£o, posse e exercΓcio do mandato" (Art. 2; ResoluΓ§Γ£o 12, 2003). De acordo com o regimento do Programa, em seu artigo 2, "o Parlamento Jovem Brasileiro reunir-se-Γ‘ todos os anos, no segundo semestre, em data a ser definida anualmente pela Mesa da CΓ’mara dos Deputados, ouvido o ColΓ©gio de LΓderes". Assim:
O programa Γ© coordenado por uma ComissΓ£o Organizadora, que Γ© formada por servidores do Centro de FormaΓ§Γ£o, Treinamento e AperfeiΓ§oamento (CEFOR), responsΓ‘veis por sua coordenaΓ§Γ£o pedagΓ³gica, com o planejamento e a implementaΓ§Γ£o das atividades da programaΓ§Γ£o, e por servidores da Secretaria de ParticipaΓ§Γ£o, InteraΓ§Γ£o e MΓdias Digitais (SEMID), responsΓ‘veis pela divulgaΓ§Γ£o do programa e por todas as operaΓ§Γ΅es logΓsticas (GUIA, 2020, p. 6).
A resoluΓ§Γ£o que regulamentou o PJB apresenta que o papel do Programa Γ© contribuir para o envolvimento dos estudantes em questΓ΅es que tratem de autonomia, da criatividade e do desenvolvimento ntelectual, de modo que favoreΓ§a um processo de aprendizagem polΓtico, repercutindo em seu estado, seu municΓpio e em sua escola. Dessa forma, o PJB pode oportunizar a formaΓ§Γ£o cidadΓ£ dos estudantes, na perspectiva de favorecer o protagonismo estudantil em suas mΓΊltiplas dimensΓ΅es. Espera-se que a formaΓ§Γ£o integral de um indivΓduo crΓtico, autΓ΄nomo, participativo e reflexivo, seja contemplada pela educaΓ§Γ£o formal e, nesse contexto, o PJB incentiva a possibilidade de que diferentes escolas possam contribuir com experiΓͺncias diferenciadas na vida dos estudantes. Neste sentido:
O Parlamento Jovem Brasileiro Γ© um programa que busca contribuir para o desenvolvimento de uma das dimensΓ΅es de nossa cidadania, que Γ© o conhecimento sobre como se organiza a nossa democracia representativa, assim como a importΓ’ncia da participaΓ§Γ£o e do controle social (PJB, 2020).
O PJB possibilita que os estudantes tenham um olhar para a realidade social que estΓ‘ em seu entorno e possam refletir sobre as possΓveis soluΓ§Γ΅es em relaΓ§Γ£o aos entraves vivenciados. Cabe destacar que, com a criaΓ§Γ£o de projetos polΓticos, os estudantes iniciam um projeto de reflexΓ£o sobre o papel dos governos, das organizaΓ§Γ΅es e dos cidadΓ£os, enquanto entes participantes da democracia brasileira. A congregaΓ§Γ£o dessas experiΓͺncias torna-se importante para o itinerΓ‘rio formativo, descobrindo potencialidades em seus diferentes participantes, destacando-se o "domΓnio da linguagem, compreensΓ£o de fenΓ΄menos, enfrentamento de situaΓ§Γ΅es-problema, construΓ§Γ£o de argumentaΓ§Γ£o e elaboraΓ§Γ£o de propostas" (PJB, 2020).
O desenvolvimento de prΓ‘ticas educativas que busquem a participaΓ§Γ£o e o protagonismo estudantil favorece a construΓ§Γ£o da autonomia dos envolvidos (MARTINS, 2002), sinalizando aΓ§Γ΅es futuras e disseminando oportunidades para a compreensΓ£o da complexidade polΓtica no Γ’mbito das decisΓ΅es. AlΓ©m desse aspecto, ficam em evidΓͺncia "a preocupaΓ§Γ£o com a gestΓ£o democrΓ‘tica e equΓ’nime do Estado na busca da qualidade e a conquista da gestΓ£o democrΓ‘tica como condiΓ§Γ£o necessΓ‘ria para a autonomia e o protagonismo estudantil" (MARTINS, 2002, p. 22).
A concretizaΓ§Γ£o do Programa no Γ’mbito da escola dΓ‘-se ao longo de trΓͺs etapas. Na primeira, o estudante deverΓ‘ elaborar um Projeto de Lei e apresentΓ‘-lo no ato de sua inscriΓ§Γ£o. Na segunda etapa, Γ© feita uma seleΓ§Γ£o pela Secretaria Estadual de EducaΓ§Γ£o dos projetos que estΓ£o nos parΓ’metros estabelecidos pelo Programa, de acordo com o nΓΊmero de vagas disponibilizadas no estado. ApΓ³s a prΓ©- seleΓ§Γ£o, na etapa estadual, os projetos sΓ£o enviados Γ CΓ’mara dos Deputados, com a finalidade de serem avaliados de acordo com os critΓ©rios estabelecidos no Guia do Programa de cada ano. O regimento do Programa, em seu artigo 3, apresenta que "o Parlamento Jovem Brasileiro serΓ‘ composto de 78 (setenta e oito) deputados, selecionados em cada Estado e no Distrito Federal, com o nΓΊmero de representantes proporcional Γ s bancadas parlamentares de cada unidade da FederaΓ§Γ£o".
A ΓΊltima etapa a ser vivenciada pelos estudantes Γ© a jornada do parlamentar jovem, na qual os autores dos projetos selecionados sΓ£o empossados como Jovens Deputados, tendo a possibilidade de passar cinco dias na CΓ’mara Federal, vivenciando a rotina de um deputado federal. O quantitativo de estudantes que se insere na ΓΊltima etapa do Programa Γ© significativo e tem uma expressiva representaΓ§Γ£o, a depender do estado. No quadro 1 (um), pode-se perceber esse quantitativo:
Quadro 1: Vagas para deputados jovens por unidade da federaΓ§Γ£o
| VAGAS PARA DEPUTADOS JOVENS - PJB | ||
| UNIDADE FEDERATIVA | BANCADA ESTADUAL NA CΓMARA DOS DEPUTADOS | NUΓERO DE DEPUTADOS JOVENS |
| ACRE | 8 | 1 |
| ALAGOAS | 9 | 1 |
| AMAPΓ | 8 | 1 |
| AMAZONAS | 8 | 1 |
| BAHIA | 39 | 6 |
| CEARΓ | 22 | 3 |
| DISTRITO FEDERAL | 8 | 1 |
| ESPΓRITO SANTO | 10 | 2 |
| GOIΓS | 17 | 3 |
| MARANHAO | 18 | 3 |
| MATO GROSSO | 8 | 1 |
| MATO GROSSO DO SUL | 8 | 1 |
| MINAS GERAIS | 53 | 8 |
| PARΓ | 17 | 3 |
| PARAΓBA | 12 | 2 |
| PARANA | 30 | 5 |
| PERNAMBUCO | 25 | 4 |
| PIAUΓ | 10 | 2 |
| RIO DE JANEIRO | 46 | 7 |
| RIO GRANDE DO NORTE | 8 | 1 |
| RONDΓNIA | 8 | 1 |
| RORAIMA | 8 | 1 |
| RIO GRANDE DO SUL | 31 | 5 |
| SANTA CATARINA | 16 | 2 |
| SΓ£o PAULO | 70 | 11 |
| SERGIPE | 8 | 1 |
| TOCANTINS | 8 | 1 |
| TOTAL | 513 | 78 |
De um modo geral, Γ© possΓvel perceber, no PJB, potencialidades para o desenvolvimento dos estudantes, mesmo para os que nΓ£o sΓ£o prΓ©- selecionados na etapa estadual e os selecionados na etapa final. Todo o processo Γ© pertinente, permitindo desenvolver habilidades e competΓͺncias, as quais retratam reflexΓ΅es para a cidadania, o bem estar coletivo, a consciΓͺncia acerca de questΓ΅es problemΓ‘ticas na sociedade, entre outras. AlΓ©m disso, o Programa convoca os estudantes a serem participativos na proposiΓ§Γ£o de medidas para sanar problemas que estΓ£o a sua volta, possibilitando-lhes serem autores de suas prΓ³prias histΓ³rias. Dessa forma, o programa favorece o protagonismo estudantil, envolvendo a juventude em questΓ΅es que demandam reflexΓ΅es, construΓ§Γ΅es coletivas, defesas de projetos e de ideias.
Nesse cenΓ‘rio de construΓ§Γ£o de itinerΓ‘rios formativos, cabe destacar o papel dos diferentes segmentos, enfatizando a gestΓ£o escolar e os professores. Acerca dessa questΓ£o, Campos (2010, p. 111) menciona que:
Os professores nΓ£o devem possuir apenas a capacidade de ensinar, mas tambΓ©m a de transformar o conhecimento cientΓfico em conhecimento a ser ensinado. Esse fenΓ΄meno no ensino denomina-se transposiΓ§Γ£o didΓ‘tica, que significa a transformaΓ§Γ£o do conhecimento cientΓfico em conteΓΊdos de ensino. Para que isso ocorra, o professor cria e recria, inventa e reinventa o processo pedagΓ³gico. Os professores como profissionais sΓ£o crΓticos e reflexivos dos conteΓΊdos do trabalho docente, das situaΓ§Γ΅es didΓ‘ticas, da organizaΓ§Γ£o das tarefas e da organizaΓ§Γ£o escolar.
A dinΓ’mica escolar Γ© complexa e requer distintas habilidades para o processo de ensino e aprendizagem. Para a existΓͺncia do protagonismo estudantil, Γ© necessΓ‘rio o desempenho das habilidades de todos os envolvidos na construΓ§Γ£o do espaΓ§o escolar, viabilizando oportunidades criativas nas relaΓ§Γ΅es estabelecidas no Γ’mbito das propostas educativas. Γ importante que a gestΓ£o escolar, os professores e os estudantes possam estar em constante diΓ‘logo e criem alternativas de envolvimento, de participaΓ§Γ£o e de resoluΓ§Γ£o dos conflitos.
Sobre a participaΓ§Γ£o dos estudantes na escola, MunΓ΅z (2004, p. 91-92) afirma que:
Participar Γ© tomar partido em alguma coisa. Γ fazer parte de alguma coisa. Participar Γ© organizar-se com outros para ser responsΓ‘veis conjuntamente pelo mΓ‘ximo de aspectos que constituem a nossa vida. Participar Γ© sentir-se soberano. Participar Γ© algo polΓtico, um jogo democrΓ‘tico. Participar nΓ£o Γ© uma finalidade, mas um meio que nos ajuda a tomar consciΓͺncia da realidade. Participar Γ© ser protagonista e solidΓ‘rio ao mesmo tempo, para mudar a partir do compartilhar. Participar Γ© a capacidade de dar e de receber. Participar Γ© a capacidade de assumir dificuldades, incΓ΄modos e gozar a vida. Participar supΓ΅e enviar uma mensagem e acompanhΓ‘-la com alguma aΓ§Γ£o. Participar nΓ£o Γ© apenas decidir, mas trabalhar. Participar nΓ£o Γ© sΓ³ falar, Γ© tambΓ©m ouvir. Participar Γ© acreditar que o projeto Γ© importante.
O exercΓcio da participaΓ§Γ£o e do envolvimento no dia a dia das questΓ΅es escolares Γ© uma dimensΓ£o importante e necessΓ‘ria para ser vivenciada pelos estudantes, com a finalidade de incentivΓ‘-los a serem atuantes na escola e na sociedade. Neste sentido, a compreensΓ£o das dimensΓ΅es polΓtica e social que permeiam o espaΓ§o escolar e as diferentes instΓ’ncias sociais Γ© o caminho para a efetivaΓ§Γ£o do protagonismo estudantil nas relaΓ§Γ΅es estabelecidas no Γ’mbito da prΓ‘tica pedagΓ³gica.
Demo e Silva (2020) revelam que 0 protagonismo estudantil Γ© uma dimensΓ£o favorΓ‘vel para atuaΓ§Γ£o dos estudantes, porΓ©m, nas prΓ‘ticas educacionais da maioria das escolas, isso ainda nΓ£o Γ© uma realidade. Programas como o Parlamento Jovem Brasileiro, que permitem aos estudantes vivenciarem, no interior da escola, os benefΓcios de serem protagonistas, sΓ£o catalisadores do processo de implementaΓ§Γ£o dessa cultura nas escolas brasileiras, pois, propiciam aos estudantes a oportunidade de se localizar enquanto membros ativos e participantes de uma sociedade com a qual hΓ‘ uma relaΓ§Γ£o de direitos e deveres. Para alΓ©m dos currΓculos, o protagonismo estudantil deve chegar na ponta; facultando aos alunos, a possibilidade de aprenderem como autores (DEMO; SILVA, 2020).
a) As revelaΓ§Γ΅es das vozes dos participantes
O pΓΊblico participante da pesquisa foi dividido em duas partes. A primeira, de profissionais da educaΓ§Γ£o, sendo dois professores, dois coordenadores pedagΓ³gicos e o gestor escolar, totalizando cinco participantes. A segunda parte foi formada por estudantes, compondo um total de 15, os quais participaram ativamente no PJB na escola no perΓodo de 2014 a 2020.
Em relaΓ§Γ£o aos profissionais, todos tΓͺm formaΓ§Γ£o superior (Licenciatura Plena em EducaΓ§Γ£o FΓsica; Licenciatura plena em letras/portuguΓͺs; Pedagogia; Filosofia; Licenciatura em Letras - LΓngua Inglesa e Literaturas de LΓngua Inglesa). Quatro deles sΓ£o profissionais efetivos e um Γ© contratado pelo estado, por meio do processo seletivo. Todos os participantes trabalham na escola hΓ‘ mais de dois anos. Para efeito de indicaΓ§Γ£o das vozes dos profissionais da educaΓ§Γ£o, foram denominados de profissional 1 (P1), profissional 2 (P2), sucessivamente.
Sobre os perfis dos estudantes, nove participantes sΓ£o do sexo masculino e seis, do sexo feminino, sendo que nove residem na zona rural e seis, na zona urbana. Do total dos 15 estudantes, seis afirmaram nΓ£o ter sido selecionado em nenhuma das etapas do projeto, quatro foram selecionados na etapa estadual (prΓ©-seleΓ§Γ£o); e cinco selecionados na ΓΊltima etapa, indo vivenciar no Congresso Nacional uma experiΓͺncia importante para a sua formaΓ§Γ£o cidadΓ£. Para efeito de indicaΓ§Γ£o das vozes dos estudantes, foram denominados de estudante 1 (E1), estudante 2 (E2), estudante 3 (E3), [..], estudante 15 (E15).
Como jΓ‘ indicado, foram aplicados dois questionΓ‘rios, os quais buscavam compreender as vivΓͺncias e as aΓ§Γ΅es desenvolvidas pela escola para o sucesso do protagonismo estudantil nas diferentes experiΓͺncias dos estudantes, em particular no PJB. Em relaΓ§Γ£o a esse aspecto, foi perguntado aos profissionais da educaΓ§Γ£o as suas concepΓ§Γ΅es sobre o protagonismo estudantil e a sua relevΓ’ncia para a formaΓ§Γ£o dos estudantes.
Compreendendo que o estudante Γ© o ator principal no processo ensino-aprendizagem, capaz de ir atrΓ‘s do conhecimento e de participar na tomada de decisΓ΅es, de dar sua opiniΓ£o...ser participativo, dessa forma, contribuirΓ‘ e muito para sua formaΓ§Γ£o integral (P1).
O protagonismo estudantil acontece quando Γ© despertado no estudante o sentimento de pertencimento pela escola ou comunidade, levando-o a buscar meios de fazer a diferenΓ§a dentro ou fora do ambiente escolar (P2).
Γ colocar o aluno como centro de todas as etapas do processo de ensino, tendo um papel ativo, contribuindo para a formaΓ§Γ£o de cidadΓ£os autΓ΄nomos e comprometidos socialmente (P3).
Um conjunto de atitudes que envolvem mobilizaΓ§Γ£o na busca de interesses de um coletivo e que nesse processo acontece a auto formaΓ§Γ£o que contribui Γ formaΓ§Γ£o integral do indivΓduo (P4).
Na minha concepΓ§Γ£o, o protagonismo estudantil Γ© quando o estudante consegue transformar a sua realidade atravΓ©s de aΓ§Γ΅es e conhecimentos construΓdos na escola. Em outras palavras, seria dar "voz" ao estudante para que ela possa transformar o mundo ao seu redor. O protagonismo estudantil contribui para a formaΓ§Γ£o integral dos estudantes, uma vez que ele nΓ£o termina a etapa escolar apenas com conhecimentos teΓ³ricos e preparados para testes ou mercado de trabalho. O protagonismo permite que o estudante desenvolva o senso crΓtico e amplie sua visΓ£o, na ideia em que ele Γ© o protagonista de sua histΓ³ria (P5).
A presenΓ§a dos estudantes nos diferentes processos na escola configura-se como uma dimensΓ£o necessΓ‘ria para consolidar o protagonismo estudantil. Como sinalizado pelos participantes, por meio da abertura para a atuaΓ§Γ£o dos estudantes no Γ’mbito do planejamento e da vivΓͺncia de experiΓͺncias mΓΊltiplas, pode-se evidenciar a formaΓ§Γ£o integral, permitindo a alusΓ£o de uma consciΓͺncia crΓtica, polΓtica, social e cultural. Essas prΓ‘ticas escolares sΓ£o defendidas por MunΓ΅z (2004), quando indica que a participaΓ§Γ£o por meio de debates, intervenΓ§Γ΅es e votaΓ§Γ΅es expressa o orgulho do protagonismo, mas, sobretudo, a vivΓͺncia da cidadania.
A consolidaΓ§Γ£o do protagonismo estudantil Γ© uma aΓ§Γ£o necessΓ‘ria para a indicaΓ§Γ£o da qualidade da educaΓ§Γ£o (MUNΓ΅z, 2004), uma vez que uma das tarefas da escola/educaΓ§Γ£o Γ© preparar para a atuaΓ§Γ£o na sociedade em suas mΓΊltiplas dimensΓ΅es. Na concepΓ§Γ£o de MunΓ΅z (2004, p. 94), "possibilitar espaΓ§os e oportunidades de mΓΊtua educaΓ§Γ£o continuada entre crianΓ§as, jovens e adultos, enfatizando a participaΓ§Γ£o" e "estimular a criaΓ§Γ£o de Γ³rgΓ£o de Γ³rgΓ£os de representaΓ§Γ£o infanto-juvenil" favorecem a proposta da gestΓ£o democrΓ‘tica, defendida nos dispositivos legais (CF/1988; LDB/1996; PNE 2014/2024).
Os profissionais da educaΓ§Γ£o, participantes da pesquisa, sinalizaram que as prΓ‘ticas curriculares que sΓ£o propostas para a promoΓ§Γ£o do protagonismo estudantil coadunam com os anseios dos estudantes.
A escola promove vΓ‘rios eventos ao longo ano letivo, como quermesse, jogos esportivos, feiras de ciΓͺncias e linguagens... que tΓͺm contribuΓdo para o protagonismo juvenil (P1).
A promoΓ§Γ£o de projetos interdisciplinares, bem como o incentivo Γ participaΓ§Γ£o em eventos extra escolares (P2).
A escola promove uma gestΓ£o democrΓ‘tica, assegurando a participaΓ§Γ£o dos alunos nas reuniΓ΅es, discussΓ΅es e decisΓ΅es da escola. Os alunos participam dos conselhos escolares e planejam juntamente com a escola alguns trabalhos e projetos que sΓ£o desenvolvidos no decorrer do ano (P3).
CriaΓ§Γ£o de identidades como lΓderes de turma, grΓͺmio estudantil, realizaΓ§Γ£o de projetos culturais como feiras, saraus etc. (P4).
A escola desenvolve projetos cientΓficos, artΓsticos e culturais, tais como SimpΓ³sios, Feira de CiΓͺncias, projetos interdisciplinares e principalmente o incentivo dos estudantes a participar de concursos de redaΓ§Γ£o (P5).
As aΓ§Γ΅es apontadas pelos profissionais trazem Γ tona as diferentes estratΓ©gias desenhadas para a concretizaΓ§Γ£o da efetivaΓ§Γ£o do protagonismo estudantil, por meio da atuaΓ§Γ£o ativa nos diferentes espaΓ§os e momentos. Para Gutierrez (2004, p. 15), "a participaΓ§Γ£o pode ser vista de duas formas distintas: enquanto prΓ‘tica pedagΓ³gica, ou como conteΓΊdo de uma disciplina/atividade". O incentivo Γ participaΓ§Γ£o, como princΓpio da prΓ‘tica pedagΓ³gica, Γ© o caminho para a construΓ§Γ£o da autonomia dos estudantes e o desenvolvimento de aΓ§Γ΅es pertinentes ao processo de ensino e de aprendizagem.
No contexto da gestΓ£o escolar, os participantes destacaram que o PJB:
A meu ver, Γ© um programa de fundamental importΓ’ncia para o engajamento dos jovens, pois, atravΓ©s dele, o estudante amplia sua visΓ£o sobre a cidadania e o processo legislativo. Ademais, o programa permite que o estudante explore e desenvolva suas habilidades de escrita (P1).
O programa Γ© muito importante, pois valoriza as ideias e habilidades dos alunos, incentivando uma participaΓ§Γ£o ativa na polΓtica e no processo democrΓ‘tico (P3).
Toda a escola atua na conscientizaΓ§Γ£o da importΓ’ncia de uma democracia participativa. Professores e gestores estimulam a participaΓ§Γ£o no programa, sendo de suma importΓ’ncia. SΓ£o atividades extra e voluntΓ‘ria dentro do espaΓ§o escolar. Uma verdadeira aula prΓ‘tica de democracia (P4).
O incentivo Γ participaΓ§Γ£o dos estudantes em programas, como o PJB, Γ© papel da escola e de seus diferentes profissionais, uma vez que contribui para a construΓ§Γ£o do protagonismo juvenil, bem como favorece o envolvimento da juventude em questΓ΅es polΓticas e sociais que fazem parte do dia a dia da populaΓ§Γ£o, e, muitas vezes, sΓ£o despercebidas pela falta de conhecimento, como Γ© o caso das legislaΓ§Γ΅es. Na visΓ£o de Gutierrez (2004, p. 14), prΓ‘ticas curriculares com esses desenhos, possibilitam "a construΓ§Γ£o da consciΓͺncia de forma autΓ΄noma para o exercΓcio pleno da cidadania".
As vozes dos profissionais, especialmente dos professores, que lidam diariamente com os estudantes e os processos de ensino e de aprendizagem, apontam que hΓ‘ algumas dificuldades de desenvolvimento de aΓ§Γ΅es enfrentadas no processo de orientaΓ§Γ£o para a vivΓͺncia do PJB:
SΓ£o inΓΊmeras as dificuldades, principalmente o fato de muitos alunos nΓ£o se disporem a estudar no contraturno, alΓ©m disso, hΓ‘ tambΓ©m o fato de a maioria dos professores nΓ£o ter disponibilidade de tempo e a gestΓ£o nΓ£o colaborar na flexibilizaΓ§Γ£o de horΓ‘rios. Muitas vezes, para superar tal dificuldade, os alunos sΓ£o levados para estudar na casa do prΓ³prio professor. ExigΓͺncias de mais tempo de estudo e trabalho fora de carga horΓ‘ria, encontros... (P2) As principais dificuldades estΓ£o relacionadas Γ falta de interesse de alguns estudantes sobre temΓ‘ticas referentes Γ polΓtica brasileira e atΓ© mesmo sobre democracia. Eu tento superar essas dificuldades atravΓ©s das aulas iniciais, as quais eu busco discutir e demostrar a relevΓ’ncia dessa temΓ‘tica para uma sociedade democrΓ‘tica (P5).
Conforme assinalado pelos professores, diferentes aspectos prejudicam a efetivaΓ§Γ£o de uma construΓ§Γ£o consubstancial de prΓ‘ticas pedagΓ³gicas. Pelos depoimentos dos envolvidos, a questΓ£o do tempo, do espaΓ§o e o papel da gestΓ£o escolar sΓ£o expressΓ΅es que soam como artefatos que desfavorecem a atuaΓ§Γ£o mais efetiva no processo de construΓ§Γ£o dos projetos dos estudantes. Desse modo, reflete-se sobre a importΓ’ncia da existΓͺncia de escolas de tempo integral, as quais apresentam estrutura, tempo e espaΓ§o fΓsico para a consolidaΓ§Γ£o de aΓ§Γ΅es prΓ³prias que deem suporte Γ s diferentes prΓ‘ticas pedagΓ³gicas.
O despertar para a consciΓͺncia da relevΓ’ncia da participaΓ§Γ£o e da presenΓ§a dos diferentes segmentos na polΓtica e na compreensΓ£o de seu processo organizativo Γ© o caminho para cativar os jovens ao engajamento e Γ perspicΓ‘cia de criaΓ§Γ£o de projetos para resoluΓ§Γ£o dos conflitos/problemas sociais, uma vez que "a participaΓ§Γ£o Γ© uma habilidade que se aprende e se aperfeiΓ§oa" (BORDENAVE, 1983, p. 46), com a construΓ§Γ£o de alternativas que deem condiΓ§Γ΅es de sua existΓͺncia, pois a participaΓ§Γ£o Γ© um ato polΓtico (FREIRE, 2015), que repercute na vida cotidiana de todas as pessoas.
As vozes dos estudantes revelam que as aΓ§Γ΅es desenvolvidas na escola possibilitam a participaΓ§Γ£o em diferentes atividades que compreendem mΓΊltiplos aspectos, importantes ao engajamento e ao desenvolvimento do estudante.
Sim, sempre participei de concursos de redaΓ§Γ£o, da organizaΓ§Γ£o dos eventos escolares, reuniΓ΅es, dentre outros (E1).
Sim. ApresentaΓ§Γ΅es em atividades lanΓ§adas pela escola como: palestras, dinΓ’micas, apresentaΓ§Γ΅es com temas, feira de ciΓͺncias etc. (E2).
Sim. AlΓ©m das atividades referentes ao desenvolvimento de projetos para o PJB, participei de feiras de ciΓͺncias e gincanas de matemΓ‘tica (E9).
Sim. Do PJB, da OlimpΓada de LΓngua Portuguesa Escrevendo o Futuro, Jovem Senador (E10).
Sim. Desde quando entrei no Ensino MΓ©dio procurei me dedicar ao mΓ‘ximo a todas as atividades propostas pela escola. AlΓ©m das atividades cotidianas, que sΓ£o comum [sic] a todas as escolas, eu tive a oportunidade de participar de diversas atividades. Dentre elas, as que mais me destaquei foram nos concursos de produΓ§Γ£o textual, tais como Parlamento Jovem Brasileiro, Jovem Senador, OlimpΓada de LΓngua Portuguesa etc. AlΓ©m disso, no perΓodo que cursei o Ensino MΓ©dio, a escola contava com o apoio do Programa de Ensino MΓ©dio Inovador ProEMI, o qual permitiu que a instituiΓ§Γ£o realizar [sic] diversos eventos artΓsticos, cientΓficos e culturais. E durante esse perΓodo pude atuar como monitor atravΓ©s do programa Jovem de Futuro (E14).
Sim. Jovem Senador, OlimpΓada Piauiense de PortuguΓͺs, olimpΓada de lΓngua portuguesa. CΓ’mara mirim (E15).
Conforme jΓ‘ apontado, a participaΓ§Γ£o e o envolvimento dos estudantes sΓ£o relevantes para a formaΓ§Γ£o de indivΓduos socialmente ativos e participativos, preparados para usufruir a plena cidadania (GUTIERREZ, 2004). Ademais, cabe ao grupo gestor, bem como aos professores, o incentivo Γ participaΓ§Γ£o dos estudantes. Os aspectos sinalizados pelos estudantes evidenciam a forma dinΓ’mica de organicidade da polΓtica escolar, a qual contribui para que os estudantes se envolvessem nos processos escolares, favorecendo a aprendizagem e as mΓΊltiplas possibilidades de engajamento juvenil.
Em relaΓ§Γ£o ao processo de engajamento juvenil, tendo a escola como campo de aΓ§Γ£o, os depoimentos dos estudantes evidenciaram as suas percepΓ§Γ΅es sobre os esforΓ§os institucionais para garantir oportunidade de atuaΓ§Γ£o e o sucesso nas atividades.
Com certeza, a escola alΓ©m de ter me proporcionado Γ³timas oportunidades, ainda ajudou a me abrir para conhecer coisas novas, a saber me posicionar perante a sociedade (pensar fora da caixinha). (E1).
Sim, pois a mesma sempre nos atualizava sobre as oportunidades destinadas a jovens protagonistas em programas para as escolas, alΓ©m de atividades, atΓ© mesmo em sala de aula, que nos estimulavam a ser um protagonista (E2).
Sim, porquanto foi na escola que eu fui estimulado a participar de programas estudantis que me proporcionaram uma grande evoluΓ§Γ£o intelectual e como cidadΓ£o. Ao me apresentar possibilidades que iam muito alΓ©m da sala de aula, a escola abriu todo um leque de possibilidades para a minha vida acadΓͺmica e mesmo profissional, pois participar de programas como o PJB acabou agregando ao meu conhecimento coisas que raramente sΓ£o aprendidas em sala de aula (E9).
Sim, atravΓ©s do incentivo por parte dos professores e da oferta de oportunidades que auxiliam o desenvolvimento pleno de habilidades de escrita, oratΓ³ria e sociais, tabu para a grande maioria do corpo discente (E13).
Sem dΓΊvidas a referida escola contribuiu muito para meu protagonismo. Quando eu ingressei nessa instituiΓ§Γ£o eu nΓ£o tinha muitas perspectivas, queria apenas terminar "os estudos" assim como pensam grande parte dos jovens da minha regiΓ£o. No entanto, conheci professores que me mostraram o quanto Γ© prazeroso e importante o processo de aprendizagem. A partir de entΓ£o eu comecei a me dedicar cada vez mais e aproveitar todas as oportunidades que surgiam. Γ importante destacar que todos os professores e agentes dessa escola contribuΓram muito para meu protagonismo, entretanto, a professora de LΓngua Portuguesa da sΓ©rie foi a que mais me motivou atravΓ©s de suas prΓ‘ticas pedagΓ³gicas. A maneira que ela ensinava e se preocupava era diferente. Ela conseguia explorar nossas habilidades, sem que percebΓͺssemos. Na verdade, foi ela que me orientou e esteve ao meu lado durante toda a minha jornada no Ensino MΓ©dio (E14).
Os depoimentos dos estudantes mostram que a participaΓ§Γ£o Γ© o elemento gerador para a concretizaΓ§Γ£o do protagonismo. As experiΓͺncias expostas pelos estudantes vΓ£o ao encontro da perspectiva defendida por MunΓ΅z (2004, p. 91), quando este salienta que "participar Γ© ser protagonista e solidΓ‘rio ao mesmo tempo, para mudar a partir do compartilhar". Os destaques dos estudantes relevam a importΓ’ncia da atuaΓ§Γ£o dos diferentes profissionais para assegurar uma educaΓ§Γ£o que faΓ§a sentindo e construa itinerΓ‘rios formativos propΓcios ao engajamento e ao protagonismo estudantil.
De acordo com os discentes, a promoΓ§Γ£o do protagonismo estudantil estΓ‘ interligada ao incentivo de prΓ‘ticas que extrapolem a sala de aula, estΓ‘ vinculada ao participar, ao ouvir e ser ouvido, ao fazer, enfim, a ser autor de suas prΓ³prias histΓ³rias. A construΓ§Γ£o de propostas pedagΓ³gicas que tenham como centro a escuta aos estudantes Γ© uma dimensΓ£o propΓcia para a efetivaΓ§Γ£o da concepΓ§Γ£o de gestΓ£o democrΓ‘tica, bem como Γ consolidaΓ§Γ£o de aΓ§Γ΅es que tenham como centro os anseios dos estudantes. Na visΓ£o deles, para a concretizaΓ§Γ£o do protagonismo sΓ£o necessΓ‘rias distintas propostas, destacando-se:
AlΓ©m do conteΓΊdo didΓ‘tico jΓ‘ aplicado, acredito que as aulas prΓ‘ticas ajudam muito, bem como a apresentaΓ§Γ£o de seminΓ‘rios, onde o aluno Γ© posto como protagonista mesmo. A responsabilidade por organizar eventos escolares, que, de certa forma, Γ© uma capacitaΓ§Γ£o. A participaΓ§Γ£o da escola em concursos estaduais e nacionais, que estimulam os alunos a se destacarem, dentre muitas outras atividades (E1).
RedaΓ§Γ΅es e atividades como o PJB, onde os jovens podem expressar a sua visΓ£o do mundo e elaborar soluΓ§Γ΅es para os problemas que os cercam (E7).
Eventos de cunho social, ambiental, econΓ΄mico etc. Incentivando, assim, sempre perspectivas diferentes e bem promissoras provindas do pΓΊblico jovem (E8).
Programas de estΓmulo Γ leitura; ao pensamento crΓtico; Γ produΓ§Γ£o cientΓfica; Γ participaΓ§Γ£o polΓtico-social, tanto no ambiente escolar quanto fora dele; e atividades que deem destaque Γ queles alunos mais aplicados (E9).
Atividades que coloquem os alunos como lΓderes, atividades que faΓ§am com que os alunos se coloquem a frente, dando, talvez, sua prΓ³pria opiniΓ£o (E10)
A meu ver, para que o protagonismo estudantil seja alcanΓ§ado, Γ© necessΓ‘rio que a escola mostre aos discentes que a educaΓ§Γ£o vai alΓ©m da sala de aula. Γ fundamental que a escola desenvolva projetos que mostrem ao discente que o conhecimento que ele constrΓ³i na sala de aula Γ© aplicΓ‘vel nΓ£o somente para exames e vestibulares, mas na sua vida como todo. Alguns exemplos de atividades que podem favorecer para o protagonismo estudantil sΓ£o os programas e concursos extracurriculares, a realizaΓ§Γ£o de eventos artΓsticos culturais, o desenvolvimento de projetos interdisciplinares com aplicaΓ§Γ£o prΓ‘tica, entre outras aΓ§Γ΅es (E14).
A participaΓ§Γ£o nΓ£o Γ© um fenΓ΄meno natural, Γ© algo cultural que pode ser aprendido, incentivado e melhorado (BORDENAVE, 1983). Dessa forma, 0 sucesso da participaΓ§Γ£o dos estudantes Γ© fruto de uma ampla articulaΓ§Γ£o entre todos os envolvidos no contexto de ensino e de aprendizagem. O processo de participaΓ§Γ£o, de escuta e de envolvimento Γ© complexo (BORDENAVE, 1983) e repercute diretamente no modo de visΓ£o de um projeto de sociedade, sendo necessΓ‘rio que os construtores de polΓticas, de planejamento escolar e educacional, de avaliaΓ§Γ£o de polΓticas e de aprendizagem congreguem em suas bases epistemolΓ³gicas a participaΓ§Γ£o como princΓpio norteador e dinΓ’mico para o sucesso do paradigma em construΓ§Γ£o.
A vivΓͺncia do PJB na escola repercute nas experiΓͺncias dos envolvidos, tendo diferentes sujeitos que se engajam para o sucesso das propostas. Esse aspecto pode ser observado nos depoimentos dos estudantes, quanto ao papel dos educadores na orientaΓ§Γ£o para o PJB. Desse modo, foi destacado que:
Mesmo nΓ£o tendo sido selecionada, o auxΓlio deles foi de suma importΓ’ncia para que eu concluΓsse o meu projeto. Tanto em pesquisas, como em revisΓ΅es, dΓΊvidas, estavam sempre dispostos a ajudar (E1).
Sempre nos estimularam a tentar, a fazer as atividades, nos ensinando e direcionando (E2).
Acredito que o fator mais importante tenha sido uma orientaΓ§Γ£o prΓ³xima e individualizada (E3).
Sempre me dando dicas, me ajudando nas correΓ§Γ΅es, indicando material e me motivando (E7)
Oferecendo apoio teΓ³rico, sugerindo melhorias para o projeto e proporcionando oportunidades para que eu pudesse expor minhas ideias e debatΓͺ-las com os professores e com outros participante do PJB (E9).
Oferecendo a oportunidade de debates, instigando o pensamento crΓtico, auxiliando desde a diagramaΓ§Γ£o do PL a correΓ§Γ΅es ortogrΓ‘ficas, atravΓ©s de incentivos via WhatsApp, acreditando que Γ©ramos capazes, enfim de todas as formas cabΓveis (E13).
A todo momento, eles estiveram auxiliando na produΓ§Γ£o do projeto, alΓ©m de nos incentivarem durante a produΓ§Γ£o (E15).
A participaΓ§Γ£o e o protagonismo sΓ£o como uma via de mΓ£o dupla, isto Γ©, na medida que depende do envolvimento do estudante, tambΓ©m Γ© fruto da dedicaΓ§Γ£o dos professores e gestores para garantir espaΓ§o, tempo e sucesso nas proposiΓ§Γ΅es dos estudantes. Nesse cenΓ‘rio, a atuaΓ§Γ£o de todos Γ© um arranjo polΓtico e social, no qual repercutem as aΓ§Γ΅es vivenciadas, isso porque "a gestΓ£o democrΓ‘tica Γ© condiΓ§Γ£o necessΓ‘ria para a autonomia e o protagonismo estudantil" (MARTINS, 2002, p. 22). Na visΓ£o de Campos (2010, p. 111), "o professor cria e recria, inventa e reinventa o processo pedagΓ³gico", com a finalidade de desenvolver uma costura pedagΓ³gica, a qual torne possΓvel o sucesso dos estudantes em suas empreitadas.
Cabe destacar que a articulaΓ§Γ£o de todos os entes Γ© o que vai proporcionar uma aprendizagem significativa, fazendo valer os princΓpios evidenciados nos dispositivos legais. No processo de desenvolvimento dos projetos, todos sΓ£o importantes e todas as experiΓͺncias vivenciadas anteriormente contribuem para o favorecimento de novas estratΓ©gias que despertam para a visΓ£o polΓtica e social dos anseios dos envolvidos. De acordo com LΓΌck (2013), o protagonismo Γ© um princΓpio que ancora a gestΓ£o escolar, os profissionais da educaΓ§Γ£o, os estudantes e a comunidade local, logo Γ© pela participaΓ§Γ£o que se entende o desenvolvimento crΓtico, polΓtico e social para a construΓ§Γ£o da formaΓ§Γ£o integral dos estudantes.
Em meio a essa dinamicidade, os estudantes que conseguiram alcanΓ§ar a ΓΊltima etapa do PJB revelaram que:
Foi de total importΓ’ncia nΓ£o somente para ganho de conhecimento, mas tambΓ©m pessoal. Aprender mais sobre a polΓtica, e tambΓ©m lutar pelos nossos direitos como cidadΓ£o (E2).
Uma relevΓ’ncia imensurΓ‘vel. Conhecer e atuar como um agente transformador do paΓs Γ© exercer, de fato, sua cidadania (E8).
A me tornar mais comunicativa, socialmente uma cidadΓ£ que se preocupa com a sociedade (E11).
Essa experiΓͺncia contribuiu de forma bastante significativa para minha formaΓ§Γ£o cidadΓ£, polΓtica e social, uma vez que pude entender na prΓ‘tica a rotina de um Deputado Federal, sua importΓ’ncia para sociedade e compreender como funciona todo o processo legislativo. AlΓ©m disso, o PJB permitiu a convivΓͺncia com jovens de todos os estados brasileiros de diferentes culturas e regiΓ΅es. E o mais interessante Γ© que cada um deles tinha uma proposta de melhoria para o Brasil. Sem dΓΊvidas, esse programa Γ© essencial para o processo democrΓ‘tico brasileiro, jΓ‘ que aproxima e amplia a visΓ£o do estudante sobre a polΓtica brasileira (E14).
Eu tive uma experiΓͺncia incrΓvel, evolui as minhas ideias sobre o que Γ© polΓtica. Firmei novos conceitos e destruΓ preconceitos. Conheci o Brasil inteiro em ΓΊnico lugar e me apaixonei por ele. Percebi que a educaΓ§Γ£o precisava de mudanΓ§as e com o incentivo dos meus professores eu tive a coragem de seguir carreira em um curso de licenciatura (E15).
Por meio do exposto pelos estudantes, podese notar a relevΓ’ncia da participaΓ§Γ£o na ΓΊltima etapa do PJB, uma vez que, nessa realizaΓ§Γ£o, hΓ‘ uma congregaΓ§Γ£o de saberes, de culturas e de experiΓͺncias que enriquece os olhares e as sistematizaΓ§Γ΅es da compreensΓ£o de mundo e de polΓtica. A atuaΓ§Γ£o como um deputado jovem favorece a percepΓ§Γ£o dos problemas polΓtico, social, econΓ΄mico, assim como salienta a responsabilidade coletiva dos anseios para a construΓ§Γ£o de um paΓs melhor.
Com os depoimentos apresentados, foi possΓvel notar que o PJB cumpre com as expectativas dos estudantes, permitindo-lhes uma experiΓͺncia enriquecedora e favorecendo-lhes a formaΓ§Γ£o de mΓΊltiplos aspectos da cidadania. Nesse constructo, "participar Γ© algo polΓtico, um jogo democrΓ‘tico" (MUNΓz, 2004, p. 92), o qual confere espaΓ§o de protagonismo aos jovens, sinalizando o despertar para a vivΓͺncia da polΓtica e da construΓ§Γ£o de uma sociedade justa e igualitΓ‘ria. O PJB, desse modo, contribui com a efetivaΓ§Γ£o da democracia brasileira, com a participaΓ§Γ£o na escola, comungando com a necessidade de aΓ§Γ΅es como essas nas distintas experiΓͺncias no chΓ£o da escola.
IV. CONSIDERAΓΓES FINAIS
O Programa Parlamento Jovem Brasileiro tem a finalidade de contribuir e incentivar politicamente os jovens Γ participaΓ§Γ£o nos debates e nos processos democrΓ‘ticos. O Programa favorece a participaΓ§Γ£o dos jovens na polΓtica, dando voz e vez com a finalidade de que possam refletir e discutir sobre os dilemas polΓticos e sociais. Com base no exposto, a participaΓ§Γ£o e o protagonismo sΓ£o ferramentas para o desenvolvimento da plena cidadania e o PJB contribui em diversos aspectos para o alcance desse mΓ©rito, sendo destaque a conscientizaΓ§Γ£o quanto ao seu lugar no espaΓ§o social.
As vozes dos profissionais da escola e dos estudantes revelaram a importΓ’ncia de projetos como o PJB, mostrando que o Programa agregou valores e habilidades aos envolvidos. Ele, juntamente com todas as aΓ§Γ΅es desenvolvidas no chΓ£o da escola, possibilitou aos estudantes a oportunidade de serem protagonistas de suas prΓ³prias histΓ³rias e ideias, bem como vivenciar aspectos inerentes ao processo de cidadania. As aΓ§Γ΅es realizadas na escola para a implementaΓ§Γ£o do PJB favoreceram o protagonismo dos estudantes, apesar da complexidade do processo, como foi possΓvel observar nos depoimentos.
Os depoimentos dos envolvidos revelaram que as aΓ§Γ΅es e os esforΓ§os da escola vΓ£o ao encontro aos anseios dos estudantes. A conjuntura pedagΓ³gica e profissional da instituiΓ§Γ£o faz valer a necessidade de participaΓ§Γ£o dos estudantes, proporcionando condiΓ§Γ΅es para o sucesso da participaΓ§Γ£o e do engajamento juvenil. Nas leis que regulam o ato educativo, no Γ’mbito da educaΓ§Γ£o formal, o protagonismo estudantil ganhou um significativo espaΓ§o, no entanto, na prΓ‘tica, o fΓ΄lego dos estudantes e dos profissionais Γ© tomado pelas inΓΊmeras burocracias, especialmente as cobranΓ§as governamentais. Contudo, programas como o PJB sΓ£o saΓdas que permitem vislumbrar a possibilidade de prΓ‘ticas pedagΓ³gicas que propiciam a vivΓͺncia plena do processo escolar e juvenil, na condiΓ§Γ£o de protagonista.
Com base nos resultados apresentados, fica evidenciada a necessidade de engajamento das diferentes esferas sociais para a promoΓ§Γ£o de um aprendizado significativo. As prΓ‘ticas pedagΓ³gicas no chΓ£o da escola devem possibilitar o protagonismo dos estudantes e, por sua vez, devem ser apoiadas e incentivadas por entidades polΓticas e sociais. A articulaΓ§Γ£o entre essas esferas pode contribuir para a construΓ§Γ£o de um projeto de sociedade igualitΓ‘rio e participativo.
Por fim, salienta-se a necessidade de incentivo a programas e projetos que favoreΓ§am a articulaΓ§Γ£o com os saberes das escolas e dos diferentes segmentos que a compΓ΅em, possibilitando que os estudantes tornem-se protagonistas de aΓ§Γ΅es sociais, articulando os saberes, as prΓ‘ticas e as ideias escolares com a polΓtica, com a finalidade de incentivΓ‘- los a envolverem-se com os dilemas sociais e polΓticos, como papel da escola e dos princΓpios educacionais. As polΓticas educacionais sΓ£o possΓveis caminhos para a construΓ§Γ£o de novas estratΓ©gias que congreguem os anseios sinalizados, basta perceber a importΓ’ncia das prΓ‘ticas que acontecem no chΓ£o da escola para dinamizar as polΓticas, orientando-as como itinerΓ‘rios formativos. Eis, portanto, o desafio!