This article seeks to analyze the subordinate and enslaved black character from the period of colonial Brazil -Kehinde -included in the work A Color Defect, by Ana Maria Gonçalves (2010), discussing the challenges to survive and highlighting the role of the enslaved woman portrayed at the time as the other, the despicable, marginalized being, excluded from society. Through Kehinde’s narrative, the author echoes the resistance of female voices seeking to denounce the complex world of slavery. The specific objective is to contribute to the theoretical-critical debate in Brazilian History by showing the role of the black woman. We will adopt the postcolonial theoretical approach because it will provide another and corrected historical perspective. The results show that it is possible to see peripheral, subordinate peoples through the deconstruction of the various aspects of colonial basis in a postcolonial perspective, reinterpreting history from the perspective of the colonized, redimensioning their relationship and the different forms of discrimination.
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Monica De Lourdes Neves Sanatana. 2026. \u201cThe Enslaved Women in the Work A Color Defect by Ana Maria Gonçalves: What Says the Post-Colonial?\u201d. Unknown Journal GJHSS-C Volume 25 (GJHSS Volume 25 Issue C1): .
The Enslaved Women in the Work A Color Defect by Ana Maria Gonçalves: What Says the Post-Colonial?
Vale notar que a representação da mulher negra na literatura é uma conquista fruto de um longo processo de lutas e reivindicações contra o movimento da sociedade patriarcal em que a mulher era subjugada (SILVA, 2018). Assim, a análise deste artigo tem como foco as personagens negras subalternas exploradas e escravizadas no período do Brasil-colônia inseridas em uma das obras de Ana Maria Gonçalves - Um Defeito de Cor, que traz à tona o cenário afro-feminino com histórias de resistência, relatando a opressão, os medos e traumas com ênfase para as mulheres que vieram de navios negreiros. Objetiva-se com esta pesquisa contribuir para o debate teórico-crítico na História brasileira mostrando o papel da mulher negra retratada na época como o outro, o ser desprezível, marginalizado, excluído.
Em função da colonialidade da obra, essa abordagem irá conceder um novo olhar em que se pretende enxergar os povos subalternos através da desconstrução dos diversos aspectos coloniais, reinterpretando a história a partir da narrativa do colonizado. Questiona-se o colonialismo teórico das grandes metrópoles e dá-se voz e lugar àquelas que são silenciadas pela hegemonia; lembrando que teremos como objeto de estudo as escravizadas nesta obra literária afro-brasileira.
Dito isto, o artigo está estruturado em três seções. A seção inicial apresenta o momento em que serão apresentados os aspectos históricos referentes à escravidão do Brasil colonial, destacando as escravizadas africanas. A segunda seção versa sobre a condição da mulher negra subalterna dentro do romance. A terceira apresenta as contribuições póscoloniais fundamentada em alguns teóricos que tratam do assunto. Ao final, serão feitas considerações sobre os principais argumentos abordados no decorrer do artigo.
Por fim, é importante ressaltar que a análise aqui procedida, apesar de ser focada na narrativa da personagem principal Kehinde, uma mulher negra africana, proveniente do Reino do Daomé (hoje Benim), com traumas adquiridos pela conjuntura da escravidão, não será limitada apenas a ela, mas englobará outros personagens e elementos da referida obra que venham a apresentar características inerentes à mulher escravizada e sua relação com a sociedade em que vivia. Desta forma, será possível realizar um trabalho mais amplo e detalhado.
Finalmente, justificamos a necessidade de dar visibilidade à história de resistência de uma protagonista que em virtude de sua participação e importância desconstrói o estereótipo colonial tecendo um exemplo de bela narrativa de vitória e liberdade na árdua estrada da vida.
## I. A EscravidÃo no Brasil
Quando pensamos na história do Brasil geralmente visualizamos múltiplas questões relacionadas a exploração dos subalternos: a exclusão, questões raciais, tráfico negreiro. Temas fortes como estes tem sido estudado e discutido em grande proporção dentro da literatura afro-brasileira e nos debates historiográficos (PRADO, 1961).
A escravidão também mencionada como escravismo ou escravatura, foi um longo processo que teve início no Brasil por volta de 1526 e só foi abolida em 1888 quando foi considerado o último país das américas a realizar a ação (PRADO, 1961).
Do ponto de vista conceitual, entendemos por escravidão o sistema de trabalho em que o indivíduo é propriedade de outro podendo ser vendido, doado, emprestado, hipotecado, confiscado. Neste sentido, lembremos que a sociedade indígena também teve sua história contada com pouco destaque mesmo recebendo os portugueses de forma hospitaleira e ainda permitindo a união desses com suas mulheres (DUARTE, 2010).
Importante ressaltar que nos primeiros anos foi intensa a resistência da mulher ameríndia em se adequar às imposições dos colonizadores que desembarcaram no Brasil. No início se tratava de uma simples e ingênua relação de escambo com os indígenas chamados de negros da terra, mas por outro ângulo havia uma forte pressão e interesse dos padres jesuítas por acreditarem que os indígenas seriam vistos como futuros fiéis que contribuiriam para o fortalecimento populacional do catolicismo (SILVA, 2020).
De acordo com Eduardo de Assis Duarte (2010), a literatura afro-brasileira faz-se presente na história da colonização no século XVII e caminha na literatura contemporânea [] se faz presente nos espaços históricos de nossa constituição enquanto povo; não só existe como é múltipla e diversa (DUARTE, 2010, p.113).
Entende-se que tal literatura é definida como uma produção literária voltada ao sujeito negro que fala com propriedade de si e dos seus ancestrais, que conta sua história, enfrenta a misoginia e o racismo assim como o faz o livro Um Defeito de Cor (2010). Um documento literário e memorialístico reconhecido como uma literatura de afrodescendentes que se assumem como tal, e por isso se distingue de autores brancos. O livro tem um foco narrativo inédito: uma escrava como narradora de sua vida e de sua liberdade com um discurso significativo do nosso traumático e sangrento passado escravista (LOBO, 2007, p.315).
Ademais, a romancista ficcionista Ana Maria Gonçalves descendente de índios e portugueses, negros e espanhóis, realizou uma profunda pesquisa sobre a sociedade escravocrata do século XIX no Brasil-colônia abordando debates e estratos subalternizados das mulheres escravizadas provocando assim a necessidade de várias reflexões. Segundo ela mesma desabafa a obra foi uma forma de refletir sobre si enquanto mulher negra.
Ela se apropria da memória em documentos históricos como as personagens da Revolução Malê coordenada por escravos muçulmanos na Bahia em 1835 (SILVA, 2018).
Neste sentido, no vale do Paraíba no final do século XVII e início do XIX a mão de obra indígena era bastante cobiçada, mas falharam por várias razões, entre elas a altíssima mortalidade causada pelas epidemias que os dizimaram em larga escala conforme testemunho de Luiz Felipe de Alencastro (2000).
Mais adiante optou-se por uma escravidão identificada por ter sido impiedosa com os africanos, em que os pioneiros chegaram ao Brasil por volta de
1550 através do tráfico negreiro. Um comércio que transferia fortuna aos portugueses e assim, o tráfico evidentemente prosperou com altos lucros para a Coroa trazendo como consequência desse trabalho forçado a associação do trabalho escravo com a cor da pele negra (SILVA, 2020).
Durante este tempo, os negros provenientes de distintas partes da África ajudaram a enriquecer o Brasil atendendo às demandas dos portugueses por fortes e resistentes trabalhadores braçais para colonizar suas terras. Dessa forma, os portugueses conseguiram o que queriam: exerceram dominação, controle da situação local através do sombreamento da periferia, da perda da condição humana e se deram conta de que a aquisição do trabalho escravizado negro tornar-se-ia imperativa para a ganância, o sucesso e altos lucros (SILVA, 2020). Vale ressaltar que a escravidão brasileira foi diferente da medieval por ter sido baseada principalmente na cor da pele como ressalta a citação.
Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime. Mas nossos críticos se esquecem que essa cor é a imagem da riqueza de milhares de ladrões que nos insultam; que essa cor convencional da escravidão, tão semelhante à da terra, abriga, sob sua superfície escura, vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade (LUIZ GAMA 1830-1882).
Mediante o sucesso da experiência com o primeiro lote de escravos, os colonizadores alertaram para o momento de que precisariam de trabalhadores resistentes e encontraram no africano o que procuravam. Outro fator levado em conta era que os negros apresentavam maior resistência para algumas doenças e por isso seriam economicamente preferíveis. Apesar dos índios serem [.....] mais baratos que os africanos acabavam saindo mais caros porque morriam em maior número \[...\](ALENCASTRO, 2000, p.137).
Para se ter uma ideia, entre 1576 e 1600 desembarcaram em portos do Brasil cerca de 40 mil africanos escravizados, e no século seguinte este número triplicou passando a 150 mil destinados a trabalhos em canaviais e engenhos de açúcar (BASEGGIO; SILVA, 2015). Ademais, diferentemente da versão do patriarcado, as escravizadas ganham um papel fundamental ao lembrarmos que foram elas as responsáveis pela alimentação já que asseguravam a agricultura para subsistência e cuidavam dos filhos dos senhores (BASEGGIO; SILVA, 2015).
As escravizadas africanas foram trazidas para o Brasil de forma brutal e violenta como mercadorias de troca, arrancadas de suas famílias, levadas ao porto à espera de um navio e marcadas no ombro a fogo para futura identificação. Foram transformadas e conhecidas com máquinas vivas para o trabalho na agricultura, lembrando do adicional de estupros praticados pelos seus proprietários senhores e feitores a quem estavam submetidas (RODRIGUES, 2012).
A esse propósito, outra imposição durante a escravatura foi a exploração dos corpos que pertenciam aos senhores de engenho os quais poderiam manifestar suas agressividades e luxúrias sobre elas (MOTT, 1988). A subordinação sexual estava inerente ao período colonial pois os portugueses interessados em povoar a terra além de violarem corpos, ainda importaram mais adolescentes (moças e rapazes) para que durante a viagem de navio as negras já chegassem grávidas aumentando o patrimônio dos futuros proprietários, os senhores não precisariam pagar pelo feto no ventre materno (POMER, 1980).
Além do âmbito econômico, a importação das mulheres escravizadas teve outro objetivo forjado; uma vez que não haviam brancas suficientes, o tráfico foi uma necessidade com a função de usar seus ventres para proliferar mais mão de obra de trabalho barata: as negras eram escravizadas e concubinas das grandes famílias (FREIRE, 2003). Como afirma Freire (2003, p. 51), "Não há escravidão sem depravação sexual". Ao mesmo tempo, os senhores de engenho viam com olhos simpáticos a iniciação dos filhos e netos varões com as negrinhas imberbe. E neste sentido, as escravas juntamente com as índias e as mulatas foram forçadas a multiplicar a mão de obra colonial como máquinas de uso.
Em 1856 no jornal francófono do Rio de Janeiro Courier du Brésil um artigo da revista Commercial de Santos descrevia a liquidação de bens:
Entre os traficantes que assistiam ao leilão, (.....) um, em particular, se fez remarcar por um exterior que anunciava um desses indivíduos que perderam todo o sentimento. Este homem, (...) se dirigiu a uma jovem negra grávida que chorava sua desgraçada sorte e em quem se encostava seu filho, um mulatinho. " Você quer me servir?" (. "Tu não queres?" replicou com um cinismo satânico, o traficante. (....) " Eu não te disse? Agora eres minha! Enforque-se se quiser, aqui está o dinheiro para comprar uma corda" (...) O povo, em silêncio, estremeceu" (MAIA, 2017, p.3).
Inegavelmente há um sarcasmo na citação acima que trata da conversa em um leilão de escravizadas no Brasil. É importante observar que o fato era corriqueiro e a cena que evidencia um fim macabro retrata a imagem da escravizada jovem e grávida representando muitas outras vitimizadas e silenciadas. Percebe-se mesmo diante das adversidades, da depravação e humilhação, o sentimento da importância da mulher enquanto mãe, a provedora, o feminino ganhando um pequeno espaço que seja.
Não nos surpreende que o Rio de Janeiro era o principal porto da região no século XVII pois dispunha de um centro de leilão e centro e vinte engenhos com uma grande produção de açúcar necessitando de escravizadas para dar conta de tantos serviços além da função de redistribuir as escravizadas principalmente para Minas Gerais (ALMEIDA, 2014). Nesse contexto é
- homem branco que escraviza e sobrepõe-se como raça superior aos africanos que eram trazidos para o Brasil; e foi assim que aconteceu a subalternização das escravizadas africanas. "Mas, além disso, da insistência, ele conseguiu ser muito mais vingativo do que eu poderia imaginar, ao entrar no quarto e dizer que a virgindade das pretas que ele comprava pertencia a ele [...]" (GONÇALVES, 2010, p.170).
## II. A TrAjetÓrIa DaS PErsoNAgeNs Negras Escravizadas
Compreendemos dentro desta temática que retornar ao período colonial, mas colocando em foco uma protagonista negra escravizada é valorizar e motivar essa presença consentindo-lhe uma real participação na literatura, desconstruindo estereótipos e destituindo histórias de mão única, oferecendo uma nova visão do negro como um ser forte, corajoso, trabalhador e honesto (RAGO, 995).
Esta reflexão se faz tanto mais necessária, quanto mais nos damos conta de que a História não narra o passado, mas constrói um discurso sobre este, trazendo tanto o olhar quanto a própria subjetividade daquele que recorta e narra, à sua maneira, a matéria da história. Além do mais, vale dizer que se esta produção não se caracteriza como feminista, nem significou um questionamento prático das relações de poder entre os sexos na academia, ela carrega traços evidentes de uma vontade feminina de emancipação (RÁGO, 1995, p. 81).
Neste contexto, segundo Valter Dias Junior (2012, p.360), as africanas que conseguiram sobreviver à viagem deveriam se adaptar às instalações precárias, aos maus-tratos, e submissão sexual. Como forma de sobrevivência ao ambiente, era comum elas tentarem estabelecer relações com os homens escravizados que conheciam, (aqueles possuidores da confiança dos senhores), como forma de proteção e liberdade na vida pessoal contra os assédios ou dos próprios senhores que vislumbravam os casamentos entre escravos vendo nisso a expansão de seus investimentos. Na verdade, os companheiros nada poderiam fazer contra a vontade dos seus senhores como afirma a citação.
Nos locais em que era possível estabelecer uniões conjugais, com a permissão dos senhores, os casais eram uma pequena minoria diante do número de solteiros, promovendo instabilidade nas relações afetivas. A situação das mulheres ficava ainda mais difícil quando eram observados os sentimentos de posse e de ciúmes cultivados pelos homens; elas sofriam violências, e muitas chegavam a serem assassinadas pelos próprios companheiros de escravidão (JUNIOR, 2012, p.363).
Para compreendermos melhor essas relações da época, constatamos que muitos autores brasileiros e estrangeiros como Eduardo Duarte, Luiz Mott, Simone Rodrigues, se dedicaram a discutir a escravidão na sociedade brasileira dando seus pareceres a respeito dos costumes locais e das relações de trabalho entre senhores e subalternos.
Assim, em suas memórias da vivência brasileira, Gonçalves escreve a partir do período da história colonial o papel das mulheres negras africanas que apesar de terem sido muitas e importantes de alguma maneira, foram desprestigiadas e pouco representadas na literatura brasileira. Cabe destacar que Gonçalves entende as escravizadas não como um objeto de troca dos traficantes negreiros, mas como sujeitos que construíram suas próprias histórias e desenvolveram laços afetivos no mundo, seja em oposição aos senhores ou obrigadas por eles (SILVA, 2018).
No dizer de Ironides Rodrigues (2007), a literatura negra é composta de aspectos históricos, culturais, e sociais pertencentes à raça negra com acepções do que é ser negro.
[..] Literatura negra é aquela desenvolvida por autor negro o um mulato que escreva sobre a sua raça dentro do significado do que é ser negro, da cor negra, de forma assumida, discutindo os problemas que lhe concernem: religião, sociedade, racismo. Ele tem de se assumir como negro (RODRIGUES, 2007, p.266).
Neste trilho de pensamento, esta definição nos remete à obra Um Defeito de Cor e a participação de personagens negras africanas subalternas em situações das mais diversas. A obra é narrada sob a perspectiva de um sujeito enunciador negro feminino: "Eu tomei, a maioria fingiu que tomou, inclusive a minha avó, que disse que antes ser comida de peixe que de gente" (GONÇALVES, 2010, p. 31). Isso nos traz à tona a questão do sujeito negro como voz protagonista no enredo o que proporciona uma discussão de relatos importantes sobre a experiência desumana e parece deslegitimar vozes historicamente silenciadas. Há relatos detalhados a respeito dos horrores do tráfico negreiro durante e depois da travessia do atlântico que durava quase 2 meses exterminando muitos homens e mulheres. "Assumir a condição negra e enunciar em primeira pessoa parece ser o aporte maior trazido por essa literatura, constituindo-se em um de seus marcadores estilísticos mais expressivos" (BERN, 1988, p. 12).
Além disso, o título incorpora procedimentos presentes nas novas narrativas de experiência que a nossa História não deu conta de anotar e se refere a uma lei utilizada durante o período colonial pelos portugueses quando precisavam complementar a área militar com pardos, mulatos e negros desde que houvesse a declaração que dispensava o defeito na cor (BEAUREPAIRE, 2016).
A obra é de fato um romance histórico, como afirmou em uma entrevista cedida ao jornalista Renato Pompeu da Revista Retrato do Brasil em setembro de 2006. Em que o livro foi despertar a curiosidade das pessoas para um assunto sobre o qual quase nunca se é informado o suficiente e que teve uma influência na formação do povo brasileiro: a escravidão.
De modo suplementar, o romance tenta resgatar do esquecimento as experiências daqueles grupos ignorados ou silenciados. A obra flui entre 100 anos de história do terror, da opressão escravagista no Brasil e na África do século XIX (BEAUREPAIRE, 2016), e escrita a partir de um encontro casual da autora com papeis velhos na casa de um morador em que era possível retratar através dos desenhos fatos e datas relativos a momentos históricos.
Ao descrever o destino da personagem principal Kehinde (LUIZ GAMA, nome pelo qual passa a ser chamada após seu batismo), em suas viagens entre a África e o Brasil, Gonçalves recria o lugar feminino afro-descendente com impressões eurocêntricas negativas em uma trajetória diaspórica nas correntezas do Atlântico. Eis que ela presencia e relata os acontecimentos históricos desde como os escravizados eram capturados na África e de forma brutal amontoados em navios negreiros até a chegada em Salvador (GONÇALVES, 2010).
Kehinde é perseguida sem consolo pelos espíritos dos familiares, sua avó e sua irmã, que morreram e foram lançadas ao mar com ondas e correntes durante a passagem da África lembrando o movimento de diáspora: "sentada na areia, fiquei olhando o mar e chorando todas aquelas mortes que pareciam estar dentro de mim, ocupando tanto espaço que não me deixavam sentir mais nada" (GoNçALVES, 2007, p.101). Sua avó, sua irmã gêmea e a própria Kehinde podem ser descritas assim como essas ondas que ora estão calmas, ora revoltosas.
O cerne da narrativa trata da trajetória de uma mulher negra na voz de Kehinde, escrava alforriada, letrada e poliglota, e suas cartas narrando sua trajetória sofrida com perdas pessoais (mulheres importantes em sua vida). Ela começa sua trajetória aos oito anos de idade motivada por uma necessidade de buscar novos rumos esperanças e uma vida melhor. Desde a infância até a vinda ao Brasil como escrava na Bahia e no Rio de Janeiro até retornar à África e o final retorno ao Brasil no fim de sua vida. "A Kehinde é representante desses escravizados e escravizadas que tomaram o destino nas próprias mãos e também representa o posicionamento que nós temos hoje com relação à nossa história" (entrevista em 2007). A personagem representa pelo menos 400 mulheres, pois "pensar só em sim mesmo é uma coisa branca" destaca a autora.
Outro fato no cenário a considerar é que ela nos prova que as negras subalternas também tem memória ancestral, (e identidades mesmo que fragmentadas), como sua avó o faz em diálogos constantes com a neta. Quanto a esse aspecto, o colonialismo tem como característica promover a fragmentação da identidade do sujeito colonizado obrigando-o a se ver como o outro de si próprio. Em termos de representação dos negros, esse processo de reificação consiste na negação da individualidade fazendo com que as escravizadas africanas sejam percebidas pelos portugueses como objeto genérico que poderão ser substituídas indiferentemente por qualquer outra (SOUZA, 1996).
Em um estilo memorial, aos oito anos de idade em Salavu, Kehinde presencia o estupro e a morte de sua mãe, assim como a morte de seu irmão Kokumo, ocorrida de maneira brutal pelos guerreiros. Em sua trajetória de viagem forçada para o Brasil, ela perde primeiro sua irmã - uma perda significativa por serem ibêjis (gêmeas), como se tivessem a mesma alma. Em seguida sua avó que ainda conseguiu ensinar-lhe algumas coisas sobre voduns e orixás como a herança/ identidade ancestral, ou seja, legado.
Como única sobrevivente de sua família, Kehinde foi capturada e desembarcou sozinha na Bahia. Foi levada à llha de Itaparica para ser escrava de companhia da Sinhazinha. Na fazenda cria laços afetivos e uma amizade com a sinhazinha Maria Clara e com Esméria, escravizada da fazenda cumprindo o papel de sua família como avó e mãe. Quando adolescente se interessou por um escravizado, Lourenço com quem noivou, mas o sinhô José Carlos a cobiçava e tentou estuprá-la sendo impedido por Lourenço. Na segunda tentativa ele a estupra assim como a Lourenço. Após o estupro de ambos José Carlos manda decepar o órgão genital de Lourenço e queimar.
Desse estupro nasce na travessia do mar o primeiro filho da narradora, o menino Banjokô. Percebese que as figurações do feminino foram marcadas por construções que ressaltam a sensualidade e a disponibilidade para o sexo sem compromisso de acordo com as imagens estereotipadas a priori da mulata assanhada. Observa-se que a voz feminina é usada para retratar e desabafar a crueldade nas narrativas, trazendo à tona a presença feminina negra cuja história se funde com a de muitas outras: "A minha mãe tinha voz bonita, que foi embora navegando no riozinho de sangue que se juntou ao riozinho do Kokumo. Esse foi o cheiro que, apesar de disperso no meio dos outros, me acompanhou durante toda a viagem desde o armazém: o cheiro de sangue" (GONÇALVES, 2010, p.25).
Aquela altura eu já achava que a Tanisha estava certa, que éramos mesmo prisioneiros e que seríamos trocados por mercadorias do estrangeiro. Mercadorias vendidas nos mercados de Uidáe e, quem sabe, até no de Savalu, e que provavelmente nós mesmos já tínhamos comprado quando outras pessoas foram trocadas (GONÇALVES, 2010, p. 22).
Em todo o percorrer de sua vida, em meio a tantos problemas, a personagem tem uma vida tribulada; mudança de residência, e chega a ser escravizada de ganho onde vai emprestada trabalhar na casa do Mister Clegg onde aprende a falar inglês e fazer cookies se sobressaindo nas vendas.
Dessas vendas consegue dinheiro para sua carta de alforria e de seu filho agora com cinco anos. Durante o período em que foi escravizada de ganho, muitas pessoas a ajudaram. De um modo geral, ao resistir ao sistema, Kehinde busca conquistar sua liberdade como uma maneira de contestar a relação de poder dos escravistas.
Através de Kehinde, Gonçalves relata a vida dos africanos que tinham que lidar com a perda de identidade cultural e individual uma vez que eram forçados a abandonar sua terra, sua cultura, costumes e hábitos para viverem uma vida de produção exploratória perdendo o nome natural africano (kehinde) e os laços de família para enfrentar as atrocidades da escravidão (SILVIA, 2018). Como afirma Édouard Glissant (2005, p.19) sobre o povoamento que "realizado através do tráfico de africanos foi o que determinou maior sofrimento e infelicidade nas Américas" devido a imigração imposta.
Ao lermos as narrativas, causa-se um repúdio como os seres humanos foram tratados graças à visão que a cor da pele representava no sistema de poder para a população branca.
O navio tinha dois porões, e o de baixo, onde fomos colocadas, era um pouco menor que o de cima, pelo qual passamos sem parar. Também não tinha qualquer entrada de luz ou de ar, a não ser a portinhola por onde descemos e que foi fechada logo em seguida à ordem para que escolhêssemos um canto e ficássemos todas juntas, pois logo trariam os outros... Segurando a mão da minha avó, eu só pedia que o estrangeiro fosse perto. Mas, apesar de tudo, estávamos quietas, resignadas, como se realmente não houvesse mais nada a fazer (GONÇALVES, 2010, p. 25).
Apesar dos sofrimentos e preconceitos relatados em todo o percurso da narração, vale salientar que a obra tem suas virtudes entre elas a não vitimização da mulher subalterna afrodescendente.
Os leitores podem sentir que o corpo negro de Kehinde não é apenas uma cor esquecida, desprezada, mas é um corpo que procura ter voz e conta sua história, que aponta sua insatisfação com o discurso enunciador da negritude. Neste lugar as vozes de cor negra rompem com o paradigma do branco.
Uma voz que se assume. Interrogando, se interroga. Cobrando, se cobra. Indignando se indigna. Inscrevendo-se para existir e dar significado à existência, e neste ato se opõe.
A partir de sua posição de raça e classe, apropria-se de um veículo que pela história social de opressão não lhe seria próprio, e o faz por meio do seu olhar e fala desnudando os conflitos da sociedade brasileira (ALVES, 2010, p. 185).
Kehinde discorda da generalização da elite e dá uma resposta porque ela representa a resistência da mulher negra à tortura, e exala o sentimento de vitória ao suposto defeito de cor, tendo como exemplo sua adaptação e assimilação à cultura e crença brasileira, devido a sua necessidade de ascensão social dentro do contexto colonial em um âmbito em que só os africanos alforriados teriam direito a melhores condições de vida (SILVIA, 2012).
Sua trajetória social e reivindicação participativa acontece especificamente quando aprende a ler e escrever em português e depois de ter trabalhado com alguns ingleses consegue falar inglês. De fato, a ânsia em modificar de vida já existia desde criança quando ganha um vestido de sua patroa e amiga, sinhazinha Maria Clara, demonstra e promete a si mesma que teria muitos outros quando se tornasse adulta. "Olhando no espelho, eu me achei linda, a menina mais linda do mundo, e prometi que um dia ainda seria forra e teria, além das roupas iguais à das pretas no mercado, muitas outras iguais às da sinhazinha" (GONÇALVES, 2007, p. 87).
Por conseguinte, podemos inferir que a personagem em sua trajetória passa a perceber que existe um outro lado da existência humana que é o da superação e vitória. Esse cenário já descreve que Kehinde preencheria as lacunas da história da negritude com seu testemunho vivo de persistência em um colonialismo destrutivo.
## III. A Mulher Escravizada em Uma Perspectiva do Discurso Pós-Colonial
A definição de pós-colonial pode ter o entendimento do tempo histórico que supera o colonialismo, o que seria considerado então uma era pós-colonial, ou podemos preferir uma segunda opção que seria a contribuição teórica de estudos literários e culturais oriundos da Inglaterra e dos Estados Unidos a partir dos anos de 1980 consolidado como crítica ao colonialismo (SILVA, 2021).
É importante considerar que o pós-colonialismo a ser utilizado descreve a cultura nacional, negando a objetividade histórica e ratifica a existência de um passado que precisa ser analisado e não repetido. Ao dar voz a uma escravizada africana, a autora realiza a presença de outras vozes da história; a dos vencidos e subalternizados que são estudados no discurso. Em linhas gerais, ele funciona como ferramenta de saída para uma reivindicação de espaços para um local de fala (SILVIA, 2021).
Vale notar que ele faz uma subversão de conceitos centrais como poder e Estado/Nação com seu saber-poder e do interesse nacional. Ele se propõe a identificar e criticar a relação antagônica entre opressor, aqui representado na figura dos senhores de engenho e seus capangas; e oprimido representado pelo lado frágil, as mulheres escravizadas. É justamente este diferencial do emprego de sua perspectiva por desafiar o poder centralizador opressor em que os atores internos não possuem a capacidade de resistência ou negociação que escolhemos essa abordagem como referencial teórico (SILVA, 2021).
O convite do pós-colonial observa as relações além do recorrente homem e mulher, mas nos sujeitos presentes subalternos presentes cujo peso recai sobre as mulheres. Concordamos com o que diz Spivak ao raciocinar a respeito da maneira como a constituição do sujeito subalterno feminino é epistemologicamente apagado:
No contexto do itinerário obliterado do sujeito subalterno, o caminho da diferença sexual é duplamente obliterado. A questão não é da participação feminina na insurgência ou das regras básicas da divisão sexual do trabalho, pois, em ambos os casos, há "evidencia". É mais uma questão de que, apesar de ambos serem objetos da historiografia colonialista e sujeitos da insurgência, a construção ideológica de gênero mantem a dominação masculina. Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade (SPIVAK, 2010, p. 66-7).
Portanto, "no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais na obscuridade" (SPIVAK, 2010, 67). A vertente ocidental toma o mundo como maniqueísta: o bem e o mal como centros de poder localizados na Europa, na vertente oriental o mundo é composto por países de terceiro mundo não-desenvolvidos.
De acordo com Edward Said (1995), o colonialismo é um sistema de dominação:
Nem o imperialismo nem o colonialismo é um simples ato de acumulação e aquisição. Ambos são sustentados e talvez impelidos por potentes formações ideológicas que incluem a noção de que certos territórios e povos precisam e imploram pela dominação, bem como formas de conhecimento filiadas à dominação (SAID, 1995, p. 40).
Stuart Hall (2003, 108) afirma que "o termo se refere ao processo de descolonização que, tal como a própria colonização, marcou com igual intensidade as sociedades colonizadoras e as colonizadas".
Como diz Walter Mignolo (2003), a crítica póscolonial se distingue por: revelar a colonialidade do poder como o império político-econômico do Ocidente sobre o resto do mundo, por revelar as formas e as práticas de agenciamento da razão do subalterno.
Segundo Said (1995), Homi Bhabha (1994), Robert Young (1995), o pós-colonialismo como crítica à história da civilização do Ocidente examina a influência do passado colonial no presente pós-colonial e ainda acrescentando mais um dizer de Spivak: "um dos aspectos mais fascinantes da pós-colonialidade numa ex-colônia é o palimpsesto da continuidade pré colonial e pós-colonial fraturada pela imposição imperfeita da episteme iluminista" (SPIVAK, 1999, p.239-240).
Motivados por essas percepções, neste novo pensar, Kehinde participa ativamente do processo histórico em que estava inserida, e se transporta do estigma de agente passivo, rebelde e agressivo para uma nova perspectiva em que irá preencher as lacunas e os silêncios causados e provocados pelo eurocentrismo. Já em Portugal, ela muda seu destino de escrava para empresária e retorna uma última vez ao Brasil na esperança de encontrar seu filho perdido.
Eis que Kehinde, sem se dar conta, utiliza-se do discurso pós-colonial para estabelecer uma nova forma de pensar os processos, denunciar e questionar o aspecto epistemológico da violência do Brasil-colônia com a marginalização do seu povo e representações criadas em benefício do lucro eurocêntrico. No caso de Um defeito de cor, cria-se uma memória daquilo que nos foi contado pelo outro, uma história baseada em racismo e objetificação dos corpos dentro do pensamento ocidental que fragmenta o outro:
É dentro de todo esse contexto que emerge o discurso de Kehinde trazendo à tona e desnudando a história de opressão, da escravidão o que cremos se inscreve na mesma linha discursiva da perspectiva póscolonial. Ela promove a visão do subalterno, do periférico, do marginal, contando a história dos vencidos (ANDRADE, 2009). Seu discurso define a recusa de uma vida subalterna e de exploração, sua fala funciona como força-motriz que se instaura graças à sua perseverança e coragem e se torna uma mulher independente financeiramente.
Na obra de Frantz Fanon (2008), Pele negra, máscaras brancas, ele traz uma perspectiva das relações de poder compreendendo como os mecanismos de dominação, no caso o estupro, operam e agem na, mente do indivíduo e no impacto psicológico. É nesse ponto que o texto de Fanon converge com a realidade das mulheres africanas escravizadas em que os senhores de engenho se colocam na posição simbólica de autoridade, uma ideia de ser humano superior que pode afirmar essa falsa autoridade violando de forma covarde os corpos de suas escravizadas subjugados econômica, social e sexualmente em um desejo de possuir a branquitude da cultura hegemônica. Para Fanon, o estupro vai além de violência física, mas simbólica e eficaz como arma de penetrar a inferiorização, a ridicularização e demonização na psique do colonizado (FANON, 1968, p.31).
Em uma ótica pós-colonial Kehinde sempre terá o olhar do outro à espreita de seu comportamento: "[.....] A sinhazinha me olhou com um certo interesse, mas não retribuiu meu sorriso, provavelmente tinha me achado menos interessante e muito mais feia que os outros brinquedos, porque foi isso que a Esméria disse que eu seria para ela, um brinquedo" (GONçALVES, 2006, p. 78).
Kehinde é parte constituinte da luta e do momento de resistência contra a opressão encontrada por onde passava. A ascensão da protagonista de subalterna à sujeito marcante pode ser destacada no momento da presença de Fatumbi, um homem de origem africana contratado pelo dono de Kehinde para ensinar as primeiras letras à sua filha. No entanto, quem mais se aproveitou das aulas foram Kehinde uma vez que demonstrava predisposição e interesse.
Enquanto sinhazinha Maria Clara copiava as letras [...] eu fazia a mesma coisa com o dedo, usando o chão como caderno. Eu também repetia cada letra que ele falava em voz alta, junto com a sinhazinha, sentindo os sons delas se unirem para formar as palavras. [...] Comecei a aprender mais rapidamente do que ela, que muitas vezes errava coisas que eu já sabia. As três horas de aula todas as tardes passaram a ser para mim as mais felizes do dia, as mais esperadas, e fiquei triste quando chegou o primeiro fim de semana, dias de folga que o professor aproveitou para ir até a capital (GONÇALVES, 2010, p.92).
Acreditamos que Kehinde representando as escravizadas, era dotada de percepção de comércio, empreendedorismo e astúcia, alfabetizou-se por empenho e compromisso e vontade de conquistar algo na vida: sua liberdade.
Posteriormente aprendeu inglês, vendeu cookies com seu dom para comércio, empreendedorismo e com envolvimento na política comprou sua alforria. Na revolta do Malês foi marcante sua atuação, tornou-se uma grande empresária em Salvador e ainda vendeu charutos. Mais tarde, conhece um mulato inglês, John com o qual fez família. Foi na África que pode viver a experiência de uma vida normal, digna, rica e de maternidade. Lá ela mudou a vida de centenas de pessoas e a cultura local com tradições aprendidas no Brasil.
Um defeito de cor foi escrito pensando a partir dos olhos do colonizado, vivenciando a experiência colonial, os processos brutais que ela impõe e suas representações seja na condição de defensores dos colonizados e de suas expressões culturais. Gonçalves analisa os efeitos políticos, sociais e principalmente os efeitos emocionais que os países colonizados sofreram frente ao processo de colonização e descolonização.
A partir das análises que procuramos fazer durante este trabalho, podemos observar que a narrativa da obra abre caminhos para diversas interpretações, assim como a necessidade de valorizar as escravizadas, seu empoderamento não só individual, mas coletivo. Nesse âmbito, Ana Maria Gonçalves desempenha com excelência o papel de representar escritoras mulheres pós-coloniais que elevaram a voz de um grupo reprimido. Um defeito de cor desestabiliza e desafia o discurso literário padrão do colonizador, aferindo voz aos marginalizados historicamente.
## IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em termos conclusivos, no presente artigo desenvolveu-se o argumento de que o sistema patriarcal no Brasil-colônia administrado pelos portugueses representou um processo brutal de desumanização, tortura, banalização da vida, desequilíbrio e injustiça na sua forma de tratar as mulheres como escravas de uso; seres humanos explorados e subalternizados.
Com base nesse pensamento, procurou-se justificar tal estudo, tomando-se como base metodológica a abordagem pós-colonial cuja percepção faz uma revisão de conceitos e desconstrução das metanarrativas do discurso colonial dominante eurocêntrico.
Conforme se observou no trabalho, a abordagem pós-colonial a partir de um debate historiográfico permite um olhar mais amplo acerca da organização da escravidão e de como ela funcionou dentro do sistema social e cultural, através do olhar de Kehinde que emergiu como a voz que não se calou mediante a opressão.
Corroborando com essa vertente, Ana Maria Gonçalves faz por meio da narrativa de Kehinde, ecoar a resistência das vozes femininas e de muitas outras buscando denunciar o complexo mundo da escravidão com uma narrativa tensa, de horrores de resistência e esperança, focando nas manobras da narrativa da escravizada, afastando a visão de inferioridade, dependência e exclusão.
Somando-se a esses fatores, buscou-se refletir sobre a obra Um defeito de cor como um lugar escrito por uma mulher de cor e que levanta diversas questões ao longo do texto particularmente no que tange aceitar o desafio de resgatar a história, reinterpretando-a pela ótica do colonizado.
This article seeks to analyze the subordinate and enslaved black character from the period of colonial Brazil -Kehinde -included in the work A Color Defect, by Ana Maria Gonçalves (2010), discussing the challenges to survive and highlighting the role of the enslaved woman portrayed at the time as the other, the despicable, marginalized being, excluded from society. Through Kehinde’s narrative, the author echoes the resistance of female voices seeking to denounce the complex world of slavery. The specific objective is to contribute to the theoretical-critical debate in Brazilian History by showing the role of the black woman. We will adopt the postcolonial theoretical approach because it will provide another and corrected historical perspective. The results show that it is possible to see peripheral, subordinate peoples through the deconstruction of the various aspects of colonial basis in a postcolonial perspective, reinterpreting history from the perspective of the colonized, redimensioning their relationship and the different forms of discrimination.
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