Ethnogeomorphology, which is the understanding of relief through the knowledge of traditional communities, has been increasingly required within geographic science when the approach takes into account man’s dialectical action on his environment. In the search for an understanding of coastal ethnogeomorphology, we chose to research the coast of Ceará which, among its morphological features, contains river mouths, fixed and mobile dunes, cliffs, lake environments, fluviomarine plains and all interconnected in an interaction of landscape dynamics. All the compartmentalizations expressed in the relief make the coastal landscape a space of great natural expressiveness within the space of Ceará. Added to these is anthropic action, forming geographic space, the object of study in Geography, which is formed by the dialectical interaction between man and the space that surrounds him. The present work is the result of qualitative research carried out on Guriú beach located in the municipality of Camocim-Ceará. This work aims to survey the traditional knowledge of artisanal fishing workers in the Guriú district about the local relief and the way they interact with the environment.
## I. INTRODUÇÃO
município de Camocim localiza-se no litoral extremo-oeste do estado do Ceará. Segundo Viana (2017), ele localiza-se a 2° 5' 8' latitude S e 40° 50' 28' longitude W. Suas medidas territoriais são de $1.123,94 \ \mathsf { k m } ^ { 2 }$,correspondendo a $0 {, } 76\%$ do território cearense e uma altitude de 8,1 m. O litoral cearense apresenta uma faixa de $573 ~ \mathsf { k m }$ de extensão e desses, 62 km pertencem ao município de Camocim, colocando-o com o título de município de maior extensão de linha de costa do Estado do Ceará, equivalente a $12\%$ da costa do estado.
Com uma faixa litorânea tão extensa, procuramos pontuar nossa pesquisa na primeira praia encontrada no sentido leste-oeste do município (Mapa
1). Esta praia se chama Guriú, onde também residente uma comunidade de pescadores artesanais que aprenderam os conhecimentos de forma oral passado pela comunidade sobre as formas de interagira, trabalhar e tirar o sustento do litoral.

Mapa 1: Mapa de localização das praias do município de Camocim CE
Fonte: Sousa, R. M. L. (2024)
O distrito do Guriú localiza-se na foz do rio que recebe o mesmo nome, rio Guriú. Este rio é limítrofe entre o território camocinense e o Parque Nacional de Jericoacoara que pertence ao município de Jijoca de Jericoacoara. Na paisagem do Guriú destaca-se a planície flúvio-marinha, os campos de dunas fixas e móveis, os manguezais, e a praia. É nesse cenário que trabalhadores da pesca artesanal aprenderam a conviver e interagir de forma dialética para que possam adquirir o seu sustento.
Nosso trabalho tem por objetivo realizar o levantamento dos conhecimentos dos trabalhadores da pesca artesanal sobre o relevo local e a forma de interação com o meio. A metodologia aplicada foi de cunho qualitativo e a pesquisa foi dividida em levantamento bibliográfico e cartográfico, pesquisa de campo, entrevista semiestruturada e análise de dados.
## II. REfereNcial TEórico
A história nos mostra que povos antigos, como os incas, desenvolveram um vasto império na região andina. Esses povos desenvolveram um sistema agrícola com eficientes obras de irrigação na região montanhosa dos andes. Podemos observar que a convivência e interação do homem com a natureza proporciona ao homem um conhecimento formado a partir da vivência. Assim, os povos em diversos tempos e lugares construíram seus mundos de maneira distinta, graças às inúmeras visões de mundo oriundas de cada cultura (Tuan, 1980).
Uma vez que os temas da Geografia acompanham e fazem parte do cotidiano das pessoas à história, aos povos incas. Esse povo, mesmo estando estabelecidos em uma região montanhosa, conseguiu desenvolver um sistema de irrigação que ajudou na cultura do milho. Esse e outros fatos nos mostram que não precisamos frequentar a escola para comungar com a Geografia. Nós a percebemos e a aprendemos por força do nosso próprio cotidiano nas suas diversas faces (Moreira, 2007).
A geografia é um saber vivido e apreendido pela própria vivência. Um saber que nos põe em contato direto com nosso mundo exterior, com o seu todo e com cada um dos seus elementos a um só tempo. Se nisto reside sua peculiaridade, da qual deriva sua natural popularidade, reside nisto igualmente seu amplo significado político (Moreira, 2007, p. 58).
O conhecimento empírico' das comunidades tradicionais sobre o espaço e as suas formas de atuações sobre esse espaço faz com que a vivência seja levada em conta quando se estuda paisagens, afinal, as paisagens se sucedem à medida que o indivíduo atua em sua realidade que o lugar apresenta em sua natureza dos aspectos culturais e econômicos e em sua natureza enquanto elemento físico e biológico (Falcão Sobrinho, 2020).
Relevo e paisagem se encontram claramente vinculados através de relações integradas e dinâmicas, e essa relação é visivelmente percebida por essas comunidades, as quais conseguem descrever uma série de processos geomorfológicos de maneira coerente e integrada aos demais elementos ambientais da paisagem, mostrando assim a detenção de uma concepção holística ambiental (Lopes; Ribeiro, 2016).
O aprofundamento do estudo do relevo evidencia cada vez mais a necessidade de se ter uma visão holística, não excluindo a ação antrópica. É nesse entendimento que surge a Etnogeomorfologia (Sousa et al, 2023).
Segundo Ribeiro (2012), a Etnogeomorfologia surge exatamente no contexto de uma nova diretriz na área da Geomorfologia, sendo considerada um ramo da Etnoecologia, sendo coirmã da Etnopedologia, que buscar desvelar o conhecimento humano intrínseco sobre o relevo e os processos morfoesculturadores destes, para melhor organização das paisagens pelos agrupamentos humanos.
No longo e infindável processo de organização do espaço o Homem estabeleceu um conjunto de práticas através das quais são criadas, mantidas, desfeitas e refeitas as formas e as interações espaciais. São as práticas espaciais, isto é, um conjunto de ações espacialmente localizadas que impactam diretamente sobre o espaço, alterando-o no todo ou em parte ou preservando-o em suas formas e interações espaciais (Corrêa in Castro; Gomes; Corrêa, 2011, p. 35).
A citação supracitada reforça a importância do homem enquanto agente que interage com os espaços através de práticas diversas. Essas práticas espaciais perpassam pelo fato de que, independentemente da intensidade da intervenção espacial, o homem deve ser levado em consideração nos estudos espaciais, no caso desta pesquisa, nos estudos do relevo.
A Etnogeomorfologia é uma érea recente, ainda em construção (Matos e Falcão Sobrinho, 2022). Tem suas origens por volta da década de 2010, mas que tem evoluído nos últimos tempos devido ao maior interesse dos pesquisadores em entender, valorizar e sistematizar as sabedorias tradicionais (etnoconhecimento) como forma de entender a realidade (Ribeiro, 2012). O trabalho mais antigo que se tem registro sobre esse tema foi encontrado nos anais do VI Simpósio Nacional de Geomorfologia - SINAGEO, ocorrido em 2006, em Goiânia/GO, escrito por Nunes Júnior et al. (2006), com o título "Etnogeomorfologia: aplicações e perspectivas". Nesse trabalho, destacouse a importância da Etnogeomorfologia para o manejo ambiental e práticas etnoconservacionistas.
O marco da consolidação da Etnogeomorfologia se dá no Brasil, com a publicação da tese de doutorado de Ribeiro (2012), intitulada "Etnogeomorfologia Sertaneja: proposta metodológica para a classificação das paisagens da sub-bacia do rio Salgado/CE". A autora construiu uma base teórica e metodológica que serve de aporte para as pesquisas desenvolvidas nessa área. Na sua tese, a autora identificou o etnoconhecimento de agricultores tradicionais de quatro áreas da região do Cariri Cearense (Crato, Barbalha, Mauriti e Aurora), e provou que esses indivíduos possuem um repertório de conhecimentos acerca das formas de relevo e processos erosivos. Discorrendo sobre o conceito de Etnogeomorfologia, Ribeiro (2012, p. 94) afirma que
O estágio tecnológico e os saberes empíricos e "hereditários" sobre o meio ambiente próximo são fatores essenciais das modificações implementadas pelas ações antrópicas sobre as entradas, caminhos e saídas de matéria e/ou energia no sistema ambiental produtor de sua subsistência. A forma como o produtor rural maneja os recursos solo, água e vegetação em suas áreas de produção vai alterar de maneira direta e indireta a dinâmica dos elementos constituintes do geossistema local. Os estados deste geossistema vão se alterar em tempos e formas diferentes do que aconteceria sem a ação antrópica, e essa velocidade e esse formato estão relacionados diretamente com as alterações na dinâmica morfológica do relevo.
Segundo Ribeiro (2012), a Etnogeomorfologia foi definida como sendo uma ciência híbrida (posto que está na interface entre ciência natural e social), que estuda os conhecimentos de uma comunidade acerca dos processos geomorfológicos, considerando os saberes sobre a natureza, valores culturais e tradições locais. O trabalho de Ribeiro (2012) centrou-se na região sertaneja do Cariri, no Estado do Ceará. Esta pesquisa será centrada na paisagem litorânea, também do mesmo Estado. A Etnogeomorfologia, como novo campo de investigação, traz uma proposta muito desafiadora diante do que se vem sendo trabalhado na geomorfologia (fluxograma 1), através da busca dos conhecimentos tradicionais sobre os aspectos geomorfológicos locais (Ribeiro, 2012).
A percepção ambiental tem fortes raízes culturais e os filtros culturais e individuais são totalmente decisivos nas atitudes perceptivas. São eles que definem a percepção que por sua vez é determinante na forma como o homem vê, interpreta e interfere no seu meio (Corrêa, 1995; Oliveira, 2009). As diversas comunidades tradicionais de diversos espaços
têm percepções diferentes, por esta razão os estudos da Etnogeomorfologia não são iguais na perspectiva de resultados.

Fonte: Ribeiro (2012). Fluxograma 1: A Etnogeomorfologia e sua base epistemológica
A diversidade cultural é tão vasta quanto a história humana, refletindo assim na cultura de cada sociedade. Essas manifestações culturais são um produto histórico construído da interação social e com a natureza. Segundo Santos (2006), a cultura não é um sistema fechado e nem estática, mas ao contrário, está sendo modelada e remodelada constantemente. O tempo é um elemento essencial nessa construção.
A cultura é então a principal ferramenta utilizada na relação do homem com o meio, e se torna muito evidente na prática dos povos de comunidades tradicionais. Esses grupos se adaptaram a um meio ecológico altamente complexo graças aos saberes acumulados sobre o território e às diferentes formas pelas quais o trabalho é realizado. A variedade de práticas muitas vezes complexas assegura a reprodução do grupo, possibilitando uma construção da cultura integrada à natureza e formas apropriadas de manejo (Castro, 2000).
As culturas nascem e se consolidam no espaço próximo, ou seja, no lugar. Carlos (1996, p.26) ressalta que o lugar é a base da produção da vida e pode ser analisado na tríade "habitante-identidade-lugar". O lugar é o espaço próximo onde se estabelece a vivência. Citando Tuan (1979), Corrêa (2011) afirma que o lugar possui um "espírito", uma personalidade", havendo um "sentido de lugar" que se manifesta pela apreciação visual ou estética e pelos sentidos a partir de uma longa vivência. Para Heidegger (2005), lugar é a morada do homem, sem exceção. Ele contém e conserva o advento a que o homem pertence em sua essência.
A construção do lugar se faz de forma coletiva em qualquer espaço. Segundo Lopes (2017), o lugar é produto das relações humanas, entre homem e natureza, tecido por relações sociais que se realizam no plano do vivido, o que garante a construção de uma rede de significados e sentidos que são tecidos pela história e cultura civilizadora, produzindo a identidade, posto que é aí que o homem se reconhece, porque é o lugar da vida. Para Nogueira (2013), é na própria vivência que se constrói o enraizamento do homem com o lugar. Nessa vivência nascem os conhecimentos que são repassados, ao longo dos anos, de forma oral, tornando a memória um recurso importantíssimo.
A etnociência se firma na ligação entre o natural e o social, utilizando como metodologia a investigação das nomenclaturas designadas pelas populações tradicionais para os elementos e fenômenos naturais, assim como os valores culturais inerentes a esses grupos. As investigações etnocientíficas proporcionam o levantamento de conhecimentos sobre a natureza, acumulados no decorrer de longas gerações e raramente registrados por meios escritos, mas que ainda assim ultrapassam muitas vezes OS conhecimentos adquiridos pelas sofisticadas metodologias da ciência ocidental (Pereira; Diegues, 2010).
Esse conhecimento construído socialmente dentro de uma comunidade tradicional não deixa de ter sua importância pelo fato de não ter nascido na academia, embora sendo posteriormente apropriado pela academia. Segundo Castro (2ooo) e Diegues (1995), o conhecimento dos pescadores com relação aos mares, rios e outros ambientes aquáticos, resultante das atividades de navegação e pesca, constituem-se na base do conhecimento científico atual.
Colaborando com o discurso sobre a importância do saber tradicional, Toledo e Marrera-Baasols (2009) afirmam que, enquanto sistemas culturais, as sabedorias tradicionais baseiam-se nas experiências que se têm sobre o mundo, seus feitos e significados, e sua valorização, de acordo com o contexto natural e cultural onde se desdobram. Os saberes ambientais são apenas uma parte ou fração essencial da sabedoria local.
## III. METODOlOGIA
Para uma pesquisa etnogeomorfológica, acreditamos que o método qualitativo é o que melhor retrata a realidade que se quer estudar. Para Pessoa (2012), a forma de abordagem é qualitativa, quando o pesquisador procura, na sua elaboração, seguir a tradição compreensiva ou interpretativa. É importante a sua imersão no contexto de interpretar e interagir com o objeto estudado, além da adoção de uma postura teórico-metodológica para decifrar os fenômenos. Ainda corroborando com esse pensamento, Minayo (2001, p. 21) afirma que "a pesquisa qualitativa trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis".
Para o desenvolvimento da pesquisa com a comunidade tradicional do Guriú, tivemos como base, mediante algumas adaptações para a pesquisa com o pescador artesanal, o procedimento metodológico apresentado por Ribeiro (2012). A primeira fase consistiu na elaboração de material básico − levantamentos de dados bibliográficos e cartográficos que deram suporte inicial para a elaboração e confecção de roteiro para as entrevistas feitas junto aos produtores pescadores, assim como para a análise geossistêmica da área pesquisada.
Os dados empíricos foram coletados através de observações de campo diretas e intensivas e extensas entrevistas não estruturadas feitas in loco, com pescadores tradicionais nascidos e/ou criados no próprio distrito, e escolhidos a partir do grau de conhecimento que têm sobre o local. E finalizando com a análise de dados na terceira fase.
### a) Levantamento bibliográfico
Em uma pesquisa, há necessidade da realização de uma consulta bibliográfica, tanto para a definição do sistema conceitual da pesquisa e da sua fundamentação teórica, como para identificar o estágio em que se encontram os conhecimentos acerca do tema que está sendo investigado (Gil, 2008).
Para nosso levantamento_ bibliográfico utilizamos como levantamento bibliográfico para a pesquisa, livros, artigos científicos, dissertações, teses, documentos oficiais de instituições governamentais, todos eles acessados via internet por site ou via material impresso.
Para o estudo teórico-metodológico a partir da natureza, selecionamos alguns autores: Humboldt e Ritter, discutidos a partir das obras de Moraes (2014); Carvalho (2003); Pedras (2000); Falcão Sobrinho (2020). Depois, foi feita a leitura da paisagem como perspectiva metodológica na Teoria Geral de Sistemas, especificamente na Teoria Geossistêmica, considerando as obras de Bertallanfy (1975); Bertrand (1968); Casseti (2001); Monteiro (2001); Troll (1997); Christofoletti (1999); Vale (2012) e Ab'Saber (2003); Marques (2001); Ross (1992); Florenzano (2008), entre outros. E, para a paisagem na perspectiva perceptiva, utilizamos as ideias de Oliveira (2009) e Tuan (1980). Ainda dando prosseguimento, porém numa abordagem de como a paisagem pode ser percebida pelos seres humanos, utilizamos os textos de Tuan (1980); Rangel (2012); Verdum (2012) e, principalmente, Sauer (1925).
Para o embasamento teórico acerca do tema etnogeomorfológico, fizemos uso dos textos de Diegues (1996); Toledo (2001); Nunes Jr. et al. (2006); Toledo è Barrera-Bassols (2009); Wilcock (2011); Ribeiro (2012); Corrêa; Marçal; Ribeiro (2015); Lopes; Ribeiro (2016); Ribeiro (2016a, 2016b); Lopes (2017); Lopes; Costa; Ribeiro (2013); Ribeiro et al. (2019); Ribeiro; Albuquerque; Barros (2020), entre outros.
Complementando a base teórica de pesquisa, juntamente com a produção literária, recorrendo aos mapas oficias para a coleta de informações sobre a área, bem como desenvolvendo a elaboração de mapas físicos dos espaços selecionados, levando em conta o espaço físico-natural local.
### b) Reconhecimento do campo
A categoria de análise utilizada por esta pesquisa foi a da paisagem na perspectiva geossistêmica de Sotchava (1977). Nesta perspectiva geossistêmica, os conjuntos de elementos são integrados e indissociáveis e estão em constante evolução.
A pesquisa em campo foi desenvolvida em três etapas. A primeira etapa foi destinada ao aprofundamento da observação da paisagem e coleta de dados sobre ela. Para esse levantamento de dados, foi necessário o registro fotográfico da paisagem e anotações sobre os elementos físico-naturais que foram, posteriormente, utilizados no trabalho de gabinete, na elaboração de mapas e produção textual.
A segunda etapa da pesquisa de campo foi desenvolvida com os pescadores artesanais da comunidade. Essa fase da pesquisa teve por objetivo fazer o levantamento dos conhecimentos da comunidade sobre o relevo em que está inserida, inclusive a sua forma de atuação sobre esse espaço, de como são sujeitos ativos e passivos no seu meio ambiente. As entrevistas semiestruturadas foram feitas com quatorze pescadores artesanais do distrito do Guriú.
Nesta segunda fase do trabalho de campo, estivemos por uma semana em campo, hospedados dentro das comunidades. Para esse momento, colocamos em prática as recomendações de López (1999) para uma pesquisa etnográfica: 1. Caráter holístico (descrever os fenômenos de maneira global em seu contexto natural);
2. Condição naturalista (estudar as pessoas em seu ambiente natural);
3. Usa a via indutiva (se apoia nas evidências para suas conceitualizações e teorias);
4. caráter fenomenológico (os significados se estudam desde o ponto de vista dos agentes sociais);
5. Os dados aparecem contextualizados (as observações se inserem dentro de um contexto amplo), e 6. Livre juízo de valor (não se deve emitir juízo de valor sobre as observações).
### c) Levantamento cartográfico
O levantamento cartográfico é imperativo na pesquisa geográfica. O estudo envolvendo a cartografia oportuniza informações de extrema importância dos espaços geoambientais que compõem a paisagem litorânea do município de Camocim. Os mapas representam partes particulares das regiões selecionadas, como também do todo, ou seja, mapas que representem o sistema ambiental do espaço municipal.
Para a elaboração dos mapas, foram utilizados como base de dados secundários dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (DNiT). Para localização e recortes de estudo, os mapas foram desenvolvidos de forma digital em Sistema de Informação Geográfica (SIG), no software de código livre Qgis, versão 3.16 Hannover.
### d) Entrevistas
Para a entrevista fizemos uso da metodologia utilizada por Ribeiro (2012), sendo adaptada para o homem do litoral. Os critérios levantados para a escolha os entrevistados foram os mesmos utilizados por Ribeiro (2012): pessoas nascidas e/ou criadas no próprio distrito, e escolhidos a partir do grau de conhecimento que têm sobre o local. Segundo Lopes (2017), na pesquisa etnogeomorfológica é substancial que as entrevistas sejam semiestruturadas. A vantagem da entrevista semiestruturada é que ela consiste em um modelo de entrevista flexível, ou seja, por mais que se tenha um roteiro prévio, ela permite que o entrevistado tenha espaço para falar além do que foi perguntado, formando assim um diálogo natural e dinâmico.
Para a pesquisa na comunidade, fizemos uso de roteiro de entrevista e mapa do Google Earth do espaço da comunidade. Após as respostas da entrevista, os moradores receberam um mapa da sua área em uma folha de ofício A4 para que identificassem a localização no mapa dos elementos naturais e culturais que foram citados na entrevista. O mapa com a localização dos elementos naturais citados pelos moradores foi confeccionado trazendo uma legenda com os nomes utilizados na comunidade. Os mapas foram compilados com o objetivo de produzir apenas um mapa completo para cada uma das comunidades pesquisadas.
Nenhum dos entrevistados foi identificado nominalmente. Os moradores da comunidade foram identificados por códigos nos momentos de citações das falas.
### e) Análise de dados
A análise de dados foi concluída de forma minuciosa, à luz do embasamento teórico levantado para a pesquisa. A análise do conteúdo constitui-se como uma técnica de cunho qualitativo, segundo Bardin (2016).
Para atingir o objetivo deste trabalho, foram analisados mapas geoambientais, fotografias do campo, análise das entrevistas, tabulação de dados, construção de um mapa etnogeomorfológico utilizando como fonte os mapas que foram completados pela comunidade.
## IV. Resultado e DiscussÕes
No Guriú há o turismo sazonal, que é aquele muito requisitado nos períodos secos devido aos fortes ventos, essencial para práticas esportivas como o kitesurf e o windsurf. Há o turismo de pessoas que se hospedam na localidade procurando mais tranquilidade e preços mais acessível em comparação à famosa praia de Jericoacoara, e há o grupo que compõem de fluxo turistas que utilizam o Guriú como passagem para as praias e lagoas do município de Camocim ou para a Rota das emoções que vai do Parque Nacional de Jericoacoara aos lençóis maranhenses. A travessia pelo rio é feita por meio de balsas (figura 01) que, tanto transporta pessoas como veículos de passeios.

Fonte: Sousa, R. M. L. (Abr/2023) Figura 01: Balsas do rio Guriú
Por mais que tenha uma vocação turística, no Guriú esse setor econômico não foi o motivo para o nascimento e crescimento desta comunidade. No distrito do Guriú, encontra-se primordialmente uma comunidade tradicional que tem o seu sustento do setor primário da economia, da pesca artesanal e em segundo plano, da agricultura de subsistência. O nosso trabalho no distrito do Guriú se resumiu aos profissionais da pesca artesanal. Esses pescadores, ricos em conhecimentos empíricos, aprenderam a conhecer, interagir e viver no e do litoral. Como citado anteriormente, esses conhecimentos tradicionais adquiridos através das interações direta com o relevo é chamado de conhecimento etnogeomorfológico.
Para o levantamento desses conhecimentos etnogeomorfológicos, desenvolvemos entrevistas com quatorze pescadores locais em idades que vão de setenta e cinco anos até trinta e um anos, sendo a maioria pertencente ao grupo dos quarenta anos, fazendo assim uma média geral de cinquenta e um anos de idade. Dos entrevistados, apenas um não nasceu na comunidade do Guriú embora já resida há sessenta ano nesse lugar. Seu lugar de nascimento foi uma comunidade vizinha chamada Baixa Grande, também pertencente ao município de Camocim.
Suas origens também estão ligadas aos conhecimentos tradicionais etnogeomorfológicos, todos os seus pais estiveram ligados aos conhecimentos da atividade a pesqueira ou da atividade agrícola e todos os nativos da comunidade do Guriú. Dos entrevistados, seis afirmaram que os seus pais pescavam no turno da manhã e no turno da tarde trabalhavam na agricultura. Cinco afirmaram que seus pais somente pescavam e três declararam que seus pais somente plantavam.
A transmissão de conhecimentos para a atividade pesqueira foi repassada de forma oral nos momentos de práticas desenvolvidos pelos pais, de acordo com nove entrevistados, e por parentes, de acordo com cinco dos entrevistados.
Na comunidade pesqueira do Guriú há uma associação de pescadores que conta, inclusive, com sede própria (figura 02). Tal sede está localizada na praia de porto das canoas e que serve tanto para guardar material dos pescadores como para as reuniões ordinárias e extraordinárias da comunidade pesqueira. Todos os pescadores da comunidade são membros da associação, mas nem todos estão ligados à Colônia de Pesca e Aquicultura Z1. Onze deles afirmaram que continuam ligados à Colônia e três declaram que pararam de fazer os devidos pagamentos ao sindicato. A continuação dos pagamentos é o que possibilita ao pescador o recebimento do benefício do Seguro Defeso da lagosta, que é um recurso do governo federal, pago ao pescador artesanal no período da proibição da pesca da lagosta, desde que sua única renda individual ou familiar seja a pesca.

Fonte: Sousa, R. M. L. (Abr/2023) Figura 02: Associação dos pescadores da comunidade do Guriú As canoas (figura 03), como são chamadas as pequenas embarcações de madeiras, chegam a passar até três dias no mar, no entanto apenas seis pescadores responderam que passavam três dias no
mar. Oito responderam que tem o deslocamento diário no que eles chamam de "ída e volta". Todos afirmaram que suas embarcações trabalham com três homens, independente do tempo passado no mar.

Figura 03: Canoas do rio Guriú
Fazaa id êia e volta".
Há uma grande diferença entre os tipos de peixes capturados pelas grandes embarcações de ferro e as pequenas embarcações artesanais. Essa diferença se dá primordialmente pelo local de pesca, ou seja, a distância da praia de cada embarcação e isso interfere no tipo e tamanho de peixe.
Enquanto as embarcações maiores, que conseguem passar um mês no mar e pescar peixes grandes como o atum, se deslocam na plataforma continental até a Zona Contígua com 24 milhas náuticas (Nm). Já as embarcações pequenas de pesca chamada por eles de "ída e volta" (vai na madrugada e volta pela manhã do mesmo dia), se deslocam pelo Mar Territorial que vai até 12 milhas náuticas, ou seja, 22 quilômetros. Sobre os tipos de energia utilizados para o deslocamento, os pescadores entrevistados, doze afirmaram fazer uso de velas de pano e pequenos motores movidos à combustível fóssil, um falou que faz
uso exclusivo de motor e outro falou que faz uso exclusivo de vela.
Os peixes capturados pelos pescadores artesanais (quadro 1) são, na sua maioria, peixes pequenos e, de acordo com dez pescadores entrevistados, essa produção está diminuindo. Dos que acreditam que está diminuindo, quatro citam da pesca predatória como causadora da diminuição da disponibilidade do pescado, dois afirmaram ser o aumento da quantidade de embarcações e um afirma ser a implantação das redes de pesca, sendo que anteriormente a pesca nas canoas se davam exclusivamente de linhas de pesca e anzol.
As redes de pesca, linhas de pesca e manzuás (armadilha em forma de gaiola para a captura da lagosta) são utilizadas por nove dos entrevistados, dois responderam que utilizam rede e linha, um respondeu que utilizava rede e manzuá e apenas um afirmou fazer uso exclusivo da rede de pesca. Todos afirmaram que, mesmo tendo a rede como prioridade, chegam a fazer pequenas pescarias de linha e anzol enquanto passa o tempo afinal eles colocam a rede e esperam por um tempo para puxá-la.
Para esse trabalho exclusivamente com a linha e o anzol, doze dos pescadores afirmaram utilizar o peixe sardinha, pescada por eles mesmo, como isca, um afirmou utilizar camarão de viveiro e pedaços de outros peixes e um disse utilizar como isca exclusivamente pedaços de peixes, de preferência, o peixe bonito.
Quadro 1: Produção pesqueira da comunidade do Guriú
<table><tr><td colspan="5">Avaliação do pescado</td></tr><tr><td rowspan="2">PEIXE</td><td colspan="4">Número declistações</td></tr><tr><td>Mais pescados</td><td>Mais valioso</td><td>Menos valioso</td><td>Priorizado para oconsumo</td></tr><tr><td>Serra</td><td>13</td><td>10</td><td>-</td><td>11</td></tr><tr><td>Garajuba</td><td>8</td><td>1</td><td>-</td><td>7</td></tr><tr><td>Cavala</td><td>6</td><td>9</td><td>-</td><td>2</td></tr><tr><td>Bonito</td><td>6</td><td>-</td><td>6</td><td>2</td></tr><tr><td>Ariadó</td><td>4</td><td>2</td><td>-</td><td>-</td></tr><tr><td>Coró</td><td>2</td><td>-</td><td>-</td><td>-</td></tr><tr><td>Caíco</td><td>2</td><td>-</td><td>6</td><td>-</td></tr><tr><td>Biquara</td><td>1</td><td>-</td><td>-</td><td>-</td></tr><tr><td>Carapeba</td><td>1</td><td>-</td><td>1</td><td></td></tr><tr><td>Pescada Branca</td><td>1</td><td>-</td><td>-</td><td>3</td></tr><tr><td>Camurupim</td><td>1</td><td>-</td><td>-</td><td>1</td></tr><tr><td>Sardinha</td><td>1</td><td>-</td><td>1</td><td>1</td></tr><tr><td>Cavalinha</td><td>-</td><td>-</td><td>-</td><td>1</td></tr></table>
Sobre a percepção ambiental notou-se um amplo conhecimento sobre os elementos naturais do seu lugar. Perguntados sobre a forma de orientação noturna quando estão no mar, onze pescadores afirmaram que se baseiam pelos "gaisames", que são reflexos das luzes dos espaços urbanos, e houveram cinco menções aos planetas. Para a localização diurna, foram citados igualmente, os ventos, os serrotes de Jericoacoara e da Tiaia e os ventos. Levando em conta a massificação dos eletrônicos, três dos pescadores entrevistados (46, 48 e 49 anos) falaram que, mesmo fazendo uso dos elementos da natureza, fazem uso do Sistema de Posicionamento Global - GPS dos celulares para a se localizarem.
Questionados sobre a percepção de mudanças no nível do mar, todos os pescadores afirmaram ter notado a mudança, afirmaram que perceberam um aumento no nível do mar. Muitos, inclusive, afirmaram que seus pais já relatavam sobre a mudanças do nível do mar no sentido de aumento. Relatando sobre as experiências dos seus pais, o pescador MG01 (75 anos) afirma que "há uns 100 anos houve um nível alto, baixou e agora está voltando a crescer novamente", esse entendimento vai de encontro com o relato do pescador MG14 (49 anos) que diz que "onde o mar botou, ele bota de novo" e completando esse conhecimento, focando na relatividade das dinâmicas naturais, o pescador MGo4 - 45 anos diz que "tem lugares que ele entrou mais e tem lugares que ele entrou menos". Para os pescadores, esse aumento do nível do mar tem vários fatores, estamos em destaque citado por nove pescadores, a causa de fenômeno natural, dois pescadores citaram a poluição, e com uma citação, estão a degradação ambiental, o turismo e o aquecimento global. Diante das afirmações, poderíamos sintetizar dizendo que nove pescadores citaram que o aumento do nível no mar se dá por questões naturais e cinco afirmaram que era devido a ação antrópica.
Objetivando captar o grau de percepção dos entrevistados sobre a paisagem local, foi perguntado aos pescadores sobre quais elementos da paisagem ele percebia no seu lugar (mapa 02). Os maiores números de menções foram para rio, dunas e mangue, sete cada uma. Em seguida, mar e praia receberam seis menções, lagoas de dunas e ilhas receberam uma, cada. A camboa foi citada por três pescadores, camboa é um estreito por onde a água entra no período de mará alta, chagando a seca totalmente nas marés baixas, e eles chamam de camboa, o próprio rio Guriú.

Fonte: Sousa, R. M. L (2023) Mapa 02: Elementos geoambientais da paisagem do Guriú
Sobre outras mudanças percebidas na paisagem todos os pescadores foram unânimes em afirmar que a maior mudança percebida na paisagem do Guriú está relacionada a quantidade de sedimentos que são lançados anualmente pela força eólica sobre o rio e sobre os mangues locais (figura 04). Segundo eles, os sedimentos estão aterrando o leito do rio fazendo com que fique mais raso na sua foz, matando manguezal e realocando a foz do rio. Corroborando com essa afirmação, todos afirmaram que as forças naturais mais atuantes nos processos ambientais locais seriam o mar e o vento. Essa interligação segundo o pescador MGo7 (45 anos) ocorre porque "é tudo o mesmo sistema".

Figura 04: Dunas da foz do rio Guriú
FS Foaquaúizano squêi sobre as dunas da margem direita do mesmo rio.
A figura acima retrata as consequências da dinâmica eólica nessa paisagem. Levando em conta esse cenário, os pescadores afirmam que os mangues são divididos em dois, um que "morreu por conta da areia" de acordo com MGo6 (56 anos) e o outro preservado encontrado mais distante da foz.
Atualmente o mangue aterrado pelos sedimentos trazido pelo vento, é um dos principais pontos turísticos no distrito do Guriú (figura 05). É a porta de entrada do território camocinense para quem entra por Jijoca de Jericoacoara. Nesse mangue suas árvores mortas provocam uma visão única da paisagem litorâneas cearense, sendo ponto de instalação de várias barracas de praia e passagem de veículos. Esse espaço do mangue aterrado recebeu o nome de "mangue seco do Guriú".




Figura 05: Mangue seco do distrito do Guriú.
Fo rio Guriú.
Como supracitado, os pescadores afirmam que o rio Guriú é na verdade uma camboa. Buscamos resolver essa questão em três frentes, através de Figura 06: Percurso do rio Guriú pesquisa no Eart google, através de pesquisa de campo e através dos próprios relatos dos pescadores com perguntas no decorrer da pesquisa (figura 06).

Figura 06: Percurso do rio Guriú
Elaborado por Sousa, R. M. L. Fonte: https://earth.google.com/web/search/Camocim+Cear%c3%a1+Brasil $@$ -2.87220042, 40.55620518,20.07787748a,15433.61704763d,35y,0h,0t,Or/data $=$ CigiJgokCWDIrnhfVQfAEYQRa0ZilIQfAGSK880BKgUTAIQtOdenM UTA. Acesso 14 de abril de 2023
Após a afirmação de alguns pescadores de que o rio seria apenas um braço de mar, resolvermos fazer uma averiguação dos fatos (figura 07). Nessa investigação, primeiro ser buscado foi a imagem de satélite do rio, posteriormente, demarcamos no mapa os lugares que seriam visitados para os registros de elementos mostrasse a natureza desse recurso hídrico. Por último foi feito um estudo de campo para observação in loco e registros fotográficos. Os elementos pesquisados foram: solo, vegetação, relevo e leito do rio.




Figura 07: Anexo da imagem do percurso do rio Guriú
Fo: So So agiloso s margnsegetação cnaa nonaa m de mananciais de água doce; C Planície fluvial; D ponte sobre o leito estreito do rio.
Nos relatos dos pescadores, todos afirmaram que o rio vai até o "Córgo" (Córrego) da Forquilha, ou seja, eles reconhecem este como sendo um dos mananciais que alimentam o rio, eles também sabem que esse córrego pertencente ao território de Jijoca de Jericoacoara. Todos afirmaram também que no "inverno" (período chuvoso) a água do rio muda, ficando amarelada e muito barrenta inclusive, deixando o solo do rio bem mais lamoso e barrento.
A pesquisa de campo juntamente com o relato dos moradores e averiguação de todos os dados levantados nos leva a concluir que, o que os pescadores do Guriú chamam de camboa é, de fato, um rio.
Neste e em outros casos, é nítido o entendimento dos pescadores de forma geossistêmica. Por mais que tenham uma visão equivocada de algo, como é o caso acima citado, eles entendem que existem uma interligação entre vários elementos onde um consegui interferir no outro em proporções diferentes e no tempo e no espaço.
Como foi supracitado, no levantamento das informações sobre o rio, os pescadores citaram o mangue como elemento natural que se destaca. O mangue nasce exclusivamente da junção da água doce com a salgada de uma mistura de elementos como silte, argila e matéria orgânica que estão sob a influência das marés. A maioria dos pescadores consideram que a maior destruição do mangue era o aterramento provocado pelas areias transportadas das dunas de Jericoacoara e que esta é uma dinâmica natural dos ventos. Segundo eles, a sequência desse processor será o carregamento desses sedimentos sobre o mangue através da dinâmica das marés. Eles acreditam que a maré se encarregará de levar a areia do extrato superior deixando que o mangue renasça novamente em um processo cíclico.
Sobre a extração animal nos mangues do Guriú, os relatos mostram que a pesca do caranguejo é pequena, assim como a destruição da vegetação através da aquisição dos madeira. Como o fato de maior impacto ambiental sobre o mangue, os pescadores apontam a carcinicultura local. Eles relatam que há a liberação de resíduos provenientes dos tanques de criação de camarão e teme que possa a vir a prejudicar a pesca sendo que eles reconhecem a importância do manguezal enquanto berçário dos peixes.
Segundo o Departamento Nacional de Produção Mineral - DNPM (2000) levando em conta a suscetibilidade a processos condicionantes de riscos geológicos, na região do Guriú, existe a presença de uma intensa dinâmica sedimentar, com processos de mobilização eólica de areias (migração de dunas) e erosão da linha da costa, e ainda e considerado um trecho do litoral que experimenta acelerado processo de recuo da linha da costa (erosão marinha). Essas afirmações fruto de pesquisas do DNPM vão de encontro aos conhecimentos empíricos dos pescadores aqui relatados, provando que a vivência e interação com os elementos naturais do lugar, também promovem o conhecimento (figura 08).
Além dos etnoconhecimentos abordados, os pescadores artesanais do Guriú também conseguem fazer a leitura das interligações entre luas, marés e pescaria. Segundo o pescador MGo3 (43 anos) "As luas Cheia e Nova formam marés grande e ela é ruim porque a maré corre demais", o pescador MG11 (31 anos) afirma que "A lua no meio do céu é melhor para pescar", ou seja, de acordo com a fala dele, ele estava se referindo às fases da lua quarto crescente e quarto minguante. Além de saberem a melhor fase da lua para a pescaria, eles também relataram que o melhor tempo para pescar é no "inverno", que na verdade eles se referem ao período chuvoso do primeiro semestre do ano. Segundo eles, o "inverno" é bom porque tem menos ventos e o mar fica menos agitado e com ondas menores. Houveram vários relatos de colegas dos entrevistados que se "alargaram" no mar do período dos ventos fortes, "alargar" quer dizer, sofrer um naufrágio.

Figura 08: Os pescadores do porto do Guriú
Fnt: SousaRr/Afoto mostraomomento equuma canoa chegadoacercadapor curo, comerciante e consumidores em busca de comprar peixe fresco.
As comunidades tradicionais desenvolvem um linguajar próprio para se referirem a elementos e os fenômenos da natureza, esse linguajar é natural entre os trabalhadores do mar (quadro 2). Esses conhecimentos fazem parte do acerco repassado oralmente por gerações pela comunidade tradicional. Abaixo, apresentaremos um quadro contendo uma coluna com os elementos e fenômenos conhecidos pela ciência e na segunda coluna, a forma como esse elemento ou fenômeno é chamado pelas comunidades.
Quadro 2: Etnoconhecimentos do Guriú
<table><tr><td>CIENTÍFICO</td><td>ETNOCONHECIMENTOS</td></tr><tr><td>Fartura de Peixe</td><td>Correção</td></tr><tr><td>Corrente Marítima</td><td>Correnteza, Carreira d'água</td></tr><tr><td>Foz de rio</td><td>Boca da barra, Quebra mar</td></tr><tr><td>DepoSito de sedimentos no rio</td><td>Crôa</td></tr><tr><td>Máre alta</td><td>Maré cheia</td></tr><tr><td>Maré baixa</td><td>Maré seca</td></tr><tr><td>Vento matinal</td><td>Terral</td></tr><tr><td>Vento vespertino</td><td>Vento do mar</td></tr><tr><td>Ventos fortes</td><td>Leste, Ventos de cima</td></tr><tr><td>Elevação doível do mar</td><td>Mar brabo</td></tr></table>
Averiguando a opinião deles sobre os impactos da indústria turística sobre a paisagem do Guriú, eles afirmaram que o turismo proveniente do Parque Nacional de Jericoacoara não destrói a natureza, afinal a areia que está aterrando parte do mangue é trazida por conta da força dos ventos e não por conta dos carros de passeios eles acreditam que o turismo beneficia o lugar com um bom fluxo financeiro (figura 09), pois eles passaram a vender mais pescados com o aumento do fluxo turístico para as hospedagens do lugar e para barracas de praia.

Fonte: Sousa, R. M. L. (Abr/2023). A imagem mostra o único hotel do distrito. Figura 09: Hotel localizado nas margens do rio Guriú
Fazendo parte do segundo momento das entrevistas, os pescadores nomeavam os elementos geográficos locais com a ajuda de uma imagem da região adquirida através do Google Earth. Na tabulação dos dados colhidos surgiu o mapa etnogeomorfológico abaixo que materializa a renomeação dos elementos geográficos locais.


Mapa 03: Mapa etnogeomorfológico do Guriú.
Fonte: Sousa, R. M. L. (2023)
[^1]: Conhecimento adquirido através da observação e da experiência, é um conhecimento popular. _(p.3)_
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How to Cite This Article
Rejane Maria Lima de Sousa. 2026. \u201cThe Ethnogeomorphological Vision of Artisan Fishermen from the Community of Guriú, Camocim-Ceará\u201d. Global Journal of Human-Social Science - B: Geography, Environmental Science & Disaster Management GJHSS-B Volume 24 (GJHSS Volume 24 Issue B2).
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