This article aims to discuss the importance of the characters in the book A mulher que escreveu a Bíblia by Moacyr Scliar. The characters analyzed are characterized as being ugly, and one of them has an amputated limb. They are the ugly, unnamed character, and the little shepherd who was beautiful at first. These characters coexist with others who are very beautiful. In this way she recounts her own existence from the time when she was only the daughter of the anonymous leader of a tribe until she became the wife of King Solomon. The aim is to verify how the attitudes of the ugly characters contrasts with the actions of the beautiful characters in the narrative. However ugliness is fundamental so that we can understand the work.
## Introduction
a produção literária do escritor Moacyr Scliar (1937-2011) há mais de setenta livros de I gêneros diferenciados, tais como romances, ensaios, crônicas, ficções infanto-juvenis e contos. O escritor gaúcho teve suas obras publicadas em mais
Author σ: Graduada em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Câmpus de Coxim.
Author ω: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Câmpus de Coxim. Mestranda em Enfermagem pelo INISA/UFMS, sob a orientação da Professora Dra. Soraia Geraldo Rozza.
de vinte nações e foi reconhecido quatro vezes com o "Prêmio Jabuti" (em 1988, 1993, 2000 e 2009). Um desses prêmios ele recebeu pelo romance A mulher que escreveu a Bíblia, livro que posteriormente foi adaptado para o teatro em 2007 com a atriz Inez Viana. Além de colaborador em vários órgãos da imprensa no país, como a Folha de São Paulo e o Jornal Zero Hora (RS), Scliar foi membro da Academia Brasileira de Letras a partir do ano 2003.
Moacyr Jaime Scliar nasceu em 23 de março de 1937, no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Porto Alegre (RS). Seus pais, José e Sara Scliar, oriundos da Bessarábia (Rússia), chegaram ao Brasil em 1904. Filho mais velho do casal, que teve ainda Wremyr e Marili, desde pequeno ele demonstrou inclinações literárias. Desde sua infância Moacyr Scliar teve o papel do professor muito presente em sua vida, pois sua mãe era professora e o estimulava desde cedo à leitura de bons livros O próprio nome Moacyr já é resultado dessa afinidade. Foi escolhido por sua mãe Sara após a leitura de Iracema, de José de Alencar (SCLIAR, 2007a, p. 36-40).
Devido à grande importância do escritor para a literatura brasileira contemporânea e graças à repercussão muito positiva recebida pelo livro A mulher que escreveu a Bíblia, nesse trabalho se pretende analisar as personagens feias, com o objetivo de verificar no que elas se diferem das personagens bonitas. Tem-se o objetivo de investigar como a narradora, que é feia, conduz a narrativa sob o prisma dos contrastes que permeiam a beleza e a feiura. Desse modo, tem-se a oposição feio x belo. A definição de feio é "sem beleza, cujo aspecto ou aparência é desagradável aos olhos" (Dicionário de língua portuguesa, 2009), ainda segundo esse mesmo dicionário, belo é "que tem forma ou aparência agradável, perfeita, harmoniosa", e este contraste entre belo/feio norteia toda a obra.
A personagem principal do livro A mulher que escreveu a Bíblia é identificada como a feia. O enredo da obra se passa em Jerusalém há quase três mil anos, onde uma mulher fez o trabalho dos escribas escrevendo eventos narrados na Bíblia, fato este que neste período histórico era destinado apenas a homens, a personagem principal é também a narradora. Ela não revela seu nome, identificando-se apenas como "a feia". É importante observar que essa mulher era desprovida de beleza somente no rosto, já que tinha "belas mãos", "belos seios, belos quadris", arrematando assim o seu "conjunto pessoal": "sou da variedade paradoxal conhecida como feia-de-cara-masboa-de-corpo" (SCLIAR, 2007, p. 23). Quanto ao seu rosto, ela assim o descreve:
Resumindo, era isso o que eu via: a) assimetria flagrante; b) carência de harmonia; c) estrabismo (ainda que moderado); d) excesso de sinais. Falta dizer que o conjunto era emoldurado (emoldurado! Essa é boa, emoldurado! Emoldurado, como um lindo quadro é emoldurado! Emoldurado!) por uns secos e opacos cabelos, capazes de humilhar qualquer cabeleireiro. O que o espelho me mostrava era algo semelhante a uma paisagem estranha, atormentada, na qual os acidentes (acidentes: muito apropriado, o termo) geográficos não guardavam a menor relação entre si. (SCLIAR, 2007, p. 18)
O trecho acima mostra o quanto a protagonista se considerava feia, dentro do conceito de estética comumente aceito pela sociedade ao longo dos séculos. Ela descobre sua feiura aos dezoito anos, por meio de um espelho usado por sua irmã. Fica perplexa com a sua aparência e também com a percepção de que poderia ter descoberto sua fealdade muito antes: bastava ela se contemplar nas poças de água ou tocar sua face com as mãos. Além disso, ela fica admirada do fato de que sua família sempre omitiu a feiura dela. Diante da trágica revelação, ela desejou a cegueira. Depois pensou em suicídio, mas essa prática era algo malvisto (SCLIAR, 2007, p. 22-24). Nesse contexto, ela afirma:
Não nego: pensei em me matar. Tudo o que eu tinha de fazer era galgar a montanha e jogar-me no abismo. Meu corpo se despedaçaria contra as rochas [...] Não me matei. Não tive coragem, em primeiro lugar. Depois, o suicídio, além de malvisto (e é incrível como mesmo as feias incorporam os conceitos da cultura dominante), não resolveria meu problema: eu deixaria de ser feia viva, mas quem garantia que a feiura não comprometia também a caveira? Nada impediria que, no futuro, alguém, o membro de uma expedição arqueológica, desenterrasse o meu crânio e, fitando-o com espanto, dissesse a um companheiro: que coisa horrível deve ter sido essa mulher, isto não é rosto, isto é uma ofensa. A isenção científica não preclui o senso estético. (SCLIAR, 2007, p. 24)
No fragmento acima se nota que o humor da feia acaba despertando o riso no leitor. Dessa forma, através do humor, a feia tenta lidar com um assunto tão angustiante: o que fazer com ela mesma diante de tanta feiura? Ela decide: "Não. Eu iria até o fim com a minha cara. Sozinha, decerto - não aguentaria olhares de horror, de espanto, de tristeza, de comiseração -, mas, iria, sim, até o fim." Nesse momento desesperador, ela chega a pensar que nunca chamaria a atenção de nenhum homem, porém, num futuro não muito distante, ela atrairia a simpatia do pastorzinho' (SCLIAR, 2007, p. 24).
A explicação para a feiura da protagonista está na associação dela à caverna, pois as cavernas são escuras e essa escuridão é feia. Já no início do romance, ela revela que, quando gestante, sua genitora não cessava de olhar ansiosamente para a caverna onde estava o marido em ato de adultério que segundo a definição bíblica é pecado. Por isso, ao nascer, a visão da montanha ficou impressa para sempre no meu rosto. [...]. Uma protusa rocha era o meu nariz; a escura entrada de uma das muitas cavernas correspondia à minha boca. Muitos veem faces em nuvens; eu via na montanha monumento ao insólito - a reprodução de meu próprio rosto. (SCLIAR, 2007, p. 16, 20, 21)
Pode se ter uma ideia do motivo de Scliar ter criado uma personagem feia quando se lê o depoimento do escritor do livro Amor em texto, amor em contexto (MACHADO; SCLIAR, 2009). Nele se verifica 0 interesse do autor por personagens feios na literatura universal, como Pinóquio, que, segundo Scliar, tem o nariz grande que é considerado o ícone de sua feiura. Segundo Scliar, outro personagem feio que se tornou famoso foi Cyrano de Bergerac, "alguém que sabe dizer sobre coisas bonitas". Ele é feio, mas ao falar, revela-se belo. Para o escritor gaúcho, a fealdade é uma questão que o fascina na sua criação literária. Com satisfação, Scliar afirma:
Publiquei um livro intitulado A mulher que escreveu a Bíblia que é uma história de uma mulher feia que consegue dar a volta por cima, superar esse entrave porque escreve a pedido do Rei Salomão, ela se põe a escrever a história do povo hebreu e, nesse processo vai crescendo como ser humano. O tema dessa intriga origina-se da observação dessa sociedade que valoriza a beleza que vivemos. (SCLIAR, 2009, p. 25).
Pode-se notar essa superação ao longo da história, pois a protagonista consegue mostrar outras qualidades que superariam a sua feiura. A consequência de descobrir a feiura conduziu a protagonista para o isolamento. Ela dormia com a família, mas durante o dia corria para a montanha. Lá encontrou uma pedra ovoide com a qual passou a se masturbar frequentemente. É nessa mesma época que ela, já adulta, aprende a escrever por meio de um escriba que passava uns tempos na aldeia em que seu pai era o patriarca. Esse personagem era muito inteligente, "na aldeia, o escriba era olhado com respeito e temor: consideravam-no uma espécie de mago". Porém, "era feio, o velho. Deus, como era feio. Diferença de idade à parte, em feiura nós nos equivalíamos. Daí talvez a ternura que por mim mostrava" (SCLIAR, 2007, p. 29). Graças a esse personagem, a feia descobre um novo sentido para a vida escrever para produzir beleza:
A mim pouco importava. Tendo descoberto o mundo da palavra escrita, eu estava feliz, muito feliz. (.) bastava-me o ato de escrever. Colocar no pergaminho letra após letra, palavra após palavra, era algo que me deliciava. Não era só um texto que eu estava produzindo; era beleza, a beleza que resulta da ordem, da harmonia. Eu descobria que uma letra atrai outra, essa afinidade organizando não apenas o texto como a vida, o universo. O que eu via, no pergaminho, quando terminava o trabalho, era um mapa, como os mapas celestes que indicavam a posição das estrelas e planetas, posição essa que não resulta do acaso, mas da composição de misteriosas forças, as mesmas que, em escala menor, guiavam minha mão quando ela deixava seus sinais sobre o pergaminho. (.) A única pessoa a quem eu tinha vontade de contar o que acontecia era o pastorzinho. Diria a ele que agora minha vida tinha sentido, um significado: feia, eu era, contudo, capaz de criar beleza. Não a falsa beleza que os espelhos enganosamente refletem, mas a verdadeira e duradoura beleza dos textos que eu escrevia, dia após dia, semana após semana - como se estivesse num estado de permanente e deliciosa embriaguez (SCLIAR, 2007, p. 31, 32, grifo nosso).
A protagonista via sentido em sua vida através das palavras que lia/escrevia, assim ia vivendo se descobrindo e descobrindo o mundo. Nesse período em que passou a ir às montanhas ela também passou a conversar com o pastorzinho, um funcionário de seu pai com o qual até então ela tinha trocado poucas palavras. "Era um belo rapaz, alto, forte; numa voz muito bonita, entoava nostálgicas canções que falavam de amores impossíveis". Tinha "fama de esquisito" e dele se dizia que "era um fodedor de cabras" (sCLIAR, 2007, p. 25-26). A protagonista se interessa por ele sem saber que este está namorando secretamente sua bela irmã. O relacionamento é descoberto e proibido pelo pai da moça. O patriarca ordenou impiedosamente o apedrejamento do pastorzinho que desvirginou sua outra filha, essa prática era muito utilizada como punição para pecadores no período bíblico. O rapaz havia desvirginado a irmã da feia. O pai da moça atuou num "julgamento no qual ele foi o promotor e o juiz". Esse cuidador de cabras foi condenado, sendo, então, amarrado a uma estaca e apedrejado. Depois, "quase morto, sangrando abundantemente, o rapaz foi desamarrado e expulso [da aldeia]"". O pai da feia disse: "Vai-te, [..] nunca mais quero te ver por aqui; se apareceres de novo serás apedrejado até morrer. Cambaleando, ele se foi". As pessoas da aldeia não sentiram nenhuma culpa por tê-lo apedrejado, de maneira que ninguém falava mais nele, nem mesmo seus próprios pais. Somente a narradora "estava sofrendo ' - e sofrendo em silêncio". "Com o pastorzinho," ela afirma, "ia-se a minha esperança, absurda esperança que fosse, de amar e ser amada". Esse incidente fez com que o pastor ficasse "com cicatrizes das pedradas que recebera", tornando-se feio.
Desonrado, expulso da comunidade a que pertencia e agora na condição de feio, o pastorzinho é desprezado pela irmã da feia, que "já estava de olho em outro pastor". "Esperto" o pai da moça "prometera a esse rapaz vinte cabras, com a condição de que assumisse a paternidade do bebê que estava por nascer" (SCLiAR, 2007, p. 20, 21, 28, 142). Posteriormente, esse pastorzinho briga com os soldados do rei Salomão pois estes exigem que ele entregue uma carta da feia cujo conteúdo, suspeita-se, é uma conspiração contra o rei. Como o pastorzinho se recusa, as consequências são trágicas: "Os caras cortaram-lhe um braço. Só escapou da morte porque alguém cauterizou o coto com azeite fervendo. Aí [ele] voltou para a aldeia." (SCLIAR, 2007, p. 112, 144).2 Em outra ocasião, o pastorzinho foi procurar a feia no palácio onde ela teve a oportunidade de enviar uma carta ao pai e, com o consentimento de um dos soldados, eles puderam conversar por quinze minutos. Quando a feia o vê depois de tanto tempo, fica surpresa: "Era um homem bonito que eu tinha diante de mim, não o garoto que conhecera no passado." Contudo, além das cicatrizes do apedrejamento, o moço tinha uma expressão facial que expressava amargura. Esse amargor não era porque ele havia sido apedrejado e mutilado no passado, mas porque ele pretendia vingar-se do rei Salomão, que estava adorando a deusa Astarté em vez de adorar a Jeová. Por fim, bradou: "Salomão, nosso rei, não mais respeita a palavra do Senhor". O pastor disse que seu mentor era o Mestre da Justiça, um ex-presidiário que, em sonhos, foi visitado pelo falecido irmão de Salomão. Nessa circunstância, o falecido assim incumbiu o Mestre: "Tu tens uma missão, anunciou, cabe-te limpara a nossa terra do pecado, da depravação". O pastorzinho passou a ser um dos seguidores desse Mestre, que o recrutou na mesma caverna em que anteriormente o pastor praticava abominações, atos sexuais, com as cabras e com a irmã da feia (SCLIAR, 2007, p. 142, 144, 145).
No que tange às personagens com partes do corpo mutiladas, isso não acontece apenas com o personagem do pastorzinho do livro em análise. Essa abordagem ocorre também em outros textos do escritor como o conto do "Torneio de Pesca", publicado na obra O carnaval dos animais. No referido conto um grupo de amigos se aventurou em participar de um torneio de pesca na praia da Alegria. Tudo ocorria bem, até que chegou uma família bastante estranha, cujo líder se chamava Antônio, um homem de linguagens arrevessado, de "baixa estatura, tez bronzeada, olhos pretos e malignos, boca de lábios grossos guarnecidos de dentes de ouro e língua ferina: não passava por senhora ou senhorita sem proferir graçola". Além disto, ele e sua família incomodavam o grupo que havia chegado antes, cujo líder era o desembargador Otávio. Este decide realizar uma expedição primitiva que, na prática, consistia em cortar os braços de Antônio com faca de pescador. Desde então Antônio não pode mais pegar os peixes vivos no rio: de longe via-se que Antônio tinha os membros superiores amarrados em trapos sangrentos ao tentar enfiar na água os cotos amputados "o frio fê-lo urrar de dor". Nesse instante o grupo do desembargador ri de Antônio o qual havia rido dele anteriormente. De um modo geral, o conto sugere um embate entre um grupo dominante econômica e socialmente e um grupo de indivíduos pobres, desprovidos de educação (SCLIAR, 2001, p. 40-42). Contudo há diferenças entre os textos apesar da mutilação dos personagens, pois em A mulher que escreveu a Bíblia Scliar enfoca que uma pessoa feia também pode ser amada por suas outras qualidades que não seja a beleza, e que ela pode ser passageira como ocorreu com o pastorzinho que era belo e ficou deformado após a mutilação sofrida.
Na sequência da narrativa, a feia é levada para o palácio do rei Salomão, para ser uma das suas muitas mulheres. Lá ela convive com belíssimas esposas do monarca, diante das quais esboça uma classificação em níveis de beleza: "havia as esplendorosas, muito lindas, razoavelmente lindas, agradáveis". No paço real ela chegou a perceber algumas mulheres com narizes um tanto imperfeitos e bocas mal desenhadas, mas ela se sente a única completa e definitivamente desprovida de formosura devido sua deformidade facial (SCLIAR, 2007, p. 42). Além disso, conhece Mikol uma das concubinas do rei, com a qual faz amizade. Sobre ela, afirma a narradora: "Ainda bonita, sensual, já não era, contudo, jovem; na verdade, fora das primeiras concubinas adquiridas por Salomão, numa época em que o mercado de mulheres estava saturado" (SCLIAR, 2007, p. 119). A feia convive bem com ela. Embora esta seja formosa, nem por isso a feia a inveja. Mikol fica muito doente e, à medida que vai piorando, faz um último pedido: quer ter a última noite de amor com o rei Salomão, e pede para que a narradora providencie isso. A feia insiste para com o monarca, mas ele se diz muito ocupado com assuntos do reino. Por fim, quando decide ir vê-la, ela já estava em coma, morrendo uma semana depois. O falecimento dessa bela mulher "passou inteiramente despercebido na corte. Ao enterro, compareceram meia dúzia de mulheres, incluindo uma irmã dela e eu [a narradora]. Salomão não deu o ar de sua graça." A feia sofreu muito com essa separação, conforme narra: "Absorvida em minha dor, não conseguia pensar em nada. A ausência de Mikol era para mim insuportável e, pior, uma perda que eu não podia partilhar com ninguém" (SCLIAR, 2007, p. 124-128).
Ao descobrir que a feia sabe ler e escrever muito bem Salomão a pede que ela elabore um livro no qual narre os acontecimentos desde a criação do mundo até os dias do seu reinado. Esse livro seria a Bíblia, que segundo o rei Salomão, relataria de gerações a gerações o que havia acontecido naquela época, o livro é uma obra tal como "uma semente que germina e se espalha pelo mundo". O monarca reconheceu o talento da protagonista, ressaltando: "quero uma narrativa linda, tão bem escrita como essa carta que enviaste a teu pai. Quero um livro que as gerações leiam com respeito, mas também com encanto" (SCLIAR, 2007, p. 88). O rei tocou sua mão e a convidou para escrever um livro. Ela desejou que seu casamento fosse consumado naquele instante, porém logo percebeu que o único pensamento do rei era obter o texto que contasse a vida dos seus antepassados até aquele momento, constatando também que Salomão não a queria como mulher. Surgindo assim mais decepção em sua vida, em vez de uma declaração de amor compartilhado, embora ela se sentisse lisonjeada por poder satisfazer seu rei com a escrita do livro, com isso ele demostrava que ela tinha valor não o valor amoroso que ela desejava mas, o de confiança pois entregara em suas mãos algo de muito valor para ele, apesar de não ser isso que ela desejava, porque o que almejava consumar seu casamento com o rei e que ele a amasse, acreditando que se conseguisse elaborar o livro alcançaria o patamar mais alto: "Daí em diante, e de alguma forma, eu estaria a seu lado, o sábio rei e sua intelectual esposa" (SCLIAR, 2007, p. 89).
Segundo consta na história bíblica Salomão foi um dos mais sábios reis da antiguidade. Agora a feia teria uma missão colossal em suas mãos, a de escrever uma obra para o sábio rei Salomão. Nesse instante se sentiu sem chão e se perguntou: por onde começar a escrever? Não poderia fracassar na escrita pois já não tinha consumado seu casamento por causa da sua feiura, teria que satisfazê-lo com a sua escrita, mas o rei na conversa lhe falava que não era para ela falar sobre ele ter talento de falar com os pássaros, queria que fizesse relatos simples dos seus antepassados, além de descrever a paixão dele pela sabedoria e a construção do grande templo em Jerusalém (SCLIAR, 2007, p. 89). Nesse momento, ela relembra o passado onde morava - e quando subia para as montanhas. Vinha à lembrança o prazer proporcionado pela pedra, com a qual se masturbava. Agora tudo isso tinha ficado para trás, e ela se sentia muito infeliz.
Logo ao terminar a conversa, o rei lhe chamou para Ihe apresentar uma coisa importante, levou-a a uma pequena porta um pouco escondida por cortinas grossas, quando ele abriu estava cheio de manuscritos, onde ficava seis anciões a escrever, mas discutiam tanto que não chegavam a nenhuma conclusão, ali era proibida a entrada de mulheres, mas como ela estava na companhia do rei, eles só observavam, não fizeram nenhum comentário. Enquanto caminhava, Salomão Ihe falou que aqueles anciões já estavam há dez anos escrevendo a história do seu povo, mas não o satisfaziam com suas escritas, sendo que, posteriormente, a feia comprovou a má qualidade daqueles escritos: "O rei tinha razão: era uma mixórdia, aquilo, uma confusa mistura de lendas, fatos históricos, preceitos religiosos, tudo muito mal redigido, e até com erros de grafia" (SCLIAR, 2007, p. 93).
Justamente por isso o monarca lhe pedira para escrever porque tinha gostado da forma com que ela relatava a seu pai como era o rei. Nesse momento ele riu e falou: "Aquilo estava muito bom. Quase me convenceste de que sou mesmo um vilão, [...]. Depois, escreves muito melhor que cada um deles, ou todos juntos. Tua carta é uma prova disto" (SCLIAR, 2007, p. 90, 91). Contudo, Salomão também explica à feia que precisa que o texto seja aprovado pelos anciões do reino, pois eles eram considerados "os depositários da sabedoria do passado" e, devido às "suas poderosas conexões, eram personagens importantes. Ainda que não ocupassem cargos no governo, formavam uma espécie de supremo, e informal, conselho, que conferia à realeza uma parcela de sua legitimidade" (SCLIAR, 2007, p. 97, 104).
Nesse contexto, enquanto escrevia o livro encomendado por Salomão, um dos anciões procurou a protagonista feia, um velho anão careca, que tenta assediar a feia, alegando que, na condição de revisor do que ela estava produzindo, sentiu-se excitado quando leu a parte em que a narradora descreveu Adão e Eva fazendo amor sobre o capim molhado. Nesse instante, ele abre a túnica e mostra seu pênis ereto. A feia acha aquilo muito engraçado e patético, mas se recusa a manter relações com aquele "duende decrépito", pois "ser desvirginada por aquela figura lamentável - aquilo sim, era abominação:" "Era um pênis enorme, o dele, comicamente desproporcional à diminuta estatura do homenzinho, um vergalhão imenso que quase, eu diria, o desequilibrava" (SCLIAR, 2007, p. 100-102).
O tempo passava lentamente, mas após demorar muito para recebê-la no leito nupcial, Salomão finalmente consentiu pois ela havia enviado uma carta ao pai reclamando a falta de consumação matrimonial. Antes de ser direcionada ao quarto salomônico, a guardiã das esposas do rei coloca um espelho diante da narradora e a reação de espanto da feia já serve para antecipar que o ato sexual não acontecerá naquela noite: "Imagem que contemplei com receio. [.] a imagem que eu via ali era simplesmente medonha. Deus, como eu estava feia". Ela teme o encontro com o rei, concluindo que "feias não predizem; feias aceitam o que lhes reserva a sorte" (SCLIAR, 2007, p. 72). Em seguida, Salomão a recebe em seu quarto, mas não consegue ter uma relação sexual com ela, pois não consegue ter nenhuma ereção.
Na página 116 do livro, ela revela estar triste com o rei porque este não se deitava com ela, ainda que ela ainda estivesse escrevendo o livro solicitado por ele. Nesse momento, ela pensa em ir para o deserto: "Ali habitaria numa caverna, eu sozinha com minha dor e minha mágoa. E minha pedra". O que se nota nesses trechos é que a protagonista demonstra preferência pela caverna, já Salomão, pelo palácio. Posteriormente, a feia se sente amedrontada e receosa de não conseguir produzir o livro encomendado pelo monarca e analisa: "Por que não me tinha deixado em paz, a vida? Eu estava lá quieta, refugiada na montanha, eu e minha feiura, eu e minha pedra; de lá havia sido arrancada para quê?" (SCLIAR, 2007, p. 89). Depois disso, já tendo concordado em escrever a obra, ela pensa em seduzir o rei pela escrita do texto e devaneia: "Agora: se no caminho encontrasse uma caverna... E se o mestre Salomão quisesse entrar comigo naquela caverna..." (SCLIAR, 2007, p. 92).
A situação da feia fica ainda mais tensa quando a Rainha de Sabá vem visitar Salomão. A narradora dedica um parágrafo inteiro para descrever minuciosamente a soberana:
Que mulher linda, santo Deus. Que mulher linda. Uma negra alta, esbelta, com um rosto de belíssimos traços, grandes olhos, boca cheia, sensual - lindíssima. Perto dela as setecentas esposas e as trezentas concubinas não passavam de tristes espécimes (de mim, nem falar). Os olhares invejosos que eu surpreendia davam testemunho desse constrangedor contraste. Procuravam algo, esses olhares penetrantes, algum defeito naquele rosto e naquele corpo; mas nada achavam, porque estávamos diante da perfeição absoluta. A cor, naturalmente, chamava a atenção; todas nós tínhamos a tez morena, mas nenhuma era negra. E daí? Com soberba, poderia a rainha dizer, sch'hora ani ve nava, banot lerushalaim, sou negra e também formosa, ó filha de Jerusalém. E as filhas de Jerusalém, bem como as filhas de qualquer outro lugar, teriam de se fechar em copas. (SCLIAR, 2007, p. 134)
Salomão passa a dar atenção apenas para essa rainha estrangeira. Para a narradora a presença dela causa mais tristeza, pois o quarto da feia é ao lado do de Salomão, e ela ouve as tórridas relações sexuais do mais novo casal. Ela tenta se confortar por meio da escrita: "Escasso consolo em vez de foda, escrita", "o texto me consolava, me amparava, dava sentido à minha existência. " (SCLIAR, 2007, p. 140, 148).
Ao destacar em sua essência a condição humana, a obra exibe as aparentes contradições da vida. Talvez a principal delas seja a da feia que, depois de esperar tanto tempo por uma tão sonhada noite de amor com Salomão, mantém relações com ele, mas, após isso, parte ainda de madrugada atrás do pastorzinho. Num primeiro momento se poderia dizer que esse anônimo pastor em nada era superior ao rei hebreu. No quesito aparência, Salomão era exuberantemente lindo:
Que homem lindo, Deus do céu. Eu nunca tinha visto homem tão lindo. Um rosto longo, emoldurado por uma barba negra (com alguns fios prateados), olhos escuros, profundos, boca de lábios cheios, nariz um pouquinho adunco - o suficiente apenas para dar-lhe um charme especial. E o porte senhoril, e o ar másculo... Lindo, lindo. (SCLIAR, 2007, p. 45)
O fragmento acima traduz as primeiras impressões que a protagonista teve ao contemplar o soberano de Israel pela primeira vez. Ela teve até uma vertigem e precisou ser amparada pela encarregada do harém para não cair. "De imediato me apaixonei por ele. Uma paixão avassaladora", menciona a própria feia. Mas as descrições da formosura salomônica persistem ao longo da narrativa. Logo ela reafirma a bela presença do filho de Davi ponderando que ele era um homem "cuja beleza chegava às raias do insuportável". Mais adiante, ela revela que foi seduzida pelos "seus negros, fundos olhos" (SCLIAR, 2007, p. 44-45, 48, 91).
É a esse soberano belíssimo que a protagonista de A mulher que escreveu a Bíblia abandona para procurar o pastorzinho, um rapaz pobre e amputado. A celebração da união entre a escriba feia de rosto e o pastorzinho coto é o que coroa o desfecho desse belo livro. Na última página do romance, após a consumação do matrimônio com Salomão que já estava encantado com sua inteligência, a protagonista decide partir em busca desse antigo amor do passado, o pastorzinho, "e de suas enigmáticas, mas promissoras, cavernas" (SCLIAR, 2007, p. 162). O fato de ele ser coto não impede o amor da feia, pois, até mesmo ela correu o risco de ter suas mãos amputadas, já que vivia acariciando seus seios, e, em sua terra, cortar as mãos "era uma punição comum para ladrões e pervertidos sexuais" (SCLIAR, 2007, p. 23).
Também pode-se notar que a ausência de nome para a personagem principal poderá ser vista como um "modo" de destacar ainda mais a feiura da moça, pois faz com que o leitor esteja sempre relembrando sua feiura. Se se levar em conta o prefácio do livro, outro ponto importante é que na verdade o relato se baseia em memorias de regressão às vidas passadas (crenças à parte), sendo assim qual nome poderia ser dado a essa personagem? O de agora ou de outras vidas? Ou seria a obsessão do terapeuta por perder sua paciente por quem havia se apaixonado? Considerando tudo isso, não se pode deixar de analisar os efeitos que os personagens com feiura ou amputados têm sobre os conceitos de beleza ideal, e também apresenta a oportunidade de autoanálise, pois existe sempre algo a mais nas pessoas do que apenas beleza física.
[^1]: “Agora eu era a feia, e tudo em minha vida seria condicionado por essa feiura. Homem algum gostaria de mim. Homem algum cantaria minha beleza em traços líricos. Minha vida amorosa seria tão árida quanto o deserto que nos rodeava” (SCLIAR, 2007, p. 24). _(p.2)_
[^2]: Na parte final do livro, o próprio pastorzinho dá à feia a sua versão do acontecido: "Agora quero te contar o que aconteceu. Como eu estava dizendo, naquele momento os soldados me surpreenderam. E foi aquilo que tu sabes. Queriam que eu lhes entregasse a carta, a carta que tu me havias confiado. Eu disse que não, que defenderia o pergaminho com minha vida se fosse preciso. Vieram para cima de mim, eu me defendi como pude, mas era uma luta desigual, espada contra punhal. Perdi o braço, cortado pelo chefe deles. Quase morri, mas felizmente uma alma caridosa me socorreu. Aleijado, saí a vagar de novo pelos caminhos, pedindo esmolas, passando fome." (SCLIAR, 2007, p. 144). _(p.3)_
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References
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How to Cite This Article
Lemuel de Faria Diniz. 2026. \u201cUgly and Amputee Characters in The Woman Who Wrote the Bible by Moacyr Scliar\u201d. Global Journal of Human-Social Science - G: Linguistics & Education GJHSS-G Volume 24 (GJHSS Volume 24 Issue G6): .
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This article aims to discuss the importance of the characters in the book A mulher que escreveu a Bíblia by Moacyr Scliar. The characters analyzed are characterized as being ugly, and one of them has an amputated limb. They are the ugly, unnamed character, and the little shepherd who was beautiful at first. These characters coexist with others who are very beautiful. In this way she recounts her own existence from the time when she was only the daughter of the anonymous leader of a tribe until she became the wife of King Solomon. The aim is to verify how the attitudes of the ugly characters contrasts with the actions of the beautiful characters in the narrative. However ugliness is fundamental so that we can understand the work.
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