This paper aims to demonstrate the conduct of the patriarchs in Moacyr Scliar’s Manual da paixão solitária. The father of the character Tamar and the character Judá are patriarchs of biblical times. In this condition they are expected to have an unblemished reputation, but that is not what seems to happen in many moments.
### 1. IntrodUCtioN
oacyr Scliar nasceu em Porto Alegre, em 1937. Formado em medicina, trabalhou como médico especialista em saúde pública e professor universitário, ocupando a cadeira Medicina e Comunidade da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Seu primeiro livro, de 1962, é inspirado em suas experiências como estudante de medicina. Scliar é autor de mais de 70 livros, muitos destes publicados em diversos países, como Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Portugal e Israel. Entre os inúmeros prêmios que conquistou, destaca-se o Prêmio Jabuti de Literatura (1988, 1993 e 2009), o Prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte (1989) e o Prêmio Casa de Las Americas (1989). Foi colunista dos jornais Zero Hora e Folha de São Paulo e colaborou em vários órgãos da imprensa no país e no exterior. Tem textos adaptados para cinema, teatro, tevê e rádio. Em 2003, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Faleceu em 2011.
De acordo com Regina Zilberman com A mulher que escreveu a Bíblia, de 1999, Os vendilhões do Templo, de 2006 e Manual da paixão solitária (2008), Scliar afirma sua contribuição definitiva à literatura brasileira de temática judaica. Esses romances constroem-se a partir de personalidades paradigmáticas da Bíblia: Salomão, Jesus e Onan (ZILBERMAN, 2013, p. 15).
O Manual da paixão solitária se caracteriza por ter dois narradores: a primeira parte do romance é narrada pelo jovem Shelá; o segundo segmento é narrado por Tamar, a jovem pela qual Shelá é apaixonado. O romance é uma paródia do capítulo 38 de Gênesis e nisso se nota a intertextualidade entre ambos os textos. O teórico Massaud Moisés define paródia como um termo que designa toda "composição literária que imita, cômica ou satiricamente, o tema ou/e a forma de outra obra." A intenção de parodiar uma obra pode ser negativa ou positiva: é negativa quando "retoma-se a obra de um escritor para desqualificá-la por meio do ridículo"; é positiva quando se parodia "para recriá-la segundo novos parâmetros, explorando latências positivas trans-históricas" (MOisÉs, 2004, p. 340-341). No caso do Manual da paixão solitária, a intenção parece ser positiva, pois Scliar pretende explorar conteúdos que não aparecem no texto bíblico. Como leitor da Bíblia e amante de suas histórias, o escritor gaúcho compõe seu romance utilizando-se do que ele chama "preenchimento de colunas". Isto é: Scliar entende que a narrativa bíblica é muito sintética, por isso ele afirma que "completar as colunas e ampliar a trama ficcional é uma tarefa que posso classificar com apaixonante, tão apaixonante quanto a própria narrativa" (Entrevista de Scliar a Luciano Trigo).
O enredo de Manual da paixão solitária se passa nos tempos bíblicos do Antigo Testamento. Nessa época, Israel era administrado pelos patriarcas. Em seu Dicionário da Bíblia: as pessoas e os lugares, Bruce M. Metzger e Michael D. Coogan, se lê que a palavra patriarca tem sido utilizada na maior parte dos estudos bíblicos para designar os ancestrais de Israel, como Abrão, Isaac e Jacó. De acordo com esses estudiosos, os patriarcas são mencionados principalmente nos capítulos 12 a 50 do livro de Gênesis. A palavra patriarca às vezes é transposta para uma forma adjetiva como em "História patriarcal" e "narrativas patriarcais". Metzger e Coogan também observam que essas designações, "no entanto, são enganosas, pois nas tradições preservadas em Gênesis 12-50 as matriarcas também têm papel de destaque". São exemplos de matriarcas bíblicas: Sara, Agar, Rebeca, Léa, Raquel, Bala, Zelfa (METZGER; COOGAN, 2002, p. 245).
Conforme J.R. Porter, "a principal preocupação dos autores bíblicos que relataram a história dos patriarcas não foi a precisão histórica, mas a importância teológica dos fundadores da nação". Por isso mesmo a temática mais recorrente na narrativa que vai de Gênesis 12 a $15 ~ \mathrm { { \acute { e } } }$ a promessa de Deus para o futuro. Deus promete aos patriarcas duas dádivas: que eles herdarão a terra de Canaã e se tornarão uma grande nação. Porter explica que Abraão recebeu de Deus a ordem de ir para terra de Canaã, recebendo a garantia que seus descendentes prosperariam. Portanto, "toda a narrativa dos patriarcas começa com a ordem que Deus dá a Abraão' (PORTER, 2009, p. 37).
No Dicionário crítico de gênero, Lana Lage da Gama Lima e Suellen André de Souza fazem importantes contribuições sobre o patriarcado:
A palavra patriarcado se origina da combinação das palavras gregas pater (pai) e arkhe (origem, comando). A expressão refere-se a uma forma de organização familiar e social em que um homem, o patriarca, submete os outros membros da família ao seu poder. [..] Como qualquer fenômeno histórico, a família patriarcal não corresponde a um modelo único de organização familiar, apresentando variações ao longo do tempo e de acordo com o lugar, porém mantendo sempre a superioridade e o poder do patriarca em relação aos seus outros membros. E esse poder masculino não se limita ao espaço doméstico, mas se reflete na forma de organização da sociedade como um todo. (LIMA; SOUZA, 2019, p. 578, 580)
O patriarcado está no cerne do livro de Scliar. Ao patriarca cabiam a decisão final, a palavra de ordem, o poder e a honra. O filho precisaria mostrar as mesmas características do pai para poder vir a ser um patriarca. Ocorre que a conduta dos patriarcas do livro Manual da paixão solitária muitas vezes é contraditória ao que se espera deles. No contexto histórico e cultural em que se passa a narração, os patriarcas deveriam ser homens exemplares em sua conduta moral e religiosa. Logo no início do livro, o personagem Jacó é descrito pelo narrador como sendo um homem desonesto, visto que "astuciosamente ele obtivera do irmão gêmeo (nascido antes dele), Esaú, o direito de primogenitura; com a ajuda da mãe, a ardilosa Rebeca, recebera do pai, o velho e cego patriarca Isaac, a última e decisiva benção, aquela que o consagraria como herdeiro" (SCLIAR, 2008, p. 14). Depois que se casou, com o passar do tempo Jacó mudou seu caráter e "esforçavase por tratar os filhos de maneira justa, equânime", ainda que dos seus descendentes, dez eram "quietos e feios" e somente dois eram "bonitos e alegres". Shelá, o narrador, pondera que nesses momentos de interação com a família, o patriarca repetia-se contando a mesma história a do sonho da escada dos anjos sendo que essa situação pioraria na velhice de Jacó: "Fez isso dezenas de vezes, porque à medida que envelhecia, ia ficando esquecido: 'Já contei a vocês o meu sonho? Aquele, da escada?' E, sem esperar resposta, narrava tudo de novo". "Os filhos ouviam-no respeitosamente afinal, tratava-se do patriarca —, mas, verdade seja dita, não davam muita importância ao tal sonho. Os sonhos, sonhos são" (SCLIAR, 2008, p.18). Ou seja, o que o trecho do livro está expondo é que, apesar de exercer a honrosa posição de patriarca, Jacó não era muito apreciado pelos filhos, que, muitas vezes, o ouviam apenas por educação, não considerando suas conversas interessantes.
Shelá relata que Jacó teve doze filhos. Um deles, José, tinha capacidade divina de interpretar sonhos. Ciente disso, Judá queria explorar seu irmão José, pois com aquele fantástico dom se poderia ganhar fortunas, contudo Judá era incapaz de fazer algum mal físico ao irmão. E quando os seus demais irmãos vendem José como escravo aos midianitas e mentem para Jacó dizendo que José havia morrido, Judá fica abalado por ver seu pai tão abatido. O narrador anota:
A notícia [da morte de José] abalou o patriarca [Jacó] e mesmo meu pai [Judá], controlado que era, comoveu-se com o sofrimento do ancião. Ele não merecia aquilo. Cheio de remorsos, decidiu: estava na hora de dar um basta àquilo tudo, tudo, de abandonar os rancorosos irmãos. Deixaria a aldeia e, como o próprio Jacó fizera um dia, iria em busca do próprio destino. Que destino era esse, o que faria para ganhar a vida, ele não sabia; o projeto de interpretação de sonhos teria de ser abandonado, agora que José estava em lugar desconhecido. Mas o encontro com os midianitas inspirara-lhe uma nova e promissora ideia: criar, em pleno deserto, uma espécie de central de abastecimento, situada exatamente na rota das caravanas, aquelas que vinham do Egito trazendo trigo, aquelas que chegavam do norte com o bálsamo de Guilead. Tais caravanas necessitavam de alimento e de produtos — que ele forneceria. O lucro seria alto. (SCLIAR, 2008, p. 31)
O fragmento acima mostra algumas das atitudes de Judá, futuramente um patriarca que será o pai do jovem Shelá, narrador da primeira parte do livro (SCLIAR, 2008, p 21-26). Judá é muito ambicioso, mas, mesmo assim, sente tristeza quando vê seu pai - o patriarca Jacó - de coração partido, acreditando ter perdido José. Judá tem sentimentos, não é totalmente mau.
Com o amadurecimento de Judá e com a morte de Jacó, Judá se torna patriarca e tem três filhos: Er, Shelá e Onan. A narração da primeira parte do livro mostra o pai de Shelá como sendo um homem muito duro, não aceitando ser contrariado e querendo decidir o futuro dos filhos sem levar em conta os sentimentos deles. Desse modo, ele casa seu filho Er com uma moça chamada Tamar. Ocorre que o casal não gera filhos. "Tamar não engravidava. E não falava. Aliás, nenhum dos dois falava, nem ela nem Er. Formavam um casal sombrio, eles, um casal silencioso. Mas eram silêncios diferentes": "o dele era um silêncio culpado, o silêncio de alguém que fez alguma coisa errada. O dela era um silêncio ressentido, um silêncio de fêmea insatisfeita, ultrajada" (SCLIAR, 2008, p. 53,54). O pai de Er o chamava para conversar, mas ele nada dizia. Como o tempo passava e o casamento não melhorava, o patriarca, sentia "uma insuportável humilhação". Então, "descontrolado, tratava mal o pobre Er e, numa ocasião, esbofeteou-o". Isso não era algo tão surpreendente para o patriarca, que é definido por Shelá como sendo um "líder duro, estóico, não nos falava sobre seus sentimentos" (SCLIAR, 2008, p. 54). Depois dessa circunstância, Er passa a adotar "um silêncio diferente, cada vez mais estranho", um olhar perdido e com "um fugidio brilho alucinado". Shelá suspeita que o irmão possa estar enlouquecendo, pois naquela cultura patriarcal, loucura "não era coisa desconhecida; de vez em quando alguém, em geral um homem, perdia o juízo e saía a correr pelo deserto, gritando, bradando ameaças. Era preciso amarrá-lo". Aos que perdiam a razão, o patriarca dava ordens para que o prendessem numa caverna até que se acalmasse, mas isso não chegou a ser aplicado a Er (SCLIAR, 2008, p. 55).
Não muito depois disso, Er é encontrado morto numa caverna. O patriarca sofreu muito. "Tanto pela perda do filho - o primogênito, em quem depositava suas maiores esperanças -, como pela vergonha e pelo remorso". O pai se sente tomado por um forte sentimento de culpa, conforme Shelá relata: "Er falhara por causa dele. Eu não fui um bom pai, recriminava-se, eu não soube fazer desse filho um homem [.....] [Er] morreu desonrado. Por minha culpa, morreu desonrado" (SCLIAR, 2008, p. 61). O sentimento do pai está em consonância com o que se esperava de um membro ativo daquela sociedade patriarcal. Quando da morte de Er, coube ao pai de Tamar - patriarca e sacerdote a proceder ao enterro do rapaz. Se a morte fosse admitida por doença ele poderia ser sepultado normalmente, mas se ele fosse considerado suicida não poderia ser enterrado perto de outros mortos da tribo. Tamar pondera: "Papai era conhecido como homem reto, inflexível, adepto da verdade mesmo nas mais adversas circunstâncias. Mas decidiu que Er seria sepultado como um morto comum, não como suicida", o que trouxe muito alívio a todos e, por um momento, fez com que Tamar visse seu "pai de maneira diferente, não como o insondável e inexorável homem da lei, mas como alguém que, buscando poupar pessoas, recorria a uma medida piedosa" (SCLIAR, 2008, p. 159).
Após a morte de Er, o seu irmão Onan é convocado a se casar com Tamar. Mas ele também morre sem deixar filhos. Diante de mais uma perda, Judá teve uma crise: "Galopava pela casa, batendo a cabeça nas paredes e uivando como um animal ferido". Ele pensava que seu filho "Onan falhara como marido, mas ele falhara como pai". Diante disso, Judá fixa os olhos em Shelá, perguntando: "onde é que errei?". Shelá não tem uma resposta para dar ao pai, apenas lembrava-se que seu irmão o protegia contra todo mal. Shelá procura-se consolar apascentando rebanhos e escrevendo muito. Shelá pensa em seu íntimo: "no fundo tinha a secreta esperança de, escrevendo, entender o mundo. Achava que, transformando os eventos em palavras, teria respostas para minhas interrogações. Engano" (SCLIAR, 2008, p. 76-77).
A convivência de Shelá com seu pai se intensificou quando patriarca ficou viúvo. Shelá se lembra de sua mãe mulher triste e silenciosa a qual "morrera como vivera, sem se queixar, sem gemer". Ele considera que o falecimento de sua mãe foi importante para ele se reaproximar de seu pai. Shelá estava muito bravo com seu pai, pois Judá não aceitou que Shelá se casasse com Tamar. Na ocasião em que o rapaz pediu a Judá a permissão para desposar Tamar, Judá estava na montanha com o queixo apoiado na mão e olhar perdido. Shelá viu em seu pai uma "imagem melancólica", um homem de idade avançada e fragilizada condição. Por isso o moço quase desistiu de pedir ao seu pai a permissão para o casamento, mas tomando coragem aproximou-se "e respeitosamente - com todo o respeito que, como filho, Ihe devia" fez o pedido. Judá o respondeu secamente que não: "não: pronto. Falara o patriarca. Falara a autoridade, falara o poder." "Com uma única palavra, um monossílabo, decidia a minha vida, remetia-me de volta à minha insignificância, à minha fraqueza com uma palavra tornava-me, de novo, uma criança desamparada". (SCLIAR, 2008, p. 103-105). O patriarca era muito autoritário, e por trás desse comportamento, ele não queria que Shelá desposasse Tamar com medo de ele vir a falecer em seguida, do mesmo jeito que aconteceu com Er e Onan os outros filhos desse patriarca.
No segundo segmento do livro, Tamar descreve o pai de Shelá como sendo um "homem imponente, de longa barba grisalha, bonito até apesar da fisionomia severa" (SCLIAR, 2008, p. 149). Ela se atenta a esses detalhes do patriarca, pois o compara ao seu filho Er, que seria seu futuro marido. Ela esperava que Er fosse tão viril quanto o pai dele, mas, quando conhece o rapaz com quem seria obrigada a se casar, fica decepcionada com a barba rala e o aspecto doentio e introvertido. Nesse primeiro encontro ela só fica perto dele para conhecê-lo, pois em seguida é convidada a retirar-se do recinto, pois os dois patriarcas - o pai de Tamar e o de Er - se sentariam para conversar detalhes do matrimônio. Essa conversa ocorre num tom bem machista:
Fez-se um silêncio constrangedor. Papai então voltou-se para mim e pediu — pediu, não, ordenou — que me retirasse. Minha participação na negociação do casamento limitara-se àquela fugaz aparição; agora era o momento da conversa séria, entre homens. Eu queria, mesmo, sair. Queria fugir dali correndo, queria ir em busca de minha boneca, queria abraçá-la, contar-lhe entre lágrimas como eu era infeliz. Mas não fiz isso. Uni-me à minha mãe e às minhas irmãs, fingindo, com tremendo esforço, que estava muito contente. Mas não fui inteiramente convincente. Mamãe olhou-me e senti que ela, coração apertado, se dera conta do que se passava, da minha acabrunhante infelicidade; mas, mãe que era, havia um recado no seu olhar: é assim mesmo, filhinha, é assim mesmo, mas não tem importância, finge que estás feliz e acabarás acreditando na tua mentira, acabarás até por te sentir de fato feliz, razoavelmente feliz ao menos. Pobre mamãe. Bem que tentava, a coitada, ajudar-me, lutando com suas múltiplas limitações. (SCLIAR, 2008, p. 150)
O tom autoritário empregado pelo patriarca era utilizado para ele se impor. Por meio dessa atitude ele detinha o poder de dominar qualquer situação. Shelá descreve seu pai como um homem importante, com valores familiares tradicionais. Justamente por isso, Shelá esperava que Er tivesse um pouco da postura do pai, mas numa breve análise já se vê que ele não tinha isso. Tamar ficou muito decepcionada com o que estava presente ali na sua frente: ela imaginou que Er teria uma postura semelhante a de Judá. Sendo convidada a se retirar para não atrapalhar uma conversa séria de homens o pai dela e o pai do noivo a jovem sai e vai chorar nos braços da mãe, que em vão tenta consolá-la. Sua mãe, como sempre acolhedora, presenciou a filha aflita e com o coração apertado diante da escolha do marido feita por seu pai. Sua mãe procurou lhe transmitir a tranquilidade que ela precisava naquele momento, tentando fazê-la acreditar que ela seria feliz, ao menos razoavelmente. Sua mãe pensava também que seu marido patriarca buscou encontrar o melhor partido para sua filha Tamar, e Er tinha sido mesmo a melhor opção. Mas Tamar não compartilhava desse pensamento. Ela detestou até o nome dele, pensando consigo mesma: "Que merda de nome ele tinha! [.....] 'Er...' Não representava apelo nenhum, aquele nome, muito menos um apelo erótico" (SCLIAR, 2008, p. 155).
É possível que o patriarca pai de Tamar não tenha avaliado corretamente o pretendente da filha ao arranjar o casamento. O rapaz não tinha uma aparência de virilidade. É provável que o patriarca estivesse mais preocupado em casar sua filha com alguém de um clã reconhecido. Depois do casamento, a situação ficou ainda pior. Er não conseguia manter relações sexuais com Tamar e um dia ela o flagrou em casa usando suas roupas femininas. Como narradora da segunda parte do livro, Tamar ponderou: Se Er "teve relações com algum homem (pouco provável; na verdade era um enrustido, nunca se atreveria a assumir publicamente o seu lado mulher, coisa que alguns pagãos faziam), não fiquei sabendo. Mas nosso casamento não se consumou" (SCLIAR, 2008, p. 158). Er chorou muito e eles passaram a viver como amigos, sendo que ele ficava cada vez mais silencioso. Tamar estava cada vez mais angustiada, até que o patriarca seu pai tomou uma atitude:
Por fim, papai me chamou para uma conversa. Foi lacônico, foi objetivo: sei que o casamento de vocês fracassou, ele disse, e sei que não é culpa tua, o problema é com o Er. E aí foi seco e categórico:
- Ele está condenado. Prepara-te para o pior.
E o pior aconteceu. Nos dias que se seguiram, Er mudou bruscamente, seu silêncio deu lugar a uma agitação doentia. Era visto andando pela montanha, resmungando coisas incompreensíveis. Não comia, dormia mal, falava durante o sono. Um dia sumiu. Procuram-no, encontraramno numa caverna, morto. Meu pai fora realmente profético (SCLIAR, 2008, p. 158)
A morte de Er é resultado das cobranças de seu pai e da sociedade. Ambos lhe indagavam por que não gerava filhos. Enfrentando silenciosamente um conflito de gênero numa rígida sociedade patriarcal, Er "preferira a morte à humilhação", optando pelo suicídio (SCLIAR, 2008, p. 61). Com a morte dele, Tamar foi dada em casamento a Onan, o irmão de Er. Segundo a lei do levirato - vigente naqueles tempos - Onan deveria engravidar Tamar para suscitar uma descendência que seria para Er. Insatisfeito com essa condição, Onan mantém relações sexuais com Tamar, mas, antes de ejacular, retira o seu membro para não permitir que a esposa engravide. Tamar sofre muito com essa situação e acaba relatando tudo para o seu pai que, assim como afirmou em relação ao destino de Er, afirma que Onan também está condenado. Não muito depois disso, Onan é acometido por uma doença misteriosa e morre. Isso leva Tamar a reconhecer a "sombria prova da capacidade divinatória de meu pai, ou pior, de sua capacidade de vingar a filha e de vingar-se" (SCLIAR, 2008, p. 174). Tamar estava convicta de que, como patriarca, seu pai clamou a Deus para que matasse a Onan:
Eu tinha certeza de que esse desfecho era o resultado de uma intervenção sua. Fora ele quem providenciara uma doença para o genro: Senhor, tenho uma coisa importante para pedir, trata-se de castigar um pecador, esse pérfido Onan, que viola nossa lei, que se recusa a dar um filho à viúva de seu irmão e prefere derramar seu sêmen sobre a terra, esse Onan precisa ser punido com uma doença, Senhor, uma doença mortal, mas não aguda, uma doença que o liquide lentamente, que lhe dê tempo para pensar no merecido castigo que está recebendo. Aquilo me encheu de ódio contra meu pai e contra sua divindade. [...] Depois do sepultamento, voltei para a casa do meu pai. O que mais podia fazer, para onde podia eu ir? Voltei para a casa do meu pai. Minha mãe, meus irmãos e Laila procuravam amparar-me, tratavam-me com carinho e solicitude, mas papai mal me dirigia a palavra. Talvez achasse que me cabia alguma culpa pelo que acontecera; eu não tinha, quem sabe, tratado Onan como devia. Mas se era isso o que pensava, nada me falou a respeito. (SCLIAR, 2008, p. 174, 175)
Tamar pede ao patriarca Judá que lhe permita casar com Shelá, o irmão mais novo, o único que ainda estava vivo. Shelá correspondia ao amor de Tamar. Nesse contexto, afirma a narradora: "Mas havia uma vontade acima da minha e da vontade de Shelá a vontade do patriarca. A vontade de meu sogro, Judá. Judá, raposa. Judá, leão" (SCLIAR, 2008, p. 178). Judá não aceita o casamento. Ele "não era homem de se deixar intimidar; e certamente estava convencido de que sua negativa era a salvação para o filho que lhe restava" (SCLIAR, 2008, p. 179). Os dois patriarcas têm um momento de rivalidade e, como forma de protestar, o pai de Tamar decide mudar-se com a família para outra aldeia. Três anos se passam e Tamar só pensa em "obter a semente a que tinha direito. Se não a de Er, então a de Onan ou a de Shelá, ou mesmo do próprio Judá" (SCLIAR, 2008, p. 179). Essa seria a sua única forma de ser mãe e deixar de ser uma vergonha para a sua tribo.
Ao pensar na possibilidade de engravidar a partir do sêmen de Judá, ela se lembra de que "patriarcas não estão livres de desejo", "ele era patriarca, mas também era homem, homem viril", tendo, "portanto, todas as condições de atender à minha reivindicação" (SCLIAR, 2008, p. 179, 181). Ela fica sabendo que Judá vai participar de uma festa na cidade de Timna, onde todos os anos acontecia a festa da tosquia das ovelhas. No caminho para Timna, ficava a cidade de Enaim, local onde havia um pequeno templo famoso pelas prostitutas ditas sagradas que o frequentavam. Tamar se põe estrategicamente no caminho se disfarça de prostituta na esperança de vir a seduzir seu ex-sogro e engravidar. Judá toma Tamar por meretriz e com ela mantém relações. "Ao ver uma prostituta, Judá deveria, como patriarca, cuspir no chão e ir embora de cabeça erguida e cara de nojo. Mas não foi o que fez" (SCLIAR, 2008, p. 185). Naquele momento, Judá não reconhece Tamar e, quando ela ficou grávida, foram apedrejá-la, mas não puderam pois ela mostrou o cajado do patriarca, obtido no dia em que ele a tomou por meretriz e com ela manteve relações. Então, todos souberam que era Judá, incluindo ele, que até então desconhecia a identidade da mulher com quem se deitou. Ainda que muito envergonhado, Judá decide cuidar financeiramente de seus filhos, embora nunca mais tenha se aproximado de Tamar. Ela não se casa, ficando a cuidar dos filhos até a sua morte. Seu problema por não ser mãe foi superado.
Depois dessas reflexões, conclui-se que na obra Manual da paixão solitária, os patriarcas que mais aparecem são o pai da personagem Tamar e o personagem Judá. Como são patriarcas dos tempos bíblicos, se esperava que eles tivessem uma reputação ilibada, mas não é o que parece acontecer em muitos momentos. Considerando os ditames daquela sociedade patriarcal, os patriarcas não podem ser tomados por egoístas quando tomam decisões, pois eles não têm escolha: precisam agir de acordo com o que se espera deles. Muitas vezes os patriarcas do romance não observam a Lei de Jeová no que se refere à vida sexual e são arrogantes, deixando de demonstrar amor. Além disso, parecem utilizar seu contato com Deus para pedir ao Senhor castigos aos desobedientes à lei.
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References
Lana Lage Da Lima,; Gama,Suellen Souza,André De,Patriarcado (2019). Dicionário Crítico de Gênero.
Bruce Metzger,Michael Coogan (2002). I -As pessoas e os lugares.
Massaud Moisés (2004). Dicionário de termos literários.
J Porter (2009). A Bíblia -guia ilustrado das escrituras sagradas: história, literatura e religião. Tradução de Eliana Vieira Rocha e Maria da Anunciação Rodrigues.
Moacyr Scliar (2008). Manual da paixão solitária.
Adalberto Müller Jr. (2010). NO CALOR DA OBRA: ENCONTROS COM A PRODUÇÃO CULTURAL CONTEMPORÂNEA Entrevista com o escritor Moacyr Scliar.
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Lemuel de Faria Diniz. 2026. \u201cThe Conduct of the Patriarchs in the Work Manual da Paixão Solitária (2008), by Moacyr Scliar\u201d. Global Journal of Human-Social Science - H: Interdisciplinary GJHSS-H Volume 25 (GJHSS Volume 25 Issue H2): .
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