Quem é o escritor Moacyr Scliar
Moacyr Jaime Scliar nasceu em 23 de março de 1937, no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Porto Alegre (RS). Seus pais, José e Sara Scliar, oriundos da Bessarábia (Rússia), chegaram ao Brasil em 1904. Filho mais velho do casal, que teve ainda Wremyr e Marili, desde pequeno demonstrou inclinações literárias. O próprio nome Moacyr já é resultado dessa afinidade. Foi escolhido por sua mãe Sara após a leitura de Iracema, de José de Alencar, significando “filho da dor”.
Na produção literária de Scliar (1937-2011) há mais de setenta livros de gêneros diferenciados, tais como romances, ensaios, crônicas, ficções infanto-juvenis e contos. O escritor gaúcho teve suas obras publicadas em mais de vinte nações e foi reconhecido quatro vezes com o “Prêmio Jabuti” (em 1988, 1993, 2000 e 2009). Um desses prêmios ele recebeu pelo romance A mulher que escreveu a Bíblia, livro que posteriormente foi adaptado para o teatro em 2007 com a atriz Inez Viana. Além de colaborador em vários órgãos da imprensa no país, como a Folha de São Paulo e o Jornal Zero Hora (RS), Scliar foi membro da Academia Brasileira de Letras a partir do ano 2003.
Berta Waldman observa que, na condição de brasileiro, nascido em Porto Alegre, no bairro do Bom Fim, e judeu, filho de imigrantes da Europa Oriental, Moacyr Scliar traz para a sua literatura as marcas dessa dupla identidade, sendo que “o que o destaca no contexto da literatura brasileira é o fato de ser ele dos raros escritores a tematizar o fenômeno da imigração judaica no país, particularmente no Rio Grande do Sul” (WALDMAN, 2003, p. 103). Regina Zilberman amplia essa afirmação, assinalando que “competiu a Moacyr Scliar conferir consistência à temática judaica na literatura brasileira” (ZILBERMAN, 2017, p. 10-11). Diante dessas afirmações, acredita-se que o romance Manual da paixão solitária pode ser considerado, ao menos em parte, resultado da experiência judaica do escritor.
Feitas essas considerações iniciais, observa-se que o objetivo deste trabalho é mostrar a atuação dos narradores na obra Manual da paixão solitária (2008), de Moacyr Scliar. Este livro se caracteriza por ter dois narradores: a primeira parte do romance é narrada pelo jovem Shelá; o segundo segmento é narrado por Tamar, a mulher pelo qual Shelá é apaixonado. Pretende-se comparar as narrativas de Shelá e de Tamar a partir de conceitos da narratologia, especialmente aqueles relacionados à focalização e à narrativa multiperspectivista. Parte-se da hipótese de que a duplicidade de vozes empregada por Scliar não tem apenas função estrutural, mas também problematiza a ideia de verdade única ao apresentar versões distintas dos mesmos acontecimentos. Dessa forma, o romance evidencia como memória, desejo e posicionamento subjetivo influenciam a construção da narrativa.
O narrador Shelá
Considerando as explanações de Angélica Soares, o narrador é a voz que relata os acontecimentos do romance, jamais podendo ser confundido com o autor, pois “é já uma criação deste e, portanto, elemento de ficção”. Como tanto Shelá como Tamar são narradores que participam da história narrada sob a forma de um "eu", devem ser classificados como narradores homodiegéticos (SOARES, 2007, p. 45-46). A condição homodiegética de Shelá e de Tamar é fundamental para compreender a construção narrativa do romance. Como ambos participam diretamente dos acontecimentos que relatam, suas narrativas são atravessadas por afetos, interesses e limitações perceptivas. Assim, seus relatos não devem ser lidos como reproduções objetivas dos fatos, mas como interpretações subjetivas dos eventos vividos. Tal característica contribui para a multiplicação de perspectivas e para o questionamento de uma verdade narrativa única.
No romance Manual da paixão solitária Shelá relata um pouco da sua experiência e das suas sensações vividas ao ver Tamar pela primeira vez. Ele, juntamente com seu pai e seus irmãos, foi à casa de Tamar: o objetivo principal era conhecer a então prometida ao seu irmão mais velho Er. Como era do costume da época, o pai da futura noiva recebia em sua casa os familiares de seu pretendente para que pudessem tratar dos assuntos relacionados ao casamento.
Ele diz que Tamar tinha os “cabelos como cabritinhos”. Em seguida, detalha que a futura noiva tinha “olhos negros, boca sensual e corpo simplesmente alucinante”, além do “corpo perfeito” (SCLIAR, 2008, p. 44, 68). A descrição de Shelá não vai além disso, o que difere do relato de Tamar, que, no segundo segmento do livro, narra muito mais detalhes da sua própria formosura.
Após a visita à casa de Tamar, Shelá volta para casa um pouco perturbado com a beleza da então pretendente de seu irmão, beleza esta que lhe é capaz de tirar o sono e lhe causar muito desejo. Ele se sente precisando desabafar com alguém sobre o que estava sentido após conhecer a bela Tamar. Porém, Shelá percebe que não havia com quem desabafar e foi aí que lhe ocorreu a ideia de escrever, colocar em um pergaminho aquilo que estava sentindo e ao mesmo tempo o angustiando, e assim o fez.
Mas como colocar estas sensações até então desconhecidas por Shelá no papel? Os pergaminhos, as tintas e os estiletes estavam em poder de seu pai, o patriarca da família, e seu pai jamais iria permitir que Shelá usasse os pergaminhos para escrever sobre os seus dramas interiores.
E foi então que Shelá teve a ideia de roubar os pergaminhos de seu pai, pois precisava dos apetrechos de escrita para poder registrar suas aflições. Já de posse dos apetrechos necessários, Shelá sentou-se em uma pedra e começou a relatar de acordo com o seu ponto de vista os acontecimentos dos últimos dias, como o medo de seu irmão mais velho, a angústia em relação ao casamento com Tamar, além de usar os pergaminhos para relatar suas aflições.
Shelá também anotava em seus pergaminhos as aflições vividas por seu irmão Er após o casamento com Tamar. Com preocupação, Shelá registrava que Er estava sempre em silêncio, triste, amargo pois seu casamento havia fracassado por ele não conseguir gerar um filho. Um dia, ele decide perguntar a Tamar o que estava acontecendo, e ela acaba lhe contando que Er não a procurava e seu pênis era murcho como o sexo de um morto. Shelá tenta conversar com Er. Este o mira “com aquela expressão – a expressão do animal ferido, acuado. E pôs-se a chorar. Chorava compulsivamente, o corpo sacudido pelos soluços”, dizendo: “Salva-me, irmãozinho, salva-me, soluçava ele” (SCLIAR, 2008, p. 57, 60). Shelá não sabia como ajudá-lo. O primogênito pede para ficar sozinho, desaparece e é encontrado morto numa caverna. Aqui é necessário observar que Shelá não chega a descobrir o que Tamar descreve no segundo segmento do romance: Er era um homem que queria ser mulher, sendo esta a razão de ele não conseguir ter ereção junto à esposa.
Depois que Er morreu, ele passa a contar os fatos ocorridos com seu irmão Onan. Este se vê obrigado a casar com Tamar, após a morte de seu irmão Er, seguindo uma tradição familiar. Onan e Tamar se unem, com a simples missão de gerar um filho para assim manter a linhagem de sua família, mas isso não aconteceu. É o próprio Onan quem conta para Shelá que todas as noites ele se deitava com Tamar, a acariciava, beijava e a penetrava, deixava-a louca de desejos, e então ejaculava fora. Onan estava irado pois não queria engravidar Tamar, pois os descendentes receberiam o nome de Er e não o seu. Shelá ouvia tudo aquilo fascinado e ao mesmo tempo aterrorizado, pois não acreditava que seu irmão seria capaz de realizar tal ato.
Shelá também escreve em seus pergaminhos o que aconteceu com seu irmão Onam, a maneira triste como ele morreu, assim como os seus últimos momentos ao lado de seu irmão. Ele também descreve com detalhes algo que havia descoberto logo após a morte de seu irmão: ao contrário do que ele imaginava, Onam não odiava Tamar como o fizera acreditar. Pelo contrário: ele a amava desde o primeiro instante em que a vira na casa de seu pai, amor este que deveria manter em segredo, pois Tamar era a então mulher de seu irmão.
Quanto à Tamar, logo após a morte de seu segundo marido, ela retorna para a casa de seus pais. Ela acreditava ainda ter contas a acertar, pois queria ter um filho, e para que isso fosse realizado, um dia ela manda chamar Shelá para um encontro em uma caverna. Ao escurecer, Shelá, então tomado pela curiosidade e pelo desejo, subiu a montanha e lá estava ela junto à entrada da caverna. Tamar vestia uma túnica e aos olhos de Shelá parecia mais linda do que nunca, entraram os dois na caverna e após alguns minutos de silêncio, Tamar disse a Shelá: quero-te como marido; ela o puxa e lhe dá um beijo apaixonado, e juntamente com este beijo vinha uma mistura intensa de emoções.
Ele, adolescente, nunca havia sequer beijado uma mulher, e de repente vem aquela mulher a qual ele tanto desejava e lhe beija com paixão, Shelá se vê confuso e sua única reação foi de correr para o deserto.
Shelá, apaixonado por Tamar, vê a ideia de se casar com a bela mulher se desfazer, pois seu pai – patriarca movido pelo medo de perder mais um filho – não aceita o casamento de Tamar com Shelá. Ela, juntamente com sua família se muda para outra aldeia. O tempo passou, mas Shelá não se esquecia de Tamar. Refugiado em sua caverna e movido pelo desejo, ele imagina uma Tamar que ele pudesse abraçar e possuir. Foi aí que, movido pelo desejo, Shelá tem a ideia de fazer uma Tamar de barro para com ela descobrir o sexo.
Guiado pelo desejo, o narrador trabalha em sua Tamar de barro com riqueza de detalhes, como um corpo tentador, lábios brilhantes e um cuidado especial com a vagina, que, para ter a sensação de desvirginar a Tamar de barro, ele coloca uma bexiga feita de cabra.
Após construir sua amada em barro, no outro dia ele sobe a montanha para ter relações com sua Tamar, porém, após consumar o ato e se levantar, ele percebe que aquela Tamar havia sido destruída. Enlouquecido pelo desejo e pela frustração de ter perdido sua amada de barro, Shelá começa a imaginar outras formas para satisfazer aquela paixão que tanto o consumia. Depois de muito pensar, ele então se pergunta o porquê de não usar as suas mãos para se satisfazer. E foi aí que, de dentro de sua caverna, Shelá se entrega à masturbação: ele gritava, gemia de prazer, quando, enfim, chegou ao orgasmo. Exausto, deita-se no chão e começa a pensar que havia descoberto uma nova forma de fazer sexo.
O pai de Shelá sai em viagem para se animar após a morte de sua esposa. O patriarca é atraído por mulheres vestidas de roupas vibrantes, e em especial por uma mulher que usava véu e dela só se viam os olhos, olhos estes que exerciam sobre o patriarca um certo fascínio. Foi então que o patriarca disse à mulher: te quero; ela pergunta: o que me dás? Ele indaga sobre o que ela quer, ela responde que um cabrito bastaria como pagamento. Eles foram para uma tenda e, gemendo de desejo, o patriarca se joga em cima da mulher e tem relações com ela. Ela deseja receber o pagamento, ele não tinha o cabrito naquele momento, mas disse que iria mandar assim que voltasse para a sua aldeia.
Ela então pede algo como garantia que a dívida seria paga. O patriarca mesmo estando surpreso pergunta à prostituta qual seria a garantia. Ela diz: seu cajado e o símbolos da dignidade patriarcal; e assim ele o fez, entregando-os a ela.
Dias depois, ele tenta encontrar a mulher que ele acreditava ser uma prostituta, mas que na verdade era Tamar, buscando quitar sua dívida e com isso recuperar o símbolo de sua dignidade. Shelá descobre que a mulher não se tratava de uma prostituta e que a mesma havia sumido momentos depois de se deitar com seu pai. Meses se passaram e Shelá recebe a notícia da gravidez de Tamar, o patriarca se sente traído ao saber da gravidez dela, pois de acordo com a tradição ela havia desonrado a memória de seus filhos e por isso devia ser condenada à morte. O patriarca organiza tudo para que Tamar seja queimada em praça pública, pois na sua função ele deveria preservar a honra a qualquer custo. Casos de adultério na tribo eram considerados crime, punido com a morte por apedrejamento. “Bastaria meu pai ordenar. Já o fizera mais de uma vez, encarregando-se ele próprio de atirar a primeira pedra nas mulheres transgressoras” (SCLIAR, 2008, p. 55-56). No dia marcado todos se reuniram em volta de uma pedra para ver o fim dela, mas, momentos antes, ela decide falar a todos ali reunidos quem é o pai de seu filho.
Fez-se um silêncio e antes que o pai de Shelá pudesse dizer algo, Tamar faz um sinal a sua irmã que trazia consigo um manto no qual se encontrava o símbolo da dignidade patriarcal. Tamar tratou de dizer que havia recebido de penhor ao homem com o qual havia ela havia engravidado e que queria ele a julgar, ou seja, revelou que o patriarca era o pai de seu filho. O patriarca então assume a responsabilidade de ser pai do filho de Tamar, ele então ordena para que a soltem e a levem para sua casa onde ela passa a morar.
Finalmente chega o dia do parto. Tamar dá à luz a gêmeos e Shelá, ao ver os bebês, sente por eles uma ternura ou um instinto paternal. Depois disso, Shelá continuava a passar boa parte da sua vida na caverna. Finalizando a sua narração, na caverna, ele escreve:
Penso no que ficou para trás, penso nos meus pais, nos meus irmãos. E escrevo. Já não preciso roubar pergaminhos; tenho-os à vontade. Herdeiro de um patriarca, dono de rebanhos, dinheiro não me falta. Poderia escrever ininterruptamente, se quisesse. Gastar muitos pergaminhos, muitos estiletes, rios de tinta. Mas não, agora escrevo pouco; lembranças e pensamentos cuidadosamente destilados da confusa mistura da existência, as lembranças, as reflexões, as fantasias. Sim, tenho fantasias. Melhor dizendo: o pequeno Shelá dentro de mim tem fantasias, eu as acolho e cuido delas, convivo com elas. (SCLIAR, 2008, p. 127).
A narradora Tamar
Na segunda parte do livro quem narra a história é Tamar. Ela conta fatos ocorridos durante sua infância, a admiração que sentia de por seu pai, o quanto ela era bonita, e o quanto os rapazes da aldeia admiravam a sua beleza. Sendo a narradora, ela se apresenta como linda. Ela mesma afirma que era “uma mulher linda, de corpo perfeito” (SCLIAR, 2008, p. 166, 182). Além disso, pondera a narradora:
Eu tinha orgulho de meus cabelos, longos, negros. Todos os dias eu os penteava com um pente de madeira por mim própria fabricado. [...] à medida que o tempo passava [...] eu me tornava mulher. Linda mulher, modéstia à parte. Não era muito de me olhar no espelho, objeto que nem sequer existia em nossa casa: meu pai dizia que era coisa de vaidoso, de gente leviana. Mas Laila tinha, sim, um espelho, e o que eu via ali fazia meu coração bater mais depressa. Deus, eu era linda. Tudo em mim era lindo. Os cabelos eram lindos, os olhos, escuros, eram lindos, os lábios, túmidos, eram lindos. Tu és linda, dizia Laila, não sem uma ponta de inveja [...]. Tu és linda, diziam minhas irmãs, quando crescermos vamos ser lindas como tu. Até minha mãe, timidamente, uma vez me disse que se sentia orgulhosa de ter uma filha tão linda. Só meu pai não dizia nada, não comentava minha beleza. O que me dava muita raiva. Pára de falar com Deus, eu tinha vontade de lhe dizer, olha para tua filha, ela é linda, no belo rosto dela tu enxergarás a obra do Senhor. Não só minha mãe, ou minhas irmãs, ou Laila, elogiavam minha beleza. Os rapazes da aldeia me olhavam com uma insistência que traduzia sua admiração, seu deslumbramento. (SCLIAR, 2008, p. 143, 145-146)
Aparentando narcisismo, Tamar exalta a sua própria beleza, chamando a si mesma de “linda” por dez vezes somente no fragmento acima. A confirmação de sua lindeza se dá primeiramente pelo acesso ao espelho e depois pelos elogios das próprias irmãs e da amiga Laila.
Embora a insistência de Tamar em destacar sua própria beleza possa sugerir um traço narcísico, essa estratégia narrativa também pode ser interpretada como uma forma de agência feminina. Ao conceder voz à personagem bíblica, tradicionalmente apresentada a partir de perspectivas masculinas, Scliar permite que Tamar construa sua própria imagem e reivindique o controle sobre seu corpo e sua identidade. Nesse sentido, a recorrência dos autoelogios ultrapassa a mera vaidade e funciona como mecanismo de afirmação diante de uma estrutura social patriarcal.
Tamar relata que, como era de costume da aldeia os pais escolherem os maridos para suas filhas, o que a deixava muito ansiosa pois o tempo estava a passar e seu pai não se manifestava a respeito deste assunto, pois Tamar desejava para si um homem que a despertasse como mulher.
Um dia o pai dela chega em casa e anuncia a todos que havia encontrado um marido para sua filha, mas a alegria de Tamar dura pouco ao saber que seu futuro marido seria Er. Isso para ela foi um balde de água fria, pois, para Tamar, Er de todos os pretendentes da aldeia era o último com o qual ela desejaria casar-se. Em sua narrativa, ela o apresenta como insignificante, sem graça, magro, encurvado, com uma expressão de quem estava a pedir socorro. Ela sentiu vontade de sair correndo ao ficar sabendo quem seria seu futuro marido.
Uma semana depois Tamar fica frente a frente com seu futuro marido, o que para ela a frustração foi ainda maior, pois o cara que seria em breve seu marido, o cara com quem ela faria sexo e formaria uma família, era uma figura mais lamentável que ainda parecia ser. Nada nada tinha de parecido com o pai dele, um homem imponente, de longa barba e bonito até. Sem poder confrontar seu pai pela escolha ruim, Tamar aceita Er como seu futuro marido, porém ela estava muito infeliz.
Meses se passaram e as visitas de Er à casa de Tamar eram frequentes: primeiro vinha com o pai e os irmãos, mas logo depois passou a ir sozinho; os dois sentavam na sala e conversavam poucas vezes, eles nunca se beijavam, se abraçavam ou se davam as mãos. Tamar não sabia o que pensar, estava triste confusa, sua maior esperança era de que com o casamento as coisas mudassem, que assim como as histórias que ouvia de sua mãe que eles se apaixonem.
O casamento foi realizado com muita festa, a cerimônia foi conduzida pelo pai de Tamar que, durante seu discurso, deixa bem evidente aos noivos a obrigação de lhes gerar um filho. Er, o noivo, ouvia tudo calado e com uma cara de assustado, era o noivo mais amedrontado que Tamar havia visto. Após a festa, Tamar e Er foram para o início a vida de casados, e vão morar em uma casa ainda inacabada próximo à residência do patriarca, onde eles deveriam passar a primeira noite juntos pois afinal estavam casados, e assim como Tamar todos então esperavam de Er a desvirginasse e logo em seguida a engravidasse, porém isso não foi o que de fato aconteceu. Naquela noite Tamar e Er vão para a casa e vão direto para o quarto que já se encontra todo preparado para os recém- casados, eles então se deitam e completamente nus os dois ficam a olhar para o teto sem esboçar nenhum tipo de reação, Tamar então se põe a pensar em que diabos Er estava a pensar naquele momento.
Tamar fica imóvel esperando de maneira ansiosa que aquele magro franzino, aquele que para ela era a própria negação de masculinidade, pois seu corpo precisava de um macho, sua boca , seus seios, sua vagina precisavam de alguém que matasse aquele desejo que ela sentia desde a adolescência, e ao perceber que isto não iria ocorrer, Tamar então resolve tomar uma atitude não muito normal para aquela época pois acreditava que o casamento devia ser consumado de alguma forma, e ela desejava se tornar mulher, e estava disposta a qualquer coisa para que isso acontecesse de fato. Foi então que ela resolve partir para a ação, ¨Tamar estende a mão acariciando o rosto e todo o corpo de seu marido e por fim o pênis, para Tamar aquilo era uma audácia pois era a primeira vez que ela agarrava o pênis de um homem, mas mesmo sendo inexperiente no assunto ela se dá conta de que foi um ato inútil pois, apesar de não ser um pênis tão pequeno capaz de cumprir perfeitamente sua função, o mesmo se encontrava murcho, Tamar então compara esta situação como se fosse sexo com um morto, e que ali naquele instante Er estivesse matando o seu desejo e ela também teve a certeza de que seu casamento estava condenado. Tamar então se vira para o lado a chorar e acaba pegando no sono, e assim se dá início a vida de casados dos dois.
Tamar passa os dias a se entreter com os afazeres de casa e com suas esculturas de madeira, o que para ela era seu grande consolo pois trabalhar em esculturas era uma de suas paixões, o que não era fácil pois árvores era algo muito difícil de se encontrar por aquelas regiões. Mercadores que traziam pergaminhos para o patriarca discretamente abasteciam Tamar deste material. À noitinha regressava seu marido e Tamar já o aguardava com a mesa posta, eles comiam, trocavam algumas palavras e logo em seguida iam para a cama onde nada acontecia, Tamar foi se acostumando com que para ela era uma miserável vida de casada, mas sem perder a esperança de que seu marido um dia despertasse para o sexo; contudo o que ela não esperava é que uma noite ambos já haviam terminado de comer quando uma das irmãs de Tamar vai até sua casa pedindo para que fosse dormir com sua mãe pois a mesma estava passando mal e desejava que a filha fosse passar a noite com ela. Tamar avisa a Er que irá passar a noite de com sua mãe, Tamar então ao chegar lá percebe que sua mãe está bem, então ela resolve regressar para casa, ao chegar em casa ela vai para seu quarto sem fazer barulho e então vê seu marido vestindo a túnica de seu casamento, com os olhos pintados de preto e nos lábios uma tintura vermelho brilhante. Ao ver Tamar, Er ele então solta um grito e se joga na cama cobrindo-se e fica ali choramingando e gemendo.
Passado o susto inicial, Tamar senta-se ao lado de seu marido e o acaricia sem dizer nenhuma palavra, o que poderia ela dizer diante daquela situação um homem vestido de mulher, um homem querendo fazer no sexo o papel de uma mulher, aquilo era muito grave por se tratar do filho mais velho do patriarca, e, se alguém viesse a saber, Er seria condenado à morte, porém ninguém de forma alguma viria a saber pois Tamar não revelaria tal fato, e mais: naquele instante ela teve a certeza de que seu casamento havia acabado. Disse a Er que manteria o ocorrido em segredo, Tamar então fez com que Er saísse da cama, lavasse o rosto, e os dois foram dormir. Ela se vê frustrada pois seu casamento não havia se consumado, mas o pior ainda estava por vir: os dias foram passando e Tamar começa a perceber que seu marido andava estranho, pois ele era visto pelas montanhas a resmungar coisas estranhas, não comia, até que um dia ele sumiu e foi encontrado morto.
Sob certos aspectos, a morte de Er é contada de modos diferentes. Na narrativa de Shelá, ele relata que quando Tamar lhe relata que o casamento não foi consumado, ele se alegra pelo insucesso do irmão, pois, na verdade, Shelá a desejava. Enfrentando simultaneamente esse sentimento e o remorso, ele procura o irmão, que pede ajuda e depois pede para ficar sozinho. Depois da morte de Er, Shelá se sente culpado: “eu não o ajudara. Porque não sabia o que fazer, porque no fundo tinha raiva dele [...] E pagaria por isso um preço. Daí em diante seu espectro me perseguiria sem descanso” (SCLIAR, 2008, p. 60-61). No cenário da morte, Shelá afirma apenas que viu plantas venenosas próximas ao corpo do irmão, o que indicava que ele teria tirado a própria vida, pois “preferira a morte à humilhação”. Sobre essas plantas, ele lembra, “não falei a ninguém, nem mesmo a meu pai e minha mãe” (SCLIAR, 2008, p. 61). Na narrativa de Tamar, ela comenta que Er foi encontrado sem vida em uma caverna, o que para ela foi algo devastador pois tudo indicava se tratar de um suicídio. As plantas supostamente utilizadas para se matar eram, “segundo uma lenda local, ali tinham sido colocadas pelo demônio, que assim perversamente estimulava aqueles que queriam dar cabo da vida” (SCLIAR, 2008, p. 158).
A divergência entre os relatos de Shelá e Tamar acerca da morte de Er revela um dos procedimentos centrais do romance. Nenhum dos narradores possui acesso integral aos acontecimentos; cada um reconstrói os fatos a partir de sua posição subjetiva. Dessa forma, Scliar enfraquece a noção de verdade absoluta e aproxima sua narrativa de uma lógica multiperspectivista, na qual diferentes versões coexistem sem que uma delas seja definitivamente validada. O resultado é uma releitura do mito bíblico baseada na pluralidade de interpretações.
Shelá não comenta nada acerca do enterro do irmão, mas Tamar o faz, apresentando um importante acontecimento: na condição de suicida, Er não poderia ser enterrado perto de outros mortos da tribo. Porém, o pai dela “decidiu que Er seria sepultado como um morto comum, não como suicida”, o que trouxe muito alívio a todos. “Er, finalmente absolvido, finalmente livre de seu sofrimento, foi enterrado” (SCLIAR, 2008, p. 159).
Tamar então se vê jovem e viúva, amargurada, pelo que lhe havia acontecido, pelo olhar das pessoas sobre ela, isso a fez pensar muitas vezes em deixar a aldeia , porém ela não podia fazer isso, por causa da lealdade, por culpa e pela lei da aldeia , pois por ter sido casada com Er e ele não havia deixado uma descendência, mas Tamar havia ficado somente com a herança o que não era normal.
Ela é dada em casamento a Onan, irmão de Er. Conforme a tradição, ele tomaria o lugar do irmão falecido no leito conjugal e a ele caberia a missão de engravidar Tamar. Depois de uma cerimônia simples, após o casamento os dois vão para a casa que já havia pertencido a Tamar e Er. Onan fecha a porta e Tamar toda trêmula imaginar o que ele faria, se ele a tomaria nos braços, a jogaria na cama e a possuísse, mas para sua surpresa Onan diz a ela que precisavam conversar; mas que diabos de conversa ele queria falar bem na hora do sexo; Tamar na esperança que Onan fosse falar de seus sentimentos amorosos, mas muito pelo contrário ele começa a dizer para ela que havia se casado somente porque a lei o obrigava, que não nutria nenhum sentimento por ela e que a odiava por duas razões: uma era por acreditar que Tamar era a responsável pela morte de seu irmão, e outra por ele acreditar ser somente um fornecedor de esperma. Tamar então aceita o fato de que Onam havia se disposto a fazer sexo com ela, porém sem nenhum tipo de sentimento da parte dele, ela acreditava que poderia conquistar Onam e fazê-lo mudar de ideia com seu instinto de mulher poderia fazer com que Onam se apaixonasse por ela.
Então chega a noite e logo após o jantar seu marido diz para ela que a espera no quarto, ela vai logo em seguida Tamar então relata que deveria ela se deitar em silêncio e deixar que seu marido levantasse sua túnica e a penetrasse, porém, possuída por um desejo incontrolável, ela decide ficar completamente nua e ao entrar no quarto percebe a reação de Onan: ao vê-la daquela maneira, ele teve um sobressalto e o desejo falou mais forte, ele automaticamente teve uma ereção, sentou-se na cama e ajudado por Tamar, despiu-se. Foi aí que Tamar possuída por um desejo incontrolável se joga sobre ele beijando-o, beijo este que foi correspondido; ele logo em seguida ele a penetra. Tamar, na esperança de obter um orgasmo, vê isso não acontecer, pois, no momento exato, seu marido ejacula no chão. Diante disso, Tamar se encontra ali frustrada e cheia de perguntas: por que seu marido havia feito tal ato, por que não foi até o fim? Foi então que ela se dá conta de que ele havia feito aquilo por vontade própria, percebendo, em seguida, que Onan não desejava que ela engravidasse, que não era ele apenas um fornecedor de esperma para suscitar um descendente que levaria o nome de Er.
Até que em uma noite após eles terem relação Tamar então desesperada se joga no chão tentando esfregar a vagina no resto de esperma que ali se encontrava na esperança de que algo pudesse vir a acontecer, porém não passou de mais uma tentativa frustrada. Enquanto isso, Onan ria e dizia para ela: vai rápido antes que seque. O tempo foi passando e Tamar continuava sofrendo em silêncio, ela também percebe que algo estava acontecendo com Onan, pois ele já não era mais tão triunfante, não se excitava tão facilmente.
Poucos dias depois, ele adoeceu e morreu de uma doença misteriosa, e Tamar entra em desespero, pois apesar de tudo ela o amava e não conseguiu dizer a ele tudo que sentia. Depois do enterro, Tamar volta para a casa de seus pais, pois a família de Onam não a aceitara de volta pois acreditavam que ela tinha culpa na morte de seu filho.
Mas Tamar acreditava ainda ter contas a ajustar com patriarca da família e nada a faria mudar de ideia, ela queria engravidar, ela ansiava por um filho, por amamentar, e assim o faria e como a lei do levirato continuava valendo, o filho mais novo do patriarca teria que engravidá-la. Ela volta os olhares a Shelá, um menino ainda saindo da adolescência, um garoto bonito, Tamar gostava de Shelá como qualquer mulher gostava do cunhado, porém o que ela agora desejava era obter um homem ao qual ela acreditava ter direito, e para isso faria o uso de táticas como se aproximar de Shelá para garantir seu apoio, então ela marca um encontro com Shelá em uma caverna ao anoitecer.
Ao cair da noite no pé da montanha ela se pôs à espera de Shelá e no momento certo ele apareceu. Aparentava estar meio perturbado com o convite, os dois entram na caverna, e faz-se silêncio por alguns instantes, e Tamar pensa por um momento em desistir, em dizer que queria somente vê-lo e saber notícias da família, porém não agiu assim. Muito pelo contrário, ela foi bem direta ao dizer para Shelá que o queria para marido e num impulso o puxa para si e lhe dá um beijo apaixonado, violento, uma mistura de frustração com desejo; e Shelá, como nunca havia beijado uma mulher, saiu correndo, e Tamar ficou a se perguntar o que havia feito, mas de uma coisa ela tinha certeza: que a fêmea que estava adormecida dentro de si havia ressurgido e, mais, que o adolescente Shelá havia despertado nela um desejo e almejou que seu casamento com o garoto fosse aceito por todos principalmente pelo patriarca da família, pois essa era a sua vontade.
Ela vai conversar com o patriarca para dizer a ele que gostaria de se casar com seu filho mais novo. Foi aí que para a sua decepção o patriarca lhe diz que não iria permitir aquela união apesar de saber que Tamar tinha direitos pois assim dizia os mandamentos da aldeia; ela volta para casa humilhada. O tempo passou e já não se falava sobre o ocorrido e tudo parecia distante, não para Tamar, ela ainda desejava obter uma semente que acreditava ter direito, fosse ela de Shelá ou até mesmo de Judá – o pai dele. Ela sabia que, além de patriarca, ele ainda era um homem viril e ela acreditava ter todas as condições de atender suas necessidades ao qual estava disposta a tudo para conseguir.
Então Tamar teve a ideia de se disfarçar de prostituta para tentar atrair Judá ideia essa que lhe parecia meio maluca, porém havia um fundamento já que Judá havia ficado viúvo há muito tempo, porém ainda era ele um homem viril, vigoroso, e os patriarcas não estavam livres de ter desejos, e portanto acreditava ela que ele seria capaz de engravidá-la. Mas Tamar sabia que fingir ser uma prostituta não seria nada fácil para isso ela teria que deixar de lado alguns costumes e ensinamentos, teria ela que vencer sua repugnância natural de oferecer seu corpo em público; e movida pela vontade de arriscar ela decide por seguir em frente.
O disfarce de Tamar constitui um ato performativo decisivo na narrativa. Ao assumir a identidade de prostituta, a personagem passa a manipular conscientemente os códigos sociais que normalmente a oprimem. O episódio evidencia sua capacidade de agir estrategicamente dentro de uma estrutura patriarcal. Além disso, as diferenças entre os relatos de Shelá e Tamar revelam distintas formas de interpretar o acontecimento: enquanto a perspectiva masculina tende a enfatizar o impacto do fato sobre a honra familiar, a narrativa de Tamar destaca sua luta por autonomia e pelo direito à maternidade.
A narradora vai em busca das prostitutas para que elas a ensinassem como seduzir o patriarca, o que elas concordam após Tamar lhes oferecer um dinheiro. Elas decidem ajudá-la em tudo, dando-lhe algumas roupas, mostrando onde ela deveria ficar, Tamar então pede para que nenhuma das prostitutas se ofereça a Judá, e mais: que se ele viesse a sentir algum interesse por elas, elas deveriam dizer que já tinham compromisso com outros homens.
As prostitutas sugerem a Tamar que procure uma velha prostituta, senhora que agora selecionava mulheres para iniciar na prostituição – ela poderia auxiliar Tamar a como se portar. Cheia de receios, Tamar procura a velha prostituta para que lhe ensinasse a como deveria ela se comportar , e ao chegar no local Tamar é recebida muito bem pela senhora que logo começa a lhe contar como havia se tornado uma prostituta, e finalmente a senhora pergunta a Tamar o real motivo que lhe trouxera aquele lugar,e Tamar sem querer entrar muito em detalhes diz a senhora o que queria, e de quanto tempo seria necessário; após ouvir tudo a mulher então diz que tudo bem que iria lhe ensinar tudo que fosse necessário.
A velha meretriz então começa a ensinar a Tamar a usar seu poder de sedução e o primeiro passo seria ela estar vestida e maquiada de maneira que ninguém a reconhecesse, deveria falar o mínimo. Tamar indaga à marafona como deveria fazer para seduzi-lo. Em uma resposta bem simples, ela disse para a surpresa de Tamar: com um simples olhar; sim um olhar era o começo do sexo, pois um olhar atraente, experiente magnetiza um homem, sendo que o olhar é uma linguagem.
A narradora aprende técnicas de como olhar de forma fixa e hipnótica, a piscar de modo significativo, a desviar o olhar, uma manobra destinada a dizer que a conquista não seria algo fácil, e logo em seguida e não menos importante veio a maneira correta de se maquiar, e para auxiliar Tamar neste momento a velha manda chamar uma das mulheres que maquiou Tamar de maneira pesada com tintura para realçar os olhos. Ela fica impressionada com o resultado, pois antes ela tinha belos olhos mas eram olhos de uma mulher jovem ingênua e triste; porém, após se maquiar, neste olhar predominava um ar de mistério capaz de atrair qualquer homem até mesmo o mais arrogante de todos, e para complementar ainda mais o ar de mistério Tamar ainda vestia um véu e uma túnica que lhe escondia as formas do corpo.
Tudo pronto e quando finalmente Judá chega com a caravana, Tamar o esperava no templo, ela então o avista mas não o chama, não faz nenhum gesto para chamar sua atenção, não se oferece, muito pelo contrário, ela apenas o olha com aquele olhar fixo e hipnótico que a velha prostituta havia lhe ensinado. Ela desejava que ele tomasse a iniciativa, que pedisse para fazer sexo de maneira que somente ele pudesse se responsabilizar por aquilo que ela esperava que fosse o desfecho do encontro. E foi então que movido pelo desejo o patriarca cede aos encantos da bela, e com uma voz que traduzia um grande desejo ele diz a ela te quero; Tamar no primeiro instante não dá muita atenção ele então insiste a dizer te quero; Tamar pergunta a Judá o que lhe daria em troca do sexo. Esta pergunta o pegou de surpresa pois ele não sabia o quanto era pago para as prostitutas, mas uma coisa era certa ele não tinha dinheiro, daquela região mas tinha ovelhas, mas Tamar não queria ovelhas queria algo que ele não tinha no momento, ela desejava um cabrito, e Judá apesar de no momento não ter o cabrito mas cheio de desejo ele então aceita.
Tamar o leva até uma tenda mal iluminada na qual ela se deita sem se despir, apenas levanta túnica e possuído pelo desejo Judá se joga em cima de Tamar e rapidamente a penetra; e naquele momento alguma coisa passou pela cabeça de Tamar que de certa forma a assustou, era a primeira vez que ela havia tido uma relação sexual digna; mais que ele sabia fazer sexo dignamente; e apesar de Tamar tentar por alguns segundos fingir tem uma hora que ela não dá mais conta de fingir ela então chega ao ápice do prazer e goza.
Quando terminaram, ele então se levanta todo revigorado pois acreditava ter recuperado sua virilidade, elogia a então prostituta e se despede, mas Tamar ao recuperar a lucidez o puxa pelo braço e pergunta sobre o cabrito; o patriarca então diz a ela que naquele momento não possuía o animal mas que assim que retornasse enviaria o animal o mais rápido possível; Tamar então pede uma garantia, isso deixa o patriarca muito irritado, o que para ele era um atrevimento uma prostituta exigir uma garantia de um homem honrado como ele, mas mesmo irritado e ciente que não deveria provocar um escândalo, ele concorda com a prostituta; Tamar ao ser perguntada o que queria como garantia ela imediatamente respondeu: quero seu sinete, seu cajado e seu cordão.
Apesar de estar surpreso com o que Tamar havia lhe exigido como garantia o patriarca entrega o símbolo da dignidade patriarcal a ela e ao se despedir de Tamar o patriarca diz desejar encontrá-la novamente quem sabe no próximo ano, ela então diz ele que eles irão se encontrar o mais cedo que ele pudesse imaginar. Semanas se passaram e Tamar estava nervosa e ansiosa para saber se havia conseguido engravidar, até que veio a certeza: sim ela estava grávida, e com isso mudava tudo ela já não era mais uma mulher que mendigava um esperma, muito pelo contrário ela agora era uma mulher que carregava em seu corpo um novo ser, era uma mulher vivendo a plenitude da condição feminina. Passada a euforia de saber que estava grávida, Tamar começa a pensar como iria comunicar a todos a sua gravidez, e tudo que teria que enfrentar, foi então que resolver começar por sua mãe que ao saber da notícia da gravidez e a primeira coisa que a mãe pergunta a Tamar quem seria o pai daquela criança, mas Tamar se recusa a dizer, não por teimosia mas o seu silêncio foi devidamente pensado, pois ela sabia que ao revelar a sua mãe o nome do pai de seu filho, ela não guardaria segredo e logo todos estariam sabendo que era o pai de seu filho, a revelação seria feita no momento certo; Tamar agiu com astúcia.
O pai de Tamar ao saber que a filha estava grávida diz a ela que o melhor a fazer era fugir antes que a notícia da gravidez chegasse aos ouvidos de Judá, pois para ele, Tamar seria considerada uma adúltera já que ela ainda era viúva de seus filhos, mas Tamar se manteve firme em sua decisão de enfrentar a tudo e a todos. Os dias vão passando até que a notícia da gravidez de Tamar chega aos ouvidos de Judá que de imediato manda que busquem Tamar para levá-la até a aldeia, Tamar não resistiu e foi ao encontro do patriarca.
Chegando à aldeia, Judá a aguardava junto com uma pequena multidão que era hostil com Tamar, que logo fica sabendo que já havia sido julgada pelo patriarca e que havia sido condenada a morrer queimada viva, eles acreditavam que só o fogo era capaz de purificar o seu pecado de ser uma mulher adúltera.
Tamar então é amarrada em uma árvore onde passa a noite, e para a surpresa de Tamar quem aparece para soltá-la foi o garoto Shelá. Ao ver a atitude dele, ela fica comovida pois tinha diante dela um garoto que a amava a qualquer custo mesmo que fosse expulso da aldeia estava disposto a ajudá-la a fugir, ela o agradece e diz que não iria fugir e mais que estava disposta a enfrentar seu destino; e como ele não se conformava com tal atitude, Tamar teve que ser ríspida com o garoto para que ele fosse embora.
O dia mal amanheceu e todos já estavam em volta da pedra a esperar a condenação de Tamar que se mantém fria e sorridente diante de todos, sorriso este visto por todos como desafiador e que deixava a todos enfurecidos, e sobre os gritos de “queimem-na”, Judá então faz um discurso do motivo pelo qual ela seria queimada viva, ele a condena à morte; porém antes que este fato ocorra Tamar levanta o braço desejando ter a última palavra antes da morte, o que lhe foi concedido pelo patriarca.
Tamar então se dirige a Judá perguntando a ele: não queres saber quem é o pai de meu filho? Fez-se um silêncio e antes mesmo que Judá viesse a lhe responder, Tamar faz um sinal a sua irmã, que aproximou-se. Tamar pede a ela que mostre, e mesmo assustada a menina assim o faz, um pano com o sinete, o cajado e o cordão patriarcais.
Num tom triunfal, Tamar afirmou que aqueles objetos ela havia recebido do homem com quem havia se deitado e que ele estava ali a julgá-la. Naquele exato momento ela aponta para Judá e diz: aquele homem o patriarca, homem que havia lhe negado seu filho mais novo, era ele o pai do filho que Tamar carregava em seu ventre. E naquele momento o patriarca se dá conta de que havia sido enganado por Tamar, que ela havia se passado por uma prostituta somente para engravidar dele; e o patriarca manda que a soltem e passa a lhe dar a devida proteção necessária, Tamar, após ser solta, decide procurar Shelá, que naquele momento se encontrava ao pé da montanha com um olhar perdido e imóvel. Ao se encontrarem o silêncio se fez presente, ele de costas para Tamar que coloca as mãos sobre seus ombros tentando uma aproximação e naquele momento Tamar conta tudo a Shelá, que ela também se sentia traída pois havia se casado com um homem que não gostava de mulher, e outro que jogava seu sêmen na terra para não engravidá-la, e ela ali sempre aflita sofrendo pois queria cumprir os desígnios patriarcais.
Tamar ainda conta a Shelá tudo o que havia ocorrido, falou sobre sua conversa com a velha prostituta, narrou como havia se aproximado de Judá, e como havia conseguido o símbolo da dignidade patriarcal. Ela afirma não sentir raiva de Judá, pois agora ele era pai de seu filho.
E quanto a Shelá, Tamar se recorda das palavras da velha prostituta que lhe diz: deverias te aproximar de Shelá de uma maneira mais acolhedora, e foi então que movida por um sentimento de afeto Tamar diz a Shelá que se ele assim desejasse ela seria sua esposa fiel, dedicada, que estaria sempre a seu lado, que seu corpo seria de Shelá não por obrigação mas sim por carinho. Ela estende a mão sobre seu rosto, e naquele momento Tamar estremeceu era seu corpo que estava falando e seguindo seu impulso, ela deveria se jogar nos braços de Shelá e fazer com que ele a possuísse ali mesmo naquele chão cheio de pedras; mas ela resistiu como e porque ela não soube, talvez por estar grávida, e o filho ser de seu pai, ou por talvez não amar Shelá, e naquele momento Tamar ficou ali parada sem dizer nada e Shelá ali parado sem sequer olhar para Tamar. Ela decide tirar a mão de seu rosto e vai embora.
Passaram os dias e Tamar voltou a morar na aldeia perto de Judá que apesar de ir pouco lhe ver, dava a ela casa, roupas, comida, entre outras coisas; e Tamar lhe era grata por isso; Tamar retorna ao templo para agradecer as prostitutas e a velha , que lhe faz uma pergunta que a deixa muito curiosa, não queres saber sobre as crianças que carregava em seu ventre, qual seria o sexo da criança e qual seria seu futuro? Ela então sugere que Tamar vá até sua irmã que era uma adivinha; a marafona anciã ainda diz que José, aquele que interpretava sonhos, não chegava nem perto do talento da irmã dela.
Movida pela curiosidade, a narradora vai ao encontro da velha vidente, chegando lá a velha pede para que Tamar se deite no chão, a velha ajoelhou a seu lado, fechou os olhos e colocou a mão em sua barriga, logo em seguida ela abre os olhos e diz a Tamar que seriam dois meninos, e que um deles seria um rei poderoso chamado Davi, e um profeta que viria ao mundo para dizer que é preciso amar e perdoar até mesmo as prostitutas e os pecadores, Tamar volta para casa sem dizer nada a ninguém sobre o ocorrido.
Meses depois, Tamar dá à luz aos gêmeos que se chamariam Perez e Zerá. O parto foi muito difícil, pois parecia que os bebês estavam brigando, ela gritava de dor e alegria por ver que seus filhos já nasciam lutando. A partir daquele momento Tamar viveria para cuidar de seus filhos que cresciam lindos e saudáveis; e, quanto à Judá, Tamar recebia todo o apoio que prometera, porém ele se recusou a ver seus filhos. E à medida que as crianças foram se desenvolvendo Tamar decide lhes contar que aquele velho esquisito o qual eles viam de longe era seu pai, esta revelação deixou as crianças confusas: enquanto Zerá fica triste, Perez sentia raiva.
Shelá era agora um homem feito que passava os dias a cuidar de seu pai e os encontros com Tamar eram frequentes, o que acabou por despertar nela um certo desejo por Shelá, afinal, ele não era mais um adolescente franzino e sim um homem forte e robusto e o que mais a impressionava era a semelhança com Onan.
Tamar sentia muita falta de um homem, e o sexo para ela era tratado como sua expressão mais autêntica, ela relata em que houve momentos que pensou em procurar Judá para ter encontros escondidos durante a noite para satisfazer os desejos; porém ela não sabia se ele ainda se encontrava lúcido; e a falta de um homem estava deixando Tamar doente e, sem ter a quem recorrer para matar seu desejo, ela então vai até a velha prostituta que lhe aconselha a fazer sexo consigo mesma e que isto lhe daria prazer sem lhe dar problemas maiores.
Apesar de ficar irritada com o conselho da velha, Tamar resolve experimentar, pois era melhor ter algum tipo de sexo do que nenhum, é aí que ela então durante as noites se rende à masturbação, ela relata que no começo era meio desajeitada, mas com a prática ela então descobre o clitóris e aí os orgasmos são frequentes, e com isso sua ansiedade diminui de maneira considerável.
Tamar então decide retornar com o antigo hábito de esculpir em madeira e no alto de caverna ela então começa a esculpir camelinhos, jumentinhos, ovelhas e jumentinhos; as primeiras eram meio imperfeitas mas, à medida que o tempo foi passando, Tamar foi se aperfeiçoando cada vez mais; porém o grande objetivo de Tamar era reconstruir a sua trajetória pessoal por meio das esculturas dos homens que marcaram sua vida; primeiro ela faz o busto de Er em tamanho natural com suas expressões melancólicas; depois surgiu Onam – o desejo agressivo estampado em um sorriso, e por último estava Judá resignado. Tamar os olhava e os beijava – para sua surpresa ela havia descoberto que os amava, em seus sonhos Er a tomou pelos braços e a beijava, Onan em seus sonhos a tratava com carinho, Judá em seus sonhos a olhava com admiração ela também amava Shelá um amor que ela sabia que era correspondido, que não se traduzia em palavras ou em contato físico era algo muito além disso era como se cada um em sua caverna se usando a imaginação pudessem se amar de uma forma surpreendente e pode-se dizer que solitária pois os dois se encontravam em suas cavernas sonhando um com o outro.
Algumas conclusões
Ao recriar parodicamente a narrativa bíblica de Gênesis 38, Scliar faz uso de dois narradores: a primeira parte é relatada por um personagem masculino chamado Shelá, a segunda parte do livro é Tamar quem narra. Uma coisa que eles têm em comum é o amor pela escrita: Shelá ia para a caverna escrever, procurando estar só nestes momentos (SCLIAR, 2008, p. 59). O relato de Tamar rememora a infância em seus mais diversos aspectos: a aprendizagem da leitura e da escrita para ajudar seu pai nas funções de sacerdote (anotar pedidos dos fiéis) (SCLIAR, 2008, p. 142). Ambos amavam o narrar. Ela chegou a ponderar que “era um grande narrador, papai, desses que sabem encantar as pessoas. Era bom ouvi-lo [...] Ele falava, eu escutava-o, [...] a imaginação voando livre, livre” (SCLIAR, 2008, p. 142).
Shelá tinha dificuldades para obter os materiais necessários para escrever. Ele precisava roubar de seu próprio pai: “os apetrechos de escrita – pergaminhos, estiletes, frascos de tintas estavam no quarto de seu pai. Era eu quem usava, mas só fazia com a autorização dele a mando dele” (SCLIAR, 2008, p. 47). Shelá precisava de pergaminhos, estiletes e frascos de tinta para registrar suas aflições. Ele aprendeu a ler com o escriba da tribo, isso com o apoio de seu pai, para quem “a palavra escrita é poder”, sendo “conveniente ter um filho letrado: algum dia aquilo lhe poderia ser de alguma valia” (SCLIAR 2008, p. 39). Assim como o pai de Shelá é “interesseiro” no sentido de fazer o filho aprender a ler como uma forma de manutenção do poder patriarcal, o pai de Tamar a insere na escrita com o objetivo de ela vir a ajudá-lo no seu trabalho sacerdotal, anotando os pedidos dos fiéis.
Narrando a segunda parte do livro, Tamar relata que quando adolescente fez para si uma boneca de madeira e a mantinha escondida de todos: “não [a] mostrava a ninguém: mantinha-a escondida no oco de uma árvore perto de casa e às vezes, no meio da noite, levantava-me e ia em silêncio até lá, brincar” (SCLIAR, 2008, p. 143). No final da narrativa, ela relata que passou a confeccionar esculturas: camelinhos, jumentinhos, ovelhinhas, cabritinhos, demoninhos (uns com chifre e rabo, outros com cara de bode) (SCLIAR, 2008, p. 207). Shelá também esculpia estas mesmas esculturas (p. 126), “mas a principal escultura feita por Shelá foi uma Tamar de barro”. Quando pensou neste projeto, Shelá já tinha esculpido animais e demônios, portanto dizia para si mesmo “que tinha adquirido prática. Aliás, não se tratava só de prática tratava-se de arte, com A maiúsculo. Em matéria de modelagem eu era um artista”. Shelá chegou a mostrar-se extremamente confiante quanto à sua perícia, tanto que afirmou: “como escultor, eu modéstia à parte não ficava muito atrás de Deus”. Shelá tentou fazer uma Tamar de barro o mais real possível, a ponto de manter sua vagina artificial por meio de uma bexiga de carneiro com água quente e colocar ali um equivalente hímen, feito de uma bexiga de uma cabra para que o pênis pudesse ter a gloria de desvirginar Tamar se não a verdadeira, então a de barro (SCLIAR, 2008, p. 84-87). Em Tamar e em Shelá se notam os aspectos sagrado e profano, pois com sua habilidade de fazer esculturas constroem tanto inocentes ovelhinhas como demoninhos com chifre e rabo (SCLIAR, 2008, p. 207).
O relato de Tamar apresenta mais detalhes que o de Shelá, até mesmo por que foi ela quem se casou com Er e Onan, enfrentando situações dramáticas na convivência com cada um deles. Em alguns momentos essa diferença também se evidencia. Por exemplo: Shelá não chega a descobrir o que Tamar descreve no segundo segmento do romance: que Er era um homem que queria ser mulher, sendo esta a razão de ele não conseguir ter ereção junto à esposa. Outro exemplo: a beleza de Tamar é descrita sucintamente por Shelá, mas a narradora se estende em autoelogiar sua própria formosura.
Tamar, a narradora do segundo segmento do livro, mesmo vivendo em uma sociedade patriarcal e machista, consegue criar estratégias para tentar sobreviver alcançando o seu objetivo de ser mãe. Em sua parte, ela narra isso com mais ênfase do que faz Shelá em seu segmento. Tamar era uma mulher que estava muito além de seu tempo, pois ela foi capaz de ir atrás de seu objetivo maior que era se tornar mãe nem que para isso tivesse que se passar por uma prostituta e ter relações sexuais com seu então sogro; ela também em alguns momentos da narrativa toma a atitude de ir pedir ao seu sogro a mão de seu filho mais novo em casamento o que infringiu as leis daquela época, em outros momentos ela toma a atitude de ir falar com Shelá sobre sua vontade de se tornar sua mulher e, ainda mais, ela estava decidida a seduzir o garoto, e com isso ela o beija de uma forma inesperada. E vale ressaltar que Tamar Também se entrega à prática da masturbação, o que era vedado às mulheres fazer naquela época. Shelá também se entregava à essa prática e narra esse costume em muitos momentos. Essa prática aproxima os narradores de cada parte do livro fazendo transparecer que as histórias de vidas deles são tão idênticas quanto eles mesmos.
Infelizmente, tanto na primeira como na segunda parte do Manual, Shelá e Tamar não conseguem ficar juntos, embora eles anseiem por isso. Em sua pesquisa, o professor Lemuel Diniz observou que é provável que a capa do romance de Scliar antecipe “a impossibilidade da união dos jovens, pois o que se vê é o quadro apresentando Atalanta de um lado e Hipomenes do outro – em direções opostas” (DINIZ, 2015, p. 146). Intitulado “Atalanta e Hipomenes”, a tela pintada por Guido Reni (1575-1642), artista do Barroco italiano, representa um famoso mito da cultura grega, relembrando um caso de amor que não se concretizou.