## I. O Escritor Moacyr Scliar
oacyr Scliar nasceu em Porto Alegre em 23 de março de 1937. Seus pais vieram da Europa para tentar uma vida social e econômica mais estável na América. Sua vida literária começou desde cedo influenciado por sua mãe que era professora e mostrou a ele um mundo de boas literaturas. Scliar formou-se em Medicina em 1962 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, exerceu a profissão no Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU), publicou seu primeiro livro no mesmo ano, sob o título Histórias de um médico em formação. Depois desse livro, suas obras literárias não pararam mais, no conjunto da produção literária do escritor Moacyr Scliar (1937-2011) figuram mais de setenta livros de gêneros diferenciados, tais como romances, ensaios, crônicas, ficções infanto-juvenis e contos, escreveu crônicas por mais de quarenta anos.
O escritor gaúcho teve suas obras publicadas em mais de vinte países e foi laureado quatro vezes com o "Prêmio Jabuti" (em 1988, 1993, 2000 e 2009), respectivamente, pelas obras O olho enigmático (categoria Contos), Sonhos tropicais (categoria Romance), A mulher que escreveu a Bíblia (categoria Romance) e Manual da paixão solitária (categoria Romance, também escolhida obra de Ficção do Ano). Além de colaborador em vários órgãos da imprensa no país, como a Folha de São Paulo e o Jornal Zero Hora (RS), Scliar foi membro da Academia Brasileira de Letras a partir do ano 2003.
Segundo Manuel da Costa Pinto, a obra de Scliar é perpassada por duas influências: uma é sua condição de filho de emigrantes o que o torna um grande conhecedor de um alegórico humor judaico, o que o torna um "exímio contador de histórias" com "um pendor para a oralidade, a galhofa e o erotismo que lhe dá uma identidade genuinamente brasileira". A outra influência advém da sua formação como médico de saúde pública, porta de entrada para a realidade social do Brasil (PINTO, 2004, p. 108-110). O escritor portoalegrense é autor da tese de doutorado Da Bíblia à psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica (1999). Nisso se verifica que, em muitas ocasiões, Scliar valeu-se de seus conhecimentos médicos como materiais para as suas criações literárias, o que se nota no fato de o escritor gaúcho ser autor de vinte e uma obras com temática médica.
Ao que parece, Scliar tinha orgulho de também ter sido professor. Isso se verifica no final de A linguagem médica (2002), que traz a seção "Sobre o autor". Nesse segmento do livro, o próprio Scliar se apresenta com todas as suas credenciais: escritor, médico, doutor em ciências e professor de medicina preventiva da Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (SCLIAR, 2002, p. 78-79). No ano de 1993, por um semestre, Scliar também foi professor na Brown University, em Providence, Rhode Island. Ele narra isso com muita satisfação em sua autobiografia, intitulada O texto, ou: a vida: uma trajetória literária. Na ocasião, ele ministrou um curso sobre medicina e literatura, sendo muito bem recepcionado, inclusive sendo "convidado a participar da cerimônia de abertura do ano letivo, em que professores usando a tradicional toga desfilariam diante dos alunos" (SCLIAR, 2007a, p. 25).
## II. A CrôniCA e O Cronista SclIaR
Prefaciando o livro que contém as Melhores Crônicas de Scliar (Editora Global), o professor Luís Augusto Fischer explica que a palavra crônica é derivada do latim chronica: relativo a tempo, traduz o relato ou narrativa de fatos dispostos em ordem cronológica, histórias escritas conforme a ordem do tempo. Essa foi a primeira definição, já que o termo "crônica" migrou desde o domínio do relato histórico até o domínio do literário, logo depois passou a ser utilizado com sentido generalizado na literatura em um gênero especifico ligado ao jornalismo. Mencionando outros estudiosos, Fischer comenta que, para alguns, essa mudança é posterior a 1985, já para Afrânio Coutinho a alteração ocorreu no século XIX, não havendo certeza se em Portugal ou no Brasil. Para Afrânio Coutinho, a crônica brasileira começou com Francisco Otaviano de Almeida Rosa em um folhetim do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, depois dele vieram grandes cronistas da história brasileira entre eles estão José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac, etc. (FISCHER, 2004, p. 7-10).
Fischer pondera que a crônica, no entanto, não se encaixava em nenhum gênero definido por Aristóteles (o épico, o lírico e o dramático). O que ocorria é que ela era praticada em diários, literalmente e impressas em jornais onde eram lidas e abandonadas em seguida. Com o decorrer dos tempos, escritores como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Nélson Rodrigues, entres outros impuseram uma alteração de como a crônica era tratada, então surgiram dois movimentos que redefinem o quadro da crônica na cultura brasileira, um deles tem a ver com a frequências em que grandes nomes da literatura a utilizavam e outro porque a crônica sendo diária teria um papel enorme no amaciamento da língua preparando-a, assim, para maiores capacidades da cultura. Considerado um filósofo da crônica, Nélson Rodrigues assegurou a importância desta por ressaltar que esse gênero está relacionado com a domesticação da língua o adestramento do português - é por tudo isso que a cultura brasileira incorporou a crônica fazendo com que não ficasse somente nos jornais diários e também fosse parar em livros, chamando-a, assim, de crônica moderna (FISCHER, 2004, p. 9-11).
Após a inserção da crônica na cultura brasileira poderia ela ser considerada um quarto gênero literário, irmão do épico, do lírico e do dramático, incorporando assim uma grande quantidade de textos já escritos aparentados da crônica, textos estes utilizados escritos para relatar e comentar a vida real. (FISCHER, 2004, p. 7-11).
Dentre os escritores das crônicas modernas está Moacyr Scliar, praticante do gênero há mais de três décadas. Considerado um dos maiores cronistas, escrevia regularmente em jornal, primeiramente escrevia em jornais importantes de Porto Alegre, cidade de seu nascimento, até chegar aos jornais da grande metrópole São Paulo. Com o passar dos anos aprimorou a mão, o poder de síntese e o seu olhar crítico, mas a alma do cronista permaneceu a mesma do começo ao fim de sua carreira. O escritor também era um grande defensor da crônica na literatura brasileira. Para Scliar, a crônica era sim um gênero literário importante; seu uso, contudo, era mais ou menos imediato, diferente da ficção, gênero no qual uma boa ideia pode ficar amadurecendo por anos (FISCHER, 2004, p. 7-17).
Os cronistas eram considerados poetas do que acontecia no dia-a- dia, inspirados pelos eventos do cotidiano, dando-lhes um toque próprio, incluindo elementos de ficção, fantasia e criticismo. Moacyr Scliar vai mais longe: convida o leitor a refletir e buscar respostas, o escritor também põe em evidência a literatura e as artes como meio de suas críticas, escrever para Scliar era indagar uma busca por respostas muitas vezes não existentes, escrever para que seus leitores fossem cúmplices de suas interrogações. De acordo com Nubia J. Hanciau, "a partida de Scliar abriu uma lacuna difícil de ser preenchida por outros cronistas" restando aos leitores "o consolo da (re) leitura da variada abordagem e multiplicidade de assuntos que [Scliar] tratava, publicados em livros" (HANCIAU, 2012, p. 116-117).
As crônicas escritas por Moacyr Scliar foram inspiradas nas notícias do jornal Folha de São Paulo. Antes de serem compiladas no livro O imaginário cotidiano, as crônicas foram publicadas originalmente na seção "Cotidiano" do referido jornal. O processo de criação de Scliar precisa de um elemento desencadeante e, nesse processo, a notícia publicada no jornal é importante, conforme ele mesmo admite numa entrevista concedida à professora Regina Zilberman:
No meu caso o processo criativo começa com algum "fator desencadeante", que pode ser um episódio histórico, uma pessoa que conheci, uma história que me contaram, uma notícia de jornal... Daí em diante é uma incógnita. Sou muito rápido escrevendo para jornal, mas quando se trata de uma ficção mais longa é diferente; aí períodos de rapidez se alternam com outros de muita lentidão, resultante de dúvidas que vão desde a questão do foco narrativo até a incerteza quanto à validade do projeto (não foram poucos os que abandonei). No caso de Vendilhões, foram dezesseis anos desde a ideia inicial até a conclusão; reescrevi muitas vezes. Mas isto é normal numa tarefa que, afinal, implica uma aventura no desconhecido de nossas mentes... (ZILBERMAN, 2009, p. 118, grifo nosso)
O fragmento supracitado é referente a uma entrevista concedida pelo escritor gaúcho em 2009, quando para ele já era comum elaborar textos a partir de notícias de jornais. Ocorre, porém, que há muito tempo Scliar escreve para jornais. Em sua autobiografia, intitulada O texto, ou: a vida: uma trajetória literária, Scliar afirma:
Em 1974 comecei a escrever para o jornal Zero Hora de Porto Alegre. É uma experiência no mínimo curiosa passar da página do livro para a página do jornal. Sim, em ambos os casos trata-se de texto impresso, destinado a um público, mas as diferenças são grandes, e históricas. Para começar, o livro, tal como o conhecemos, surgiu antes do jornal; é do século quinze, enquanto o jornal só aparece no começo do século dezessete. [...] Os escritores escreviam para a eternidade; os jornalistas estavam presos aos assuntos do momento, nem sempre agradáveis. Escritores falavam mal do jornal [...] Os escritores podiam fazer pesquisas formais, mesmo que estas resultassem em textos obscuros; os jornalistas tinham, e têm, a obrigação da clareza. (SCLIAR, 2007a, p. 237-238)
Esse fragmento é parte do sexto capítulo da autobiografia scliariana. Na sequência da explanação acerca do embate entre o livro e o jornal, Scliar pondera que em nosso país "surgiu um gênero que se tornou o elo de ligação entre literatura e o espaço jornalístico: a crônica". No jornal, a crônica é "um respiradouro, uma brecha na massa não raro sufocante de notícias" (SCLIAR, 2007a, p. 239). Nesse contexto, reafirma-se que Scliar tinha como hábito compor suas obras a partir de outros textos já existentes: além de utilizar os textos publicados em jornal o autor também utilizava textos de passagens bíblicas (SCLIAR, 2002, p. 05)1.
Nas obras escritas pelo autor fica evidente que ele utiliza os acontecimentos cotidianos, suas lembranças de infância e textos teóricos e históricos como "inspiração", dando a estes acontecimentos um toque de humor, deixando claro que todo autor tem um jeito próprio de escrever. Perguntado em uma entrevista sobre qual seria o seu jeito de escrever, Scliar respondeu:
Um conto, ou uma crônica para o jornal, eu os escrevo de uma sentada; não só porque são textos mais curtos, como também para transmitir intacta ao papel a carga emocional que os gerou. No caso do romance é diferente: ideias vão me ocorrendo ao acaso, sobre o tema que escolhi, e então vou escrevendo cenas ficcionais, sem nenhuma ordem: um trecho do meio, o final, o começo. Uso para isso qualquer pedaço de papel que me caia nas mãos. Depois que os fragmentos se acumularam em quantidade suficiente, procuro, através deles, encontrar o fio da história, à qual dou então uma redação - mas que ainda é provisória, e escrita à mão. Só depois é que vou datilografar. O que não encerra o processo; depois vem cortar fora, reescrever, colar por cima. (SCLIAR, 1988, p. 5)
## III. Textos Com Personagens Professores
Desde sua infância o escritor Moacyr Scliar teve o papel do professor muito presente em sua vida, pois sua mãe era professora e o estimulava desde cedo à leitura de bons livros (SCLIAR, 2007a, p. 36-38, 40). Isto levou o escritor a se acostumar com a literatura e despertou-lhe a fantasia pela ficção, o escritor fez parte da geração de judeus brasileiros, cujos pais deixaram a Europa buscando uma melhor oportunidade de vida na América. O escritor escreveu crônicas por aproximadamente quarenta anos, sendo considerado "um dos mais importantes cronistas da literatura brasileira das décadas finais do século XX e primeira do século XXI" (ZILBERMAN, 2012, p. 10). Algumas crônicas do livro O imaginário cotidiano trazem o professor como personagens que representavam alguns aspectos da sociedade, visto às vezes como personagem principal, outras vezes como personagens secundários.
Das crônicas que trazem professores como personagens, destacam-se "Os estranhos caminhos da Internet" e "A ilegível caligrafia da vida". Nessas, os docentes são universitários, mas suas enraizadas formações não os impedem de se verem em situações difíceis de se resolver, situações em que os conhecimentos acumulados não trazem solução para as crises que surgem na vida deles. A primeira crônica mencionada tem como texto motivador a notícia "Aluno compra trabalho escolar da Internet". Seu enredo pode ser resumido assim: cansado da carreira na universidade e se sentindo insatisfeito com seu baixo salário, um professor decide pedir demissão e instalar um site na Internet com o objetivo de fazer trabalhos acadêmicos por encomenda. Isso "era uma coisa que muita gente estava fazendo e na qual ele esperava sairse bem". (SCLIAR, 2002, p. 55). A princípio, a iniciativa dele não estava tendo êxito, já que os pedidos de trabalhos que recebia eram pequenos e quase não rendiam financeiramente. Ele estava ficando desanimado quando "veio uma encomenda grande: um estudante de uma obscura faculdade do interior precisava de um trabalho de mestrado e deveria ser entregue com urgência: cinco dias". O cliente era filho de um próspero industrial e "estava disposto a pagar uma substancial quantia, muito maior que o preço de tabela" (SCLIAR, 2002, p. 55-56). Entusiasmado com a proposta, o professor se lançou ao desafio, mas logo percebeu que não daria conta, pois "se tratava de missão impossível" e o seu "nervosismo" era dominante. Na sequência, o narrador aponta o desfecho:
De repente, [o professor] lembrou-se de algo.
Sua tese de mestrado. Tinha-a pronta, guardada na gaveta. Nunca chegara a apresentá-la não valia a pena, já que não pretendia continuar ensinando. Pensara até em jogar fora aquele erudito, e, a seu ver, inútil estudo. Agora, porém, poderia aproveitá-lo. Antes que os remorsos o acometessem, colocou a tese num envelope e enviou-a ao aflito mestrando.
Na semana seguinte recebeu uma carta. Continha o polpudo cheque, tal como havia sido combinado, e uma cópia do parecer da banca sobre o trabalho: entusiastas apreciações, rasgados elogios.
O professor suspirou. Ao fim e ao cabo, tinha encontrado uma espécie de glória. E teve de concluir: são mesmo muito estranhos os caminhos da Internet. (SCLIAR, 2002, p. 56)
O final da crônica se contrapõe ao início desta. O professor que estava desiludido com sua carreira soluciona o problema do mestrando e agora "tinha encontrado uma espécie de glória", além de uma soma vultosa de dinheiro. Ele encontrou satisfação e realização não numa sala de aula, mas nos "estranhos caminhos da Internet". Ou seja, sua satisfação veio do mundo virtual, não do real. O mundo virtual trouxe o retorno financeiro que o mundo real não lhe proporcionou. Por outro lado, surgem duas indagações: se, no decorrer da sua vida, o professor tivesse apresentado sua tese de mestrado, será que ele não teria conseguido mais reconhecimento profissional e financeiro em sua carreira universitária? Por que ele se absteve de apresentar suas pesquisas anteriormente? Numa outra perspectiva, duas qualidades desse docente são constatadas no texto: ele tem coragem para tentar algo novo e ele tem um diálogo com sua companheira. Quando decide deixar de lecionar e fazer trabalhos sob encomenda ele compartilha essa decisão com ela: "Finalmente vou tirar algum proveito do meu conhecimento, disse à esposa" (SCLIAR, 2002, p. 55).
Segundo Diniz (2015, p. 65-67, 115), no conjunto da obra de Scliar a temática de professores insatisfeitos com sua profissão e em busca de outra fonte de renda não é incomum. Nos romances A mulher que escreveu a Bíblia e Os vendilhões do templo há professores de história que decidem mudar de profissão. Na terceira parte de Os vendilhões do templo há um docente que se torna um comerciante popular. Armando ensinava História, tinha publicado um livro sobre a fundação da cidade e por isso tinha prestígio. Mas "ganhava muito pouco no colégio público em que lecionava; mal conseguia sustentar a família, mulher e quatro filhos, um deles doente. Depois de relutar muito, decidiu mudar de profissão". Essa mudança a princípio trouxe revolta, porém em pouco tempo ele passou a ser um entusiasmado vendedor, pois via utilidade em tudo que vendia - como os relógios - ao mesmo tempo em que se sentia feliz quando explicava para o cliente como funcionavam os objetos comercializados (SCLIAR, 2006, p. 226, 227). Comentando essa mudança ao narrador, ele diz:
Quando estou vendo um relógio, quando explico como funciona, estou ensinando, como ensinava história aos meus alunos. Só que agora ensino para gente que quer aprender, e não para garotos indiferentes que bocejavam e olhavam pela janela enquanto eu me esgoelava por um salário de merda. Meu livro sobre a fundação da cidade, que aliás não vendeu nada, custava mais que um Casio com calculadora. E com esse relógio o cara vê a hora, o dia, e pode fazer cálculos, pode descobrir que percentagem de seu salário vai para comida, para vestuário, vai para o aluguel. (SCLIAR, 2006, p. 227)
O resultado dessa boa vontade para trabalhar é que nesse segmento do romance Armando é o personagem que vai mais longe. O narrador o apresenta como um ex-professor de História que ganhando muito pouco na docência se torna um camelô. Com isso, Armando não fica rico, ganha apenas o suficiente para sustentar sua família com dignidade. De modo semelhante, no livro A mulher que escreveu a Bíblia há um prefácio ficcional, composto de oito páginas, nas quais o narrador rememora como se tornou um professor de História por influência de seu pai. Logo após concluir o curso, ele se tornou um profissional frustrado, cansado do baixo salário e do desinteresse dos alunos. Comenta Diniz (2015, p. 68- 69) que esse narrador-docente decidiu tomar uma última tentativa antes de desistir da profissão: propor uma atividade, "uma encenação na qual cada aluno deveria representar um personagem histórico" (sCLIAR, 2007, p. 8). A ideia atraiu a atenção dos discentes e um deles outrora muito humilde continuou a agir como um príncipe mesmo depois do término do trabalho de representação na escola. O professor de História acabou agindo semelhantemente ao aluno, pois se acreditou ter as qualificações para ser um terapeuta de vidas passadas e abriu um consultório para atender pessoas, obtendo muito êxito nessa nova profissão (SCLIAR, 2007, p. 10-14).
Diferentemente dos professores que mudam de profissão, a obra de Scliar tem seus contrapontos. Trata-se de mais uma personagem anônima - "uma professora universitária, com doutorado na França e livros publicados" (SCLIAR, 2002, p. 179). Aqui é bom salientar que praticamente todas as personagens do livro O imaginário cotidiano são anônimas e nessa obra há muitas crônicas que abordam personagens exercendo diversas outras profissões. Há o técnico de futebol ("O futebol e a matemática"), os executivos ("O beijo no escuro"); o entrevistador ("Fantasias no banheiro"), o vendedor ("A cor dos nossos juros"), o artista plástico ("O mistério do cemitério virtual"'), os cientistas ("A prova do amor"), a faxineira ("Sonho ovular"), editor e repórter ("Uma história de Natal"), cobrador ("Cobrança"). Todavia, os únicos personagens que são explicitamente mencionados como sendo bem-sucedidos financeiramente são o casal formado por um executivo de uma grande multinacional e uma gerente de uma cadeia de lojas ("A agenda do sexo"), o marqueteiro ("O Outro") e o médico de "A ilegível caligrafia da vida". Esse médico, além de próspero, é famoso e é o marido da docente universitária mencionada no início desse parágrafo. Eles estavam enfrentando uma crise conjugal, conforme assinala o narrador: "a verdade é que não se entendiam. Nas festas, nas recepções, nos jantares com os amigos, tudo bem; mal chegavam em casa, porém, as máscaras caíam e começavam as brigas" (SCLIAR, 2002, p. 179). Além disso,
Ele a acusava de hipócrita, de falsa esquerdista; ela sustentava que o marido não passava de um arrogante, de um autoritário. Mas uma noite, depois de uma discussão particularmente amarga, ele perdeu a paciência e desafiou:
Você diz que sou autoritário. Você diz que sou arrogante. Muito bem. Prove. Prove o que está dizendo e prometo que nunca mais agredirei você.
Dias se passaram, dias de tenso silêncio entre os dois. Então, uma noite, voltando para casa, ele encontrou-a radiante, um brilho de triunfo nos olhos:
Veja o que chegou para você.
Era uma receita dele. Junto, um bilhete do paciente a quem se destinara a prescrição. Um bilhete desaforado: o homem dizia que, com a tal receita, percorrera várias farmácias sem que ninguém - ninguém - tivesse conseguido decifrar o que estava escrito ali. E concluía: "Escrever de maneira que não se possa entender é uma manifestação de arrogância".
Viu? disse ela, deliciada. Você é arrogante. Não sou eu quem o diz, é o seu paciente. (SCLIAR, 2002, p. 179- 180)
Com essa afirmação, o marido - caracterizado como charmoso, elegante, famoso e culto (SCLIAR, 2002, p. 179) se sente muito humilhado e sai de casa sem dizer uma única palavra. Ele faz as malas e foi para um flat. A esposa fica com muita saudade e pensa em telefonar para ele, mas tem receio, "afinal, saíra de casa ofendido, magoado. Poderia até bater o telefone". Quem toma a primeira iniciativa para reatar é o médico, que lhe envia uma carta reconhecendo sua arrogância e a sua conduta autoritária. Ele declara que "estava disposto a se tornar outra pessoa". A mulher fica impressionada não só com o conteúdo comovente do texto, mas principalmente com a letra bonita e caprichada da carta. Desconfia que a letra não seria dele, a menos que tivesse treinado no flat e tivesse conseguido aperfeiçoar sua escrita. Essa situação a faz lembrar daquelas situações em que o aluno capricha na caligrafia para impressionar o professor. Ela conclui que não conseguiria saber a "autoria" da letra, pois o que Ihe importava era ter o marido de volta. Ela "tinha certeza agora de que a vida escreve bonito, mesmo com letra muito feia. E isso era tudo o que lhe importava saber" (SCLIAR, 2002, p. 180). Ou seja, a professora percebe que no seu trabalho ela até poderia cobrar uma caligrafia bonita e legível dos seus alunos, mas no casamento era melhor não se fixar nesse detalhe visto ter sido esse elemento o propulsor da sua pior crise matrimonial. Aqui é importante destacar que o texto do jornal que motivou a escrita do texto literário não foi propriamente uma notícia, mas sim uma sugestão feita por um cidadão na seção "Painel do leitor": "Gostaria de que o ministro da Saúde, José Serra, exigisse dos senhores médicos a prescrição de receitas escritas a máquina, pois existem receitas ininteligíveis" (sCLIAR, 2002, p. 179). A leitura dessa reclamação deve ter chamado a atenção de Scliar assim que ele a viu, pois Scliar era médico e, como observa Zilberman, tinha muito interesse nos assuntos relacionados à Medicina (ZILBERMAN, 2012, p. 10).
Se se equiparar essa crônica com o texto anterior ("Os estranhos caminhos da Internet"), nota-se que ambos os docentes conseguem solucionar seus impasses. O professor insatisfeito com sua carreira e remuneração consegue se sobressair por meio da ousadia com a qual se lança a um novo desafio profissional; a professora universitária decide ser humilde para conseguir recuperar o marido que havia deixado o lar. Ambos os personagens demonstram preocupação com a manutenção dos seus respectivos casamentos. Aqui cumpre lembrar que a temática do casamento é cara ao escritor gaúcho, que, segundo Zilberman, é um cronista que tem como uma das suas "virtudes destacadas" a "variedade dos assuntos, sem que se mostre superficial ou frívolo" (ZILBERMAN, 2012, p. 10). Essa mesma variedade de assuntos se estende ao restante da sua obra, sendo isso percebido quando personagens enfrentam dilemas em seus matrimônios, como o vendilhão do templo da obra homônima, ou ainda, nas reflexões scliarianas que antecipam o conjunto de citações colecionadas pelo escritor gaúcho e publicadas em livros. No início do livro Se eu fosse Rothschild: citações que marcaram a trajetória do povo judeu, Scliar explica sua predileção pela citação, considerando que esta é "não apenas a síntese de um pensamento", mas também a "expressão de uma época". Por isso, para o gaúcho "colecionar citações é uma arte" (SCLIAR, 1993, p. 09). Nessa esteira de pensamento, na obra A língua de três pontas: crônicas e citações sobre a arte de falar mal, Scliar há vinte e nove páginas contendo citações sobre o casamento, sem deixar de apresentar a ponderação do escritor: "O casamento feliz existe. Depende de maturidade e até de sabedoria" (SCLIAR, 2001, p. 122). Nesse mesmo livro há citações de professores (SCLIAR, 2001, p. 92, 109, 123). Se eu fosse Rothschild também traz citações de mestres (SCLIAR, 1993, p. 53, 64-67), o que comprova que a figura do professor interessa Scliar em diversos textos e contextos.2
A crônica "A ilegível caligrafia da vida" não apresenta a professora universitária tendo nenhum tipo de problema em seu trabalho, muito embora se saiba que de um modo geral o trabalho docente é muito exaustivo, conforme explica Boing acerca da sobrecarga que o professor enfrenta no seu dia-a-dia:
a preparação das aulas de hoje envolve, além do levantamento do conteúdo e da escolha de alguma dinâmica para a interação em sala, a pesquisa na internet e a atenção aos fatos e notícias, publicados nos jornais e revistas, que possam ser utilizados para a contextualização em sala ou trabalhado como um novo conteúdo. As aulas em si estão mais complexas pela diversidade maior dos alunos, resultados das políticas de inclusão social e de expansão do ensino. (BOiNG, 2008, p. 107-108).
Se a professora universitária casada com o médico aparenta ter uma profissão tranquila, o mesmo não ocorre com o docente da crônica "A força da lei", inspirada na reportagem "Policiais se disfarçam e vão para a sala de aula". Nesse texto, Scliar retrata o medo e a violência dentro das salas de aulas. Faltando uma semana para o final do ano letivo, o professor de Matemática é procurado em particular por "um aluno relapso e de ar insolente" que, sabendo da sua iminente reprovação, alega que é um policial disfarçado investigando uma quadrilha de traficantes que tem um agente infiltrado na escola, "um rapaz desta turma. Ele passou de ano, e eu tenho de passar também, para vigiá-lo". A ameaça se completa quando o pretenso aluno abre a camisa e mostra uma pistola automática, exclamando: "Esta arma é só a polícia que usa. Sorriu, um sorriso eu era tão cúmplice quanto ameaçador. E o senhor pode acreditar que sei usá-la" (SCLiAR, 2002, p. 40). Nesse texto, mais uma vez se comprova o que Zilberman afirma a respeito das crônicas do escritor gaúcho: "a linguagem límpida, com toques de humor, além de simples e moderna" (ZILBERMAN, 2012, p. 10). No livro O imaginário cotidiano há crônicas nas quais o professor é brevemente mencionado. Todavia, mesmo assim, é possível pensar a importância desse profissional mediante suas atitudes. É o caso de Veiga de Assis e Diana, os quais se diferem dos demais professores das outras obras mencionadas pois possuem excelente condição financeira, sem terem de cogitar a mudança de função. Haroldo lecionava numa importante universidade norte-americana e cobra caro por suas palestras, ao passo que Diana era "professora universitária". Ambos eram muito conhecidos no meio acadêmico, mas Haroldo tinha mais prestígio do que Diana pois enquanto ele "fora o único brasileiro a fazer parte do grupo de especialistas que estudara o Manuscrito de Shelá, recentemente encontrado numa caverna em Israel", Diana era famosa "por suas teorias heterodoxas e sobretudo por seu gênio rebelde" (SCLIAR, 2008, p. 9, 10, 135). Por fim, o Manual traz o professor Haroldo e a pesquisadora Diana como grandes conhecedores da Bíblia que preferem dessacralizar Jeová a crer nEle e obedecê-lo. Haroldo, por exemplo, "citava de memória qualquer trecho do Antigo Testamento", mas, ainda assim, teve uma experiência homossexual com um servente da universidade e traiu sua esposa com Diana (SCLIAR, 2008, p. 10, 213-215).
"Quanto valho?": um homem é preso por forjar seu próprio sequestro. Tentando dar uma explicação ao delegado, o homem conta que a frase "você não vale nada" o acompanha desde criança, primeiro pelo seu pai, quando roubava doces e seu pai o repreendia com esta frase, depois pelo professor que o pegava colando e usava a mesma frase. Nessa crônica, aqui o professor retratado como um papel secundário, numa situação em que leva o garoto a acreditar que ele não valia nada, pois concordava com seu pai. Isto leva a acreditar que a opinião de um professor, suas palavras, têm um grande peso na vida de uma criança, que leva estas palavras positivas ou negativas para toda sua vida (SCLIAR, 2002, p. 33-34).
No livro há um personagem que trabalha a prática do ensinar, embora o texto não diga que ele seja um professor de Educação Física. Na crônica "O futebol e a matemática", um técnico de futebol diz aos seus jogadores que eles passarão a atuar diferente, de acordo com uma série de tabelas e gráficos feitos em computador. Anunciando a novidade, ele afirma: "Até agora, cada um jogava o futebol que sabia. Eu ensinava alguma coisa, é verdade, mas a gente se guiava mesmo era pelo instinto. Isso acabou" (sCLIAR, 2002, p. 51, grifo nosso).
"A vida em fast-forward" expõe o relato do sonho de um menino que dizia à professora que ao crescer seria... Antes mesmo de terminar a frase viu que a vida saíra bem diferente do seu plano, sua vida passará como um filme rápido demais para pensar em seus sonhos de crianças. Nessa crônica o autor traz a professora como um papel secundário, mas não menos importante, ao relatar seus sonhos a sua professora de infância. O escritor sugere a questão da qualidade de vida nesta crônica, quando fala que, ao perceber que a vida passa tão rápido, e muitas vezes os sonhos são deixados para trás, a professora aqui é vista como uma pessoa que transmite confiança a seu aluno, para quem o mesmo relata seus sonhos (SCLIAR, 2002, p. 95-96).
## IV. CONcLuSÃO
As crônicas analisadas englobam diversas problemáticas sociais envolvendo a figura do professor: os baixos salários, a insatisfação profissional, o medo da violência que o acompanha na sala de aula. A formação profissional do docente e os relacionamentos também são mencionados. De um modo geral, os conflitos são resolvidos. É essa a mensagem que Scliar parece querer demonstrar: o professor deve ser uma pessoa equilibrada emocionalmente para lidar com os problemas cotidianos. Com muito humor e com uma linguagem leve, Scliar demonstra por que é considerado um dos grandes cronistas da literatura brasileira contemporânea, sendo as notícias de jornais o ponto de partida para a composição dos referidos textos ficcionais.
[^1]: Considerando esse contexto da pesquisa, também é importante se observar que os primeiros livros de Scliar têm muito a ver com os acontecimentos relacionados ao seu Estado, o Rio Grande do Sul, conforme se verifica com a publicação de seu primeiro romance, A guerra no Bom Fim (1972) (DINIZ, 2015, p. 24). _(p.3)_
[^2]: Em sua tese, Lemuel Diniz investiga três obras contemporâneas de Scliar: A mulher que escreveu a Bíblia, Os vendilhões do templo e Manual da paixão solitária. Em todas elas há personagens professores de História. No Manual da paixão solitária há os docentes Haroldo _(p.5)_
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Lemuel de Faria Diniz. 2026. \u201cThe Image of the Teacher in the Chronicles of the Book The Everyday Imaginary\u201d. Global Journal of Human-Social Science - G: Linguistics & Education GJHSS-G Volume 24 (GJHSS Volume 24 Issue G9): .
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