The state school Centro Educa Mais Deborah Correia Lima has Annex II -Mamorana in the rural area, located in the municipality of São Bernardo, MA, which faces an economic deficit and limited access to social and cultural capital. This Annex II is attended by young people from farming families engaged in small-scale subsistence production based on planting and harvesting cassava, corn, and beans, and who are therefore financially disadvantaged. In view of this, the aim of this study is to analyze the development of reading practices in this Annex, taking into account the existence of a school library, the variety of literary genres, whether the environment is used by students, and whether they have a reading mediator. The study also examines how these students come into contact with paradidactic books and the influence of the absence of this cultural asset on broadening their academic horizons. The methodological procedure used for the research was a literature review and fieldwork based on semi-structured interviews, which were qualitative in nature. The results are the absence of a reading area and practices aimed at developing the habit of reading in Annex II -Mamorana.
## I. INTRODUÇÃO
- Brasil, a partir do decreto $\mathsf { n } ^ { \mathrm { o } } 520$, de 13 de maio de 1992, foi criado, em conjunto com o Ministério da Cultura, o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, objetivando possibilitar o acesso da população às bibliotecas públicas sistematicamente estruturadas para, assim, promover o incentivo à leitura e para a população participar do avanço na área social e cultural do país. Além dessa política pública, existe no âmbito nacional o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), instaurado em 1997, com o intuito possibilitar o acesso à cultura e estimular à leitura pelos estudantes e professores realizando a distribuição de livros na área da literatura, pesquisa e de referência. As escolas do ensino básico escolhem o material alternado, e esse programa ocorre de forma gratuita nas escolas públicas que participam do censo escolar (Brasil, 1992).
Posteriormente, foi sancionada a lei $N ^ { \circ }$ 12.244 em maio de $2010 ^ { 1 }$, que implementa a universalização das bibliotecas escolares no âmbito das instituições de ensino privadas e públicas, contendo o prazo de 10 anos para a sua efetivação. Mutuamente, foi criada a Lei $N ^ { \circ }$ 13. 0005, de 25 de junho de 2014, que aprovou o Plano Nacional de Educação- PNE, apontando para a necessidade de ter escolas com estrutura conveniente para o processo de ensino-aprendizagem. No entanto, o levantamento da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil ATRICoN a partir dos dados do Censo escolar de 2022, destaca que $31\%$ das escolas públicas têm biblioteca e $46\%$ possuem bibliotecário.
Nesse cenário, a maioria da população brasileira não tem acesso à biblioteca escolar, refletindo nos dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes - PISA2[^3] (2022) no Brasil, em que $50\%$ dos estudantes tiveram baixo desempenho na área de leitura (abaixo do nível 2), rendimento inferior à média dos países membros da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OcDE). Desse modo, nota-se o descompasso entre as políticas públicas que primam pela popularização da biblioteca e sua efetiva instauração no país -principalmente em regiões periféricas, localizadas distantes dos grandes centros e conglomerados urbanos e eixo Sul/Sudeste.
No âmbito regional, Norte e Nordeste são as regiões com a menor quantidade de escolas que possuem biblioteca, tendo o primeiro $20\%$ e o segundo com $24\%$, contrastando com o Sul que $54\%$ das instituições de ensino têm acesso à biblioteca, acompanhado do Centro-Oeste com $47\%$. Portanto, é perceptível a desigualdade de acesso a biblioteca escolar por região, tornando alunos de escolas públicas de localidades rurais das regiões Norte e Nordeste com escasso acesso a ambientes adequado de leitura, acervo e pessoas capacitadas para mediar a leitura ficando à margem nas avaliações que primam pela habilidade da compreensão e interpretação de textos, sendo alijados do hábito de leitura que não se torna, um lazer, sem contribuir para moldar do ser social e individual por meio de acesso a bens culturais.3
Visto este contexto do acesso desigual a livros no âmbito nacional e regional, a minha experiência no ensino básico se configurou pela falta de acesso a livros paradidáticos, situação essa agravada por não ter condição financeira para custear livros, sendo filha de lavradores, oriunda das classes populares[^14][^5]5. Posteriormente, ao adentrar na Universidade Federal do Maranhão, tive a possibilidade de acessar a biblioteca do Centro de Ciências de São Bernardo (CCsB)6 e comprar livros com a bolsa do Programa Residência Pedagógica CAPES7.
Além da ausência de livros durante a minha experiência no ensino básico, foi possível por meio do Programa Residência Pedagógica escutar queixas dos professores do Ensino Médio das escolas de São
Bernardo: Isabelle, Ronilson Oliveira e Délia Garcês sobre a ausência de livros didáticos e paradidáticos nas escolas Centro Educa Mais Deborah Correia Lima, Centro de Ensino Dr. Henrique Couto, ambas na zona urbana de São Bernardo, e Centro Educa Mais Deborah Correia Lima - Anexo I, escola localizada no povoado Coqueiro, zona rural. Consequentemente, essa narrativa dos professores contribuiu para instigar meu interesse acerca do tema da minha pesquisa, com a seguinte questão problema: em que medida a falta de livros paradidáticos, de bibliotecas e espaços de estudo em escolas públicas, localizadas em áreas rurais, acarreta efeitos negativos na formação escolar e no interesse pela leitura por adolescentes sobre a desativação da biblioteca Farol do Saber no município de São Bernardo - MA e o reflexo no desestímulo à leitura por parte de jovens e adolescentes de famílias de classes populares?
Como hipótese: Acreditamos que a falta de espaços de leitura e o acesso incipiente a livros paradidáticos no município de São Bernardo/MA, mais precisamente nas áreas rurais dessa cidade, tem como efeito o desestímulo à leitura por parte de jovens e adolescentes. Será analisado o objeto de estudo a partir da pesquisa empírica, qualitativa por meio de entrevistas e revisão bibliográfica. O objetivo geral da pesquisa é compreender o quanto o acesso irrisório aos livros pelos moradores do Povoado Mamorana produz consequências que incidem sobre a trajetória escolar dos estudantes, reduzindo seu campo de possibilidades e impactando seus projetos de vida (Velho, 1994).
A pesquisa será guiada pelos seguintes questionamentos: Existe alguma biblioteca pública em São Bernardo/ MA (além da existente na UFMA)? Como adolescentes e jovens, do Povoado de Mamorana, têm acesso a livros? Os alunos do Centro Educa Mais Deborah Correia Lima anexo II- Mamorana têm o hábito de utilizar a tecnologia (kindle, aplicativos) para leitura?
- O INEP é responsável pelo planejamento e aplicação da avaliação no Brasil.
- 3 Capital cultural, segundo Bourdieu (2007) é a herança cultural transmitida pelo seio familiar, que difere o aluno a partir da classe social e no êxito escolar, sendo afirmado na escola a cultura da classe hegemônica que desconsidera a realidade das crianças e jovens de origem familiar desfavorável ao acesso cultural, no qual se enquadra desde o acesso a certos ambientes, a disposição de livros e informações, dessa forma, intensificando as desigualdades no âmbito acadêmico. Consecutivamente, é definido por esse intelectual os três estados do capital cultural, que são: capital incorporado, o capital objetivado, o capital institucionalizado. O primeiro estado remete a efetiva internalização do capital cultural objetivado por meio do processo precoce de assimilação e do tempo livre que lhe é dedicado exclusivamente; no segundo estado é está disponível meios que tornem acessível a obtenção do capital cultural, no qual envolve o acesso a museus, livros, entre outros; o terceiro estado é a oficialização da aquisição das habilidades, conhecimentos exigidos, por meio do viés institucional.
- 4Segundo a editora Saraiva "os livros paradidáticos são aqueles que complementam o ensino de um tópico. Ou seja: embora não sejam feitos exclusivamente para o uso em sala de aula, têm características que possibilitam que eles sejam usados como ferramentas pelos
- professores"". Disponível em: https://conteudo.saraivaeducacao.com. br/infantojuvenil/livros-paradidaticos. Acessado em: 30. nov.2023.
- 5 Claudia Fonseca (200o) define classe popular a camada da sociedade que consta a classe baixa afetada pela desigualdade social, estereotipada como marginal, desvio do padrão social, diante disso, é pontuado através de análise etnológica que essa classe guia seus comportamentos e valores a partir de ambiente simbólico particular, contendo a origem em contexto palpável, sendo a relação de gênero pautada pelo jogo de poder, no qual tanto o homem e a mulher participam. Disponível em: FLA0352-2023: Fonseca, Claudia. | e-Disciplinas (usp.br). Acessado em: 19. nov. 2023.
- Segundo a bibliotecária, a biblioteca do campus pode ser frequentada pela comunidade, mas é limitado à leitura na biblioteca, sendo proibido empréstimo de livros, pois é necessário ter vínculo com a instituição de ensino.
- 7 Programa Residência Pedagógica é um programa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior(CAPES), que tem o objetivo de desenvolver projetos Institucionais de residência pedagógica realizado por instituições de ensino superior, colaborando para o aprimoramento da formação inicial de professores da educação básica nos cursos de licenciatura. Disponível: Programa de Residência Pedagógica - CAPES. Acessado em: 10.jan.2025.
Os estudantes gostam ou têm o hábito de ler? Quais livros eles tiveram acesso até hoje?
A seguir, irei discorrer sobre São Bernardo e o Programa Farol da Educação, o acesso à leitura na escola estadual Centro Educa Mais Deborah Correia Lima anexo Il - Mamorana, posteriormente, abordar sobre os resultados da pesquisa e finalizar com as considerações finais. Como conclusão, os dados apontam que a maioria dos alunos da escola Centro Educa Mais Deborah Correia Lima - Anexo- Mamorana, não tem acesso a biblioteca pública ou escolar, tendo como única possibilidade o livro digital gratuitos baixado pela internet ou ler em aplicativo gratuitos devido a sua condição financeira desfavorável. Consequentemente, poucos alunos tem o hábito da leitura, sendo que poderia ser desenvolvido essa prática a partir da biblioteca escolar com estrutura adequado para leitura e acervo diversificado em conjunto com atuação de mediadores. Por último, nota-se que os alunos que têm o contato com o livro mesmo sendo no formato digital, possui a perspectiva de dar continuidade a jornada acadêmica após a conclusão do Ensino Médio.
## II. SÃo Bernardo e o Programa Farol Da EDUCAÇÃO
São Bernardo/MA localiza-se na Região do Baixa Parnaíba Maranhense e, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, possui um contingente populacional de 26.943, área territorial 1.005, $824 \ \mathsf { k m } ^ { 2 }$,tendo como bioma o cerrado. O atual prefeito dessa cidade, no ano 2025, é Francisco das chagas Carvalho. Acerca da história deste município, de acordo com o IBGE (2023), não é possível determinar a origem, pois é inexistente documentação para validar o processo de ocupação, apesar de tradicionalmente sua formação ser datada do início no século XVIII, quando os padres jesuítas adentraram nessa área com a intenção de catequizar os povos indígenas. Foi nesse período que se construiu uma igreja às margens do Rio Buriti que, posteriormente, se degradou, sendo edificado outra no estilo colonial em 1798. Essa igreja recebeu o nome de Matriz, por causa dos jesuítas que delimitaram o território tendo como referência essa instituição religiosa.
Além dessa narrativa sobre a história de São Bernardo -MA, há a perspectiva crítica de Sousa (2023), que partindo de uma pesquisa interdisciplinar aliando História e Antropologia pontua que:
A cidade de São Bernardo foi palco da luta e resistência de povos indígenas, em especial os Anapurus, passando por guerras justas, aldeamentos, e com isso toda a carga de violência causada pela missionarização. O trabalho escravo nas aldeias, nas guerras e nas fazendas, fez com que a cidade de São Bernardo nascesse. Mas, ao contrário do que era dito como oficial pelo Estado, inicialmente colonial, posteriormente imperial e agora republicano, de que não havia povos indígenas na região do município de São Bernardo, hoje sabemos da história do povo Anapuru, que atualmente se autodenomina Anapuru Muypurá, que estão vivos e sempre estiveram nessa região (Sousa, 2023, p.37)
Não obstante, nota-se que processo de formação de São Bernardo se deu mediante a missionarização e a escravização de povos indígenas, especificamente do povo Anapuru, pois, a partir de uma análise documental, Sousa (2023) demonstra em mapas do período colonial a menção desses povos vinculados a São Bernardo - MA. Logo, retrata a origem desse município repleto de tensão, porque foi imposto o trabalho escravo e a missionarização com caráter violento, que resultou na resistência desses povos a esse processo.
Esta cidade, segundo dados do IBGE 2022, tem densidade demográfica de 26,76 habitantes por quilômetro quadrado, em 2021 o salário médio por mês era de 1,4 salários mínimo e pessoas ocupadas era cerca de 1.329, constando no censo de 2010 o rendimento per capita de 11⁄2/ salário mínimo correspondendo a $53,8\%$ da população. Na área da educação, segundo o IBGE (2023), o município tem 6 escolas do ensino médio, 79 docentes e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) equivalente a 3,2 em 2021, sendo ausente a nota do IDEB do ano de 2023. Esse número de rendimento dos estudantes da educação básica, inferior à média do país, pode ser um indicativo de que o baixo acesso aos livros paradidáticos leva a um mau desempenho dos alunos nos exames que avaliam a educação brasileira, nacionalmente e internacionalmente.
Por conseguinte, a ausência de biblioteca pública e escolar, e a dificuldade de acesso a renda e dinheiro, consequentemente, nega o acesso ao tipo de capital cultural que Pierre Bourdieu (1998, p. 77) nomeia de capital objetivado, no qual é definido pelo autor como: "[..] o capital cultural objetivado em suportes materiais, tais como escritos, pinturas, monumentos etc., é transmissível em sua materialidade [...]". Bourdieu (1998) destaca ainda que o acesso incipiente a diversos capitais- sociais, econômicas, culturais- interfere no sucesso escolar.
Ademais, além do índice do IDEB ser diminuto no Ensino Médio, essa etapa de ensino possui um percentual alto de déficit de matrícula/ano, ou distorção idade/série. Esta evasão após o ensino fundamental, é demonstrada por dados do IBGE do censo escolar, visível nas figuras 1 e 2:

Fonte: Costa; Pereira (2024).
Figura 1: A quantidade de matrícula entre o $9 ^ { \circ }$ ano (2022) e 1° ano (2023)

Figura 2: Quantidade de matrícula no Ensino Médio nos anos 2021, 2022 e 2023
Fonte: Costa; Pereira (2024). 10
No primeiro gráfico demonstra que dos 484 alunos que se matricularam em 2022, no $9 ^ { \circ }$ ano do ensino fundamental II, $12.4\%$ deles não se matricularam no ensino médio em 2023. Dessa forma, ocorreu uma descontinuidade dos estudos para esses jovens, como o gráfico aponta. Consecutivamente, o segundo gráfico retrata o número de matrícula no $3 ^ { \circ }$ ano do ensino médio ao longo de 2021, 2022 e 2023, consta que em 2021 se deu 407 e em 2022 com 348, posteriormente em 2023 com 343, sendo observado que desde 2022 vem diminuindo o número de matrícula, ademais nos três anos letivos têm em comum a diminuição de matrícula no último ano do ensino médio se comparado ao 1° ano. Além disso, nota-se a diferença de matrícula entre os 1o
e $3 ^ { \circ }$ anos, durante esses períodos letivos, no qual demonstra o número de alunos desistentes, sendo em 2021 teve 68, em 2022 com 111 e em 2023 com 78 alunos, apesar de ter decaído em 2023 o valor de desistência é possível perceber que 18, $53\%$ não prosseguiram os estudos dos 421 que estavam matriculados, torna-se um percentual considerável, pois são jovens, adolescentes que têm sonhos e talentos que poderia ser amplificado pela escola, no entanto o sistema educacional falhou. Logo, no gráfico 2 é visível a evasão escolar na rede estadual no município de São Bernardo, também é perceptível ao comparar o gráfico 1 e 2 a queda de matrículas no âmbito do nível de ensino, apresentando os números de entrada e saída nas séries do ensino médio, sinaliza para uma possível dificuldade de permanência dos estudantes nessa etapa da carreira escolar.
Nesse contexto, apesar da Lei de Diretrizes e Bases da educação (LDB, n° 9.394/1996), no artigo 2°, pontuar que: "A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania, e sua qualificação para o trabalho" (Brasil, 1996), torna-se relevante compreender que os jovens que não dão continuidade a vida acadêmica, muitas vezes, não veem a formação escolar como agregadora à sua vida. Em alguns casos, isso deve-se à rotina monótona do cotidiano escolar, centrado apenas no objetivo de conseguir a nota e, assim, passar de ano. A leitura, para os adolescentes, é vista apenas como um mecanismo para decorar informações do livro didático para a prova.
Nestes alunos a ausência de incentivo e a incapacidade de encontrar sentido nas atividades escolares, atrelada a problemas pessoais acarretam muitas vezes a desistência dos estudos. Ao retoma o que é proferido na LDB, a educação tem papel importante na edificação da pessoa no patamar da cidadania e profissional, sendo o Estado o principal responsável pela efetivação desse objetivo,11 pois tem condição de criar e implementar políticas públicas voltadas para a permanência nos bancos escolares, tanto no âmbito estrutural e pedagógico, em diferentes esferas do governo.
Dessa forma, correspondendo a LDB (Brasil, 1996), no artigo $3 ^ { \circ }$, o ensino deve ter como base o princípio de equidade de circunstâncias, que propicie a entrada e continuidade nas instituições de ensino, garantindo a ampliação dos campos de possibilidades dos adolescentes e jovens brasileiros (Velho, 1994), ressoando em suas trajetórias de vida, transformando a realidade de gerações de famílias.
Destarte, o contexto social, econômico e educacional desfavorável, cria a necessidade da existência de biblioteca escolar ou pública, visto que o acesso ao livro paradidático tem o papel de incentivar aquisição de conhecimento, sendo uma ferramenta útil para o processo ensino e aprendizagem, além de ser um meio de construção, formação e identificação no âmbito da identidade dos jovens e adolescentes - promovendo a autonomia, a reflexão crítica, tornando-os cidadãos aptos para atuarem efetivamente nas decisões políticas, de maneira crítica e responsável, tanto no âmbito pessoal e profissional.
Farol de educação: Um programa de implementação de bibliotecas no Maranhão
A Biblioteca Farol de Educação, em São Bernardo/MA, sendo a única biblioteca pública existente nesse município, é fundamental para a difusão do incentivo à leitura e acesso ao livro. Na década de 90 entrou em funcionamento, no entanto não foi possível determinar a data da sua desativação, mas a partir de conversa, por meio do WhatsApp, com uma pessoa que frequenta esse ambiente é coletado a informação que em 2006 a estrutura dessa biblioteca se encontrava em estado degradante. Está localizada na Travessa Alexandre Mendes, próxima a escola Centro de Ensino Educa Mais Deborah Correia Lima, sendo a única biblioteca pública do município. Nessa biblioteca, trabalhou duas funcionárias, apenas consegui conversar com a Isabelle, por meio do WhatsApp, que me relatou o seguinte: "- Eu trabalhei lá alguns anos, mas não sei dizer a data de ativação, o motivo de não funcionar foi abandono mesmo por parte dos governantes da cidade que não tinham interesse nenhum em manter a biblioteca ativa". Apesar dela apontar a falta de interesse de governantes municipais, o programa Farol de Educação foi implementado como política pública do Estado do Maranhão, no governo de Roseana Sarney.
O prédio era entidade do governo, mas os funcionários eram mantidos pela prefeitura, que, segundo a funcionária Isabelle, "quem trabalhou lá sabe o quanto era difícil manter o local, faltando o básico." A partir desse relato, fica constatado a falta de zelo com a biblioteca por parte do município e do estado. Na imagem abaixo consta a foto da Biblioteca Farol de Educação, que atualmente está em reforma, iniciada em
2023, sendo que a finalização era para ter ocorrido em 20 de junho de 2024 mas não foi concretizada até o presente momento. Na imagem 1 demonstra essa biblioteca em reforma.

Fonte: Costa (2023). Figura 3: Biblioteca Farol de Educação
Esta Biblioteca Farol de Educação faz parte do programa Biblioteca Farol do Saber, no qual é oriunda de Curitiba, Paraná, e o governo do Maranhão, que estava sendo dirigido por Roseana Sarney, adaptou para a realidade maranhense e iniciou a instalação em 1997. Acerca disso, as especificações para implantação: as cidades fossem carentes de área de leitura e que tivesse ampla quantidade de escolas estaduais (Costa, 2013). Esse programa tem a finalidade de incentivar a prática da leitura, viabilizar a disponibilidade de informação e nutrir a criatividade. Existem 118 unidades, 94 estão sob coordenação da Secretaria de Estado da Cultura (Secma) e 24 sob a gestão da Secretária de Estado de Educação (Seduc).
Os principais problemas que são entraves no funcionamento dos Faróis no interior é a ausência de estrutura e pessoas capacitadas, tendo os funcionários a partir da parceria entre estado e município, no qual o município sede funcionário para ser treinado pelo estado. Estas pessoas que trabalham nos faróis do inteiro, muitas vezes, não têm os requisitos exigidos pelo Manual dos Faróis: ensino médio ou curso superior na área da educação (Costa, 2013). Referente a isso, a desativação da biblioteca Farol de Educação no município de São Bernardo, agravou-se pela falta de manutenção das estruturas físicas.
## III. Acesso à Leitura na Escola Estadual Centro Educa Mais Deborah Correia Lima Anexo Ii- Mamorana
O povoado12 Mamorana faz parte da área rural município São Bernardo, no qual possui 600 habitantes13. Segundo os moradores desse povoado não se sabe ao certo a sua origem, mas os moradores mais antigos retratam que em 1953 já existiam algumas casas que eram distantes entre si e uma área de festa, no qual era frequentado pelos moradores desse povoado e dos povoados vizinhos. Sendo que a principal renda das famílias provém do modo de produção do campesinato14. No âmbito educacional, tem apenas a Escola Municipal Juscelino Kubitschek, onde funcionam os seguintes níveis de ensino: o maternal, o ensino fundamental I (ambos no turno matutino), ensino fundamental II (turno vespertino), ensino médio (turno noturno).
No âmbito da saúde esse povoado tem dois agentes de saúde e uma Unidade Básica de Saúde (UBS) que além do Povoado Mamorana atende a população de outros povoados: Povoado Anapurus, Povoado São Benedito, Povoado Alto Bonito e Comunidade - Baixa do Meio. Essa Unidade Básica de Saúde conta com 16 funcionários15. Na figura 2, é possível ter uma dimensão da área que abarca o Povoado Mamorana:

Fonte: Costa; Pereira (2024)16 Figura 4: Povoado Mamorana
Na localidade Mamorana, foi instaurado em 2008 o Centro Educa Mais Deborah Correia Lima Anexo II- Mamorana, que atualmente ocupa a infraestrutura da escola municipal Unidade Integrada Juscelino Kubitschek, funcionando o ensino médio no período noturno. O Ensino Médio do Anexo II é constituído pelos Itinerários Formativos: Ciências da Linguagem, Ciências Exatas, Ciências da Saúde e Ciências Humanas, sendo os 83 alunos matriculados oriundos dos povoados Anapurus, São Benedito, Alto Bonito, Baixão do Capim e Mamorana17.
No anexo II - Mamorana, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) a nota do último IDEB realizado em 2023 é 2,4. O seu quadro de professor é composto por 7 docentes, os funcionários voltados a outras áreas são: 1 vigia, 1 merendeira e 1 auxiliar de serviços gerais, sendo a diretora a profa. Luiza Machado, responsável também pelo Centro de Ensino Mais Deborah Correia Lima, localizado na sede, área urbana de São Bernardo/ MA. O anexo II é resultado da parceria com o município, que disponibiliza os funcionários responsáveis pela limpeza, merenda e vigilância da escola. No patamar da estrutura dessa instituição, usufrui de 8 salas de aula, uma sala de professores, quatro banheiros e uma cozinha; nas três salas utilizada pelo ensino médio tem 9 ventiladores, distribuído para cada sala 3 ventiladores, tendo o $3 ^ { \circ }$ ano apenas 2 funcionando.
A partir da pesquisa de campo na escola foi possível observar o estado degredado em que se encontra o prédio, com as paredes repletas de manchas e riscos. Ademais, há mesas desgastadas e nas cadeiras possui áreas que estão enferrujadas. Na sala do $2 ^ { \circ }$ ano tem o suporte para mais um ventilador, np entanto, não tem o ventilador e as tomadas e interruptores de lâmpadas, na maioria das salas, estão faltando a barreira de proteção ou não estão encaixados corretamente. Assim, as salas de aulas precisam urgentemente de reformas, pois não é um ambiente propício ao processo de ensino aprendizagem e, consequentemente, deixa em desvantagem os alunos dessa localidade em relação a escolas que tem ambiente adequado. Ao comparar a estrutura dessa escola com a do Centro Educa Mais Deborah Correia Lima, localizada na sede, e o seu anexo I - Coqueiro18 que se localiza na área rural de São Bernardo, ambos têm estruturas melhores.
Atualmente, os livros paradidáticos e didáticos estão distribuídos na antiga e atual sala da direção escolar, e sobre esses livros verificou-se que constam uma quantidade diminuta, que não estão acessíveis para consulta e empréstimos pelos alunos. Diante desta situação da falta de acesso ao livro paradidático e de compartilhamento desses em suas rotinas como estudantes, segundo Paulo Freire (2021, p. 274):
[...]a posição crítica - democrática da biblioteca popular. Da mesma maneira como, deste ponto de vista, a alfabetização de adultos e a pós alfabetização implicam esforços no sentido de uma correta compreensão do que é a palavra escrita, a linguagem, as suas relações com o contexto de quem fala e de quem lê e escreve, compreensão portanto da relação entre "leitura" do mundo e leitura da palavra, a biblioteca popular, como centro cultural e não como um depósito silencioso de livros, é vista como fator fundamental para o aperfeiçoamento e a intensificação de uma forma correta de ler o texto em relação com o contexto. Daí a necessidade que tem uma biblioteca popular centrada nesta linha de estimular a criação de horas de trabalho em grupo, em que se façam verdadeiros seminários de leitura, ora buscando o adentramento crítico no texto, procurando apreender a sua significação mais profunda, ora propondo aos leitores uma experiência estética de que a linguagem popular é intensamente rica.
Diante do exposto, é demonstrado a necessidade de biblioteca, tanto pública quanto escolar, além de iniciativas que estimulem a utilização desses espaços de leitura. A biblioteca ocuparia, assim, esse espaço de centro cultural de leitura, troca de conhecimento, receptível a cultura popular da região. Nesse cenário de falta de recursos, a revitalização das bibliotecas escolares, a criação e manutenção de bibliotecas públicas e comunitárias, bem como a inserção de livros paradidáticos nas escolas poderiam promover o interesse pela leitura por parte dos estudantes.
Além da ausência do acesso a livros, em muitas escolas inexiste ambiente adequado para acomodar o acervo, desprovido de catalogação dos livros que estão na escola. As imagens abaixo apresentam as três estantes de livros nesta escola do Povoado Mamorana, Anexo II:

Fonte: Costa (2024)

Figura 5: Acervo na sala antiga da direção escolar Fonte: Costa (2024) Figura 6: Acervo na sala atual da direção escolar

Fonte: Costa (2024) Figura 7: Acervo na sala atual da direção escolar As imagens retratam a quantidade ínfima de livros juvenis1 e expressam a carência de organização dos livros paradidáticos, pois os livros infantis e juvenis estão agregados com materiais da secretária, livros didáticos e objetos que possuem outras finalidades, sendo ausente a catalogação dos livros, tornando tais aspectos empecilhos que dificultam encontrar essas obras paradidáticas. Desse modo, Silva (1999, p. 59-62) retrata os fatores internos da biblioteca que desestimulam a leitura, em que abarca o fato dela está localizada em ambiente inadequado, o acervo escasso e obsoleto, a falta de organização dos livros, a ausência de empréstimo de livros ou a proibição a ter acesso aos livros dispostos nas estantes, devido o receio do extravio.
O descaso e a proteção exacerbada do ambiente de leitura agravam a construção do hábito da leitura, principalmente, por jovens que provém de famílias desfavorecidas no âmbito econômico e no que tange ao acesso à capital cultural. Mediante isso, os alunos do Anexo II- Mamorana, oriundos de famílias de trabalhadores rurais, em que muitas vezes a produção familiar resulta em suprir apenas necessidades básicas, acabam dependentes de biblioteca pública e escolar para o acesso à leitura de livros paradidáticos. Consequentemente, é negado o desenvolvimento pessoal, profissional e o exercício da cidadania plena, como esses jovens padecendo em meio a negligência que cerca o acesso aos livros nas escolas públicas brasileiras.
Ao analisar estas circunstâncias, cabe frisar que a desigualdade social na distribuição de internet e aparelhos (celular, tablete, etc.), no Brasil, torna inviável a equidade de acesso a livros online. Nesse sentido, segundo dados do PNAD (2021) Contínua-TIC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Tecnologia da Informação e Comunicação), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2021), a região nordeste consta com o menor índice de acesso à internet nos domicílios, sendo que a zona rural é a mais afetada pela ausência de acesso à rede mundial de computadores. Logo, estes alunos do Centro Educa Mais Deborah Correia Lima são restritos à disponibilização de livro paradidático e incentivo à leitura, subordinados a iniciativas efetivas do setor político, que contemplem o acesso a bens culturais.
Esta ausência de livros paradidáticos de forma física ou digital para crianças e jovens, segundo Silva (2000), e a precariedade de acesso aos livros dificultam a compreensão das desigualdades e discriminações que circundam a sua realidade, sendo necessário construir uma visão crítica, e o desenvolvimento da sua criatividade. Nesse cenário, os estudantes dessa escola ficam à margem das iniciativas de governo e ações da gestão escolar, ampliando as desigualdades, problemas sociais e estando à mercê do sistema capitalista, com um risco de se tornarem adultos alheios ao conhecimento, com dificuldades de elaboração de pensamentos críticos para a tomada de decisões no exercício efetivo no âmbito político. Ausentes da esfera pública de tomada de decisão e sem participação direta na constituição de uma cidadania plena, esses estudantes se veem ilhados dos espaços públicos.
## IV. RESULTADOS
No cenário de relevância da biblioteca e a disponíveis tecnologias (internet, celular, tablet etc.) como mecanismos de democratização do acesso a livros, que visa estimular os jovens a desenvolver o hábito da leitura e o senso crítico. Para obter resultados, esta pesquisa utilizou como método a realização de entrevistas semiestruturadas com carácter qualitativo. Na aplicação das entrevistas semiestruturadas, foi empregado o método de amostragem em bola de neve, no qual após a pesquisadora explicar o objetivo da pesquisa de forma clara para o informante, foi proposto que a pessoa indicasse sujeitos e sujeitas com o perfil que se enquadrasse na pesquisa. Esse processo se estendeu até a amostra se encontrar saturada, ou seja, quando as informações repassadas foram recorrentes, não trazendo algo a acrescentar na pesquisa (Vinuto, 2014, p. 203). Sendo que a minha pesquisa operou com quantidade relativamente pequena de entrevistados, esse procedimento metodológico tornou-se o que melhor e mais adequado para esse tipo de pesquisa.
Ao longo da pesquisa, foram entrevistados 5 jovens do Centro Educa Mais Deborah Correia Lima Anexo II- Mamorana, que frequentaram o $2 ^ { \circ }$ ano do ensino médio, no povoado Mamorana, zona rural do município de São Bernardo. Os entrevistados são da faixa etária de 17 à 20 anos, residentes da Mamorana e de povoados vizinhos, sendo 4 do gênero feminino e 1 do masculino. A maioria é oriunda de família de lavradores/trabalhadores rurais e tem renda menor de um salário mínimo, e além de estudar ajudam as suas famílias nas tarefas de cuidados domésticos e de cultivo das roças. Dos entrevistados, apenas um tem estado civil de casado, sendo os demais solteiros.
Estas entrevistas foram aplicadas a partir de questionário semiestruturado, anteriormente elaborado, realizado por meio do whatsapp e presencialmente na residência dos entrevistados. A primeira entrevista foi concedida pelo $\mathsf { E 2 } ^ { 20 }$ foi no dia 12/10/2024_ e no horário 16:00 à 16:30; o segundo entrevistado foi E1 na data: 12/10/2024, no horário das 18:00 às 18:25; a terceira entrevistada foi P1 no qual se aplicou na data: 18/10/2024, no horário das 19:10 às 19:30; na quarta entrevista foi aplicado a L1 na data: 09/12/2024, no horário das 10:40 às 11:10 e o quinto entrevistado foi G1 na data: 10/12/2024, no horário: 13:29 às 14:58.
Neste momento da pesquisa, o maior desafio enfrentado foi conseguir que os estudantes aceitassem ser entrevistados, nesse sentido, 1 entrevistado ficou relutante ao saber que seria gravada a entrevista. Também teve 2 entrevistados que, por ser a sua primeira vez sendo entrevistado, ficaram com receio de não saberem responder as perguntas, mas em ambas situações consegui contorná-las. Na tabela 1 apresenta a recorrência de leitura dos entrevistados:
Tabela 1: Não lê
<table><tr><td>Estudante</td><td>Gênero</td><td>Estado civil</td><td>Contato com livre</td><td>Recorrência do ato de lê</td></tr><tr><td>E1</td><td>Feminino</td><td>Solteira</td><td>Sim</td><td>Tem o hábito</td></tr><tr><td>E2</td><td>Masculino</td><td>Solteiro</td><td>Não</td><td>Não lê</td></tr><tr><td>G1</td><td>Feminino</td><td>Solteira</td><td>Sim</td><td>Tem o hábito</td></tr><tr><td>L1</td><td>Feminino</td><td>Solteira</td><td>Sim</td><td>Não é recorrente</td></tr><tr><td>P1</td><td>Feminino</td><td>casada</td><td>Não</td><td>Não lê</td></tr></table>
Nota: Se que a maioria dos estudantes tem contato com livros, mas apenas as alunas E1 e G1 têm o hábito de leitura. Esses dados, muitas vezes, segundo Silva (1999, p. 56) é consequência das "[...] imposições de padrões de gosto, de títulos a serem lidos em caráter obrigatório, de fichas de leitura a serem minuciosamente preenchidas impedem que os alunos sintam o prazer da leitura". Destarte, a perspectiva dos estudantes de que a leitura é monótona, é formada através da escola, que usa um sistema pedagógico limitado ao repasse do conteúdo do livro didático, utilizando a leitura apenas para responder atividades e avaliações - negando, assim, a amplitude que circunda o ato de ler.
Conforme o exposto a Petit (2009) pontua que os jovens ao atrelar o conteúdo do livro com caráter rebuscado, e por ter experiências escolares desagradáveis com a leitura -momentos que se sentiram inferiores, desconfortáveis - surge daí a revolta contra o ato de lê. Logo, é relevante um ambiente adequado para leitura, acervo diversificado, projetos que estimulem a leitura, com a presença de mediadores que demonstrem a leitura para além da aquisição de informação, para, assim, criar novas visões sobre a leitura para esses estudantes do Anexo II- Mamorana.
Sendo que o município de São Bernardo - MA não dispõe de biblioteca pública e a escola que esses estudantes frequentam não possui uma biblioteca escolar com estrutura adequada e acervo variado, o único meio de acesso ao livro é por meio do âmbito digital. No entanto, nesse cenário tecnológico, apesar de terem disponível o celular, a internet é ausente nessa relação como mediador capaz de despertar e incentivar
- hábito da leitura. Na tabela 2 constam os livros favoritos e mecanismos de acesso a livros usados pelos entrevistados:
Tabela 2: Obra favorita e mecanismo de acesso a livros
<table><tr><td>Estudante</td><td>Tipo de livre</td><td>Obra favorita</td><td>Autor</td><td>Mecanismo de acesso ao livre</td></tr><tr><td>E1</td><td>não tem</td><td>não tem livre favorito</td><td>Não tem</td><td>aplicativo wattepad e internet</td></tr><tr><td>G1</td><td>Romance</td><td>Orgulho e preconceito</td><td>Jane Austen</td><td>aplicativo e internet</td></tr><tr><td>L1</td><td>Romance</td><td>Perdida: um amor que ultrapassa as barreiras do tempo</td><td>Carina Rissi</td><td>aplicativo kindle e internet</td></tr></table>
Fonte: Costa (2024)
Na tabela 2, a internet e aplicativos surgem como meios para a democratização do acesso ao livro, para esses jovens de baixa renda. Nesse sentido, L1 relata que "não gasto tanto dinheiro para conseguir os livros, pois são em formato de pdf e a maioria consigo pela internet de forma gratuita" (L1, 17a, estudante)21. Sobre o livro no formato digital Chartier pontua que:
[...]A descontinuidade e a fragmentação da leitura não têm o mesmo sentido quando estão acompanhadas da percepção da totalidade textual do objeto escrito tal como o propõe o códex, ou quando a superfície luminosa da tela, onde aparecem os fragmentos textuais, não deixa ver imediatamente os limites e a coerência do corpus (livro, número de revista ou de periódico) de onde são extraídos.](Chartier, 2019, p 13)
Em vista disso, nota-se a dicotomia do livro virtual, porque apesar de ser um formato acessível à classe popular é, muitas vezes, ausente de controle sobre o conteúdo exposto e, assim, frágil a confiabilidade sobre a validade do conhecimento e história repassados por meio desse modelo de livro. Por conseguinte, Chartier (2019) também aponta que o contato com o livro digital não nega a necessidade da obra física.
No contexto desses jovens, a tecnologia é uma ferramenta que possibilita a leitura de livros, sendo perceptível nas entrevistas que a biblioteca continua necessária, pois segundo a E1 "eu acho que deveriam abrir um local específico para isso, porque mesmo que a internet tenha ganhado bastante o mundo, ainda existe pessoas que procuram e se interessam pela leitura de livro físico, acho importante ter um lugar apropriado para isso" (E1, 17a, estudante). Portanto, a biblioteca escolar é relevante para esses estudantes para a construção do hábito da leitura, a disseminação de conhecimento e lazer, porque nesse ambiente além de ter amplo acervo confiável, tem o mediador -que pode ser um professor ou um bibliotecário -que intervêm nessa relação livro/ leitor.
Nessa conjuntura, o mediador auxilia na descoberta pelo gosto da leitura e na ampliação do seu campo de visão sobre a existência de diversos gêneros literários. O jovem, assim, não fica restrito a apenas ao romance, uma vez que por meio dos mediadores é possível conhecer a distopia, suspense, terror, não ficção, entre outros, que além de fazer os sujeitos e sujeitas se descobrirem como leitores, traz uma gama de possibilidade de narrativas que ampliam seus horizontes de vida ao identificar quais gêneros fazem parte do seu gosto. Desse modo, Petit (2009, p.174) destaca sobre o papel do mediador, que é:
[..] aquele ou aquela que pode legitimar um desejo de ler que não está muito seguro de si. [...] que ajuda a ultrapassar os umbrais em diferentes momentos do percurso. Seja profissional ou voluntário, é também aquele ou aquela que acompanha o leitor no momento, por vezes tão difícil, da escolha do livro. Aquele que dá a oportunidade de fazer descobertas, possibilitando-lhe mobilidade nos acervos e oferecendo conselhos eventuais, sem pender para uma mediação de tipo pedagógico.
Dessa forma, a existência da biblioteca escolar e mediador operando em conjunto torna propício os jovens terem uma perspectiva favorável ao livro, tornando-se um mecanismo de entretenimento, mas também de aquisição de conhecimento, que possibilita expandir sua percepção sobre o campo acadêmico, profissional e pessoal. Nesse cenário, nas entrevistas foi visto que as estudantes E1, G1, L1 pretendem dar continuidade a vida acadêmica após concluir o ensino médio, em contrapartida o estudante E2 relatou que está incerto se vai continuar e a estudante P1 não tem o intuito de prosseguir com os estudos. Com base nisso, infere que o acesso a livro, apoiado no incentivo à leitura, amplifica o campo de possibilidade desses jovens já que o interesse em dar continuidade aos estudos foi observado entre as alunas que têm contato com livros e uma visão positiva sobre a leitura.
Esta visão benéfica sobre o livro é trabalhada desde o primeiro contato com a obra, que pode ser no ambiente escolar ou familiar. Nesse sentido, a tabela 3 retrata os momentos que os entrevistados tiveram acesso ao primeiro livro e o incentivo dos pais a leitura.
Tabela 3: Incentivo dos pais a leitura e o primeiro contato com o livro
<table><tr><td>Estudante</td><td>Incentivo dos pais na pratica da leitura</td><td>Primeiro acesso a livre</td></tr><tr><td>E1</td><td>Sim</td><td>com 6 anos</td></tr><tr><td>E2</td><td>Não</td><td>Não teve</td></tr><tr><td>G1</td><td>Sim</td><td>10 anos</td></tr><tr><td>L1</td><td>Não</td><td>com 15 anos</td></tr><tr><td>P1</td><td>Não</td><td>Não teve</td></tr></table>
Acerca dessa tabela 3, percebe-se que a maior parte dos estudantes não têm o incentivo dos pais para praticar a leitura, sendo apenas as alunas E1 e G1 que foram estimuladas pelos pais a terem esse hábito. Mas, é importante compreender que os estudantes do anexo Il- mamorana são oriundos da zona rural, e vivem a realidade de terem que ajudar seus pais na plantação e colheita dos produtos que são cultivados na terra que são seu meio de subsistência. Ao considerar, essa realidade e que os pais têm experiências de vida que fazem ver o ato de ler como perda de tempo, resulta na ausência de valor agregado ao hábito da leitura. Sobre essa percepção da ação de ler um livro de literatura, não ficção etc., ser visto com caráter de supérfluo Petit (2009, p.116) aborda que tem "[..] no meio rural: a exigência do que é considerado "útil", a desconfiança em relação ao que se pensa ser algo próprio dos ricos[...]". Logo, as estudantes E1 e G1 são exceções a essa realidade que inviabiliza a leitura.
De acordo com exposto, outro elemento que contribui para a edificação do hábito da leitura é a faixa etária que a pessoa teve o primeiro contato com o livro, mediante isso, na tabela 3 acima demonstra que as alunas E1 e G1 tiveram o primeiro acesso a livro - no caso aqui exposto, durante a infância. A E1 expressa na entrevista que "o primeiro contato que tive foi quando estudava na escola, no ensino infantil, acho que tinha 6 anos" (E1, 17a, estudante), retratando a relevância da escola para estabelecer essa primeira aproximação com a leitura. Seno esses jovens de origem humilde, muitas vezes, apesar dos pais entenderem que o ato de ler é importante para o desenvolvimento dos seus filhos, não conseguem comprar livros para as crianças devido a sua condição financeira.
Concernente, sobre a importância do contato com o livro na infância para formação do hábito de ler, Petit (2009, p 143) destaca que "[.....] seja qual for o nível sociocultural, a maioria dos que leem viu e ouviu alguém ler durante a infância [..]". Ademais, Silva (1999) destaca que a ausência de biblioteca escolar nega as crianças oriundas de famílias de baixa renda o desenvolvimento pleno, pois esse ambiente é para elas, muitas vezes, o único meio de ter disponível livros. Desse modo, nota-se que esses jovens do Centro Educa Mais Deborah Correia Lima Anexo II- Mamorana, fazem parte de contexto social e econômico que não atuam em prol do desenvolvimento do hábito da leitura.
Assim, percebe-se por meio da pesquisa que mesmo que o livro digital seja uma possibilidade de democratização do acesso ao livro para os jovens do Anexo II- Mamorana, a existência da biblioteca escolar na escola é uma importante ferramenta de democratização do acesso aos livros paradidáticos, contribuindo para a formação crítica e cidadã dos estudantes. Essa biblioteca torna possível esses jovens frequentar e um espaço, com acervo variado e confiável, que lhe estimularão a leitura e trará uma perspectiva ampliada e positiva sobre o ato de ler, com auxílio do mediador. Sendo oriundos de uma realidade desigual, o livro é um mecanismo crucial para ampliar seus horizontes no âmbito pessoal, profissional e intelectual.
## V. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa teve como objetivo geral entender o quanto a quantidade diminuta de livros disponíveis para os moradores do povoado Mamorana produz efeitos sobre a trajetória escolar dos estudantes do Anexo II- Mamorana, limitando os seus campos de possibilidades e afetando seus projetos de vidas (Velho, 1994).
O resultado obtido com a pesquisa foi entender que a maioria dos alunos não tem acesso a biblioteca pública ou escolar, tendo como única possibilidade os livros digitais gratuitos, baixados pela internet ou ler em aplicativo gratuitos, devido a sua condição financeira desfavorável. Consequentemente, poucos alunos têm o hábito da leitura, sendo que poderia ser desenvolvido essa prática a partir da biblioteca escolar com estrutura adequada para leitura e acervo diversificado em conjunto com atuação de mediadores. Por último, nota-se que os alunos que têm o contato com o livro, mesmo sendo no formato digital, apresenta a perspectiva de dar continuidade a jornada acadêmica após a conclusão do Ensino Médio.
O resultado aqui reunido pode servir para compreender a realidade dos estudantes de escasso acesso a livros paradidáticos e como isso lhes afeta, tornando possível promover intervenções sobre esse cenário e contribuir para futuras investigações sobre o acesso ao livro e habito da leitura, que faz parte da zona rural de São Bernardo e, assim, entender como esses fatores afetam o campo de possiblidades dos alunos da área rural desse município. Nesse sentido, essa pesquisa se limitou a apenas analisar de que forma a escassez de livro afeta os alunos do ensino médio, devido ao pouco tempo que poderia destinar a investigação e ao tamanho que o artigo deveria ter, logo, fica a cargo de outras pesquisas analisar os impactos em outros níveis de ensino atuantes nessa escola e em outras instituições de ensino de São Bernardo. Ademais, ao observar o ambiente dessa escola, percebe-se que as salas de aulas que são frequentadas por esses alunos estão em estado degradado, necessitando de reformas. Esse contato com escola me permitiu aspectos que vão além da necessidade de bibliotecas escolares e mediadores, sendo interessante futuras pesquisas sobre a estrutura das escolas atrelado a como afeta o ensinoaprendizagem em São Bernardo, na zona rural.
[^1]: Termo êmico, amplamente utilizado pelos moradores da região, inclusive pelos que habitam os espaços urbanos. Além desse, é utilizado também o termo "interior" ou interiorzinho, no diminutivo. _(p.6)_
[^2]: 2 4$, de 24 de maio de 2010, modificou a definição de biblioteca escolar e criou o Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares (SNBE). _(p.1)_
[^3]: 2O PISA é um estudo que compara países, efetuado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nesse programa é avaliado o conhecimento e habilidades dos estudantes na faixa etária de 15 anos em matemática, leitura e ciências. _(p.1)_
[^4]: Informação prestada pela agente de saúde da localidade. _(p.6)_
[^5]: jun. 2024. _(p.3)_
[^8]: O IDEB é constituído pelo resultado de aprendizagem averiguado pelo Saeb acrescida do valor de aprovação medido no Censo Escolar, sendo o objetivo do IDEB acompanhar a performance das instituições de ensino pública e privada. A meta para o ensino médio em 2021 foi _(p.3)_
[^15]: Informação concedida pela atendente da Unidade Básica de Saúde. _(p.6)_
[^16]: 1Mapa do povoado Mamorana. Disponível em: htps://www.google. com/maps/d/edit?mid $=$ 1giv9mW0bnT2ys3C. Acesso em:09. jun.2024. _(p.7)_
[^17]: c Mamorana é de $1 0 {, } 9 \mathrm { k m }$, de São Benedito para essa escola $^ { \circ 8, 9 \mathsf { k m } }$ Ademais, a quilometragem de Alto Bonito para o anexo Il-Mamorana consta $4 {, } 0 \mathsf { k m }$. _(p.7)_
[^18]: Aex Coqueiro usa a estrutura da escola do Município para realizar as suas atividades pedagógicas. _(p.7)_
[^19]: 1Os livros juvenis são os circulados com a cor amarela. _(p.9)_
[^20]: E1, E2, G1, L1, P1 são usados como nome fictício, com intuito de preservar a identidade dos entrevistados. _(p.10)_
Generating HTML Viewer...
References
20 Cites in Article
P Bourdieu (2007). A escola conservadora as desigualdades frente à escola e à cultura.
E-Book (2023). Book 3.
R Chatier,Ler Sem Livros (2019). Unknown Title.
F Claudia,Família fofoca e honra: etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares.
C Costa (2013). Tese (Doutorado em Educação: Conhecimento e Inclusão Social) -Faculdade de Educação.
Artur Iuri Alves De Sousa,Ana Dias Vieira Da Costa,Claudia Passos Guimarães Rabelo,Mary Fontenele Martins (1992). Editorial.
Anna De Mendonça (2023). Avaliação das instituições de Ensino Superior a partir de dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).
P Freire (2021). A importância do ato de ler. Alfabetização de adultos e bibliotecas populares -uma introdução. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam.
(2022). PNAD TIC: Internet já é acessível em 90,0% dos domicílios do país em 2021.
Rita Villas Boas,Denise Silva (2015). O curso de desenvolvimento de habilidades em pesquisa do ibge.
Brasil (1996). Unknown Title.
Marta Marques (2008). A ATUALIDADE DO USO DO CONCEITO DE CAMPONÊS.
Rita Villas Boas,Denise Silva (2023). O curso de desenvolvimento de habilidades em pesquisa do ibge.
M Petit (2009). Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva.
Governo Do,Maranhão Farol,Saber Governo do Maranhão. Portal do governo do Maranhão.
Inep (2022). Cadernos de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais.
W Silva (1999). Miséria da biblioteca escolar. 2.
R Sousa (2023). Unknown Title.
G Velho,Memória (1994). identidade e projeto. Projeto e Metamorfose: antropologia das sociedades complexas.
Juliana Vinuto (2014). A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa.
No ethics committee approval was required for this article type.
Data Availability
Not applicable for this article.
How to Cite This Article
Dr. Amanda Gomes Pereira. 2026. \u201cThe Role of School Libraries in Promoting Access to Supplementary Books\u201d. Global Journal of Human-Social Science, Global Journal of Human-Social Science - G: Linguistics & Education GJHSS-G Volume 26 (GJHSS Volume 26 Issue G1): .
Explore published articles in an immersive Augmented Reality environment. Our platform converts research papers into interactive 3D books, allowing readers to view and interact with content using AR and VR compatible devices.
Your published article is automatically converted into a realistic 3D book. Flip through pages and read research papers in a more engaging and interactive format.
The state school Centro Educa Mais Deborah Correia Lima has Annex II -Mamorana in the rural area, located in the municipality of São Bernardo, MA, which faces an economic deficit and limited access to social and cultural capital. This Annex II is attended by young people from farming families engaged in small-scale subsistence production based on planting and harvesting cassava, corn, and beans, and who are therefore financially disadvantaged. In view of this, the aim of this study is to analyze the development of reading practices in this Annex, taking into account the existence of a school library, the variety of literary genres, whether the environment is used by students, and whether they have a reading mediator. The study also examines how these students come into contact with paradidactic books and the influence of the absence of this cultural asset on broadening their academic horizons. The methodological procedure used for the research was a literature review and fieldwork based on semi-structured interviews, which were qualitative in nature. The results are the absence of a reading area and practices aimed at developing the habit of reading in Annex II -Mamorana.
Our website is actively being updated, and changes may occur frequently. Please clear your browser cache if needed. For feedback or error reporting, please email [email protected]
Thank you for connecting with us. We will respond to you shortly.