The analysis focuses on the construction of a “diasporic literary phenomenon,” in which mythology, politics, and poetry intersect within a narrative that translates the listening to racialized and territorialized bodies in the Brazilian hinterlands (sertão). The discussion is guided by the hypothesis that the textual construction represents a subjective-objective process in which the author acts as an ethno-translator. From this perspective, the crossroads is explored as a symbolic and epistemological category, and literature as a form of social mediation. The crossroads, in this sense, materializes the entanglement of multiple temporalities, identities, and knowledge systems present in the narrative, reinforcing the author’s role as a mediator between the lived experience of sertão communities and their literary representation.
## I. Comentários Iniciais
escritor e o seu texto formam uma estrutura indissociável. Aquele que aprendeu, além de oralizar (falar sobre algo ou alguém), a se empoderar da codificação e da decodificação da escrita, habilitou-se em diversos letramentos, conforme os contextos das práticas sociais em que está inserido. Aquele ou aquela que conseguiu criar uma obra material ou intelectual e a disponibilizou para apreciação pública, também autorizou que essa criação se tornasse objeto de análise.
Nesse sentido, a obra Torto Arado (2019), de Itamar Vieira Junior, é escolhida para ser discutida por se tratar de uma criação literária com fins estéticos, cuja essência repousa em uma intenção comunicativa autoral. Propomos, portanto, uma leitura analítica que estabelece uma ponte entre a Teoria da Literatura e as Ciências Sociais, investigando a escrita do autor como a construção de um "fenômeno literário diaspórico", um texto que articula o real e o verossímil, tendo a etnografia como parte estruturante do seu processo criativo.
De modo sintético, a etnografia pode ser compreendida como um estudo cultural intersubjetivo entre pesquisador e pesquisado(s), que busca descrever, compreender e narrar o cotidiano de indivíduos ou grupos sociais em seu ambiente natural. Trata-se de um método baseado na observação prolongada, na escuta atenta e na valorização do ponto de vista dos próprios sujeitos (os "nativos") sobre seus modos de vida e suas práticas culturais. É, portanto, uma escrita sobre a cultura do outro. Nas palavras de Clifford Geertz, "fazer a etnografia é como tentar ler (no sentido de "construir uma leitura de") um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som [...]" (GEERTZ, 1989, p. 7 grifo nosso).
O conceito de Geertz ilumina com precisão o tipo de escrita construída por Itamar Vieira Junior em Torto Arado, uma obra que recusa a linearidade da história oficial e aposta na fragmentação, na oralidade, na espiritualidade e na materialidade dos corpos como fontes legítimas de conhecimento. Assim como o manuscrito descrito por Geertz, a narrativa do romance exige um leitor capaz de ler nas entrelinhas, de decifrar silêncios, de captar memórias subterrâneas e gestos esquecidos — aquilo que Lélia Gonzalez chama de escuta das vozes amefricanas. Nesse sentido, a obra não apenas tematiza práticas etnográficas, mas encarna uma forma de etnografia literária que traduz, sem domesticar, os saberes das comunidades negras rurais brasileiras, resgatando histórias que foram historicamente desbotadas ou distorcidas pelos registros oficiais da modernidade colonial.
Em chave decolonial, especialmente ao abordar a figura de Santa Rita Pescadeira e sua presença espiritual na vida do povo de Água Negra, trata-se aqui de uma etnografia amefricana (Gonzalez, 1984)1, como anteriormente foi mencionado, porque refere-se a uma etnografia que ouve o corpo, os silêncios, os gestos e as memórias coletivas, e não apenas os discursos formais, eurocentrados, historicamente impostos aos povos colonizados e racializados.
Em Torto Arado, o autor constrói sua narrativa articulando dimensões geográficas, históricas, sociais, econômicas, políticas, religiosas e antropológicas. A literatura torna-se aqui etnoliteratura, e seus personagens — especialmente Belonísia, Bibiana e Santa Rita Pescadeira — atuam como narradoras e informantes, traduzindo experiências e cosmologias locais. Contudo, essas vozes não atuam isoladamente: há no romance o fenômeno da polifonia, em que múltiplas vozes e perspectivas convivem, tensionam e se entrelaçam. Tudo no texto é compreendido a partir de quem informa. O autor, Itamar Vieira Junior, nesse contexto, atua menos como o "nativo" e mais como um etnógrafo-tradutor, responsável por transformar essas vozes e experiências em narrativa literária, sem silenciá- las nem substituí-las.
De forma abreviada, nesses primeiros comentários, a ideia é propor a construção de um olhar forjado a partir do que chamamos de uma encruzilhada mítica, política e poética de modo a reconhecer Torto Arado não apenas como uma obra literária de grande valor estético, mas como um artefato cultural que tensiona as fronteiras entre literatura, etnografia e crítica social.
A escrita de Itamar Vieira Júnior desloca o olhar do centro para as margens, revalorizando epistemes silenciadas pela colonialidade do saber e do poder. Ao assumir o papel de etnógrafo-tradutor, o autor constrói um projeto narrativo que se compromete com a escuta dos sujeitos historicamente subalternizados — em especial, das mulheres negras do sertão — fazendo da literatura um espaço de testemunho, denúncia e resistência. Essa escolha estilística e ética reposiciona o papel do escritor enquanto agente de memória e de tradução cultural, reafirmando que toda criação literária, ainda que ficcional, carrega em si marcas do vivido, do coletivo e do político.
Assim, Torto Arado se configura como um texto que, ao mesmo tempo em que narra, interpreta e dá a ver, também convoca à escuta — não apenas das palavras ditas, mas dos silêncios herdados, dos corpos marcados e das histórias que insistem em resistir. Logo, as próximas reflexões e apontamentos buscam elucidar a partir de um aporte teórico fértil, um discussão que parte da hipótese de que Torto Arado pode ser lido como uma forma de escrita etnográfica, na medida em que reconstitui mundos culturais a partir da escuta sensível e do convívio com as comunidades retratadas. A escrita de Itamar se inscreve numa encruzilhada entre mito, política e poesia — o que chamaremos aqui de uma encruzilhada mítica, política e poética.
religião de matriz africana que mescla-se com elementos de culturas indígenas que existe (e resiste) apenas na região da chapada Diamantina na Bahia - Brasil, assim como o rio Utinga da mesma região, dentre outros elementos não fictícios que são parte importantes da narrativa.
Como um dos exercícios da oralidade, a escrita elimina a distância entre o pensamento e a linguagem, tornando-se também um objeto analítico. Nesse sentido, a escrita etnográfica de Itamar Vieira Júnior em Torto Arado é provocativa na busca por elucidar sobre, também, os bastidores de redação da criação da obra, não só por revelar a posição social do escritor, mas devido a unir o que sinalizamos fazer parte da etnografia, ou seja, o ''incontestável' (não ficcional, não literário, real) com o littera, isto é, arte de criar e compor textos com uma linguagem voltada (intencionalmente) para provocar diversas emoções.
Itamar Vieira Júnior pode ser compreendido como um etnógrafo-tradutor, figura que atua na interseção entre a observação participante e a criação artística, buscando preservar a voz e o ponto de vista dos informantes, sem reduzir sua complexidade ou exotizar suas práticas. Sua escrita em Torto Arado (2019) promove uma mediação simbólica entre a oralidade tradicional e a linguagem literária contemporânea, configurando uma narrativa polifônica que incorpora múltiplas temporalidades, perspectivas e regimes de verdade.
A recepção crítica da obra evidencia sua relevância no panorama literário brasileiro contemporâneo. Premiado com importantes reconhecimentos — entre eles, o LeYa (2018), Jabuti (2020) e o Oceanos (2020) —, o romance é celebrado por dar visibilidade a temáticas centrais como o racismo estrutural, a espiritualidade afro-brasileira e a resistência quilombola, articulando-as de forma indissociável. Críticos e acadêmicos destacam a força da polifonia narrativa e a inserção de saberes ancestrais como elementos estruturantes do texto, o que reforça o caráter decolonial e identitário da obra.
À vista disso, a escrita de Itamar Vieira Júnior em Torto Arado evidencia uma ética da escuta e da tradução cultural, situada na encruzilhada entre o rigor etnográfico e a liberdade poética. Essa conjugação reafirma a potência da literatura enquanto campo de produção de sentidos e resistência, ao dar voz a histórias historicamente marginalizadas e silenciadas no Brasil profundo.
## II. O 'FazeR-SE' LitERáRio
"Todo ponto de vista é a vista de um ponto."
- Leonardo Boff -
O autor é indissociável de sua obra e carece do público para ser reconhecido e reconhecer-se, em outras palavras, "isto quer dizer que o público é condição para o autor conhecer a si próprio, pois esta revelação da obra é a sua revelação." (Candido, p. 84, 2006) e nesse sentido, a obra é quem estabelece a ponte entre os dois âmbitos e nessa perspectiva, assumimos a ideia de que a narrativa lida pelo leitor é resultado da transcrição de um processo qual apenas o autor teve acesso.
Em Torto Arado (2019), apesar de haver três principais narradoras - Belonísia, Bibiana e Santa Rita Pescadeira -, as vozes na trama são polifônicas, ou seja, temos as narrativas das narrativas que também são lidas pelo leitor e é nesse sentido que percebemos que a proposta do autor foi escrever sobre a realidade de um povo em seu meio social e a partir dos seus (nativos) pontos de vista, marginalizando um pouco a ficção, 'com toda vênia' a literatura, mas utilizando essa para amplificar as vozes dos anônimos reais que assumem no gênero romance a esfera de personagens.
Identificamos em diversos fragmentos da obra literária, também, uma escrita de cunho etnográfico e não só apenas literário, evidenciando assim o nãoficcional no ficcional, conectando a Antropologia Social e o fazer etnográfico a Literatura. Por isso, a hipótese da discussão em tela tem como cerne a análise de aspectos da escrita etnográfica de Itamar Vieira Júnior, o autor da obra e também o que Candido (2004), considerou como observador literário, algo refletido por ele na obra de mesmo nome da seguinte maneira: "a essa altura a personalidade literária já ia amadurecendo, concatenando melhor os elementos que integram um universo fictício, compondo o dado existencial e passando, em matéria de estilo, do registro à organização" (Candido, 2004, p. 36).
Tanto em Literatura e Sociedade (2006) quanto em o Observador Literário (2004), Antonio Candido ressalta em alguns trechos dessas duas obras, o fazer literário como um reconhecimento do eu em relação ao mundo emoldurado por um cânone estético, pois, tudo que é artístico, extrapola as próprias regras de um panteão, mas sem desobedecê-lo, algo que posteriormente explicaremos melhor, mas ainda nessa perspectiva e em especial, sobre o escritor romancista, ele diz que
há no romance (mas de modo algum na poesia) dois ângulos principais que regem a visão do escritor, condicionando a sua arte de escrever: ou investiga a realidade como algo subordinado à consciência, - que envolve tudo e fica em primeiro plano, - ou põe a consciência a serviço de uma realidade considerada algo existente fora dela. Um ângulo de subjetivismo, outro de objetividade, que se combinam segundo os mais vários matizes, mas não passam essencialmente de dois. Tertius infictione non datur..... (Candido, 2004, p. 33).
Um escritor é antes de tudo um ser humano que se desenvolve em um meio social. Logo, ao salientar a arte de escrever e os condicionamentos - subjetivo ou objetivo da própria consciência ao fazer literário, esse, por mais ficcional que seja, o romancista imprime em seu texto a combinação de ambos os condicionamentos, sem "tertius infictione non datur" (Candido, 2004, p. 33), isto é, sem admitir uma terceira via. Como exemplo disso, Vieira Júnior, autor de Torto Arado (2019), em entrevista à Revista Versatille2 e ao El País3 em fevereiro e em abril de 2021, dentre outras entrevistas já realizadas, afirmou a escrita dessa obra específica começou em sua adolescência. Ele disse o seguinte:
Escrevi a primeira versão aos 16 anos. Tinha terminado de ler obras de escritores do Nordeste, da geração de 1930 e 1940, e fui profundamente influenciado. Meu pai me deu uma máquina de escrever e comecei a construir a história. Cheguei a produzir 80 páginas, mas elas se perderam em uma mudança. A retomada do projeto aconteceu no meu reencontro com o campo, quando comecei a trabalhar na área e vi um Brasil contraditório. Cidades modernas e um campo tão arcaico, dominado pela violência dos senhores, dos proprietários de terra contra os trabalhadores. A história mudou muito nesse meio-tempo, mas o mote da relação de duas irmãs com a terra permaneceu, e o título também (Versatille, 2021).
### E
O baiano Itamar Vieira Junior tinha 16 anos quando começou a escrever Torto arado (Todavia), que ganhou nesta quinta-feira o Prêmio Jabuti de melhor romance, e suas protagonistas tinham outras identidades [...] "A gente fala do sertão, do semiárido, parece que se trata de uma coisa só, mas o sertão da Chapada tem uma regularidade de chuva, uma diversidade de paisagem, de mato, que salta aos olhos", conta Vieira Junior, hoje com 41 anos, ao EL PAíS, por telefone (El País, 2021; grifo nosso).
De acordo com os fragmento das entrevistas, é possível ter a clareza que Torto Arado (2019) não possui apenas um teor verossímil e que essa verossimilhança, como qualquer outra, só foi possível com o próprio amadurecimento do autor e de sua escrita, ou seja, o observador literário e o seu fazer literário em formato de obra literária só alcançou tal consistência material a partir do geografo, servidor público do INCRA e posteriormente, doutorando em Relações Étnico Raciais pela Universidade Federal da Bahia, onde ele aprimorou os estudos etnográficos e estreitou em seu texto a relação entre Antropologia e Literatura, assim como o fazer etnográfico e o fazer literário, atingindo a sua grandeza literária (Candido, 2004), alcançada em seu romance realista pela redução a um dos ângulos condicionados a sua própria consciência e ultrapassou o que Candido (2004) também vai chamar de subjetivismo adolescente e adolescência literária.
A escrita etnográfica, segundo Nesimi (2019), "envolve um corpus textual mais amplo que a etnografia em si, produzida pelo antropólogo após determinado período da pesquisa. Nessa perspectiva, é fundamental evidenciar as modalidades escriturárias que compõem a etnografia direta ou indiretamente" (Nesimi, 2019, p. 109), em outras palavras, a autora esclarece que o corpus textual, isto é, a escrita etnográfica é algo muito maior que a própria etnografia, que por excelência é um método utilizado na Antropologia, mas que se estendeu a outras áreas das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, tecnológicas, chegando à Literatura.
Nesimi (2019) destaca ainda que para a realização da etnografia de modo a compor um corpus textual, a instrumentalização básica é o diário de campo e as notas do diário de campo e que a escrita da cultura do outro está correlacionada com a descrição e a narração da intersubjetividade construída a partir, sobretudo, da autoridade do antropólogo, da noção de ficção e de verdade. Logo, chamamos a atenção para a narrativa e para a descrição como elementos essenciais na estruturação do texto que culmina no corpus como um produto do etnógrafo. Não sendo esse ainda um produto final, mas parte consistente do mesmo que precisará de um refinamento científico. Uma vez que, de acordo com Benjamin (1985), a descrição identifica os fatos e a narrativa os organiza.
Walter Benjamin em 'O Narrador' (1985), afirma que "a experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorrem todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos" (Benjamin, 1985, p. 198), e nesse sentido, o narrador, nas histórias que conta, recorre ao acervo de experiências de vida, tanto as suas, algo que, à luz de Émile Durkheim (1995), consideramos ser a consciência individual e consciência coletiva, como as experiências relatadas por outros (escritas sobre a cultura do outro).
Em síntese, por ora, o 'fazer-se' literário segue em busca de mais referenciais e confessamos até que tal tópico não fazia parte de nossa intenção, mas vimos pertinência em construí-lo devido ser indissociável a obra de quem a fez e ao mesmo tempo, por estarmos buscando aprofundar sobre o que não é literário em uma obra literária algo que no próximo tópico ampliaremos a reflexão.
## III. Literatura e Etnografia (Ou Vice-Versa) em Torto Arado
A obra depende estritamente do artista e das condições sociais que determinam a sua posição.
Antonio Candido -
Do latim littera (letra), literatura pode ser compreendida como um conjunto de habilidades em que o ler e o escrever estão alinhados a um determinado padrão social da oralidade - escrita. Havendo diversas definições e tipologias de literatura. Em suma, pode ser compreendida como a arte de compor textos.
Compor um texto antropológico, é compor um texto cientifico. Um texto não-ficcional, contudo, intersubjetivo, em que se descreve e narra sobre a cultura do outro através de um trabalho de campo prolongado e tendo como método a etnografia, do grego ethnos, (povo) e graphein, (escrever, registrar, dentre outros sinônimos), que de acordo com Nesimi (2019) ao citar Peirano (2014), esclarece que:
A etnografia não se resume a um método ou detalhe metodológico que antecede a teoria, mas trata-se de um empreendimento teórico da antropologia. A etnografia no campo é a própria teoria antropológica. Na verdade, seu posicionamento é resultante de uma reflexão sobre o status científico da antropologia, pois acreditava-se que a formulação de hipóteses não poderia anteceder o início da pesquisa (Nesimi, 2019, p. 111).
Assim como um escritor - literário, o etnógrafo tem um ponto de vista privilegiado. Posicionamento este que termina fazendo com que selecionem os seus personagens, no caso do primeiro e dos seus/as informantes, no caso do segundo.
Em ambos os casos, o que percebemos é o poder (privilégio) da escolha e a autoridade da escrita. Contudo, são os nativos de um determinado lugar (um texto literário e um texto etnográfico) que informam sobre si próprios, suas sociabilidades ou não, suas funções sociais, seus modos vida, dentre outros aspectos (históricos, econômicos, políticos, geográficos, literários, etc.) ligados ao grupo ou grupos sociais de pertença que faz com a intersubjetividade ocorra e a partir do fazer literário e do fazer etnográfico não em seu estado bruto (anotações, esboço, diário de campo e notas de diário de campo, dentre outras formas armazenas informações), mas após refinamento das informações, o que se caracteriza em alguns procedimentos científicos como 'coleta dos dados, tratamento dos dados, refinamento dos dados', chegase ao produto final: uma obra literária e/ou texto científico.
Em Torto Arado (2019), Itamar Vieira Junior seleciona como informantes principais de seu texto literário, duas nativas habitantes da fazenda Caxangá em Água Negra, são elas, Bibiana, narradora - protagonista do capítulo 1 e Belonísia, narradora - protagonista do capítulo 2, e uma 'nativa' do Jarê4 (Banaggia, 2015), Santa Rita Pescadeira, narradora - protagonista do capítulo 3.
Dentre tantas reflexões do ponto de vista teórico entre literatura e etnografia que pode ser feita, com base na apresentação das personagens - informantes, é possível levantar os seguintes questionamentos:
1) São elas narradoras - protagonistas ou protagonistas narradoras?
2) Qual a diferença entre ser uma nativa do Jarê e uma nativa de Água Negra praticante do Jarê?
3) Quais são os tipos de histórias que podem ser contadas a partir de relacionamentos entre indivíduos provenientes de sistemas culturais diferentes?
Para responder as três questões, parece viável seguir um dos conselhos de Candido (2006) e, adotar as indicações de Malinowski quanto à importância do conjunto de uma situação social, para entender qualquer dos seus aspectos particulares, pois só assim poderemos apreender a integridade do fato literário na sua manifestação entre os grupos primitivos. Mas é bom lembrar que já superamos a fase em que era preciso ou conceber a arte primitiva como jogo gratuito, ou concebê-la como atividade pragmática no sistema das funções sociais. A arte, e, portanto, a literatura, é uma transposição do real para o ilusório por meio de uma estilização formal, que propõe um tipo arbitrário de ordem para as coisas, os seres, os sentimentos. Nela se combinam um elemento de vinculação à realidade natural ou social, e um elemento de manipulação técnica, indispensável à sua configuração, e implicando uma atitude de gratuidade. (Candido, 2006, p. 62).
Ao mencionar o pai da Antropologia Social, o polonês Bronislaw Kasper Malinowski, Candido (2006), enfatiza o trabalho desenvolvido pelo antropólogo que via a cultura como uma totalidade, sendo ele inclusive o pioneiro no método da observação - participante, que além dos diários de campo e notas de diários de campo, passou a utilizar fotografias das situações 'reais' dos nativos investigados, contrapondo a chamada 'Antropologia de gabinete', isto é, uma Antropologia realizada a partir das informações coletadas em campo por outro antropólogo.
É sobre o conjunto das situações sociais e particularidades de Água Negra que o leitor é informado a partir de 'Fio de Corte' (capítulo 1), que selecionada pelo escritor, uma nativa com um pouco mais de 7 anos, Bibiana, protagoniza uma situação e é capaz de narrar sobre a mesma. Fenômeno que vai se repetir nos outros dois capítulos de Torto Arado ' (2019). Respondendo assim a primeira questão sobre as mesmas serem primeiro protagonistas e posteriormente narradoras do que vivenciaram em suas situações sociais.
Em 'Fio de Corte', na primeira pessoa do singular, as primeiras linhas do texto são iniciadas por uma descrição de fatos em que a posição de quem informa, revela, além de seu ponto de vista, a sua identidade e o que se vivenciou, conforme fragmento abaixo:
quando retirei a faca da mala de roupas, embrulhada em um pedaço de tecido antigo e encardido, com nódoas escuras e um nó no meio, tinha pouco mais de sete anos. Minha irmã, Belonísia, que estava comigo, era mais nova um ano. Pouco antes daquele evento estávamos no terreiro da casa antiga, brincando com bonecas feitas de espigas de milho colhidas na semana anterior. Aproveitávamos as palhas que já amarelavam para vestir feito roupas nos sabugos. Falávamos que as bonecas eram nossas filhas, filhas de Bibiana e Belonísia. (Vieira Júnior, 2019, p. 9).
Na sistematização da narrativa (Benjamin, 1985), demonstrada em Torto Arado (2019), uma criança de um pouco mais de 7 anos, Bibiana, informa, e não um narrador onisciente, que estava com sua irmã, um ano mais nova (6 anos), Belonísia, quando retirou uma faca da mala de roupas, dentre outras particularidades da situação. Isto é, ela se identifica e nos fala sobre si mesma, sobre elas e sobre detalhes do que experienciaram.
Em suma, na ausência do narrador onisciente no romance em tela, é possível identificar o que refletimos, à luz de Nesimi (2019) e Peirano (2014), isto é, o escritor, assim como o etnógrafo, possuem vista privilegiada e poder de escolha para selecionar os informantes.
A segunda questão que levantamos: qual a diferença entre ser uma nativa do jarê e uma nativa de Água Negra praticante do jarê?, para essa resposta transcrevemos da obra os seguintes fragmentos que poderão nos ajudar a refletir sobre o assunto, são eles:
a) Dona Miúda, viúva que morava sozinha num descampado no final da estrada para o cemitério da Viração e que sempre acompanhava as brincadeiras em nossa casa, foi quem recebeu o espírito. Quando ela se anunciou como Santa Rita Pescadeira, os tambores silenciaram e uma comoção tomou conta dos presentes. Era possível distinguir os questionamentos no meio da audiência, se a encantada de fato existia ou não, e por que até então não havia se manifestado, já que aquele jarê era tão antigo quanto a fazenda
(Caxangá) e os desbravadores daquela terra (Água Negra) (Vieira Junior, 2019, p. 69 - grifo nosso).
b) Naquele momento, com a roupa rota que vestia, mas com um véu antigo e esgarçado cobrindo sua cabeça, ouvimos sua voz fraca, quase inaudível, entoar uma cantiga, «Santa Rita Pescadeira, cadê meu anzol? Cadê meu anzol? Que fui pescar no mar». A encantada, apesar da idade de dona Miúda, dava giros hábeis na sala, ora como se jogasse uma rede de pesca no meio de todos, ora correndo em evoluções como um rio em fúria. Alguns pareciam estar perplexos e querendo desvendar o mistério da aparição. Outros sorriam, talvez incrédulos, achando que a velha Miúda havia enlouquecido e precisasse dos cuidados de meu pai. (Vieira Junior, 2019, p. 70).
Os fragmentos transcritos fazem parte do capitulo 1. Capítulo em que a protagonista e narradora dos fatos é Bibiana, que inclusive, no fragmento 'a' em sua descrição, faz um resgate sobre a existência do jarê como algo ancestral, "tão antigo quanto a fazenda (Caxangá) e os desbravadores daquela terra (Água Negra)" (Vieira Junior, 2019, p. 69 - grifo nosso), assim como também descreve o anúncio que é feito por uma outra informante que se anuncia como Santa Rita Pescadeira.
No fragmento 'b', Santa Rita Pescadeira ganha um volume ainda maior, pois, segundo diz Belonísia, "ouvimos sua voz fraca, quase inaudível, entoar uma cantiga, «Santa Rita Pescadeira, cadê meu anzol? Cadê meu anzol? Que fui pescar no mar»" (JUNIOR, 2019, p. 70).
Nos dois fragmentos pode ser percebido, em relação a questão em tela, que alguns praticantes do jarê não conseguem atestar a existência ou não da 'encantada', contudo, a escutam com base na prática ancestral do próprio jaré, fazendo jus ao que Candido (2006) destacou sobre adotar um conjunto de uma situação social e suas particularidades, além de ser "justamente neste ponto [que] intervém uma diferença entre a literatura do primitivo e a do civilizado" (Candido, 2006, p. 62 - grifo nosso).
Tanto os 'perplexos' quanto os 'talvez, incrédulos', segundo a narradora, por serem praticantes de tal crença, conhecem os processos dos rituais, assim como a própria Santa Rita Pescadeira, que como nativa de uma outra esfera, atesta-se e, em 'tese', também é atestada por quem descreve o seu comportamento e diálogo com ela, sobretudo, no seguinte fragmento:
a simples presença de um encantado que eu não conhecia não seria capaz de me intimidar, fosse uma real manifestação do encanto ou da loucura. Os olhos de dona Miúda estavam turvos por trás do véu, cinzas, quase brancos. Talvez fosse a catarata. Mas ela disse algo muito íntimo, que eu não podia explicar, mas sabia bem o que poderia ser. Ela falou sobre um filho, mas era uma frase sem nexo que não recordo com exatidão, algo como «vai de filho». Falou também que eu estava para correr o mundo a cavalo, animal que nossa família não tinha, o que me deixou ainda mais atordoada. Que tudo iria mudar. E a sentença que permaneceu mais exata em minha memória e resistiu aos golpes que minha vida sofreria nos anos vindouros foi que «de seu movimento virá sua força e sua derrota». A voz estava tão fraca que só eu pude escutar o que dizia (Vieira Júnior, 2019, p. 70).
No fragmento exposto, também se encontra a resposta da terceira questão, isto é: quais são os tipos de histórias que podem ser contadas a partir de relacionamentos entre indivíduos provenientes de sistemas culturais diferentes?, tanto os praticantes do jarê quanto os encantados, tem espaço na literatura e na etnografia, ainda que para esta segunda, não seja possível de explicar (mensurar) da forma como o não ficcional coloca, uma vez que ao utilizar a etnografia para pesquisar sobre o jarê, Banaggia (2015), em sua tese 'As forças do Jarê: religião de matriz africana da Chapada Diamantina', se recusa a coletar dados dos próprios 'encantados' e explica o porquê, mais do que se postular a irredutibilidade de determinados fenômenos, o princípio de irredução ao qual faço referência pode ser melhor definido como uma alternativa ao recurso à transcendência, sugerindo "um recuo frente a essa pretensão de saber e de julgar": o princípio de irredução é assim duplo, já que pode recusar o automatismo tanto das redutibilidades ligeiras como das impossibilidades de comparação, das tentativas de reduzir dois termos à incomensurabilidade (Stengers 1993: 26-27; Serra 1995: 85; Latour 2005: 107, 137). (Banaggia, 2015, p. 284).
### O autor afirma ainda que
[....] não se trata simplesmente de existirem ou não existirem, mas de existir com mais ou menos intensidade, num gradiente que vai das forças mais potentes e perenes às que terminam por desaparecer, quiçá por completo [...] aproximar a composição do texto à estrutura de um altar de jarê, uma construção da qual fazem parte elementos a princípio díspares, mas que acabam sendo postos em contato de forma criativa e com determinados objetivos. (BANAGGIA, 2015, p. 253 - 300).
O que Banaggia (2015) coloca em tela é que na etnografia como um método científico, a ética e o rigor cientifico, sobretudo indistinta do pesquisador, limita e delimita a composição de um texto etnográfico, uma vez que tal texto, é o resultado de todo o processo de coleta, tratamento e refinamento de dados, ou seja, um documento científico, algo distinto de um texto literário que a partir da 'licença poética' permite ao o escritor o livre arbítrio de criar. Algo acentuado inclusive por Matte Braun (2012), quando afirma ser a etnografia, enquanto campo de estudo de outras culturas, de certo modo sempre esteve presente na história da literatura ocidental. Pode-se dizer que tais relações acentuam-se especialmente a partir do século XV, quando os europeus passaram a circular por todos os continentes habitados do planeta. O ato de deparar-se com um sujeito proveniente de um sistema cultural completamente estranho, observá-lo e, a partir dessa experiência, escrever
um texto, pode ser considerado tanto etnografia quanto literatura: a diferença estaria, justamente, no fato de a etnografia não poder ser um relato ficcional. (Matte Braun, 2012, p. 121-122).
Para a etnografia, de acordo com Matte Braun (2012), apenas Histórias, em outras palavras, o não ficcional e para a literatura 'Histórias, histórias e estórias', ou seja, o livre-arbítrio. Algo que pretendemos explorar melhor nos próximos momentos do texto.
## IV. O NÃo - Ficcional em Torto Arado
"A cultura pode ser vista como um texto."
- Clifford Geertz -
Com a perspectiva de analisar elementos não - ficcionais etnografados identificados na obra, ou seja, as evidências etno literárias que tiveram como ponte Itamar Vieira Júnior enquanto tradutor escritor, que é o que para nós, ocupa o espaço do não literário em Torto Arado (2019), propomos continuar algumas de nossas reflexões dando um relevo maior aos fragmentos do texto literário intercalados à referenciais específicos.
A compreensão realizada até agora é a de que, ainda que o autor derive a forma literária de sua experiência subjetiva imediata, está só se constitui sobre o esqueleto social que a encerra e nesse sentido, segundo o próprio autor, Itamar Vieira Júnior em entrevistas concedidas, conforme fontes já citadas, ressalta que tanto sua tese de doutorado e como pesquisador do INCRA, ele utilizou o método etnográfico e esses dois momentos serviu de inspiração para a composição de Torto Arado (2019).
Como pesquisador de campo do INCRA, conhece a chapada Diamantina a mais de 10 anos e das 293 páginas de sua tese, o jarê é citado 226 vezes, que ele define, em nota de rodapé, como "um conjunto de micro crenças que possui elementos do catolicismo rural do Nordeste Brasileiro, da umbanda e do espiritismo kardecista" (Vieira Júnior, 2017, p. 64) e complementa na mesma nota ressaltando que um dado importante é que o jarê ocorre quase que exclusivamente na região da Chapada Diamantina (BANAGGIA, 2015, p. 292) e "trata-se de uma variante do "candomblé de caboclo", culto no qual os deuses yorubas ou orixás foram em grande medida assimilados a uma classe genérica de entidades nativas, os caboclos, considerados como índios ou descendentes de índios. Nesse sentido, o jarê representa uma vertente menos ortodoxa do candomblé, resultante de um complexo processo de fusão onde à influência dos cultos Bantu-Yoruba" (Vieira Junior, 2017, p. 64).
O etno literário, Itamar Vieira Júnior (2019), ao selecionar a narradora Bibiana, dentre outras vozes de nativos de Água Negra, 'habitantes' da Caxangá e adjacências, região do sertão da chapada (velha) para falar pela primeira vez sobre o jarê - citado 50 vezes ao longo da obra - em nosso ver, assim o faz porque o esse academcvs (ser acadêmico) conhece o limite da ética científica e como um não praticante da crença, é um ser delimitado. Delimitação está que nos parece ter levado para o seu esse literatvs (ser literário), que tem licença poética, mas não assumiu a função de um personagem. Por isso, dentro de sua vista privilegiada, semelhante à de um etnógrafo, vista que ele também conhece bem, 'criou - selecionou' informantes e, intersubjetivamente, construiu um texto literário.
Nos fragmentos ('a' e 'b') a seguir, narrados por Bibiana, chamamos a atenção para dois momentos da escrita do autor, qual elucidaremos mais à frente, são eles:
a) Eram famílias que depositavam suas esperanças nos poderes de Zeca Chapéu Grande, curador de jarê, que vivia para restituir a saúde do corpo e do espírito aos que necessitavam.
b) Desde cedo, havíamos precisado conviver com essa face mágica de nosso pai. (Vieira Junior, 2019, p. 27).
O primeiro momento a ser elucidado, o 'a', possui uma descrição de quem conhece bem do ponto de vista interno a função de um curador de jarê, algo confirmado pelo fragmento 'b' e o mesmo exercício reflexivo pode ser feito nesse outro fragmento:
foi na noite de Santa Bárbara, em dezembro, e meu pai, apesar de suas obrigações nas brincadeiras do jarê, havia acordado mal humorado, com respostas lacônicas às perguntas que lhe faziam. Só os mais próximos, como nós, sabíamos o porquê do desconforto visível em seus gestos. No fim da tarde, dona Tonha trouxe, numa caixa antiga, adornos de encantada que meu pai vestiria à noite, depois da ladainha, e à medida que os espíritos chegassem e lhe tomassem o corpo para se fazerem presentes. Na caixa estavam guardadas as roupas de Santa Bárbara, lansã, a dona da noite, lavadas e passadas desde a última vez em que Zeca a havia vestido. A repulsa pelas vestes era tanta que a roupa não era guardada no quarto dos santos como as demais, mas na casa de Tonha, ela mesma cavalo para a encantada nas noites de jarê. (Vieira Júnior, 2019, p. 53).
A descrição densa (Geertz, 2008) sobre os fatos narrados de uma crença que não é fictícia denuncia o etnógrafo Itamar Vieira Junior, o esse academicvs, em nosso ver, porque para a Antropologia, as etnografias são bens preciosos (Peirano, 1995) pois são nelas que estão reflexões experienciadas e intersubjetivas sobre a cultura do 'outro' e que assim como Malinowski (Candido, 2006), Bosi (2015) também via a cultura como uma totalidade conectada diretamente com a experiência do viver, sentir e refletir sobre as próprias experiências e dessa vez, no relato de experiência de Belonísia, é descrito um ato de intolerância religiosa, mas dessa vez, a mesma narrativa informa que Santa Rita Pescadeira, uma nativa dos encantados, foi vítima de tal violência. Eis o que consta na narrativa:
muitos filhos da casa o haviam colocado para fora depois de uma bebedeira. O motivo era a encantada de dona Miúda, a tal Santa Rita Pescadeira, a mesma que de vez em quando surgia no jarê de meu pai. Depois de chegar à casa de Valmira, a encantada passou a ouvir ofensas de Tobias, duvidando de sua existência, incitando que mostrasse seus poderes, dizendo que a própria Valmira era uma farsa, que nada daquilo existia. Por várias vezes a curadora havia intervisto para fazer com que cessasse de dizer as asneiras. Sem recuar ou se desculpar, Tobias recebeu uma única sentença, proferida pela própria encantada montada no corpo de dona Miúda. Palavras que ninguém escutou, nem mesmo Valmira, somente ele. «Mas ele continuou a desfazer da encantada», disse Maria Cabocla, «e agora não se espante se alguma desgraça se abater sobre sua casa». (Vieira Júnior, 2019, p. 121).
Citada treze (13) vezes em toda obra, Santa Rita Pescadeira, uma das vozes que aparecem no romance polifônico, ganha um volume ainda maior no terceiro e último capítulo do livro - Rio de Sangue - pois assume ali a função de protagonista - narradora, por isso que mais uma vez ressaltamos que o universo literário trabalha com a verossimilhança e a Antropologia é uma ciência que trabalha com uma escrita não ficcional, sobretudo no texto etnográfico, seu bem maior.
Logo, a terceira narradora, Santa Rita Pescadeira, não é, para a Antropologia, apenas um ser literário, mas um fenômeno real, enraizado nas crenças e práticas de um povo. Na perspectiva de Banaggia (2015), trata-se de uma experiência imensurável, que escapa às categorias formais da escrita científica. No entanto, para a Literatura, Santa Rita encontra abrigo no campo das possibilidades graças à licença poética, que permite a inscrição do sagrado, do mítico e do invisível. Essa inscrição literária, porém, não é neutra nem gratuita — ela depende do gesto literário que emerge, como propõe Lélia Gonzalez (1984), de uma encruzilhada epistemológica onde se cruzam o ser, os saberes, as experiências subjetivas e as materialidades objetivas do mundo.
# V. A Encruzilhada Como Categoria
A encruzilhada se afirma como uma categoria simbólica e epistemológica fundamental, especialmente nas tradições de matrizes africanas, onde representa o espaço do encontro entre mundos, saberes e temporalidades.
Para Lélia Gonzalez (1988), a encruzilhada é um lugar de interseção e transformação, um espaço onde o diálogo entre opostos — como o masculino e o feminino, o ancestral e o contemporâneo, o material e o espiritual — possibilita a criação de novos sentidos e práticas de resistência cultural. Essa categoria não é apenas simbólica, mas profundamente epistemológica, pois revela modos de conhecer e estar no mundo que desafiam a lógica hegemônica ocidental, propondo uma epistemologia afrocentrada que valoriza a mestiçagem, a pluralidade e a historicidade dos saberes.
Como sugere Clifford Geertz (1989), compreender uma cultura exige mergulhar em seus sistemas simbólicos e em suas formas próprias de dar sentido ao mundo. Nesse sentido, a encruzilhada funciona como um dos nós simbólicos mais potentes, onde se entrelaçam diferentes temporalidades, ontologias e epistemologias.
A literatura, nesse contexto, atua como uma forma de mediação social — ela captura, traduz e reconfigura essas experiências, funcionando como uma espécie de "descrição densa" (Geertz, 1989), que não apenas retrata o que se vê, mas também expressa o que se crê, se sente e se vive. Essa capacidade mediadora da literatura torna-a essencial para a transmissão e ressignificação de saberes ancestrais que, muitas vezes, escapam às categorias rígidas do conhecimento científico.
Benjamin (1994), por sua vez, já advertia que a narrativa verdadeira é aquela que sabe acolher a experiência em sua totalidade, incluindo o invisível e o subjetivo. A presença de Santa Rita Pescadeira, portanto, não pode ser reduzida a um mero símbolo fictício; ela é uma expressão legítima de um imaginário coletivo e uma ontologia em encruzilhada. Sua voz carrega aquilo que Antonio Candido (2004) identifica como a função social da literatura: tornar legível o invisível, dizer o indizível e dar forma àquilo que, no campo da ciência, frequentemente é silenciado.
Nesse sentido, a escrita etnográfica-literária de Itamar Vieira Júnior, especialmente em Torto Arado (2019), exemplifica a potência dessa encruzilhada. Itamar mobiliza uma escrita que é ao mesmo tempo etnográfica e poética, onde a prosa não apenas narra, mas encarna as experiências dos sujeitos do território sua relação profunda com a terra, os saberes tradicionais, as práticas religiosas e as tensões sociais. Sua narrativa é um convite para uma leitura que ultrapassa a mera descrição, aproximando-se de uma "descrição densa" que integra memória, oralidade e a historicidade dos sujeitos.
Ao fazer isso, Itamar Vieira Júnior atua como um mediador social, dando voz a coletivos muitas vezes marginalizados, revelando as contradições de um Brasil rural e afrodescendente e propondo uma epistemologia que dialoga com os modos de ser e conhecer do povo do campo. Sua escrita reafirma a literatura como espaço de encruzilhada — um lugar onde o real e o simbólico se entrelaçam para produzir conhecimento que não se reduz ao acadêmico, mas se abre para a experiência vivida e para as múltiplas temporalidades do tempo.
Assim, pensar Santa Rita Pescadeira e a escrita de Itamar Vieira Junior é reconhecer a literatura como um terreno fértil para a produção de conhecimento híbrido e para a revalorização das epistemologias periféricas. É, enfim, um convite para atravessar encruzilhadas e ouvir aquilo que o silêncio científico muitas vezes não permite expressar.
## VI. COmeNTÁrios FINaIs
A obra Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, se configura como um poderoso entrelaçamento entre mito, política e poesia, revelando uma escrita etnográfica que ultrapassa a mera descrição para se tornar uma construção simbólica de resistência e memória social. A partir das contribuições dos autores que dialogamos — Lélia Gonzalez, Clifford Geertz, Antonio Candido e Walter Benjamin — é possível compreender a profundidade e o alcance dessa do que chamamos de encruzilhada para a construção de um texto como a obra utilizada para as nossas reflexões nesse trabalho.
A encruzilhada, nesse sentido, funciona como uma categoria simbólica que materializa o entrelaçamento de múltiplas temporalidades, identidades e saberes presentes na narrativa, reforçando a posição do autor como mediador entre a experiência vivida das comunidades do sertão e a representação literária.
Ao assumir o papel de etno-tradutor, Itamar Vieira Júnior realiza um gesto de escuta sensível e ética, que transcende a mera descrição para se configurar como uma escrita etnográfica poética e política. Essa escrita permite a emergência de um fenômeno literário diaspórico, no qual os corpos racializados e territorializados ganham voz e subjetividade, revelando as tensões históricas e sociais que marcam o sertão brasileiro. A influência de Lélia Gonzalez é fundamental para compreender a articulação da identidade negra e quilombola na narrativa, enquanto Geertz contribui com o entendimento do texto como sistema simbólico interpretável, que traduz as significações culturais das comunidades.
Candido oferece a perspectiva do compromisso social da literatura, destacando a função da narrativa de denunciar injustiças e reexistir o campo como espaço de luta e memória. Nesimi (2019) e Braun (2012) ampliam o diálogo ao considerar as dimensões de território e gênero, enriquecendo a análise das formas de opressão e resistência presentes na obra. Finalmente, a poética da memória e da história crítica de Walter Benjamin inspira a leitura da escrita de Itamar como uma prática que tensiona o passado e o presente, revelando possibilidades de transformação a partir das experiências marginalizadas.
Assim, a escrita etnográfica de Torto Arado não apenas descreve o sertão e seus habitantes, mas recria mitos, conflitos e sonhos, inscrevendo-se como uma literatura engajada que mobiliza a potência da palavra para reexistir as vozes silenciadas. Essa encruzilhada mítica, política e poética reforça a importância do romance para a compreensão das dinâmicas culturais e sociais brasileiras, posicionando o autor como um etnógrafo-literato que atua na mediação social por meio da linguagem, da memória e da imaginação.
[^1]: No ensaio "Racismo e sexismo na cultura brasileira" (1984), Lélia Gonzalez desmonta a ideia de que a cultura nacional é mestiça, harmônica e democrática. Ao contrário, ela mostra que a brasilidade é marcada por um racismo estrutural e um sexismo fundacional, que operam tanto no cotidiano quanto nas instituições — especialmente sobre os corpos negros e, em particular, das mulheres negras. Nesse contexto, Gonzalez constrói uma crítica profunda ao modo como os saberes e as práticas dos povos afrodescendentes foram invisibilizados, exotizados ou apropriados pela cultura hegemônica branca, inclusive dentro da academia. É justamente aí que sua reflexão se cruza com a etnografia: ela propõe um reposicionamento radical da escuta etnográfica, que vá além da descrição do “outro exótico" e se comprometa com uma escuta sensível, crítica e politicamente implicada. _(p.2)_
[^2]: Ver entrevista completa em: https:/versatille.com/torto-arado-e-umahistoria-sobre-o-desejo-de-liberdade-diz-itamar-vieira-junior/ e entrevista completa emhttpsbrasil.elpais.com/cultura/- 12-02/tudo-em-torto-arado-ainda-e-presente-no-mundo-rural-brasilei ro-ha-pessoas-em-condicoes-analogas-a-escravidao.html _(p.4)_
[^4]: Gabriel Banaggia, em sua obra As forças do Jarê: religião de matriz africana da Chapada Diamantina (2015), oferece uma análise aprofundada do Jarê, uma prática religiosa afro-brasileira presente exclusivamente na região da Chapada Diamantina, Bahia. O autor destaca o Jarê como uma religião sincrética, resultante da fusão de elementos de cultos africanos, especialmente das nações Bantu e Nagô, com aspectos do catolicismo rural, da umbanda e do espiritismo kardecista. _(p.5)_
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Vanessa Ramos da Silva. 2026. \u201cThe Mythical, Political, and Poetic Crossroads: The Ethnographic Writing of Itamar Vieira Junior in Torto Arado\u201d. Global Journal of Human-Social Science - G: Linguistics & Education GJHSS-G Volume 25 (GJHSS Volume 25 Issue G3): .
The analysis focuses on the construction of a “diasporic literary phenomenon,” in which mythology, politics, and poetry intersect within a narrative that translates the listening to racialized and territorialized bodies in the Brazilian hinterlands (sertão). The discussion is guided by the hypothesis that the textual construction represents a subjective-objective process in which the author acts as an ethno-translator. From this perspective, the crossroads is explored as a symbolic and epistemological category, and literature as a form of social mediation. The crossroads, in this sense, materializes the entanglement of multiple temporalities, identities, and knowledge systems present in the narrative, reinforcing the author’s role as a mediator between the lived experience of sertão communities and their literary representation.
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