## I. INTRODUΓΓO
ste ensaio teΓ³rico buscou apresentar o problema do agenciamento da mobilidade ativa por bicicleta nas cidades por meio da noΓ§Γ£o foucaultiana de tecnologias polΓticas para gestΓ£o do planejamento dos programas de ciclovias recreativas. Para Estrada et al. (2009) ciclovias recreativas consistem em eventos de abertura temporal das vias pΓΊblicas para a realizaΓ§Γ£o de atividades fΓsicas, com restriΓ§Γ£o do acesso aos veΓculos motorizados. Acontecem geralmente aos domingos e feriados, com duraΓ§Γ£o mΓ©dia de seis horas e nomenclatura variΓ‘vel a cada paΓs.
No contexto sul-americano de planejamento da mobilidade urbana, nos importa diagnosticar de que forma oS programas de ciclovias recreativas reproduzem uma gestΓ£o qualificada de trΓ’nsito inclusiva. Ao diagnosticar as tecnologias de governo que constituem sua organizaΓ§Γ£o polΓtica institucional, buscaremos circunscrever as correlaΓ§Γ΅es de forΓ§as configuradas na presenΓ§a do que consideramos uma racionalidade polΓtica governamental disposta para os transportes motorizados como um heterogΓͺneo de elementos discursivos e nΓ£o-discursivos, que informam a concepΓ§Γ£o de uma polΓtica institucional estruturante do espaΓ§o viΓ‘rio.
Apesar dos esforΓ§os de gestΓ£o das principais metrΓ³poles da regiΓ£o em ampliar a acessibilidade dos ciclistas com a implantaΓ§Γ£o de infraestrutura cicloviΓ‘ria, as ciclovias recreativas paralelamente promovem, numa temporalidade especΓfica, a experimentaΓ§Γ£o lΓΊdica do ciclismo urbano. Estes eventos, ao modificarem as dinΓ’micas das vias pΓΊblicas, contΓ©m a capacidade de incluir a toda a populaΓ§Γ£o a participar, mas para tanto, nos parece estratΓ©gico investigar como esses programas podem potencializar prΓ‘ticas de mobilidade agenciadoras da cultura de bicicleta.
O texto estΓ‘ organizado em duas partes. No "Campo problemΓ‘tico", apresenta-se a perspectiva do investigador, os conceitos de mobilidade urbana, cicloativismo e o uso da bicicleta nas vias pΓΊblicas, os conceitos de tecnologias polΓticas e agenciamento e o conceito de ciclovias recreativas no contexto latinoamericano. Na RevisΓ£o da Literatura, apresentamos o Estado da Arte a partir dos seguintes tΓ³picos: 1) AssociaΓ§Γ£o entre saΓΊde pΓΊblica e ciclovias recreativas; 2) Abordagem multissetorial para criaΓ§Γ£o de ambientes de atividades fΓsicas em ciclovias recreativas; 3) Acessibilidade e inclusΓ£o social em ciclovias recreativas; 4) AssociaΓ§Γ£o entre infraestrutura cicloviΓ‘ria e ciclovias recreativas; 5) Sustentabilidade dos programas de ciclovias recreativas; 6) Conhecimento, poder e governanΓ§a em ciclovias recreativas.
## II. Campo ProblemΓ‘tico
### a) Perspectiva do Investigador
A partir do envolvimento fenomenolΓ³gico com o ciclismo urbano descrito na dissertaΓ§Γ£o de mestrado, sobre a perspectiva dos cicloativistas da cidade de SΓ£o Paulo, buscou-se ampliar o percurso de pesquisa. Este caminho decorre da compreensΓ£o da diversidade das prΓ‘ticas de mobilidade ciclista no contexto da sua promoΓ§Γ£o com ciclovias recreativas.
No primeiro semestre de 2015, foi realizada uma cicloviagem do interior do estado atΓ© a capital paulista para entrevistar pessoas envolvidas em diversas Γ‘reas de atuaΓ§Γ£o com bicicleta e participar da formaΓ§Γ£o sobre ciclomobilidade da AssociaΓ§Γ£o dos Ciclistas Urbanos de SΓ£o Paulo (CICLOCIDADE). Desta investigaΓ§Γ£o, resultaram duas pesquisas sobre prΓ‘ticas de mobilidade ciclΓstica: a) do cicloativismo como direito humano Γ s mobilidades ativas (TRONcosO et al., 2018); b) do sentido polΓtico aplicado aos trabalhos de mecΓ’nica de bicicleta, gerente de agΓͺncia bike courier, organizador de eventos com mountain bike, administrador de bike shop e gestora pΓΊblica de infraestrutura cicloviΓ‘ria (TRONCOSO et al., 2019).
Neste processo de pesquisa, ao buscar compreender as diversas prΓ‘ticas de mobilidade com ciclismo urbano na cidade de SΓ£o Paulo, percebe-se que nas cidades do interior o interesse da populaΓ§Γ£o pelo mountain bike tem sido tanto para ter contatos com paisagens rurais, bem como a fruiΓ§Γ£o de pedalar em seguranΓ§a distante do trΓ’nsito urbano. Com o aumento da procura por este tipo de atividade fΓsica, decorre a formaΓ§Γ£o de diversos grupos ciclΓsticos que se reΓΊnem no tempo livre e do aumento no comΓ©rcio de peΓ§as, equipamentos e serviΓ§os com bicicletas.
De outra maneira, as polΓticas pΓΊblicas de mobilidade ativa por bicicleta tΓͺm sido pouco incorporadas nesses territΓ³rios. A obrigaΓ§Γ£o das - gestΓ΅es municipais elaborarem seus Planos de Mobilidade Urbana e que inclusive contam com um documento guia (BRASIL, 2015). PorΓ©m, sem uma normativa legislada, o caminho dos cicloativistas em exigir o seu direito, torna-se mais complexo para que os cidadΓ£os se articulem para interpelar as autoridades no cumprimento da polΓtica nacional, principalmente com o estabelecimento de aΓ§Γ΅es educativas com bicicleta.
No segundo semestre de 2015, foi realizada uma outra viagem de bicicleta dentro da ColΓ΄mbia para realizar intercΓ’mbio acadΓͺmico na Universidad de Antioquia (UdeA) em MedellΓn. Esta cicloviagem entre MedellΓn-BogotΓ‘ (ida-e-volta), teve por objetivo entrevistar gestores pΓΊblicos, cicloativistas, professores, mecΓ’nicos e ex-atleta de ciclismo de estrada de renome internacional (TRONCOsO et al., 2022). Estas entrevistas foram realizadas para poder conhecer melhor o campo das polΓticas cicloativistas, educativas e de gestΓ£o pΓΊblicas de incentivo Γ mobilidade ativa por bicicleta neste paΓs ao ampliar as perspectivas de agenciamento do seu uso.
No primeiro semestre de 2016, pedalamos aproximadamente 4500 km pelo continente sulamericano, passando por Brasil, Uruguai, Argentina e Chile, para conhecer uma rede de cicloativistas, teve como objetivo participar do V Foro Mundial de la Bicicleta (FMB) Energia Humana, Poder Ciudadano. Durante o trajeto, foram realizadas 30 entrevistas com polΓticos, mecΓ’nicos, professores e cicloativistas.
Em 2017, ao cursar a disciplina "PrΓ‘ticas Sociais e Processos Educativos" do Programa de PΓ³sgraduaΓ§Γ£o em EducaΓ§Γ£o da Universidade Federal de SΓ£o Carlos (UFSCar), foi refletido criticamente a partir dos referenciais teΓ³ricos de Paulo Freire e Enrique Dussel sobre os processos educativos vivenciados na prΓ‘xis de libertaΓ§Γ£o cicloativista. Pode-se afirmar que para avanΓ§ar da atual situaΓ§Γ£o de exclusΓ£o desta posiΓ§Γ£o epistemolΓ³gica nas polΓticas de mobilidade urbana, considera-se a formaΓ§Γ£o do diΓ‘logo institucional apoiado pela universidade com o poder pΓΊblico na promoΓ§Γ£o da cultura de bicicleta (TRONCOSO et al., 2018).
Entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018, foi realizada outra cicloviagem, pedalando aproximadamente 3500 km entre os estados de SΓ£o Paulo, Minas Gerais, Bahia, EspΓrito Santo e Rio de Janeiro para entrevistar agricultores na perspectiva do cicloturismo agroecolΓ³gico. A promoΓ§Γ£o da cultura da bicicleta nestes contextos, contΓ©m potencial de ser uma alternativa propulsora para o desenvolvimento da motricidade humana entre ciclistas urbanos e agricultores familiares produtores de alimentos orgΓ’nicos, preservando conscientemente a biodiversidade gerando benefΓcios para o ambiente da saΓΊde coletiva (TRONCOSO et al., 2020).
Em um trabalho sobre a promoΓ§Γ£o do uso da bicicleta, na perspectiva de docentes universitΓ‘rios em Brasil, ColΓ΄mbia e Chile, com prΓ‘ticas de mobilidade ciclΓsticas, na anΓ‘lise discursiva, emergiram as unidades de significado: 1) Ciclismo urbano como temΓ‘tica de pesquisa; 2) ArticulaΓ§Γ£o polΓticoinstitucional para a mobilidade ativa; 3) Ensinoaprendizagem do pedalar na cidade, geradores da categoria "Cultura da bicicleta como processo cognitivo-educativo". Para os autores, o incentivo ao uso da bicicleta contΓ©m potencial de polΓtica institucional e de alternativa emergente interdisciplinar de ensino, pesquisa e extensΓ£o (TRoNcoso et al., 2019).
Buscou-se compreender os processos educativos vivenciados por mecΓ’nicos de bicicleta com longa experiΓͺncia em seis contextos laborais. Na anΓ‘lise discursiva, emergiram as unidades de significado: ensino-aprendizagem no trabalho com bicicleta; b) influΓͺncia tecnolΓ³gica no ciclismo; c) saΓΊde e cuidados ao pedalar que sustentam a categoria
"MecΓ’nica da bicicleta como processo cognitivoeducativo". Para os autores, a mecΓ’nica de bicicleta Γ© parte fundamental do fenΓ΄meno das prΓ‘ticas de mobilidade com efeitos na realidade urbana. (TRONCOSO et al., 2020).
Entre 2018-2019, na cidade de Valdivia, Chile, foi trabalhado junto com a DireΓ§Γ£o de ServiΓ§os da Universidad Austral de Chile (UACH), a criaΓ§Γ£o do espaΓ§o de mecΓ’nica colaborativa "BicicleterΓa Austral". Em paralelo, foi desenvolvido junto ao Departamento Administrativo de EducaciΓ³n Municipal (DAEM) o projeto "BiciudadanΓa en ambientes escolares" para gerar processos educativos com bicicleta nas vias pΓΊblicas (TRONCOSO et al., 2021).
Retomando a experiΓͺncia vivida na ColΓ΄mbia, ao conhecer uma diversidade de atores sociais envolvidos no agenciamento da mobilidade ativa por bicicleta neste paΓs, no regresso deu-se participaΓ§Γ£o no "VIII Foro Nacional de la Bicicleta - FusagasugΓ‘ 2022" para apresentar a perspectiva de Lucho Herrera, importΓ’ncia ciclista colombiano, na promoΓ§Γ£o do ciclismo urbano neste paΓs (TRONcOsO et al., 2022). Este evento, que comeΓ§ou com uma cicloviagem de 80 km, desde BogotΓ‘ atΓ© esta cidade, no fechamento total de uma rodovia, com aproximadamente 500 ciclistas, verificou-se o nΓvel de organizaΓ§Γ£o dos governos distrital de BogotΓ‘, departamental de Cundinamarca e municipal que, com a articulaΓ§Γ£o polΓtica do IDRD, coube a funΓ§Γ£o da sua realizaΓ§Γ£o por onde passou mais de 2000 pessoas.
Na ColΓ΄mbia, o ciclismo de estrada Γ© considerado um esporte nacional com ampla visibilidade midiΓ‘tica sendo representado pelos "escarabajos" (nome dado aos colombianos por sua excelΓͺncia em pedalar em grandes subidas) nas principais competiΓ§Γ΅es internacionais. O governo distrital de BogotΓ‘ tem incentivado o uso da bicicleta, seja na implantaΓ§Γ£o de infraestrutura com o sistema de "ciclorrutas e de estacionamentos seguros em estaΓ§Γ΅es de transporte pΓΊblico e centros comerciais. A promoΓ§Γ£o institucional de ciclovias recreativas pelo governo nacional inclui apoio logΓstico e operacional aos governos departamentais e municipais na formaΓ§Γ£o de agentes pΓΊblicos do setor de educaΓ§Γ£o fΓsica.
Esta mobilizaΓ§Γ£o do Distrito Central de BogotΓ‘ ocorre em uma metrΓ³pole que, apesar de ainda nΓ£o possuir um sistema de transporte pΓΊblico massivo sobre trilhos, segundo contagens oficiais, aproximadamente $8 \%$ da sua populaΓ§Γ£o utiliza a bicicleta nos deslocamentos diΓ‘rios. Houve entendimento de que esta condiΓ§Γ£o privilegiada, decorre hΓ‘ 50 anos das atividades do Programa Ciclovia.
A entrevista realizada com Jorge MaurΓcio Ramos Martinez, coordenador entre 2003-2013 do Programa Ciclovia do IDRD, afirmou que na participaΓ§Γ£o cidadΓ£, envolve uma correlaΓ§Γ£o de forΓ§as entre cicloativistas e governantes, com apoio institucional de normativas que determinaram uma autoridade administrativa competente de controle viΓ‘rio onde sΓ£o desenvolvidas atividades culturais, recreativas e esportivas cuja gestΓ£o qualificada do trΓ’nsito Γ© o resultado do apoio intersetorial de governo que ampliou as possibilidades do seu uso na cidade (TRoNcosO, 2019).
b) Mobilidade Urbana, Cicloativismo e o uso da Bicicleta nas vias PΓΊblicas
Diante da complexidade de se promover o uso da bicicleta, reconhece-se o argumento jurΓdico cicloativista de reivindicar o cumprimento da lei na implantaΓ§Γ£o de infraestrutura cicloviΓ‘ria para fomentar a seguranΓ§a dos ciclistas. Sob outra perspectiva, esta nΓ£o pode ser a ΓΊnica estratΓ©gia polΓtica para promover o incentivo da mobilidade ativa por bicicleta, mas que, ao mesmo tempo, estΓ‘ condicionada Γ aplicaΓ§Γ£o de legislaΓ§Γ£o especΓfica. Ainda assim, esta medida tem encontrado resistΓͺncia por parte dos condutores de veΓculos que, alΓ©m de pouco terem a oportunidade de pedalar na cidade, esta reivindicaΓ§Γ£o contrΓ‘ria tem gerado um ciclo vicioso que impede avanΓ§os operacionais na implantaΓ§Γ£o dessas estruturas.
Bonhan e Cox (2010) examinaram a introduΓ§Γ£o generalizada de infraestrutura cicloviΓ‘ria segregada no Reino Unido e AustrΓ‘lia e destacaram que, apesar dos seus benefΓcios, tem havido problemas significativos para o ciclismo nos comportamentos de viagem mais amplos. Os autores concluem que esses espaΓ§os, ao retirarem os ciclistas do compartilhamento viΓ‘rio, operam para manter as normas existentes e podem estar em desacordo com seu potencial de mobilidade.
Esta resistΓͺncia decorre da reproduΓ§Γ£o das necessidades objetivas dos condutores por meio de obras viΓ‘rias adequadas ao fluxo e velocidade motorizada e subjetivamente atravΓ©s de comunicaΓ§Γ£o massiva permanente sobre o consumo da automobilidade. Esta combinaΓ§Γ£o de formaΓ§Γ£o do pensamento\_ motorista tem influenciado O comportamento da populaΓ§Γ£o no uso de transportes individuais.
Urry (2004) define a automobilidade como um sistema de expansΓ£o global da necessidade do automΓ³vel devido a flexibilidade de uso do tempoespaΓ§o, status e sΓmbolos de valor associados. Para o autor, a subordinaΓ§Γ£o de outras formas de mobilidade, o consumo de espaΓ§os pΓΊblicos e a utilizaΓ§Γ£o demasiada de bens naturais, geram um carΓ‘ter especΓfico de dominaΓ§Γ£o da sociedade civil. Egan e Caufield (2024) afirmam que a automobilidade Γ© politicamente sustentada no sistema dominante de opiniΓ£o pΓΊblica como discurso normativo de prΓ‘tica essencial das tarefas funcionais, sua desconstruΓ§Γ£o busca descentralizΓ‘-la da vida social.
Apesar da bicicleta ser um instrumento de acesso popular para a mobilidade urbana, geralmente os ciclistas se deparam com uma ambiΓͺncia viΓ‘ria produzida pela automobilidade que causa risco Γ vida humana. Ao visualizar nos programas de ciclovias recreativas uma polΓtica pΓΊblica eficaz para promover o uso da bicicleta em escala populacional, cabe problematizar as lΓ³gicas de operacionalizaΓ§Γ£o contidas na organizaΓ§Γ£o desses programas que envolvem diversos atores sociais, dentre eles, poder pΓΊblico, tΓ©cnicos de planejamento, organizaΓ§Γ΅es sociais nΓ£o-governamentais nacionais e internacionais, cicloativistas, iniciativas privadas e usuΓ‘rios em geral.
Ao gerar a condiΓ§Γ£o de possibilidade para uma reconfiguraΓ§Γ£o de forΓ§as polΓticas permanente no planejamento urbano com ciclovias recreativas, os gestores pΓΊblicos passam a levar em consideraΓ§Γ£o as prΓ‘ticas de mobilidade em relaΓ§Γ£o ao ambiente construΓdo para atividades fΓsicas. Esta relaΓ§Γ£o comumente associada Γ s prΓ‘ticas corporais em parques pΓΊblicos ou, atΓ© mesmo, em academias de ginΓ‘stica no Brasil, ganha outros contornos sobre a promoΓ§Γ£o da saΓΊde ao considerar as vias pΓΊblicas como local apropriado para a reproduΓ§Γ£o das mobilidades ativas.
Para Cresswell (2010) a mobilidade pode ser pensada como um emaranhado de representaΓ§Γ£o e prΓ‘ticas. O autor defende uma polΓtica de mobilidade em termos de forΓ§a motriz, velocidade, ritmo, rota, experiΓͺncia e fricΓ§Γ£o humana ao considerar a existΓͺncia histΓ³rica de frΓ‘geis sentidos de movimento e que foram marcados por formas distintas de regulamentaΓ§Γ£o mΓ³vel.
Jensen (2011) afirma que a mobilidade se torna visΓvel e real a partir dos seus diferentes aspectos que aparecem e ocorrem em ambientes espaciais especΓficos sob o funcionamento das diversas formas de poder. Para a autora, a mobilidade se confunde com percepΓ§Γ΅es, experiΓͺncias e desejos do eu moderno com base no enquadramento de imaginΓ‘-la, praticΓ‘-la e experimentΓ‘-la no sentido de alargar a nossa linguagem para abordar suas questΓ΅es intrΓnsecas e futuros possΓveis.
Mimi Sheller, acadΓͺmica que colaborou para estabelecer o "novo paradigma das mobilidades", nos apresenta cinco caminhos aos investigadores para ampliar a compreensΓ£o das prΓ‘ticas de mobilidade: 1) uma nova forma de pensar os mundos como emergentes de relaΓ§Γ΅es, fluxos e circulaΓ§Γ΅es multiescalares; 2) sua investigaΓ§Γ£o fornece informaΓ§Γ΅es sobre as agΓͺncias materiais das vidas mΓ³veis contemporΓ’neas; 3) compreender suas representaΓ§Γ΅es discursivas enquanto fenΓ΄menos mΓ³veis ou imΓ³veis, rΓ‘pidos ou lentos; 4) um mΓ©todo local de aΓ§Γ£o colaborativo para explorar a Γ©tica e desenvolver quadros explicitamente normativos para instigar a sua justiΓ§a; 5) existe uma polΓtica de mobilidade organizada em torno de "constelaΓ§Γ΅es" de movimento, significado e prΓ‘tica desiguais e diferenciais que se unem pelas experiΓͺncias vividas (SHELLER, 2018, p.20).
Para Manderscheid (2014) apesar do paradigma das mobilidades considerar o contexto onde as prΓ‘ticas de mobilidade das pessoas estΓ£o inseridas, a investigaΓ§Γ£o empΓrica tende a investigar o social separadamente enquanto sentido subjetivo da experiΓͺncia em contraposiΓ§Γ£o a base discursiva, espacial ou estrutural. A partir disso, a autora faz uma proposta de investigaΓ§Γ£o crΓtica que busca tecer ligaΓ§Γ΅es entre estruturas e prΓ‘ticas de mobilidades com a anΓ‘lise de correspondΓͺncias mΓΊltiplas que reforΓ§am as redes sociais como origem das decisΓ΅es.
Cook et al. (2022) definem mobilidade ativa como viagens nas quais o esforΓ§o fΓsico sustentado do viajante, contribui diretamente para o seu movimento. Por outro lado, Coelho (202o) ao se referir a este conceito nas cidades brasileiras, o caracteriza como uma subespΓ©cie do direito Γ cidade, inspirado por princΓpios democrΓ‘ticos de justiΓ§a social. Para a autora, na cidade forjada pelo capitalismo, a mobilidade urbana estabelece um aparato de exclusΓ£o onde aqueles que convivem perto das centralidades, sofrem segregaΓ§Γ£o em seus deslocamentos.
Estes autores fazem parte de uma rede de pesquisa europeia e que estΓ‘ relacionada a abordagem foucaultiana sobre as prΓ‘ticas de mobilidade ao ampliar as condiΓ§Γ΅es de possibilidade de se pensar no planejamento urbano inclusivo Γ bicicleta. De outra forma, ao definir o conceito de mobilidade ativa e sua correlaΓ§Γ£o com o processo polΓtico institucional de implementaΓ§Γ£o da pauta dos governos brasileiros, estamos apoiados em uma abordagem que envolve a complexidade de se abordar o fenΓ΄meno mobilidade ativa por bicicleta na maneira como estΓ‘ estruturada a condiΓ§Γ£o violenta que sofre o ciclista nas cidades brasileiras.
Para exemplificar esta exclusΓ£o, de acordo com o Centro de LideranΓ§a PΓΊblica (CLP), em 2023 foram 24052 homens e 5045 mulheres que morreram em acidentes de trΓ’nsito com taxa de acidentes fatais em 15 mortes por 100.000 habitantes. Ainda, entre 2012- 2023, foram perdidos $\mathsf { R } \$ 8$ 251 bilhΓ΅es, uma perda anual de aproximadamente $\mathsf { R } \$ 8$ 21 bilhΓ΅es, $\mathsf { R } \$ 800$ mil por indivΓduo, o que corresponde a $0 \%$ do PIB brasileiro. A nota tΓ©cnica sugere como medidas os governos implementarem leis de seguranΓ§a viΓ‘ria, melhorias na infraestrutura rodoviΓ‘ria, campanhas de educaΓ§Γ£o e fiscalizaΓ§Γ£o (CLP, 2024).
Mascolli et al. (2023) descreveram as caracterΓsticas dos Γ³bitos de ciclistas, sua evoluΓ§Γ£o e o papel da estrutura cicloviΓ‘ria do municΓpio de SΓ£o Paulo. Os autores diagnosticaram que a taxa bruta de mortalidade de ciclistas aumentou entre 2000-2006 e diminuiu entre 2007-2017, com variaΓ§Γ£o positiva de $32 \%$ nas viagens diΓ‘rias de bicicleta (em 2015 foi 2,9 por 100.000 habitantes e no estado de SΓ£o Paulo, foi 3,7 por 100.000 habitantes). Os autores recomendam o reforΓ§o da implementaΓ§Γ£o de medidas protetivas e educativas para esta populaΓ§Γ£o.
O CΓ³digo de TrΓ’nsito Brasileiro (CTB) determina o respeito aos ciclistas. No artigo 29, os ciclistas tΓͺm prioridade sobre veΓculos automotores e pedestres tΓͺm prioridade sobre ciclistas; no artigo 201, nΓ£o guardar distΓ’ncia lateral de 1,5m ao ultrapassar bicicleta, infraΓ§Γ£o mΓ©dia e multa; no artigo 220, nΓ£o reduzir velocidade compatΓvel com a seguranΓ§a do trΓ’nsito, infraΓ§Γ£o grave e multa e, no artigo 170, dirigir ameaΓ§ando pedestres ou demais veΓculos, infraΓ§Γ£o gravΓssima, multa, suspensΓ£o do direito de dirigir, retenΓ§Γ£o do veΓculo e da habilitaΓ§Γ£o (BRASIL, 1997). Entretanto, os ciclistas nΓ£o sΓ£o atendidos em suas demandas para reivindicar seus direitos. Zuge Junior (2015) afirma que a posiΓ§Γ£o cicloativista paulistana busca pressionar o poder pΓΊblico no cumprimento destas normas jurΓdicas, o que motiva a aglutinaΓ§Γ£o de indivΓduos em torno da percepΓ§Γ£o polΓtica de risco compartilhado.
Historicamente, as regiΓ΅es metropolitanas brasileiras se constituΓram na segunda metade do sΓ©culo XX com a modificaΓ§Γ£o da circulaΓ§Γ£o urbana do centro, local de trabalho para as moradias nas periferias, gerou um espraiamento urbano com a realizaΓ§Γ£o de grandes vias e gerando dependΓͺncia da populaΓ§Γ£o pelos transportes individuais. O uso da bicicleta estabelece-se marginalmente devido Γ s limitaΓ§Γ΅es fΓsicas em contraste com o sistema da automobilidade.
Balbim (2016) entende que a lΓ³gica da mobilidade urbana no Brasil estΓ‘ relacionada Γ s determinaΓ§Γ΅es individuais que influenciam na organizaΓ§Γ£o do espaΓ§o nos modos de vida. Para o autor, uma das transformaΓ§Γ΅es no contexto da mobilidade cotidiana Γ© seu reforΓ§o impulsionado pelas novas tecnologias da comunicaΓ§Γ£o, para alΓ©m do paradigma de circulaΓ§Γ£o que estrutura o espaΓ§o urbano, onde o espaΓ§o da cidade expande o universo da "vida de relaΓ§Γ΅es humanas".
A transformaΓ§Γ£o da mobilidade pelas tecnologias de comunicaΓ§Γ£o que influencia no hΓ‘bito do indivΓduo em mobilizar-se passivamente sendo capturado por uma forma de vida motorizada. Para Silva et al. (2016) os modos motorizados permitiram que os tempos de viagem se mantivessem nos mesmos intervalos aqueles observados nas viagens a pΓ©, ainda que, com distΓ’ncias percorridas maiores. Esta caracterΓstica exponencial do transporte tem levado a ampliaΓ§Γ£o das Γ‘reas urbanizadas, porΓ©m, tΓͺm acarretado no excesso de viagens motorizadas saturando, tanto as vias existentes, como aquelas construΓdas para absorver uma demanda crescente por espaΓ§o viΓ‘rio (p. 81).
No Brasil, quando se pensa em ciclovias, a primeira ideia que surge Γ© de espaΓ§os segregados nas vias pΓΊblicas para bicicleta. Na tentativa de ampliar o conceito, esse programa opera no sentido de entregar, de forma temporΓ‘ria, a condiΓ§Γ£o para a pessoa pedalar, sendo uma forma legΓtima e alternativa de promover o seu uso. Diferentemente de segregar determinada parte da via, este tipo de fechamento das vias pΓΊblicas implica dar outra forma Γ bicicleta na cidade que, ao ser explorada para atividades recreativas, entrega um lugar comum no imaginΓ‘rio coletivo ao criar outra funΓ§Γ£o social para formas ativas de deslocamento.
Olekszechen et al. (2016) ao verificar como os estudos pessoa-ambiente enfocam a temΓ‘tica do uso de bicicletas como meio de transporte a partir das categorias hΓ‘bitos e atitudes, ambiente e comportamento e percepΓ§Γ£o, os resultados apontam para a compreensΓ£o multideterminada deste modal. Para Carvalho e Freitas (2012) ao analisarem a produΓ§Γ£o cientΓfica que trata da relaΓ§Γ£o entre o ciclismo como meio de transporte e a saΓΊde pΓΊblica, demonstraram que Γ© recente a preocupaΓ§Γ£o com este tema e que o seu padrΓ£o ocorre de forma heterogΓͺnea, mas com potenciais de maiores impactos nos paΓses em desenvolvimento, onde torna-se urgente a inclusΓ£o deste tema nas agendas de pesquisas sobre a relaΓ§Γ£o entre promoΓ§Γ£o do transporte ativo, saΓΊde e seguranΓ§a no trΓ’nsito.
Para Tagliari e Pawlowsky (2021) a mobilidade ativa apresenta-se como um meio para a promoΓ§Γ£o da saΓΊde e para diminuir a quantidade de gases poluentes atravΓ©s da construΓ§Γ£o de ambientes de aprendizagem educacional formal e nΓ£o formal, em atividades pontuais, bem como por meio de intervenΓ§Γ΅es de longo prazo, na criaΓ§Γ£o de oportunidades com instruΓ§Γ£o e encorajamento para a efetuaΓ§Γ£o.
A Agenda Convergente Mobilidade SustentΓ‘vel e SaΓΊde" elabora pela OrganizaΓ§Γ£o Panamericana de SaΓΊde (OPAs) e vinculada a OrganizaΓ§Γ£o Mundial da SaΓΊde (OMS), elencam os impactos positivos da mobilidade ativa na prevenΓ§Γ£o dos acidentes de trΓ’nsito, na realizaΓ§Γ£o de atividades fΓsicas e na melhora da qualidade do ar nas cidades. Para sua implementaΓ§Γ£o requer haver uma articulaΓ§Γ£o entre agendas de trabalho intersetorial das polΓticas pΓΊblicas, de promoΓ§Γ£o do bem-estar das populaΓ§Γ΅es, para ampliar a otimizaΓ§Γ£o de recursos nos processos de planejamento institucional ao ampliar o seu alcance e efetividade (OPAS, 2020).
O Guia de Atividade FΓsica para a populaΓ§Γ£o brasileira elaborado pelo MinistΓ©rio da SaΓΊde, indica a promoΓ§Γ£o da atividade fΓsica nos deslocamentos cotidianos, seja a pΓ©, bicicleta, patins e skates, pessoas com deficiΓͺncia e com mascotes. A tarefa multisetorial deve ser operada por gestores do campo da educaΓ§Γ£o fΓsica, recreaΓ§Γ£o e esporte em conjunto com funcionΓ‘rios tΓ©cnico-administrativos do trΓ’nsito e o apoio da iniciativa privada, de organizaΓ§Γ΅es sociais e da cidadania para a legitimaΓ§Γ£o dessas atividades (BRASIL, 2021).
Oliveira e Silva (2021) adotando como referencial o conceito de "SaΓΊde em Todas as PolΓticas", acreditam nas CiΓͺncias da Atividade FΓsica, a tarefa de formar uma agenda multisetorial de pesquisa e advocacy que possa reorientar o desenho urbano e de uso do solo. Para Nieuwenhuijsen et al. (2017) a poluiΓ§Γ£o atmosfΓ©rica, o ruΓdo, a temperatura, os espaΓ§os verdes, os acidentes com veΓculos motorizados e a atividade fΓsica ligam o planejamento urbano e dos transportes Γ saΓΊde pΓΊblica. Para a tomada de decisΓ΅es polΓticas, Γ© importante compreender e ser capaz de quantificar toda a cadeia, desde a fonte, passando pelos caminhos atΓ© aos efeitos e impactos na saΓΊde, para fundamentar e direcionar eficazmente as aΓ§Γ΅es.
Ainda, Nieuwenhuijsen et al. (2019) apresentam a ferramenta de AvaliaΓ§Γ£o do Impacto na SaΓΊde (AIS) para integrar evidΓͺncias no processo de tomada de decisΓ£o e que, ao introduzir a saΓΊde em todas as polΓticas, tΓͺm sido utilizadas para viabilizΓ‘-las para melhorar a saΓΊde pΓΊblica nas cidades. Para as autoras, o processo sobre como chegar lΓ‘ Γ© tΓ£o importante quanto o resultado real ao fornecer respostas sobre como diferentes disciplinas/setores trabalhar integrados por uma determinada abordagem de saΓΊde pΓΊblica para provocar mudanΓ§as no planejamento urbano.
Varela e Hallal (2024) insta os pesquisadores a considerar o contexto em que a atividade fΓsica Γ© praticada em cada comunidade com uma estratΓ©gia analΓtica para adaptar as recomendaΓ§Γ΅es Γ s necessidades dos indivΓduos. Para os autores, esta abordagem requer que os governos, os decisores polΓticos e a comunidade cientΓfica ajudem a construir sociedades nas quais a escolha da pessoa ser fisicamente ativa seja conveniente, agradΓ‘vel, seguro, acessΓvel e valorizada.
Santos e Santos (2022) afirmam que a bicicleta precisa ser integrada Γ s polΓticas de mobilidade urbana, partindo da convivΓͺncia nas vias pΓΊblicas ao habitar a cidade. Silva (202o) propΓ΅e a utilizaΓ§Γ£o do conceito mobilidade ativa integrado aos instrumentos urbanΓsticos do Plano Diretor e Plano de Mobilidade Urbana com base nos critΓ©rios: a) na elaboraΓ§Γ£o participativa com base nas condiΓ§Γ΅es de circulaΓ§Γ£o dos deficientes, pedestres e ciclistas; b) dos instrumentos legais e normativos em conjunto ao apoio de organizaΓ§Γ΅es sociais; c) na consolidaΓ§Γ£o dos levantamentos como produto de leitura tΓ©cnica; d) na aprovaΓ§Γ£o em lei municipal com diretrizes que orientem a atuaΓ§Γ£o do poder pΓΊblico (p.87).
A principal normativa brasileira que promove o uso da bicicleta Γ© a Lei federal 13.724 de 2018 que instituiu o Programa Bicicleta Brasil. Ao inserir a bicicleta como componente da mobilidade urbana com diretrizes gerais aos agentes pΓΊblicos.
 Quadro 4: Organograma Γrvore de problemas
A ENABICI estΓ‘ dividida em cinco eixos: 1) PolΓticas pΓΊblicas, legislaΓ§Γ£o e controle social; 2)Infraestrutura cicloviΓ‘ria; 3) Bicicleta movimenta a economia; 4) Promovendo a mobilidade por bicicleta e 5) OrΓ§amento e financiamento. Neste documento, as "Ruas Completas" devem ser incluΓdas na elaboraΓ§Γ£o de Projetos CicloviΓ‘rios para redistribuiΓ§Γ£o dos espaΓ§os das vias para seguranΓ§a na circulaΓ§Γ£o humana com normas que precisam ser consolidadas ao garantir maior qualidade aos tΓ©cnicos que elaboram os projetos (ENABICI, 2023).
O agenciamento das ciclovias recreativas necessita ser problematizado para analisar os fatores que potencializam o desenvolvimento das prΓ‘ticas de mobilidade ciclΓsticas a partir dos processos de integraΓ§Γ£o tΓ©cnica e administrativa do planejamento urbano. Diante disso, caberia interrogar se esses programas podem ser caracterizados como estratΓ©gias governamentais compostas de tecnologias polΓticas diversas que colaboram para ampliar a acessibilidade e inclusΓ£o social das mobilidades ativas, especialmente Γ bicicleta, no trΓ’nsito das vias pΓΊblicas.
### c) Tecnologias PolΓticas e Agenciamento
Nesta seΓ§Γ£o, apresenta-se uma abordagem analΓtica possΓvel para problematizar os programas de ciclovias recreativas. Neste contexto da promoΓ§Γ£o do incentivo ao uso da bicicleta, agentes pΓΊblicos, cicloativistas e de organizaΓ§Γ΅es sociais, estΓ£o Γ s margens dos processos decisΓ³rios das polΓticas de planejamento urbano, nΓ£o sΓ£o considerados. O resultado Γ© o foco da gestΓ£o pΓΊblica na implementaΓ§Γ£o de infraestrutura cicloviΓ‘ria, mas que pouco modifica o atual cenΓ‘rio de segregaΓ§Γ£o nas vias pΓΊblicas de desenvolvimento das mobilidades ativas
Apesar dos benefΓcios para a saΓΊde pΓΊblica, as ciclovias recreativas se tornam uma estratΓ©gia de governo intersetorial concebido para a prΓ‘tica de atividade fΓsica aos domingos com o interesse do governo municipal. A integraΓ§Γ£o de setores para sua operaΓ§Γ£o, ocorre com a participaΓ§Γ£o desses atores sociais de acordo com o envolvimento das autoridades polΓticas que se abrem, em mesas de diΓ‘logo, para negociar e empreender economicamente a sua atuaΓ§Γ£o.
Para o evento congregar parcela importante da populaΓ§Γ£o que tem colaborado para a formaΓ§Γ£o do comportamento ciclista na populaΓ§Γ£o, o poder pΓΊblico Γ© fundamental para planejar o desenho de intervenΓ§Γ£o das atividades recreativas, culturais e esportivas. Para tanto, esta aΓ§Γ£o administrativa ocorre por meio de um planejamento logΓstico e operacional entre os nΓveis de atuaΓ§Γ£o pΓΊblico e privado. Esta articulaΓ§Γ£o se comporta como uma tecnologia de governo ao ampliar as condiΓ§Γ΅es de possibilidade para conduΓ§Γ£o de condutas com bicicleta na cidade.
Diante das correlaΓ§Γ΅es desiguais de forΓ§as na constituiΓ§Γ£o do espaΓ§o das vias pΓΊblicas, a promoΓ§Γ£o de prΓ‘ticas de mobilidade ativa em ciclovias recreativas contΓ©m potencial de modificar a composiΓ§Γ£o de estratΓ©gias no campo da mobilidade urbana. A problemΓ‘tica da violΓͺncia no trΓ’nsito resulta da pouca organizaΓ§Γ£o desses espaΓ§os, por isso hΓ‘ se de requerer tecnologias de governo que conduzam (in)diretamente os condutores de veΓculos a se responsabilizar pelo comportamento das mobilidades ativas para assim ter a noΓ§Γ£o de respeitar as normas e regras de trΓ’nsito, cabe agenciar uma conduta de seguranΓ§a nas vias pΓΊblicas.
Entende-se por agenciamento nesta pesquisa, as tecnologias de governo das condutas, por meio de projetos e programas que ampliam a adesΓ£o da populaΓ§Γ£o Γ mobilidade ativa por bicicleta em vias pΓΊblicas. Na multiplicidade de grupos que promovem o seu uso, apesar das diferenΓ§as nas prΓ‘ticas de mobilidade, a condiΓ§Γ£o comum de inseguranΓ§a vivida nesses espaΓ§os.
A congregaΓ§Γ£o de interesses na formaΓ§Γ£o da cultura de bicicleta em ciclovias recreativas, passa pela reconfiguraΓ§Γ£o de forΓ§as na ocupaΓ§Γ£o viΓ‘ria. O caminho passa por ampliar as discussΓ΅es institucionais sobre os processos de agenciamento das polΓticas pΓΊblicas de planejamento urbano que possam modificar a atual concepΓ§Γ£o arquitetΓ΄nica para garantir seguranΓ§a aos ciclistas.
Para Savage (2022), a abordagem do agenciamento leva em conta as relaΓ§Γ΅es emergentes de exterioridade, a heterogeneidade das composiΓ§Γ΅es sociais, a relacionalidade dos saberes na constituiΓ§Γ£o das estruturas de fluxo e a atenΓ§Γ£o ao poder das agendas polΓticas. Para o autor, a proposta conceitual do agenciamento busca esclarecer os aspectos organizacionais de como podem funcionar determinar polΓtica pΓΊblica ao ser adotada e adaptada ao contexto local com base nos mΓΊltiplos fatores especΓficos estrategicamente organizados para tornΓ‘-la viΓ‘vel.
Ao visualizar os programas de ciclovias recreativas na perspectiva foucaultiana, sua operacionalizaΓ§Γ£o caracteriza-se por diversas tecnologias polΓticas compreendidas em aΓ§Γ΅es e estratΓ©gicas de planejamento urbano que estabelecem, em uma temporalidade especΓfica no viΓ‘rio urbano, uma intervenΓ§Γ£o no trΓ’nsito motorizado, por meio de uma operaΓ§Γ£o logΓstica que induz a formaΓ§Γ£o de outras condiΓ§Γ΅es de possibilidade para transformar o comportamento dos indivΓduos com prΓ‘ticas de mobilidade ciclista. Nestes eventos, a promoΓ§Γ£o das atividades fΓsicas visa transformar as relaΓ§Γ΅es de poder na governanΓ§a das mobilidades ativas ao ampliar a concepΓ§Γ£o de ambiΓͺncia nesses espaΓ§os pΓΊblicos livres.
Para Michel Foucault, a partir dos sΓ©culos XVI-XVII, a regulaΓ§Γ£o de exercΓcio do poder passou a ser feita da sabedoria para o cΓ‘lculo das forΓ§as, agora regulado pela racionalidade polΓtica na perspectiva do comportamento dos indivΓduos governados como sujeitos guiados por seus prΓ³prios interesses (FOUCAULT, 2008).
Segundo Edgardo Castro, tecnologias polΓticas sΓ£o prΓ‘ticas sociais dispostas pela regularidade e que acompanham os modos de fazer. Para o autor, os termos tΓ©cnica e tecnologia, agrega a ideia de prΓ‘tica aos conceitos de estratΓ©gia e tΓ‘tica para mostrar um saber do corpo que se torna cΓ‘lculo e organizaΓ§Γ£o na capacidade do manejo de forΓ§as para obter corpos ΓΊteis e dΓ³ceis, por isso a disciplina Γ© uma tecnologia e nΓ£o uma instituiΓ§Γ£o ou aparato (p.525-526). Para Foucault, o que define uma tecnologia polΓtica Γ© o exercΓcio da estratΓ©gia local nas relaΓ§Γ΅es de poder subordinadas a um modo de produΓ§Γ£o operacional de forΓ§as em aΓ§Γ£o sobre a aΓ§Γ£o compostas no espaΓ§otempo da infraestrutura (DELEUZE, 2020).
A ciclovia recreativa sendo uma tecnologia polΓtica de agenciamento das prΓ‘ticas de mobilidade com bicicleta, com o seu desenvolvimento tem ampliado a estrutura de gestΓ£o por estar caracterizada como uma operaΓ§Γ£o intersetorial de governo. Esta intervenΓ§Γ£o estrategicamente realizada em uma tempor -alidade especΓfica, estΓ‘ organizada institucionalmente por uma lΓ³gica de operacionalizaΓ§Γ£o particular para induzir os indivΓduos a mobilizar-se ativamente pelas vias pΓΊblicas e com sua permanΓͺncia, busca transformar a disposiΓ§Γ£o desses espaΓ§os.
A hipΓ³tese de pesquisa busca afirmar que a ciclovia recreativa sendo uma tecnologia polΓtica, opera por meio de uma estratΓ©gia intersetorial para criar ambientes de apoio Γ atividade fΓsica nas vias pΓΊblicas. O seu agenciamento no governo das mobilidades ativas, tΓͺm colaborado para gerar novas condiΓ§Γ΅es de possibilidades para o uso da bicicleta nas cidades que foram parte do estudo. Na constituiΓ§Γ£o dos programas analisados, coube problematizar como um evento recreativo massivo que necessita de uma operaΓ§Γ£o de trΓ’nsito, pode modificar o panorama de planejamento urbano do pedalar com seguranΓ§a nesses espaΓ§os.
Diante disso, como a gestΓ£o polΓtica desses programas, composta por tΓ©cnicas e prΓ‘ticas de governo, agencia a atividade fΓsica das mobilidades ativas em vias pΓΊblicas?
b) De que forma a organizaΓ§Γ£o institucional, composta de leis, decretos, normas, acordos e regulamentos, determina a operacionalizaΓ§Γ£o destes programas?
O esforΓ§o de pesquisa tem o desafio de construir um vetor de anΓ‘lise sobre o conjunto de estratΓ©gias dos atores sociais envolvidos. Ao expor estas tΓ‘ticas de agenciamento com bicicleta, vai ser possΓvel diagnosticar as lΓ³gicas de operacionalizaΓ§Γ£o em dois nΓveis: a nΓvel macro, a gestΓ£o polΓtica desses programas em duas metrΓ³poles sul-americanas e, a nΓvel micro, os processos de constituiΓ§Γ£o intersetorial implicam organizaΓ§Γ΅es institucionais diferentes.
### d) Ciclovias Recreativas no Contexto das Cidades Latino-Americanas
Para contextualizar o leitor sobre o conceito de ciclovias recreativas, faz-se menΓ§Γ£o a alguns fatos histΓ³ricos que consolidaram a Ciclovia de BogotΓ‘. Foi realizada a primeira vez no dia 15 de dezembro de 1974 denominada "Mitin a favor de la bici", uma iniciativa da organizaΓ§Γ£o Procicla e o Departamento de TrΓ’nsito, contando com a presenΓ§a de aproximadamente 5000 pessoas (ORTIZ, 1995).
Os promotores envolvidos passaram a contar com influΓͺncia polΓtica para o fechamento temporΓ‘rio de determinadas vias pΓΊblicas, e, apΓ³s crescente apoio popular, a prefeitura promulgou em 1976, os Decretos 566 e 567 que definiam "Las CiclovΓas". Para Rodriguez
(2017) esses decretos legitimaram os esforΓ§os do Procicla e motivaram outras entidades a aderirem ao projeto, mas a ideia de pedalar aos domingos, como ato de entretenimento cidadΓ£o, levou mais tempo.
A partir do Programa Ciclovia, outras metrΓ³poles passaram a realizar ciclovias recreativas. Em 2005, o IDRD realizou a "Primeira ConferΓͺncia Internacional sobre CiclovΓas Recreativas" na qual foi criada a "Red de CiclovΓas Unidas de las AmΓ©ricas" composta por instituiΓ§Γ΅es governamentais, organizaΓ§Γ΅es nΓ£o-governamentais e promotores. Ao final do evento, os participantes assinaram a "DeclaraciΓ³n de BogotΓ‘":
Observa-se o desenvolvimento das cidades americanas marcadas por infraestruturas de transporte sem refletir sobre as mobilidades ativas. Considera-se a construΓ§Γ£o de cidades saudΓ‘veis atravΓ©s de programas que promovam a interaΓ§Γ£o humana. Acolhe-se as iniciativas de usos temporΓ‘rios em vias pΓΊblicas destinadas para as pessoas. Aprecia-se as atuais ciclovias que gozam de apoio popular. Em mΓ©dia, 2.4 milhΓ΅es de cidadΓ£os saem Γ s ruas todos os domingos com iniciativas que implicam ter maior participaΓ§Γ£o na gestΓ£o das suas condiΓ§Γ΅es por meio de campanhas de comunicaΓ§Γ£o que promovam a recuperaΓ§Γ£o dos espaΓ§os pΓΊblicos com atividades recreativas. EstΓ‘ formatada por um grupo de trabalho para criar esta rede como uma associaΓ§Γ£o de entidades interessadas em fortalecer esses programas no continente americano (ESTRADA et al., 2009).
Com o aumento do interesse de diversas administraΓ§Γ΅es municipais de vΓ‘rios paΓses em implantar ciclovias recreativas, houve um aumento no nΓΊmero de filiados desta rede de promotores. Em 2009, a rede mudou para Red de CiclovΓas Recreativas de las AmΓ©ricas (Red-CRA) e com apoio da OrganizaΓ§Γ£o Panamericana de SaΓΊde (OPAS), do Centro de Controle de Enfermidades dos Estados Unidos (CDC), dos programas de BogotΓ‘, Guadalajara e Santiago e do Grupo de Epidemiologia de la Universidad de Los Andes da Colombia (EPIANDES), foi elaborado o Manual para implementar y promocionar las ciclovΓas recreativas.
Esta rede conta com 88 membros de administraΓ§Γ΅es municipais, fundaΓ§Γ΅es e institutos pΓΊblicos promotores do esporte, lazer e atividade fΓsica. Entre 2005-2019, foram realizados quatorze congressos em diferentes cidades latino-americanas para reunir os promotores que apresentaram suas experiΓͺncias de gestΓ£o, debates para potencializar as iniciativas entre instituiΓ§Γ΅es pΓΊblicas e setor privado.
Segundo o manual, sΓ£o oito critΓ©rios considerados como bases operacionais para realizar este tipo de evento:
1. Vontade polΓtica das autoridades no desenvolvimento das atividades; 2) Viabilidade das vias pΓΊblicas levando em consideraΓ§Γ£o as caracterΓsticas das instalaΓ§Γ΅es e desvios para veΓculos durante o evento; 3) Investimentos para a compra de itens e contrataΓ§Γ£o de serviΓ§os e trabalhadores; 4) AprovaΓ§Γ£o do projeto indicando o circuito, sinalizaΓ§Γ£o,
pessoal disposto na localizaΓ§Γ£o e funΓ§Γ΅es e medidas de mitigaΓ§Γ£o na circulaΓ§Γ£o de veΓculos; 5) RealizaΓ§Γ£o de atividades por usuΓ‘rios com a oferta de Γ‘gua, alimentos e emprΓ©stimo de rodados; 6) SeleΓ§Γ£o de funcionΓ‘rios para garantir a seguranΓ§a pΓΊblica; 7) AquisiΓ§Γ£o de elementos, gestΓ£o de seguros e mΓdia; 8) ManutenΓ§Γ£o e supervisΓ£o da montagem (ESTRADA et al., 2009).
Estas bases operacionais sΓ£o os elementos constituintes que se pretende problematizar por determinarem a composiΓ§Γ£o local de forΓ§as que compΓ΅em os momentos da organizaΓ§Γ£o e gestΓ£o dos programas. Se para Foucault o governo Γ© o conjunto de procedimentos e cΓ‘lculos que articula poderes-saberes sobre o corpo individual e as populaΓ§Γ΅es, caberia interrogar se na sua atuaΓ§Γ£o estratΓ©gica, Γ© desenvolvido um investimento em tecnologias polΓticas de regulaΓ§Γ£o das condutas favorΓ‘veis Γ constituiΓ§Γ£o de ambientes apropriados Γ mobilidade ativa por bicicleta.
Estas tecnologias polΓticas ao serem determinadas por uma racionalidade polΓtica governamental que conforma as suas formas de agenciamento, nos cabe diagnosticar a lΓ³gica de operacionalizaΓ§Γ£o composta de tΓ©cnicas e tΓ‘ticas especΓficas que geram condiΓ§Γ΅es de possibilidade para as prΓ‘ticas de mobilidade com bicicleta nas vias pΓΊblicas e assim ampliar o seu uso na vida social.
Ao problematizar as ciclovias recreativas como uma prΓ‘tica social histΓ³rica e situada, procura-se diagnosticar a funΓ§Γ£o desses programas nos termos da sua articulaΓ§Γ£o com a diversidade de atores sociais envolvidos na sua organizaΓ§Γ£o. Se por um lado, o risco de acidentes Γ© proporcional a aptidΓ£o fΓsica do indivΓduo em pedalar nas vias pΓΊblicas, por outro, as normativas que reordenam esses espaΓ§os envolvem o esforΓ§o do governo para propor um sentido de mudanΓ§a.
## III. REVISΓO DA LITERAtURA
Neste capΓtulo, apresentamos o estado da arte dos estudos sobre ciclovias recreativas. Foi realizada uma revisΓ£o bibliogrΓ‘fica de artigos cientΓficos publicados na base de dados do Portal de PeriΓ³dicos da CoordenaΓ§Γ£o de AperfeiΓ§oamento de Pessoal de NΓvel Superior e do Scielo Brasil com a expressΓ£o ciclovias recreativas e de estudos publicados pelo Grupo de Epidemiologia da Universidade de Los Andes da ColΓ΄mbia, encontramos 25 artigos. TambΓ©m foi incluΓdo um livro sobre a CiclovΓa de BogotΓ‘ devido a abordagem teΓ³rica e metodolΓ³gica estar em consonΓ’ncia com a nossa problemΓ‘tica de pesquisa".
A partir da pesquisa realizada, agrupamos as referΓͺncias nos seguintes temas: 1) AssociaΓ§Γ£o entre saΓΊde pΓΊblica e ciclovias recreativas; 2) Abordagem multissetorial para criaΓ§Γ£o de ambientes de atividades fΓsicas em ciclovias recreativas; 3) Acessibilidade e inclusΓ£o social em ciclovias recreativas; 4) AssociaΓ§Γ£o entre infraestrutura cicloviΓ‘ria e ciclovias recreativas;
5. Sustentabilidade dos programas de ciclovias recreativas; 6) Conhecimento, poder e governanΓ§a em ciclovias recreativas. Os cinco primeiros tΓ³picos estΓ£o relacionados a estudos epidemiolΓ³gicos e o sexto a estudos qualitativos das ciΓͺncias humanas e sociais.
Os critΓ©rios de seleΓ§Γ£o para incluir as categorias de anΓ‘lise apresentadas, foi de diagnosticar em cada pesquisa, a principal temΓ‘tica abordada. Os temas associaΓ§Γ£o com a saΓΊde pΓΊblica, abordagem multissetorial para criaΓ§Γ£o de ambientes de apoio para atividade fΓsica, acessibilidade e inclusΓ£o social, infraestrutura cicloviΓ‘ria, sustentabilidade dos programas e conhecimento sobre as formas de governanΓ§a, estΓ£o entrelaΓ§adas entre elas devido Γ complexidade da gestΓ£o desses programas e que fazem parte da construΓ§Γ£o do nosso problema de pesquisa".
A organizaΓ§Γ£o progressiva das temΓ‘ticas, estΓ‘ relacionada Γ manifestaΓ§Γ£o de significados que essas pesquisas foram concebendo sobre o que Γ© ciclovias recreativas: da estratΓ©gia de governo para a promoΓ§Γ£o massiva das mobilidades ativas no espaΓ§o viΓ‘rio. Se necessita criar uma estrutura urbanΓstica para dar outro uso temporΓ‘rio a esses espaΓ§os adequados Γ prΓ‘tica de atividade fΓsica, o que tem gerado maior acessibilidade e inclusΓ£o social por estarem sendo realizados em vias pΓΊblicas. A infraestrutura cicloviΓ‘ria tem aumentado de acordo com o desenvolvimento desses programas, a sustentabilidade ocorre quando a populaΓ§Γ£o e as autoridades de determinado local estΓ£o convencidas dos benefΓcios da intervenΓ§Γ£o e das relaΓ§Γ΅es de poder-saber constituΓdas na sua administraΓ§Γ£o, planejamento e gestΓ£o, influencia na operaΓ§Γ£o local deste tipo de polΓtica pΓΊblica.
### a) AssociaΓ§Γ£o Entre SaΓΊde PΓΊblica e Ciclovias Recreativas
A associaΓ§Γ£o das ciclovias recreativas com a saΓΊde pΓΊblica estΓ‘ relacionada principalmente atravΓ©s dos efeitos da participaΓ§Γ£o da populaΓ§Γ£o nesses programas. Isso ocorre principalmente nas iniciativas com operaΓ§Γ£o regular, devido a temporalidade e espacialidade especΓficas para a sua realizaΓ§Γ£o, tendo como funΓ§Γ£o promover a atividade fΓsica nas vias pΓΊblicas.
Torres et al. (2009) realizaram uma revisΓ£o da literatura sobre programas de ciclovias recreativas e consultas a especialistas com 83 membros, da Rede de Atividade FΓsica das AmΓ©ricas, de 19 paΓses. Dos 55 programas encontrados nas AmΓ©ricas, 38 atenderam esta definiΓ§Γ£o, a maioria implementada em ambientes urbanos, as comunidades variam em tamanho, a extensΓ£o e a duraΓ§Γ£o variam de mais de 120 km por 7 horas, na maioria dos domingos, a 1 km por 2 horas em domingos alternados, a distΓ’ncia mΓ©dia de 15,6 km, duraΓ§Γ£o mΓ©dia de 330 minutos por ano e a estimativa mΓ©dia de 78.384 participantes por evento.
Sarmiento et al. (2010) avaliaram as informaΓ§Γ΅es existentes desses 38 programas de ciclovias recreativas existentes em 11 paΓses, por meio de uma revisΓ£o da literatura complementada por entrevistas e consultas com especialistas. Os autores constataram que a maioria dos programas ocorre em ambientes urbanos, variam de 18 a 64 eventos por ano que contam com duraΓ§Γ£o de 2 a 12 horas, 0 comprimento das ruas varia de 1 a 121 km, o nΓΊmero estimado de participantes varia de 60 a 1.000.000 de pessoas e $71 \%$ dessas iniciativas incluem aulas de atividade fΓsica e, em $89 \%$, as ruas estΓ£o ligadas a parques.
Montes et al. (2012) realizaram uma anΓ‘lise da relaΓ§Γ£o custo-benefΓcio da atividade fΓsica dos programas de BogotΓ‘ e MedellΓn na ColΓ΄mbia, Guadalajara no MΓ©xico e SΓ£o Francisco (EUA) com diretores e pesquisas locais. Para os autores, o custo anual per capita foi de US$ 6,0 para BogotΓ‘, $\\cup \\mathtt {S} $ \\Phi$ 23,4 para MedellΓn, US$ 6,5 para Guadalajara e $\\cup \\mathtt { S } $ \\Phi$ 70,5 para SΓ£o Francisco; a relaΓ§Γ£o custo-benefΓcio da atividade fΓsica para a saΓΊde foi de 3,23-4,26 para BogotΓ‘, 1,83 para MedellΓn, 1,02-1,23 para Guadalajara e 2,32 para SΓ£o Francisco. No programa de BogotΓ‘, a relaΓ§Γ£o foi mais sensΓvel Γ prevalΓͺncia de ciclistas fisicamente ativos, em Guadalajara, foi mais sensΓvel aos custos do utilizador e para MedellΓn e SΓ£o Francisco, os custos operacionais.
Rojas-Rueda et al. (2020) quantificaram a saΓΊde nos programas de ciclovias recreativas em 15 cidades latino-americanas, em relaΓ§Γ£o a mortes anuais da incidΓͺncia de doenΓ§as cardΓaca isquΓͺmica, acidente vascular cerebral, diabetes tipo 2, cΓ’ncer de cΓ³lon, cΓ’ncer de mama e demΓͺncia, anos de vida ajustados por incapacidade e economia de valores sobre mortalidade. Os benefΓcios estimados sΓ£o de 1.101 mortes anuais evitadas com o incremento da atividade fΓsica, impacto econΓ΄mico anual de 1.575 milhΓ΅es de dΓ³lares e reduΓ§Γ£o anual de 3.070 mortes.
Para Sarmiento et al. (2019) a saΓΊde urbana estΓ‘ localizada na intersecΓ§Γ£o dos Objetivos do Desenvolvimento SustentΓ‘vel (ODS) trΓͺs da saΓΊde e bem-estar e onze de cidades e comunidades sustentΓ‘veis. Ao reconhecerem que as cidades sΓ£o sistemas complexos, dinΓ’micos, heterogΓͺneos, interligados e adaptativos, as decisΓ΅es tomadas sobre a forma como foram construΓdas e vive-se nelas, tΓͺm um impacto profundo na saΓΊde do planeta e no bemestar e na saΓΊde das populaΓ§Γ΅es.
### b) Abordagem Multissetorial Para CriaΓ§Γ£o de Ambientes de Atividades FΓsicas em Ciclovias Recreativas
A realizaΓ§Γ£o de eventos que promovem a atividade fΓsica em vias pΓΊblicas, no Brasil, comumente estΓ‘ associada Γ realizaΓ§Γ£o de competiΓ§Γ΅es esportivas, em uma data especΓfica, a cargo da secretaria de esporte. Ao contrΓ‘rio, os programas de ciclovias recreativas contΓͺm uma regularidade de operaΓ§Γ£o por estarem envolvidos em diversas instituiΓ§Γ΅es pΓΊblicas e agentes privados, mas dada a complexidade de sua forma de governanΓ§a, ainda Γ© pouco esclarecida para atingir os objetivos propostos de ampliar o acesso da populaΓ§Γ£o Γ atividade fΓsica nesses espaΓ§os.
Castillo et al. (2011) realizaram dois estudos de caso da Ciclovia de BogotΓ‘, ColΓ΄mbia e da CuritibAtiva de Curitiba, Brasil. As autoras concluem que a maioria das polΓticas que conduzem esses programas foram desenvolvidas fora do setor da saΓΊde, esportes, meio ambiente e transporte, mas para serem bem sucedidas, devem ser tratadas de maneira multissetorial com base nos setores de recreaΓ§Γ£o e planejamento urbano, para criar ambientes de apoio Γ atividade fΓsica.
Silva et al. (2017) analisaram os programas de ciclovias recreativas promovidos pela prefeitura de Curitiba, segundo o modelo lΓ³gico do Centro de Controle de Enfermidades dos Estados Unidos. Para os autores, esses programas apresentam caracterΓsticas multissetoriais, sendo um fator importante para sua manutenΓ§Γ£o, apontar a necessidade de alinhamento entre recursos e produtos para conhecer seu custoefetividade e o alcance dos objetivos, por meio da ampliaΓ§Γ£o e a regularidade de aΓ§Γ΅es informativas junto Γ comunidade, o que pode auxiliar no processo de construΓ§Γ£o de apoio polΓtico desses programas.
Meizel et al. (2013) analisaram as redes sociais de 25 organizaΓ§Γ΅es de saΓΊde e nΓ£o relacionadas Γ saΓΊde que participam do Programa Ciclovia de BogotΓ‘, por meio de um estudo transversal, empregando mΓ©todos analΓticos de rede, baseados em uma anΓ‘lise visual descritiva e um modelo de grΓ‘fico aleatΓ³rio exponencial. A anΓ‘lise mostra que as organizaΓ§Γ΅es mais centrais da rede estavam fora do setor da saΓΊde e incluΓam os setores de esporte e recreaΓ§Γ£o, governo e seguranΓ§a que funcionam em clusters formados por diversos setores.
### c) Acessibilidade e InclusΓ£o Social em Ciclovias Recreativas
A importΓ’ncia de se diagnosticar as formas de gestΓ£o especΓficas na realizaΓ§Γ£o desses programas, contΓ©m relaΓ§Γ£o direta com a ampliaΓ§Γ£o acessibilidade e inclusΓ£o social da populaΓ§Γ£o a prΓ‘tica de atividades fΓsicas das mobilidades ativas. Para tanto, a sua realizaΓ§Γ£o implica uma operaΓ§Γ£o logΓstica temporΓ‘ria de trΓ’nsito para ampliar as condiΓ§Γ΅es de possibilidade no aumento da participaΓ§Γ£o das mulheres, crianΓ§as e idosos usufruΓrem dos espaΓ§os das vias pΓΊblicas em atividades recreativas.
Sarmiento et al. (2017) avaliaram a associaΓ§Γ£o entre comportamentos de caminhada e participaΓ§Γ£o entre adultos e idosos e os potenciais fatores associados ao Programa Ciclovia de BogotΓ‘. Os adultos que relataram participar tinham maior probabilidade de caminhar 150 minutos por semana e, entre os idosos, morar em um bairro com corredores ofertados pelo programa foi associado a ter caminhado pelo menos 150 minutos por semana. Para os autores, as polΓticas de diferentes setores, o apoio comunitΓ‘rio e das autoridades locais na constituiΓ§Γ£o de uma rede transnacional de especialistas defensores que compartilharam detalhes tΓ©cnicos e administrativos para organizar um evento, influenciam a participaΓ§Γ£o no programa.
Triana et al. (2019) avaliaram as associaΓ§Γ΅es entre atividade fΓsica, tempo sedentΓ‘rio, Γndice de massa corporal e participaΓ§Γ£o no Programa Ciclovia com 923 crianΓ§as de 9 a 13 anos de escolas pΓΊblicas em BogotΓ‘. Os autores constataram que $46 \%$ das crianΓ§as jΓ‘ participaram, $34 \%$ relataram participar pelo menos uma vez por mΓͺs e nΓ£o foram encontradas diferenΓ§as na mΓ©dia de minutos de atividade fΓsica moderada a vigorosa em dias de semana entre usuΓ‘rios frequentes e esporΓ‘dicos.
Mejia-Arbelaez et al. (2021) compararam as trajetΓ³rias espaciais dos participantes das ciclovias recreativas de BogotΓ‘, Cidade do MΓ©xico, Santiago de Cali e Santiago do Chile de acordo com caracterΓsticas de segregaΓ§Γ£o urbana e avaliaram a relaΓ§Γ£o entre os nΓveis de atividade fΓsica dos participantes e as caracterΓsticas sociodemogrΓ‘ficas. Os autores encontraram maior mobilidade em BogotΓ‘ e Santiago de Cali com participantes propensos a visitar bairros perifΓ©ricos e os participantes da Cidade do MΓ©xico e Santiago do Chile permaneciam no seu meio de origem e concluem que as ciclovias recreativas podem ser inclusivas em ambientes urbanos ao facilitar interaΓ§Γ΅es entre diferentes grupos socioeconΓ΄micos.
Higuera-Mendieta et al. (2022) buscaram determinar atΓ© que ponto o mΓ©todo de ciΓͺncia cidadΓ£ Nossa Voz facilitou a interaΓ§Γ£o entre a pesquisa e a prΓ‘tica para fazer mudanΓ§as no Programa Ciclovia. Os autores avaliaram a receptividade dos tomadores de decisΓ£o e participantes a este mΓ©todo e analisaram suas contribuiΓ§Γ΅es para o exercΓcio dos direitos recreativos e de saΓΊde em BogotΓ‘. Para os autores, o Nossa Voz melhorou a comunicaΓ§Γ£o entre os participantes e os tomadores de decisΓ£o ao fornecer uma compreensΓ£o sistematizada das experiΓͺncias dos usuΓ‘rios para implementar mudanΓ§as e melhorias do treinamento da equipe do programa.
### d) AssociaΓ§Γ£o Entre Infraestrutura CicloviΓ‘ria e Ciclovias Recreativas
A partir de pesquisas sobre o Programa Ciclovia de BogotΓ‘, tem-se constatado uma associaΓ§Γ£o positiva entre infraestrutura cicloviΓ‘ria e ciclovias recreativas, com influΓͺncias no comportamento da mobilidade ativa por bicicleta em BogotΓ‘.
Cervero et al. (2009) examinaram como a rede de ciclorrutas e o Programa Ciclovia estΓ£o associados ao comportamento de caminhar e pedalar e participaΓ§Γ£o no programa. Para os autores, embora os projetos de infraestrutura cicloviΓ‘ria estejam associados Γ atividade fΓsica, outros atributos do ambiente construΓdo, como a densidade e as misturas de uso do solo, nΓ£o estΓ£o. Isto provavelmente ocorreu porque a maioria dos bairros em Γ‘reas urbanas de BogotΓ‘ evoluΓram durante uma Γ©poca em que viagens nΓ£oautomobilΓsticas eram maioria, sendo uniformemente compactos na sua composiΓ§Γ£o e com nΓveis comparΓ‘veis de acessibilidade aos transportes.
Torres (2011) demonstrou como o Programa Ciclovia e a rede de ciclorrutas em BogotΓ‘, representam duas abordagens polΓticas e ambientais construΓdas que aumentaram o acesso para as atividades fΓsicas das mobilidades ativas. A autora ao examinar a relaΓ§Γ£o entre frequΓͺncia de participaΓ§Γ£o associada ao cumprimento das recomendaΓ§Γ΅es de atividade fΓsica com as caracterΓsticas de uso do programa, constatou que a maioria dos participantes relataram atender Γ recomendaΓ§Γ£o da mobilidade ativa no lazer e de ciclismo para transporte.
Em outro estudo da mesma amostragem, Torres et al. (2013) compararam os participantes dos programas Ciclovia e ciclorrutas em dois estudos transversais, um entre 1.000 participantes da Ciclovia e outro entre 1.00o participantes das ciclorrutas. A maioria dos usuΓ‘rios da ciclorrutas relatou residir em categorias de baixo nΓvel socioeconΓ΄mico, ter menor escolaridade e nΓ£o possuir automΓ³vel. Os autores concluem que esses programas promovem a atividade fΓsica de forma equitativa e oferecem alternativa de mobilidade em ambientes urbanos complexos.
Teunissen et al. (2015) analisaram os nΓveis de desigualdade no acesso em trΓͺs iniciativas de transporte sustentΓ‘vel em BogotΓ‘ a partir de informaΓ§Γ΅es espaciais e de estrato socioeconΓ΄mico. Para os autores, a rede de ciclorrutas e a Ciclovia nΓ£o oferecem acesso igualitΓ‘rio, especialmente para estratos socioeconΓ΄micos de rendimentos baixos e mΓ©dios. Os autores concluem que a Ciclovia proporciona inclusΓ£o social ao proporcionar acesso a locais de interesse, mas nΓ£o oferece acesso igual a todos os segmentos da populaΓ§Γ£o.
### e) Sustentabilidade dos Programas de Ciclovias Recreativas
A sustentabilidade dos programas de ciclovias recreativas estΓ‘ relacionada com recursos financeiros disponΓveis para gestΓ£o logΓstica e de pessoal qualificado para sua manutenΓ§Γ£o. Para tanto, sΓ£o diversos os fatores que influenciam na regularidade da operaΓ§Γ£o em vista de que o financiamento determina a estrutura de operaΓ§Γ£o.
Castillo et al. (2017) identificaram nos programas comunitΓ‘rios de atividade fΓsica dos governos distrital e nacional da ColΓ΄mbia, as caracterΓsticas de financiamento, capacitaΓ§Γ£o e os desafios presentes na operaΓ§Γ£o desses programas. Os resultados demonstraram os processos de adaptaΓ§Γ£o para enfrentar os desafios de crescimento com base na flexibilidade/adaptabilidade, investimento nas condiΓ§Γ΅es de trabalho e formaΓ§Γ£o de instrutores, alocar fundos pΓΊblicos e solicitar responsabilizaΓ§Γ£o, diversificar recursos, ter apoio comunitΓ‘rio e defensores em diferentes nΓveis e posiΓ§Γ΅es para incluir a atividade fΓsica em polΓticas pΓΊblicas.
Sarmiento et al. (2017) buscaram descrever as caracterΓsticas de 67 programas regulares e os fatores que influenciaram a sua sustentabilidade. As autoras constataram que a maior expansΓ£o ocorreu desde 2000, o nΓΊmero de participantes por evento variou de 40 a 1.500.000 e a extensΓ£o variou de 1 a 113,6 km. A maioria das vias conectam bairros de renda mΓ©diabaixa e alta e conta com a participaΓ§Γ£o de populaΓ§Γ΅es minoritΓ‘rias. As autoras concluem que todos os programas partilhavam apoio governamental, alianΓ§as, apropriaΓ§Γ£o comunitΓ‘ria, defensores, compatibilidade com a organizaΓ§Γ£o anfitriΓ£, capacidade organizacional, flexibilidade, benefΓcios e estabilidade de financiamento, mas diferiam em fontes de financiamento e alianΓ§as.
Para quantificar as diferenΓ§as de sustentabilidade entre programas, Abolghasem et al. (2018) desenvolveram uma metodologia DEA que mede a eficiΓͺncia comparada de desempenho entre cada ciclovia recreativa com um sistema de referΓͺncia que identifica as suas fontes de ineficiΓͺncias e oferece recomendaΓ§Γ΅es para melhorias. Os autores apresentaram um Sistema de Apoio Γ DecisΓ£o (SSD) centrado na metodologia DEA baseado em planilhas de avaliaΓ§Γ£o.
Com base no estudo anterior, Castillo et al. (2018) apresentaram a ferramenta de avaliaΓ§Γ£o de ciclovias recreativas denominada Bicis de Calidad. Esta qualificaΓ§Γ£o envolve os critΓ©rios de extensΓ£o e duraΓ§Γ£o, acessos e atrativos, usuΓ‘rios, serviΓ§os, inclusΓ£o social e seguranΓ§a e critΓ©rios relacionadas Γ organizaΓ§Γ£o, avaliaΓ§Γ£o e monitoramento. Dos 365 programas, 73 responderam ao questionΓ‘rio, sΓ£o 15 programas na qualidade trΓͺs, 35 com qualidade dois e 19 com uma bici de calidad (Rio de Janeiro, a ΓΊnica cidade brasileira a participar). SΓ£o oito programas referentes: Rosario (Argentina), BogotΓ‘, Cartago, Envigado, Pereira e Soacha (ColΓ΄mbia), Guadalajara (MΓ©xico) e Portland (EUA).
### f) Conhecimento, Poder e GovernanΓ§a em Ciclovias Recreativas
Com o desenvolvimento das ciclovias recreativas em diversos paΓses a partir do exemplo do Programa Ciclovia, tem surgido o interesse em compreender as relaΓ§Γ΅es entre conhecimento, poder e governanΓ§a. Montero (2017) examina criticamente o caso de BogotΓ‘ ser enquadrado como exemplo de melhor prΓ‘tica, lanΓ§ando luz sobre as constelaΓ§Γ΅es de atores, redes e agendas locais e transnacionais que moldaram o programa desde o seu inΓcio experimental, na dΓ©cada de 1970, atΓ© a sua construΓ§Γ£o internacional na dΓ©cada de 2000.
Segundo Montero et al. (2023) estas abordagens experimentais para formulaΓ§Γ£o de polΓticas tΓͺm ganhado popularidade nas ΓΊltimas dΓ©cadas para intervir em problemas urbanos. No entanto, a evidΓͺncia destaca como esta linguagem tem sido cooptada por formas de governaΓ§Γ£o que contornam a instituiΓ§Γ£o de planejamento existente em meio a assimetrias de poder na sua operaΓ§Γ£o, relacionam-se a uma polΓtica global econΓ΄mica especΓfica de financiamento desses programas.
Buscando aprofundar o conhecimento em torno das pesquisas que tentam problematizar as diversas estratΓ©gias de poder e tΓ‘ticas de governo, no interior da ciclovia recreativa de BogotΓ‘, hΓ‘ destaque para o trabalho da Profa. Astrid Bibiana RodrΓguez CortΓ©s intitulado "Subjetividades en el espacio pΓΊblico. La CiclovΓa de BogotΓ‘" que construiu uma genealogia histΓ³rica das emergΓͺncias e das condiΓ§Γ΅es de possibilidades com o entorno da primeira ciclovia recreativa latino-americana.
A autora estabelece trΓͺs formas de problematizar o espaΓ§o pΓΊblico da ciclovia bogotana: a) o consenso do bem-estar social, a convivΓͺncia saudΓ‘vel e a placidez visual sΓ£o privilegiados para a produΓ§Γ£o de espaΓ§os sociais; b) a ciclovia de BogotΓ‘ pode ser considerada um grande palco por toda a cidade e que que combina diversos contextos expressΓ΅es socioespaciais e artΓsticas e culturais: c) a ciclovia bogotana demarca formas de relacionamento com as ruas por meio do exercΓcio do corpo, lazer e educaΓ§Γ£o, a fruiΓ§Γ£o pessoal e coletiva fazem parte de seus slogans. As perspectivas levantadas reΓΊnem elementos para investigar dois problemas: 1) a produΓ§Γ£o da subjetividade, como construΓ§Γ£o sociocultural, fabricaΓ§Γ£o, modelagem e consumo; 2) o espaΓ§o pΓΊblico como poder e governamento (RODRIGUEZ, 2017).
## IV. CONSIDERAΓΓES FINAIS
Como sΓntese teΓ³rica deste ensaio, propΓ΅e-se um diagrama analΓtico da correlaΓ§Γ£o de forΓ§as dinΓ’micas constituintes nos programas de ciclovias recreativas.
 Quadro 1: Diagrama de anΓ‘lise dos programas de ciclovias recreativas
Entende-se que estes programas ao serem demarcados por leis, decretos e regulamentos que definem suas respectivas organizaΓ§Γ΅es institucionais, os discursos dos gestores e as regulamentaΓ§Γ΅es polΓticas, foram arquivos que colaboraram na construΓ§Γ£o de um cenΓ‘rio epistΓͺmico de saberes para estabelecer um regime de verdade da mobilidade ativa constituΓda como forma de governo nesse trabalho. A organizaΓ§Γ£o do evento se constitui como tecnologia polΓtica, por meio de suas lΓ³gicas de operacionalizaΓ§Γ£o especΓficas e variΓ‘veis ao contexto de sua execuΓ§Γ£o. Assim sendo, estes programas se constituem como uma ferramenta particular de gerenciamento da conduta ciclista que colabora progressivamente para formar novos adeptos, por meio de uma forma dialΓ³gica especΓfica de sensibilizaΓ§Γ£o ao educar sobre o uso da bicicleta, transformando a ambiΓͺncia desses espaΓ§os pΓΊblicos livres.
Diante da situaΓ§Γ£o dramΓ‘tica de promoΓ§Γ£o de polΓticas pΓΊblicas com vistas ao pedalar com seguranΓ§a, no compartilhamento viΓ‘rio metropolitano, buscou-se problematizar o agenciamento da mobilidade ativa por bicicleta, por meio dos programas de ciclovias recreativas, entendendo que a populaΓ§Γ£o motorista ainda nΓ£o estΓ‘ preparada cognitivamente, para ceder espaΓ§os viΓ‘rios para implementaΓ§Γ£o de infraestrutura cicloviΓ‘ria, assim definido nas principais normativas brasileiras. Por fim, sendo uma prΓ‘tica governamental singular, com relaΓ§Γ΅es de poder especΓficas, o seu desenvolvimento operacional tem implicado novas condiΓ§Γ΅es de possibilidade para adesΓ£o massiva ao seu uso cotidiano com a formaΓ§Γ£o da subjetivaΓ§Γ£o ciclista no interior do conjunto de instituiΓ§Γ΅es, procedimentos, anΓ‘lises e cΓ‘lculos da gestΓ£o estatal de trΓ’nsito qualificada desta forma de mobilidade ativa.
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