The Intellectual Connection between the Brazilian Poet and Educator Cecília Meireles and the Mexican Writer-Ambassador Alfonso Reyes and his Projection as a Maestro for Brazilian University Youth (1930-1933)
The present study analyzes the intellectual connection established between the Mexican writerambassador Alfonso Reyes and the Brazilian poet and educator Cecília Meireles, fundamentally through the exchange of correspondence, in the early 1930s. The assessment was based on the approach of the intellectual networks from the perspective of a relational analysis. I show how the relationship established between the two intellectuals was the basis for a joint intervention, articulated by both, in which the image of the Mexican writer-ambassador was related to that of a maestro, an intellectual and moral guide, for Brazilian university youth. This intervention was retrieved through the analysis of correspondence and other historical sources, such as the speeches given by Reyes to Brazilian students -which were later
## I. INTRODUÇÃO
Reyes chegou ao Rio de Janeiro, então capital brasileira, enviado como embaixador do seu país no Brasil. A nomeação do importante literato para o cargo fazia parte dos mecanismos de "diplomacia cultural"1 desenvolvidos pelo Estado mexicano pósrevolucionário com vistas a firmar internacionalmente a imagem de um "México culto", buscando contrapor a visão fortemente negativa que pairava sobre o país desde a longa guerra civil iniciada em 1910. Nas décadas seguintes, tal estratégia diplomática se constituiu em uma "caracteristica paradigmática de la política mexicana posrevolucionaria." (AZUELA; PALACIOS, 2009, p. 26.)
Com o intuito de fortalecer a imagem do México no Brasil, ao longo dos seis anos em que atuou como embaixador no Rio de Janeiro, entre 1930 e 1936, Reyes levou a cabo diversas estratégias de sociabilidade para se aproximar e se manter em contato com os "amigos" brasileiros, como costumava se referir aos colegas com os quais mantinha contato intelectual. Em estudo sobre a sociabilidade intelectual desenvolvida pelo escritor mexicano durante sua atuação como embaixador, não apenas no Brasil,2
Aimer Granados identifica o forte empenho de Reyes na formação de "una red de escritores con carácter transnacional americano y transatlántico vis a vis América-Europa", formada por uma pequena "élite vinculada al mundo de las letras y la cultura". (GRANADOS, 2012a, p. 85.)
Como destaca Granados, os principais elementos de comunicação dessa rede foram o periódico Monterrey. Correo Literario de Alfonso Reyes, publicado e distribuído pelo escritor-embaixador a seus "amigos" intelectuais entre 1930 e 1936 em sua maior parte durante a sua embaixada no Brasil -, e uma intensa atividade de troca correspondências. O presente artigo explora um dos vínculos específicos dessa rede intelectual, que foi desenvolvido durante o período em que Alfonso Reyes esteve no Brasil, que é a sua relação com a poeta e educadora Cecília Meireles. Recuperamos tal conexão fundamentalmente por meio da análise da correspondência passiva de Reyes, ou seja, as cartas enviadas pela brasileira que constam no arquivo do mexicano.[^3]3
A abordagem que utilizamos neste trabalho é a de uma "análisis relacional", tal como propõem José María Imízcoz e Lara Arroyo: um estudo "que parta de los actores sociales y de sus interacciones [..] para explicar mejor, por esta vía, su agencia histórica." (IMÍZCOZ; ÁRRÓYO, 2011, p. 99.) Como muito bem observam os autores, dentro de uma abordagem de tipo relacional, o estudo da conexão entre os atores históricos "es un instrumento, no un fín en si mismo." O que, de fato, interessa é resgatar "cómo estos actores son protagonistas de historia y agentes de cambio histórico." (IMíZCOZ; ARROYO, 2011, p. 100.) Como demonstram os trabalhos de Imízcoz, as correspondências epistolares são "una documentación de primera magnitud" entre aquelas que "reflejan las interacciones entre los individuos." Além de refletir as interações interpessoais, esse tipo de fonte também nos "revela la importancia de percibir el significado que dichas relaciones tienen para los propios actores." (IMÍZCOZ, 2004, p. 138, 123.)
As reflexões e propostas levantadas por Imízcoz parecem-nos particularmente úteis para o estudo dos intelectuais.[^4]4 No caso aqui abordado, mostramos como a conexão estabelecida entre Alfonso Reyes e Cecília Meireles - que, em grande medida, podemos recuperar por meio de sua correspondência embasou uma intervenção conjunta de ambos no sentido de erigir a figura do escritor-embaixador mexicano como um maestro, um guia intelectual e moral, para a juventude brasileira. Essa intervenção intelectual conjunta torna-se mais clara quando, juntamente com a correspondência, analisamos outras fontes históricas, como os discursos proferidos por Reyes aos estudantes brasileiros - que foram publicados por ele posteriormente - e os artigos da poeta e educadora em sua Página de Educação, veiculada pelo Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, na mesma época. A análise desse conjunto de fontes permite perceber como a Página dirigida por Cecília Meireles foi mobilizada como um importante instrumento dentro da estratégia construída por ambos para que Reyes pudesse exercer um protagonismo entre os jovens universitários brasileiros.
## II. CEcília Meireles, Alfonso Reyes e a QuestÃo EducaCional no Brasil E NO MÉXico
As missivas da poeta e educadora brasileira a Reyes podem ser identificadas propriamente como uma "correspondência intelectual" (MYERS, 2015), não apenas por se tratarem de cartas trocadas entre intelectuais, mas sobretudo pelo fato de versavam sobre questões intelectuais. Entre os principais temas presentes nessas cartas está a reflexão em torno da função social dos intelectuais e suas relações com a política.
Em inícios dos anos 30, Cecília Meireles encontrava-se fortemente engajada na luta por renovação educacional em meio à nova conjuntura política aberta no Brasil com a vitória do movimento liderado por Getúlio Vargas. Nesse contexto, sua atuação excedeu em muito o âmbito pedagógico ou o debate intelectual propriamente dito, ao buscar também falar às classes médias letradas por meio da Página de Educação, mantida por ela por cerca de três anos, entre 1930 e 1933, no Diário de Notícias. Em estudo sobre a atuação da poeta e educadora nesse período, Valéria Lamego (1996) destaca que esse "jornalismo de estreia" de Cecília Meireles foi "o mais político de toda sua atuação na imprensa." (LAMEGO, 1996, p. 18.)
Nessa mesma época, a brasileira estabeleceu uma significativa relação intelectual com o escritorembaixador mexicano, expressa numa intensa correspondência produzida nos primeiros anos da década de 1930, iniciando-se logo que Alfonso Reyes chegou ao Rio de Janeiro. Desde sua primeira carta a ele, datada de março de 1931, Cecília Meireles manifestou o interesse de conhecer melhor a política educacional do México pós-revolucionário, país ao qual se referiu como "terra admirável que é, para mim, um exemplo e uma inspiração, nesta hora de transformação da humanidade. De desejos de transformação, pelo menos..." (CM a AR, 16/03/1931.) Suas cartas seguintes indicam que Reyes lhe fez chegar às mãos uma série de publicações oficiais mexicanas, como as revistas publicadas pela Secretaría de Educación Pública (SEP) El maestro rural e El libro y el pueblo; o periódico El Pulgarcito, voltado para a educação infantil e publicado pelo Departamento de Bibliotecas do México; e também um discurso do então secretário de Educação Pública, Narciso Bassols. (CM a AR, 05/05 e 08/12 de 1932; 13/01 e 01/04 de 1933.)
Além de buscar informações sobre as reformas educacionais mexicanas, a brasileira começou a dividir com Reyes, desde a sua segunda carta (datada de 05/05/1932), uma certa inquietação e mesmo uma angústia em relação aos rumos tomados pelas mobilizações universitárias no Brasil. Cada vez mais marcadas pela polarização político-ideológica do período, essas mobilizações geravam intensas disputas entre estudantes vinculados à Associação Universitária Católica e aqueles identificados às esquerdas, sendo que ambos, em sua concepção, tendiam a privilegiar os embates políticos em detrimento da formação intelectual propriamente dita.
Em relação ao primeiro tema, Cecília Meireles confidenciou a Alfonso Reyes sua convicção de que "o problema do Brasil e[ra] um problema de educação", porém fazia-se necessária uma definição do que se entendia pela palavra "educação". Seu próprio conceito era o de que nesta palavra se incluíssem "todas as nossas necessidades de cultura", de modo a evitar que as demandas por reformas educacionais acabassem gerando "uma formação popular em que se insinuassem os preconceitos novos - tão perigosos como os velhos - que atentam contra a elevação humana, e negam os direitos inalienáveis do espírito." (CM a AR, 05/05/1932.)
Essas palavras da brasileira faziam referência ao que considerava como o perigo de que as reformas educacionais, que ela própria defendia, acabassem se orientando no sentido de um pragmatismo inspirado no modelo estadunidense da Escola Ativa, baseada na filosofia de John Dewey. Embora ela não compartilhasse dessa perspectiva, essa se mostrava muito influente entre vários dos educadores reformistas brasileiros, como era o caso de Anísio Teixeira, então Diretor de Instrução do Rio de Janeiro.o As ideias de Cecília Meireles sobre a questão educacional eram muito semelhantes às do próprio Alfonso Reyes. Também o mexicano era profundamente crítico ao modelo pragmatista, que no México estava sendo elevado ao lugar de plataforma oficial da política educacional nos anos 30. Como mostra a historiadora Mary Kay Vaughan (2001) em seu estudo sobre a política educacional mexicana da época, desde a implementação da nova política cultural "revolucionária", em meados dos anos 20, a pedagogia da Escola Ativa foi tomada como base da política pedagógica da SEP, para a qual foi fundamental a contribuição de Moisés Sáenz, ex-discípulo de John Dewey na Universidade de Columbia e subsecretário de Educação Pública do México, entre 1926 e 1928. Essa nova orientação político-pedagógica "sirvió como [un] proyecto integrador y productivista", que inspirou uma política educacional centrada na expansão do ensino primário, por meio do estabelecimento de escolas rurais, com base em uma concepção pragmática, que visava principalmente "el aumento de la capacidad productiva" do campo. (VAUGHAN, 2001, p. 49; 53-5.)
Alfonso Reyes era terminantemente contrário a essa perspectiva da política educacional mexicana, que via-se intensificada em inícios dos anos 30, exatamente no momento em que ele atuou no Brasil como embaixador. Nesse contexto, expressou sistematicamente suas críticas à mesma em seu Discurso por Virgilio, um importante ensaio escrito logo que chegou ao Rio de Janeiro, em 1930. Após publicá- lo no México, no ano seguinte, Reyes distribuiu seu ensaio aos "amigos" brasileiros, entre quais estava Cecília Meireles, que chegou a publicar uma resenha entusiasta do texto em seu "Comentário", seção editorial da Página de Educação. (MEIRELES, "Comentário" de 18/08/1931.)
No polêmico Discurso, que tinha como foco criticar o nacionalismo revolucionário em voga no México no período, Reyes jogou com as noções de "próprio", "autóctone" e "mexicano" - tão caras à perspectiva de defesa da cultura e da identidade nacional - para contrapô-las ao externo ou "exótico", numa dura crítica à adoção dos métodos pedagógicos inspirados no pragmatismo estadunidense. Sua estratégia de desqualificação dessa opção políticopedagógica foi apresentar o outro lado da moeda das vantagens que se esperava obter de uma educação que relegava as Humanidades ao segundo plano e priorizava os aspectos "pragmáticos", com vistas ao desenvolvimento material das populações camponesas, visão que era hegemônica naquele momento entre as elites dirigentes em seu país. Acompanhemos sua argumentação:
Gran tarea del educador de mañana que, abandonando resueltamente influencias exóticas y que nunca se aclimataron bien en México; desoyendo toda esa pedagogía barata, [..] rescate también los olvidados tesoros de una tradición []. Quiero el latín para las izquierdas, porque no veo la ventaja de dejar caer conquistas ya alcanzadas. Y quiero las Humanidades como el vehículo natural para todo lo autóctono. [..] En cuanto a decir, como algunos, que el preocuparse del latín es poner a declinar durante años a los chicos del campo - quienes por ahora sólo necesitan arado, alfabeto y jabón -, [eso] sería una burda caricatura [...]. Tal actitud conduciría, en suma, a decretar la abolición total del saber humano, por mal entendida piedad para los analfabetos que antes y ahora han abundado en la tierra. [..]. Funesta confusión y sensiblería ridícula todo ello. Consiste nuestro ideal político en igualar hacia arriba, no hacia abajo. (REYES, 2009 [1930], p. 111-113.)
Essas palavras sintetizam plenamente a concepção de Reyes a respeito da centralidade das ideias, do conhecimento em geral, não apenas como elemento imprescindível para o desenvolvimento humano, mas também como arma de importância irredutível para o combate político. O "latim para as esquerdas" aparecia no texto como uma metáfora que condensava bem esse último aspecto, de cunho político-ideológico; mas a proposta também comportava um sentido literal, em defesa do ensino dessa língua, bem como das Humanidades em geral, em nível de excelência, nos cursos universitários e nas escolas públicas mexicanas. Por isso, em carta a Genaro Estrada, seu amigo pessoal e então secretário de Relações Exteriores do México, Reyes celebrou "con emoción" a "profunda coincidencia de miras" entre a sua própria perspectiva e a do filósofo Vicente Lombardo Toledano, que era uma das principais lideranças intelectuais da esquerda mexicana e, na época, ocupava o cargo de diretor da Escola Nacional Preparatória. Lombardo teria comentado com Reyes, antes que este publicasse seu Discurso por Virgilio, sobre "la importancia de la enseñanza del latín en las escuelas secundarias" e o empenho que pretendia exercer para que isso se concretizasse.6
Alfonso Reyes admirava em Lombardo a capacidade de ser, ao mesmo tempo, um grande líder político e uma referência intelectual. E foi justamente a ausência, na perspectiva de Reyes, de um líder de esquerda desse tipo no cenário brasileiro o que chamou sua atenção quando chegou ao Brasil, praticamente junto com a chamada "revolução de 30". Em seus relatórios diplomáticos dos primeiros anos à frente da Embaixada no Rio, o mexicano manifestou intensa preocupação sobre a situação de polarização política no Brasil, principalmente tendo em vista que, em sua visão, o "bando" das direitas brasileiras encontrava-se muito mais "armado" para a luta políticoideológica que as esquerdas. Em 1933, Reyes chegou a sintetizar essa percepção da seguinte forma: enquanto as esquerdas formavam "un semillero de francoatiradores",' as direitas já começavam a "evolucionar hacia un ejército." (REYES, 1933, apud ENRÍQUEZ PEREA, 2009, p. 258; 241.)
Em suas análises sobre a situação brasileira, presentes nos relatórios diplomáticos enviados ao México em inícios dos anos 30, Reyes demonstrou uma imensa preocupação em relação às "juventudes", expressão sob a qual reunia "la clase universitaria, los artistas y jóvenes escritores", conforme identifica Alberto Enríquez Perea (2009) ao analisar esses documentos. Aos olhos de Reyes, a situação desse grupo no Brasil era a seguinte: os jovens alinhados à direita tinham suas "doctrinas, organizaciones y capitanes", ou seja, possuíam ideias, ideólogos e condutores, entre os quais destacou a figura de Alceu Amoroso Lima. Para Reyes, o líder católico brasileiro cumpria um papel importante ao atuar como um "maestro definidor" para essa juventude, reunindo as habilidades de intelectual de "sólida cultura" e possuidor de "un don de expresión clara y metódica". Mas, na percepção do mexicano, faltava à juventude de esquerda uma liderança desse porte, que reunisse, numa mesma figura, excelência intelectual e capacidade mobilizadora. Assim, as ideias progressistas chegavam aos jovens pelos livros estrangeiros; muitos inclinavam-se a um "autoctonismo" - entendido como identificação latino-americanista e anti-imperialista -, assim como ocorria no México, e alguns "coqueteaban" com o comunismo. Entretanto, na visão de Reyes, a juventude brasileira inclinada às ideias de esquerda via-se "prácticamente sin jefe, sin organizador y sin inspirador nacional", limitada a "un pequeño liderazgo entre literatos." (REYES, 1933, apud ENRÍQUEZ PEREA, 2009, p. 241-2.)
A percepção de Reyes sobre a atuação de Amoroso Lima entre os jovens estudantes tinha bastante fundamento. De fato, o principal líder intelectual da direita católica brasileira na época investia pesadamente no doutrinamento dos jovens estudantes, voltando-se não apenas aos universitários como também aos que cursavam colégios e escolas técnicas, realizando inúmeros discursos em diversas instituições educativas, que foram reunidos, em 1935, na obra Da tribuna e da imprensa. Assim, com base na leitura que realizou da situação brasileira e em contraposição à atuação da direita católica entre os jovens, Alfonso Reyes procurou se aproximar dos estudantes brasileiros, principalmente dos meios universitários de esquerda.
## III. Alfonso Reyes e a Juventude UnivERSitÁRIa BraSIlEIra
Desde sua chegada ao Rio, em 1930, o escritor-embaixador mexicano foi recebido de braços abertos por boa parte dos estudantes universitários. Em setembro daquele ano, por exemplo, ele registrou em seu diário que tinha recebido "ovaciones y homenajes" por parte dos mesmos e, cerca de um ano depois, em carta ao secretário (e amigo) Genaro Estrada, solicitou um "obsequio" por parte do México para a Casa do Estudante do Brasil. Na referida carta, Reyes destacou a boa estima encontrada por ele entre os estudantes, que "[lo] ovaciona[ban] cada vez que pas[aba] entre ellos", e sugeriu que o México tivesse a "INICiATIVA" (assim mesmo, em maiúsculas) de um singelo presente para o centro estudantil: "una pequeña fuente colonial, [en] estilo mexicano, [con] azulejos, etc.", que "se colocaría en un rincón del patio [de entrada de la Casa do Estudante], como obsequio de México y como envío especial del Sr. Presidente [mexicano] Ortiz Rubio a los universitarios que tanto lo han estimado", durante sua estada no Brasil como embaixador nos anos anteriores. (REYES, 2011 [1930], p. 21; AR a GE, 29/10/1931. ZAïTZEFF, 1993, p. 190.)
Pouco tempo depois, em um texto de 1932, intitulado A vuelta de correo, Reyes apontou como uma de suas principais ações em favor do México no Brasil a aproximação com os estudantes, destacando já estar acertado que ministraria um curso de extensão universitária a respeito de seu país na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. (REYES, 2009 [1932], p. 134.) Entre os jovens estudantes brasileiros dos quais o escritor-embaixador mexicano buscou se aproximar destacam-se os universitários militantes de esquerda, como observa Fred P. Ellison (2002) em seu trabalho sobre a sociabilidade desenvolvida pelo escritorembaixador mexicano durante o período que viveu no Rio de Janeiro.
O estudioso estadunidense mostra que Reyes manteve contato estreito com o Club da Reforma, organização que reunia figuras da militância ligada ao movimento de reforma universitária, que naquele momento já se estendia pelo continente. Tendo se iniciado na Universidade de Córdoba, na Argentina, em 1918, já com uma perspectiva "americanista", o movimento ganhou uma ampla expressão em vários países do continente nas décadas seguintes, incluindo o Brasil, sobretudo nos anos 30. (FUNES, 2021; PORTANTIERO, 1978.)
O apelo "indo-americano" do movimento reformista universitário implicava na valorização da identidade latino-americana e se colocava em declarado contraste com o deslumbramento pela cultura ocidental, que se via enfraquecido em decorrência da Grande Guerra. Nesse contexto, boa parte da intelectualidade continental - estudantes universitários nela incluídos - se dedicaram a buscar expressões culturais e sociais próprias do continente. (FUNES, 2006) Esse ímpeto integrador foi estimulado e habilmente utilizado pelo México para consolidar sua presença no continente a partir da projeção da Revolução Mexicana como parâmetro de desenvolvimento autóctone e exemplo de luta antiimperialista, transformando o país em um eixo fundamental na articulação de projetos de solidariedade continental.7
No cenário brasileiro, o movimento reformista universitário chegou a inspirar a criação de um projeto editorial alinhado à esquerda política de forte cunho latino-americanista e anti-imperialista, que foi a revista Folha Acadêmica, publicada entre fins dos anos 20 e inícios dos 30. Esse periódico contou com a participação não apenas de estudantes, mas também de professores universitários, como foi o caso de Bruno Lobo, um professor da Faculdade de Medicina que atuou como diretor da publicação, que contava ainda com a colaboração de intelectuais de diferentes matizes de esquerda, desde socialistas, como Evaristo de Moraes, até marxistas, como Castro Rebello. (CRESPO, 2010.)
Em inícios dos anos 30, quando Alfonso Reyes buscou se aproximar dos estudantes ligados ao Club da Reforma, esse incluía figuras ligadas à revista Folha Acadêmica, como o próprio professor Bruno Lobo e seu pupilo Adelmo de Mendonça, além de outras figuras dos meios universitários que, nos anos anteriores, haviam se aproximado do então embaixador mexicano no Brasil, Pascual Ortiz Rubio. (ELLISON, 2002, p. 57-8.) Entre esses jovens estudantes, encontrava-se Carlos Lacerda, então estudante de Direito, muito atuante no movimento estudantil e colaborador de Cecília Meireles na Página de Educação, como destacaremos no próximo tópico.
Entre os jovens universitários militantes de esquerda que foram mais próximos de Reyes, Fred P. Ellison destaca a figura da escritora Rachel de Queiroz, quem, ainda muito jovem naquela época, já era conhecida por seu romance O Quinze e havia se filiado ao Partido Comunista. Décadas depois, falando em entrevista a Ellison, a escritora brasileira afirmou que "Dom Alfonso", como era chamado pelos jovens brasileiros, "era apreciado mais por sua simpatia e personificação do México que por sua obra literária" e que o escritor-embaixador "parecia realmente gostar dos jovens e deixou-se tratar por eles como celebridade". (QUEIROZ apud ELLISON, 2002, p. 58-9.) Como ressalta o autor, "os estudantes universitários ocupavam um lugar importante na estima e nos planos do embaixador", tendo em vista constituírem, no contexto brasileiro, um dos grupos "que mais apoiavam o México e sua revolução." (ELisSON, 2002, p. 57.)
## IV. CEcÍlIa MEIreleS E O Movimento UNIVERSITÁRIO
Também a poeta e educadora brasileira buscava estabelecer conexões com o movimento universitário em sua atuação por meio da Página de Educação. Ela chegou a dedicar um espaço significativo às demandas e mobilização estudantis em sua publicação, mantendo, dentro da Página, uma coluna intitulada "Movimento Universitário", dirigida por Carlos Lacerda, na época um universitário engajado no movimento estudantil e que atuava como seu apoiador na publicação.
A aproximação de Cecília Meireles com os universitários ainda é uma faceta pouco explorada de sua militância educacional através da imprensa. No entanto, esse aspecto é de extrema relevância para compreendermos a estratégia de intervenção intelectual conjunta levada a cabo por ela e Alfonso Reyes direcionada à juventude universitária brasileira.
As perspectivas afins que ambos possuíam em relação ao tema educacional explicam, em grande medida, a maneira como a poeta e educadora brasileira procurou deliberadamente sugerir a Reyes que exercesse um protagonismo em relação à "mocidade". Em uma carta datada de julho de 1932, a brasileira expressou de forma bastante clara sua expectativa em relação ao assunto:
Não basta [..] que a mocidade se incline para o caminho que a atrai: é necessário haver alguém que, facilitando-lhe sempre a sabedoria da sua liberdade, tenha, no entanto, a virtude especial de dizer certas coisas indispensáveis, ordenadas pela experiência e pelo desinteresse. Alfonso Reyes tem essa virtude. [...] Os moços brasileiros que nesse momento procuram o convívio das suas ideias, procuram-no levados pela própria sede de encontrarem uma resposta às suas íntimas perguntas. E, sem o saber, estão sentindo, nas suas generalizações, um rumo que lhes mostra perspectivas claras, oportunas e certas. Não conheço maneira mais invejável de fazer obra de educação. Alfonso Reyes bem sabe como este momento do mundo é um momento especial para a América. Principalmente para a sua juventude. Não lhe negará, portanto, a sua colaboração, cuja eficiência é indiscutível. (CM a AR, 01/07/1932.)
Há vários elementos significativos a sinalizar nesse trecho. Primeiramente, o fato de a referência a Alfonso Reyes ser feita em terceira pessoa forma que se diferencia do tratamento direto que era geralmente usado por Cecília Meireles em suas cartas a Reyes -, expressando, nesse caso, uma alusão ao papel que era sugerido a ele cumprir: o de um maestro da nova geração. Outro elemento importante, embora apareça apenas subentendido, é que esse papel sugerido a Reyes pela brasileira tinha relação com o fato de o escritor-embaixador ser respeitado e ter suas opiniões valorizadas pelos estudantes não apenas por ser um escritor renomado, mas principalmente por ser visto como um representante do México - visão que é confirmada pelas recordações de Rachel de Queiroz, conforme citamos.
Quando Cecília Meireles se refere ao fato de os "moços brasileiros" estarem buscando "o convívio das ideias" de Reyes, está remetendo ao trecho anterior de sua mesma carta, no qual afirmou acreditar que "o México pode[ria] ser um foco de projeção de muitas ansiedades modernas sobre a América Latina: e com um prestígio que a Europa e os Estados Unidos talvez não cons[e]gu[ia]m ter, n[aquele] momento", e que "os moços de minha terra o est[av]am sentindo." Portanto, era exatamente a partir desse lugar de reconhecimento de Reyes enquanto representante do México que a poeta e educadora esperava que o mexicano pudesse atuar como um orientador da juventude brasileira, que se mostrava uma verdadeira entusiasta das transformações sociais mexicanas. Outro elemento importante a mencionar é a percepção da brasileira sobre o "prestígio" do México - em detrimento dos modelos europeu e estadunidense - entre a juventude universitária brasileira dos anos 30, pois essa encontrava-se bastante influenciada pela "hora americana" do reformismo universitário continental.
Levando à prática a proposta de Cecília Meireles, que muito se aproximava de suas próprias intenções, como mostramos, Reyes procurou exercer uma significativa atuação entre os universitários brasileiros. Boa parte dessa ocorreu por meio da realização de discursos, que normalmente foram proferidos a convite de organizações estudantis. O contexto que envolveu a realização desses discursos e as próprias palavras pronunciadas por Reyes - publicadas por ele posteriormente - são bastante reveladores tanto da maneira como ele procurou se apresentar perante a juventude universitária (precisamente como um maestro) quanto da conexão que se estabeleceu entre o mexicano e a Página de Educação de Cecília Meireles, no sentido de divulgar não apenas a realização dos discursos, mas também a referida imagem de Reyes. A divulgação dos discursos pela publicação permitiu que a presença do maestro mexicano entre os estudantes tivesse uma ampla difusão, o que se processou em duas frentes: antes da realização dos discursos, a Página chamava o público para ouvi-lo pessoalmente; após sua realização, difundia as ideias do mexicano expressas nos discursos a um público mais amplo do que aquele havia podido acompanhá-lo presencialmente.
## V. Alfonso Reyes Como Maestro Orientador da Juventude na Página DE CEcÍlia MEIrELES
Ao lermos a Página da poeta e educadora no Diário de Notícias, podemos observar claramente a mobilização de uma estratégia para chamar a atenção da "mocidade" para comparecer aos discursos que Reyes realizava. Pouco tempo antes que ocorressem as falas do mexicano, Cecília Meireles escrevia elogiosamente sobre "o ilustre embaixador do México" em seu "Comentário", seção editorial dentro da Página, e Carlos Lacerda, na seção "Movimento Universitário", dava os detalhes de onde e quando Reyes falaria aos estudantes, além de apresentar outros tantos elogios ao escritor-embaixador.
Uma das situações mais ilustrativas dessa estratégia pode ser encontrada na Página de 4 de maio de 1932,o dia em que Reyes realizou um de seus principais discursos aos estudantes brasileiros, intitulado Atenea política. Nessa edição da Página, que era publicada pela manhã no Diário de Notícias, os leitores foram chamados a comparecer, no fim da tarde, ao salão de conferências do Itamaraty, onde o "embaixador do México, Alfonso Reyes", realizaria um discurso. O convite vinha acompanhado de um retrato de Reyes, identificado como um "Desenho d[o pintor] Foujit" untamente com um relato assinado por "L.", certamente de Lacerda, no qual se lia que "Alfonso Reyes não t[inha] pelos estudantes esse desprezo dos homens superiores" e que falaria aos jovens universitários a convite do "Club da Reforma", órgão estudantil vinculado ao reformismo universitário continental.
A essas palavras, somavam-se as de Cecília Meireles em um "Comentário" muito significativo, que remetia o leitor à Página do dia anterior, em que ela já havia feito propaganda do discurso de Reyes e na qual havia cometido o equívoco de apresentar o México como parte da América do Sul. O texto em questão havia sido intitulado "Atenea política", exatamente o mesmo título dado pelo escritor-embaixador mexicano a sua fala aos estudantes, que ainda ocorreria no dia seguinte. Isso aponta para o fato de que a poeta e educadora já tinha conhecimento do conteúdo do discurso do mexicano antes que ele o proferisse aos jovens.
No referido "Comentário", Cecília Meireles havia não apenas tecido elogios a Reyes como figura que reunia "a expressão preciosa da palavra do poeta" ao "brilho do pensamento de um diplomata que tem feito de sua atividade um constante motivo de interesse e simpatia pelo seu país" -, como se alongado em louvores à educação pública mexicana, afirmando que "o México, pela obra educacional em que se tem definido, marca um destino singular na América." No mesmo texto, afirmou que "na América do Sul, o México t[inha], efetivamente, uma fisionomia própria" e que Reyes possuía "as necessárias virtudes", para, "diante de intelectuais e estudantes", falar "como sul-americano e como mexicano." (MEIRELES, "Comentário" de 03/05/1932, p. 6.)
No "Comentário" do dia seguinte - que seria, então, o dia em que o escritor-embaixador mexicano faria o seu discurso -, Cecília Meireles intitulou seu texto de "Para Alfonso Reyes" e se voltou a ele e aos demais leitores da Página para refletir sobre a sua "arbitrariedade" geográfica, ao situar o México na América do Sul. Afirmou ter escrito "aquelas rápidas linhas de entusiasmo num momento muito especial", quando se encontrava "entre universitários que calorosamente conversavam sobre a conferência" que Reyes daria "e sonhavam, em voz alta, possibilidades futuras de intercâmbio, a começar pela América latina." Mesmo assim, destacou que "a [sua] distração não veio daí", que se tratava de algo "mais profund[o]" e que "nem e[ra] mesmo uma distração", mas "quase uma convicção" que "a certeza do mapa não abala[va]". Nas palavras de Cecília Meireles, o fato de ter colocado o México na América do Sul revelava "uma luta do espírito com a localização física d[o] país", a qual explicou da seguinte maneira:
É que, quando se pensa no México, ele não nos aparece no lugar do globo onde está. As terras podem ser que estejam em lugares fixos; mas os povos estão onde os coloca o interesse de quem os contempla: estão mais longe ou mais perto, na relatividade do pensamento e do coração. Pelo México sei que muita gente estaria disposta a, voluntariamente, escrever como escrevi [colocando-o como país sul-americano]. Eu, que o fiz involuntariamente, dei uma prova mais espontânea dessa verdade vivida, e que foi para mim mesma, a alegria de uma revelação. Queria que Alfonso Reyes participasse dessa alegria. [...] Queria que compreendesse - e compreenderá - que o México tem para os brasileiros por que[m] eu seja capaz de falar as mais curtas distâncias terrestres; onde as fronteiras já não podem mais caber. Aboliram-nas admirando-o, compreendendo-o. Vencendo com a força do espírito os espaços da terra e as convenções dos homens. Por isso é que me custa corrigir coisa que, afinal, não está errada. (MEIRELES, "Comentário" de 03/05/1932, p. 6.)
A "arbitrariedade", incialmente "involuntária", que a poeta transformou em "convicção", na realidade nos coloca diante de uma questão extremamente importante a respeito do lugar ocupado pelo país hispano-americano da América do Norte no nosso continente. Essa questão, aliás, já havia sido tocada pelo próprio Reyes, no primeiro número de seu periódico Monterrey, no qual reivindicou a identidade latino-americana de um México unido culturalmente à América do Sul. Não há a menor dúvida de que a "convicção" manifestada pela poeta brasileira de um México tão próximo culturalmente do Brasil, e da América do Sul em geral era, em grande medida, fruto do amplo engajamento internacional do México em torno da identidade latino-americana. Esse foi um dos desdobramentos mais significativos da Revolução Mexicana no que se refere à política externa e, nos anos 30, mantinha-se como um dos elementos centrais da diplomacia mexicana no Brasil, tendo em vista o papel ativo cumprido por Alfonso Reyes nessa direção. (DIAS, 2018.)
A ampla reflexão de Cecília Meireles sobre a localização cultural do México no continente antecedia o discurso que seria proferido por Reyes e, certamente, preparava os espíritos para as palavras do mexicano, que continham entre seus pontos principais a defesa da aproximação entre a intelectualidade do continente. Atenea política constitui, juntamente com En el día americano proferido em abril de 1932, no Teatro João Caetano, em uma sessão da Associação Brasileira de Educação, um dos principais discursos realizados por Reyes à juventude brasileira nos anos 30, tendo sido, ambos, publicados por ele posteriormente.o Esses discursos possuem uma unidade de sentido, tendo como um de seus traços principais a defesa da inteligência, do conhecimento, como arma de combate das mais significativas para a luta político-ideológica. Embora esse aspecto apareça nos dois discursos, o tom de Atenea política é mais incisivo.
Nesse discurso, Reyes apresentou-se claramente como um guia moral da juventude, papel evocado por ele na abertura e no fechamento de sua fala. Logo no início, o escritor-embaixador referiu-se à diferença de idade que o separava do público, formado principalmente por estudantes, em relação ao que afirmou ser um "mensajero de otra edad", que representava a própria maturidade, a "hora de la reflexión", mas que se propunha a conversar com o "coro" dos "florecientes veinte años" falando "como de balcón a balcón y por encima del ruido de la calle".
Estas últimas palavras são extremamente significativas para a compreensão do sentido do discurso, realizado como uma espécie de chamado à juventude para a quietude da reflexão intelectual, contra as mobilizações políticas que, naquele momento, beiravam (ou até chegavam) às vias de fato.
Para se ter uma ideia da situação em que se encontravam as disputas político-ideológicas entre a juventude universitária brasileira, podemos citar um artigo assinado por um importante intelectual socialista do período, Carlos Sussekind de Mendonça, publicado no periódico A Esquerda, em 1929, no qual acusou diretamente Alceu Amoroso Lima de "arregimentar a mocidade" em um sentido "desleal", quando "aconselha[va] os cordeiros do seu aprisco universitário a darem, mais do que entusiasmo, ''o próprio sangue' na luta contra os comunistas!". (MENDONÇA, 1929, p. 62.)
O "aprisco universitário" ao qual se referia Sussekind de Mendonça era a Associação Universitária Católica, criada sob a tutela do líder intelectual da direita católica brasileira. Mas o mais significativo do artigo do socialista, no que se refere às desavenças ideológicas entre os grupos universitários naquele momento, é que, apesar de criticar a atitude do líder católico, o seu próprio texto se encerrava com um chamado aos estudantes identificados à esquerda para que reagissem à investida conservadora e a "repel[issem] com todo o entusiasmo e, se preciso fo[sse], também com o próprio sangue." (MENDoNÇA, 1929, p. 63.)
Era em meio a esse exaltado panorama que Reyes dirigia suas palavras à juventude universitária brasileira. A metáfora que usou em seu discurso Atenea política foi a situação de um barco agitado no oceano, que causava náuseas aos tripulantes quando estes fixavam os olhos no próprio barco. A partir da imagem mental que evocava o turbilhão das disputas ideológicas em que os estudantes brasileiros se encontravam, Reyes propôs: "el mejor remedio contra esta atracción del torbellino es levantar siempre la vista y buscar la línea del horizonte." O orador referiu-se às suas próprias palavras como um empenho para "librar"" os estudantes do "mareo" da agitação do barco, uma tentativa de "curaros un poco" dessas inquietações. (REYES, 1967 [1932], p. 70-1.)
A partir dessas palavras, Alfonso Reyes começava sua argumentação no sentido de transpor o combate político para o plano das ideias. A proposta central do discurso era estabelecer a noção de que o front mais importante da luta política era a batalha ideológica que se realizava por meio do pensamento, do conhecimento, da cultura. A lição que o maestro Reyes procurava ensinar à juventude era a de que, para se alcançar uma verdadeira transformação social, não bastava empunhar bandeiras ideológicas simplesmente por meio de palavras de ordem como "mudança", "transformação" e "ruptura" sem haver uma profunda reflexão sobre o sentido dessas propostas.
O mexicano apresentou sua perspectiva aos jovens universitários a partir de um lugar de fala que pode ser identificado como o do "verdadeiro" mestre, voltando mordazmente sua crítica àqueles condutores da juventude - os "falsos" mestres - que a levavam a desprestigiar o saber e o estudo como aspectos de pouca relevância em face do momento crítico da luta social. Assim afirmou:
Hoy se repite mucho que el pasado está en quiebra y toda la humanidad, antes de nosotros, se ha equivocado [...]. Las nuevas generaciones se educan al grito: - Nada tengo de común con la historia! [......] Si nada nos enseña el pasado ia cerrar los libros! Así se distrae a la juventud del ejercicio y el estudio, que han de ser toda su defensa para mañana, con la consoladora perspectiva del fin del mundo, propio consuelo de cobardes. Así echan a cada cinco minutos el pito de la sirena de los incendios, que hace abandonar las aulas y salir a la calle. [.....] Y un trazo característico son los más eruditos, los más culturizados [sic], los que más deben al pasado y a la tradición, quienes se proponen para caudillos en esta nueva campaña de la ignorancia. Tras haberse nutrido con el acervo de la historia, vienen capitanear una campaña antihistórica. (REYES, 1967 [1932], p. 91; 93.)
Colocando-se, então, como um "verdadeiro" mestre, Reyes apresentou a "transformação mexicana" como um exemplo de que a ação das ideias era mais forte que os combates bélicos e se colocava como a principal atuação política. Assim argumentou:
Todos deberíamos estar convencidos de que la manera de asegurar el presente es asimilar es pasado. [.....] Asimilar el pasado no es ser conservador sistemático, ni retrógrado [...]. Os habla el ciudadano de una república que no dudó en ponerse a sí misma en tela de juicio para esclarecerse a sus propios ojos, para darse a luz. La transformación mexicana, al disiparse el humo de los combates, descubre frente a sí el espectáculo del ser mexicano, de la tradición nacional [.....]. Lo que ha salido a flor de la patria la gran preocupación por la educación del pueblo y el desarrollo incalculable de las artes plásticas y la arqueología - son movimientos de perfecta relación histórica [...], se afianzan sobre el pasado [...], se inspiran en él, lo aprovechan como resorte del presente y, sobre ese resorte, saltan con robusta confianza sobre el mar movible del porvenir. [.....] El aprovechamiento de una tradición no significa un paso atrás, sino un paso adelante, con la condición de que sea un paso orientado en una línea maestra y no al azar. (REYES, 1967 [1932], p. 87-9.)
A "transformação mexicana" foi descrita por Reyes como uma mudança social substantiva - portanto, uma revolução cujo elemento distintivo era a capacidade de "aproveitamento da tradição", por isso a noção de continuidade. A grande virtude da "transformação mexicana" e sua especificidade estariam no fato de ser, ao mesmo tempo, mudança dirigia ao futuro e "inspirada" no passado, na "tradição nacional". A partir dessa perspectiva, Reyes propunha que, na experiência mexicana, o elemento direcionador da transformação social era "orientado por uma linha mestra", ou seja, por ideias e ideais que permitiam "assimilar o passado" atualizando-o na modernidade. Disso decorria sua expressão "continuidade", que não significava estagnação ou simples volta à tradição, mas uma mudança que não partia do zero, não desprezava a tradição, mas se desenvolvia com base na própria identidade, no próprio "ser mexicano".
Essa descrição da experiência revolucionária mexicana pode ser facilmente associada à noção de autoctonismo, de valorização da própria identidade, nacional e continental, como base para as transformações políticas, sociais e culturais na América Latina. Essa ideia era extremamente cara, naquele período, a uma parte substantiva da intelectualidade latino-americana, especialmente aquela identificada à defesa da solidariedade continental, na qual o próprio Reyes se incluía, tanto por sua própria concepção intelectual quanto pelo fato de atuar como embaixador do México, que, desde a Revolução, fazia do latinoamericanismo sua plataforma de inserção internacional. Apresentar dessa forma a Revolução Mexicana aos jovens estudantes brasileiros permitia a Reyes atuar no propósito traçado por ele e Cecília Meireles de reforçar a centralidade da cultura, da educação e do conhecimento, como o principal guia para a ação política. Ao mesmo tempo, permitia que ele atuasse no sentido de sua missão diplomática, que era difundir uma imagem construtiva do processo revolucionário levado a cabo pelo México, para além da violência política.
## VI. CONSIDErAÇÕeS FINAIS
A análise das correspondências enviadas por Cecília Meireles a Alfonso Reyes, juntamente com parte da produção intelectual realizada por ambos no mesmo período - os artigos da poeta e educadora na Página de Educação e os discursos realizados pelo escritorembaixador mexicano aos estudantes brasileiros -, permite identificar uma estratégia de intervenção intelectual conjunta realizada por eles com o sentido de construir entre a juventude universitária a percepção de que um caminho profícuo e seguro de transformação social deveria passar, antes de tudo, pela reflexão sistemática e consciente da realidade brasileira como parte de uma América Latina com seus desafios e perspectivas próprias. Como mostramos, ambos percebiam a realidade continental como desafiadora, mas também promissora diante dos desafios colocados num cenário mundial marcado pelos extremismos políticos.
Nesse contexto, a poeta e educadora brasileira enxergou no México uma experiência de transformação social inspiradora, que deveria ser conhecida pela juventude, com a qual tanto se preocupava. Ela encontrou em Reyes uma preocupação semelhante e junto com o maestro mexicano buscou impactar a formação intelectual e política dos jovens universitários brasileiros, como buscamos resgatar neste artigo.
Fontes
[^2]: Desde a década de 1910, Alfonso Reyes desempenhou funções diplomáticas em diversos momentos, desde a atuação como segundo secretário da Legação Mexicana, primeiro em Paris, em 1913, e depois em Madri, no início da década de 1920. Posteriormente, ele se tornou embaixador do México em países da América do Sul na segunda metade dos anos 20, atuando na Argentina, entre 1927 e 1930, e no Brasil, entre 1930 e 1936. Sobre a atuação diplomática de Reyes e os empreendimentos intelectuais que desenvolveu no período, consultar: GARCIADIEGO, 1998; GRANADOS, 2012a; 2012b. _(p.1)_
[^3]: Todas as cartas consultadas para este trabalho fazem parte do acervo da "Capilla Alfonsina", antiga casa de Alfonso Reyes na Cidade do México, que atualmente comporta a maior parte de seus arquivos pessoais e encontra-se aberta à consulta de pesquisadores nacionais e estrangeiros. No caso do arquivo pessoal de Cecília Meireles, onde possivelmente se encontram as cartas enviadas a ela por Alfonso Reyes, é bastante conhecida a dificuldade de acesso, devido ao fato de o acervo se encontrar em poder da família. _(p.2)_
[^4]: Trabalhamos com o conceito de intelectual como uma "espécie moderna", proposto por Carlos Altamirano (2006). Nesse sentido, enfatizamos seu papel como atores políticos a partir de sua intervenção no debate público, para além de suas funções culturais específicas. _(p.2)_
[^5]: Para vários educadores latino-americanos cujo pensamento e atuação estiveram inspirados nessa corrente como foram os casos do brasileiro Anísio Teixeira e do mexicano Moisés Sáenz -, a relação entre educação e democracia devia ser pensada em termos da escola como um instrumento para diminuição das desigualdades sociais, tendendo-se a atribuir à educação uma função utilitária, voltada para o desenvolvimento técnico e tecnológico, visando as necessidades práticas, econômicas e produtivas. Ver a respeito: PAGNI, 2011; VAUGHAN, 2001. _(p.3)_
[^7]: Um dos exemplos mais ilustrativos do lugar ocupado pelo México revolucionário na articulação da solidariedade continental, a partir do movimento reformista, pode ser observado na estreita relação estabelecida com a APRA (Alianza Popular Revolucionaria Americana), fundada na Cidade do México, em 1924 - no espaço nada casual do Anfiteatro Simón Bolívar da Escola Nacional Preparatória -, durante o exílio de seu fundador, Victor Raúl Haya de la Torre. A acolhida dispensada ao líder peruano (que chegou a trabalhar como secretário particular do então secretário de Educação Pública, José Vasconcelos) não foi um caso isolado, visto que nos anos 30 o México continuou sendo um destino fundamental para o exílio aprista, tendo funcionado como um eixo a partir do qual o movimento pode ser organizado e mantido após a perseguição perpetrada contra suas lideranças. A respeito desse tema, consultar: MELGAR BAO, 2003. _(p.5)_
[^8]: Essa edição da Página de Educação pode ser visualizada online pelo site da Hemeroteca Digital do acervo da Biblioteca Nacional: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib $=$ 093718_01&p agfis=9880 _(p.7)_
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References
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Natally Vieira Dias. 2026. \u201cThe Intellectual Connection between the Brazilian Poet and Educator Cecília Meireles and the Mexican Writer-Ambassador Alfonso Reyes and his Projection as a Maestro for Brazilian University Youth (1930-1933)\u201d. Global Journal of Human-Social Science - D: History, Archaeology & Anthropology GJHSS-D Volume 22 (GJHSS Volume 22 Issue D1).
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Natally Vieira Dias<p>Universidade Estadual de Maringá</p>