## I. INTRODUÇÃO
oaquim Maria Machado de Assis é considerado um dos maiores escritores brasileiros e suas obras são objeto de investigação de diversos pesquisadores e pesquisadoras. Os trabalhos que voltam sua análise para a produção de Machado de Assis quando jovem estão cada vez mais numerosos.1 O "Machadinho", como era chamado no início de sua trajetória na imprensa, começou a produzir cedo. Junto ao grupo da Marmota Fluminense2 e da Sociedade Petalógica3 seus textos passaram a circular, em meados de 1855, nas páginas dos impressos de propriedade de integrantes do grupo ou frequentadores da Tipografia de Francisco de Paula Brito. O Espelho: revista semanal de literatura, modas, indústria e artes foi um desses impressos. De propriedade do jovem Francisco Eleutério de Sousa2, circulou entre setembro de 1859 e janeiro de 1860, no Rio de Janeiro, totalizando 19 números. Os três primeiros foram publicados pela "Typ. de Paula Brito" que, por sua vez, assinou alguns textos da revista. Muitos de seus colaboradores faziam parte do grupo da Marmota ou eram iniciados na Sociedade Petalógica do Rocio Grande. Presidida por Francisco de Paula Brito, essa agremiação tinha na Tipografia e loja do editor, na Praça da Constituição, sua sede.
Pouco se sabe sobre o jovem Francisco Eleutério de Sousa. O biógrafo machadiano, Jean-Michel Massa, criticou a falta de assinaturas de Eleutério de Sousa na sua própria revista. De fato, a ausência de uma assinatura que pudesse ser atribuída ao "diretor e redator em chefe" do Espelho causou certo incômodo. Alguns textos publicados sem assinatura funcionou no Rio de Janeiro entre as décadas de 1850 e 1860. Dentre seus objetivos estava a máxima de contrariar aos mentirosos, mentindo-lhes. Esse grupo estudava e inventava mentiras (de espavento) e observava quem as passava para a frente como sendo verdade, logo que a mentira estivesse, como chamaríamos hoje de, "viralizada", os membros da Petalógica usavam o jornal Marmota Fluminense para informar que a notícia se tratava de mentira e, desse modo, ridicularizar em público as pessoas que as espalhavam, principalmente na imprensa. Ver em: TEIXEIRA, Cristiane Garcia. Entre tipografias, homens e petas: um estudo sobre a Sociedade Petalógica do Rocio Grande e os modos de mentir no século XIX (1830-1860). Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, Florianópolis, 2023.
foram atribuídos a Eleutério de Sousa por serem também publicados em outros periódicos e nesses devidamente assinados. Em contrapartida, a participação de Machado de Assis nesse impresso é bastante marcante. O jovem, com então 20 anos de idade, foi o principal redator da revista. Também auxiliou na criação e na escolha de colaboradores e o espaço que seus textos ocuparam nesse impresso difere em número e extensão dos demais. Ocupou, em média, por edição, cinco das doze páginas que eram publicadas. Escreveu críticas teatrais, poesias, artigos, crônicas, tradução e uma biografia. A análise do espaço que os textos de Machado de Assis ocuparam nas páginas da revista de modas e artes O Espelho contribuiu não somente para a elucidação de questões relacionadas à organização editorial do impresso, mas também para questões relacionadas ao próprio Machado, acerca de autorias inéditas do literato.
## II. Machado de Assis n'o Espelho
As questões metodológicas da pesquisa em revistas auxiliaram nas possibilidades de investigação do espaço geográficoo do Espelho e no entendimento da lógica da divisão interna dos artigos e autores, como eram distribuídos nas páginas os gêneros literários e os textos dos colaboradores mais assíduos. Todo o aparato metodológico utilizado para analisar O Espelho ajudou a entender também que a ligação entre grupos de colaboradores de/e jornais e revistas diferentes pode tornar possível o encontro de indícios necessários para inferir sobre a identificação de autoria de textos sem assinatura. A análise da lógica da disposição dos textos de Machado de Assis no Espelho pôde desenrolar algumas questões. Ao investigar em separado os textos de autoria do literato, escritos para a revista, foi possível perceber que eles ocuparam, nas dezenove edições - que imprimiram um número de artigos que variou entre 7 e 15 nas primeiras edições e entre 9 e 12 nas últimas -, as mesmas posições: a primeira, quinta, sexta, sétima, oitava e nona. As poesias foram publicadas na nona (3 vezes) e oitava (4) posições; as críticas teatrais na quinta (2), sexta (2), sétima (8), oitava (4) e nona (1); a tradução na sétima (1); as crônicas foram publicadas sempre na página de abertura (7), assim como os artigos (4).
Dos dezenove números do Espelho, os textos de Machado de Assis foram publicados na página de abertura em doze deles. Como expresso por Lúcia Granja e Jefferson Cano, ao analisar a participação de Machado no Diário de Rio de Janeiro na década de 1860, o fato de os textos do escritor ocuparem as primeiras páginas do impresso demonstrou que as ideias expostas pelo literato se revestiam de importância e autoridade para o empreendimento.o No entanto, o que Granja e Cano descreveram como "a nova responsabilidade" colocada em mãos de Machado de Assis, não foi tão novidade para o literato que já havia experimentado o lugar de honra de um impresso quando redator do Espelho, em 1859. Embora não tenha sido nesta revista a sua primeira experiência com um texto publicado na primeira página de um jornal, já que na Marmota Fluminense, aos 16 anos, havia publicado um texto seu de primeira página.7 O que diferiu da experiência na revista de Eleutério de Sousa foi a frequência com que os textos machadianos foram publicados em primeira página e primeiro artigo, apenas três colaboradores ocuparam esse espaço: Francisco Eleutério de Sousa (1 vez); Machado de Assis (12) e Moreira de Azevedo (1). Foi nesse espaço que um perfil biográfico de Pedro Il foi publicado, sem assinatura, e sua autoria foi atribuída a Machado de Assis.
A biografia de Pedro Il foi encontrada na edição de número 10 da revista, estava nesta posição: a primeira página, o primeiro artigo e ocupou cinco colunas, mais de duas páginas. Todas essas, características dos textos que Machado de Assis publicava na revista O Espelho. O que fortaleceu ainda mais a hipótese, de ser esse um texto Machadiano, foi que na edição de número seis, na última página, publicou-se um recado aos assinantes: "Brevemente encetaremos a publicação de uma galeria Dramática, biografias e um retrato correspondente. O fotógrafo é o senhor Gaspar Guimarães e o biógrafo é o senhor Machado de Assis."8 Nas edições posteriores (7,8 e 9) nenhuma biografia ou retrato foi publicado. Apenas na edição de número 10, na primeira página e primeiro artigo, lugar ocupado por Machado de Assis.
Para fortalecer ainda mais o argumento, busquei pelo retrato de Pedro II, feito por Gaspar Guimarães. Na coleção que está disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde realizei boa parte da pesquisa, o retrato não está anexado.o
Havia duas opções; ou o retrato não foi distribuído junto ao número da revista onde foi publicado o perfil biográfico, ou se perdeu. O que era muito comum porque, geralmente, esses retratos eram publicados em lugares na revista que facilitavam o destaque para colecionar. Como funcionou com a polca, que era destacada para levar ao piano, e com as imagens de moda, que depois de destacadas poderiam ser levadas a costureira ou costureiro. Já que o retrato não havia permanecido anexado à revista, busquei informações sobre o mesmo em outros impressos que foram publicados na Tipografia de Francisco de Paula Brito, ou tinham colaboradores em comum ao Espelho. Na Marmota Fluminense e no Correio da Tarde publicaram propagandas da revista O Espelho e nelas constava a informação de que no número 10 da revista havia sido publicado um esboço biográfico e o retrato de Pedro II. Ou seja, biografia e retrato correspondente.1o
Todo o caminho metodológico, que foi longo, para encontrar indícios que auxiliassem na construção do argumento de que aquele perfil de Pedro II, publicado na revista O Espelho, é muito possivelmente um texto de autoria inédita de Machado de Assis já foi bastante detalhado em outras produções.11 No entanto, para este artigo, quero me debruçar sobre três textos específicos. Para apresentá-los, cito o que o biógrafo machadiano, Jean Michel-Massa, escreveu sobre os mesmos:
alguns textos mais ácidos, por exemplo, "A miséria", "A tarefa dos séculos"" que são anônimos, poderiam mais facilmente ser atribuídos a Machado de Assis. Mas não temos elementos suficientes para apoiar esta hipótese".12
Durante a pesquisa que resultou na dissertação de mestrado e mais tarde na publicação do livro A Mocidade N'O Espelho, busquei por estes elementos mencionados por Michel Massa para construir uma hipótese que pudesse demonstrar como os dois textos podem ser de autoria do jovem Joaquim Maria Machado de Assis. Nessa análise acrescentei mais uma possibilidade; Os inúteis3 que, junto com A Miséria,14 foi também publicado no jornal Correio Paulistano dias depois de publicados na revista de Eleutério de Sousa.
- de conhecimento sobre a imprensa do século XIX. https://memoria. bn.gov.br/hdb/periodico.aspx.
- Marmota Fluminense, n. 1106, 08 nov.
1859. E Correio da Tarde, n. 255, 08 nov. 1859.
- 11 GARCIA TEIXEIRA, C. M'achado biógrafo: da investigação de uma revista a um texto inédito. ArtCultura, [S. I.], v. 22, n. 40, p. 213232, 2020. DOI: 10.14393/artc-v22-n40-2020-56972. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/artcultura/article/view/56972. Acess0 em: 16 fev.
2025. TEIXEIRA, Cristiane Garcia. A Mocidade n'O Espelho: Machado de Assis e Eleutério de Sousa redatores de uma revista oitocentista (1859-1860). Teresina: Cancioneiro, 2022.
- 12 MASSA, Jean Michel. A juventude de Machado de Assis (1839 1870). Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S. A.
1971. p. 71.
- 13 OS INúTEIS. Correio Paulistano. São Paulo, n. 1080, 18 nov. 1859.
- 14 A MISÉRIA. Correio Paulistano. São Paulo, n. 1036, 24 set.
1859.
O diretor do Correio Paulistano era J. R de Azevedo Marques e, no cabeçario da primeira página de seu jornal, avisava que para a publicação de artigos pessoais era necessário pagar um valor "que se convencionar", mas para os textos de interesse geral a inserção seria gratuita. Sobre A Miséria, apareceu na rubrica "Transcrição" e no lugar reservado a assinatura do autor encontrou-se "Do Espelho". O mesmo que aconteceu com o texto Os inúteis. Na revista de Euletério, no Espelho, A Miséria foi publicada na primeira edição e ocupou a quarta posição da revista. O texto não foi assinado ou fez menção de autoria. Dos colaboradores mais assíduos da revista, apenas Machado de Assis e Moreira de Azevedo ocuparam essa posição; Azevedo assinou dois textos e Machado de Assis, um. O pseudônimo M.A assinou duas vezes e o VRS (Com variações Vrs e Vers), quatro vezes. Os demais textos que ocuparam esse espaço foram de colaboradores não fixos do quadro editorial da revista, ou os chamados diletantes.
Com relação ao Os Inúteis, no Correio Paulistano não vem acompanhado da rubrica "Transcrição" e no Espelho ocupou a posição de número seis. Entre os colaboradores assíduos, Azevedo assinou oito textos publicados nesta sexta posição, Machado de Assis assinou quatro, Macedinho e Laurindo Rabelo um e cinco deles foram publicados sem menção de autor ou assinatura. É possível que Os inúteis seja um texto machadiano? Pela posição ocupada e distribuição da frequência de palavras e conteúdo, é possível refletir sobre essa possibilidade. É bastante complexo o processo de identificar a autoria de textos anônimos, desse modo a utilização de metodologias multidisciplinares pode ajudar. Saulo Cunha de Serpa argumenta que a estilometria é uma maneira de detectar um padrão de escrita de um autor, identificando, por exemplo, quando uma mesma palavra é repetida.15 Algo que dialoga com o método utilizado por pesquisadores e pesquisadoras de sistemas complexos que analisam quantidades físicas de textos, conseguindo, deste modo, reconhecer com alta probabilidade características do autor ou autora de textos não assinados e sem autoria. A contagem de palavras é uma das estratégias utilizadas nestes estudos.16
Caso levemos em conta, por exemplo, a palavra "sociedade", foi possível perceber que das 39 vezes que essa palavra foi utilizada na revista O
Espelho, em 31 delas foi por Machado de Assis, uma vez por Azevedo e duas vezes pelo pseudônimo Vrs. No texto Os inúteis essa palavra apareceu cinco vezes.17 Outras palavras, como "indivíduo", apareceram 11 vezes na revista e 6 delas nos textos de Machado de Assis. Além de aparecer uma vez no texto Os inúteis, também foi usada pelo pseudônimo Vrs. Essa estratégia fica mais consistente se analisarmos a palavra "individualidades", que apareceu uma vez em Os Inúteis. No restante da revista, a palavra foi utilizada 11 vezes, sendo 10 delas nos textos de Machado de Assis. A palavra "parasita", outro exemplo, apareceu 37 vezes na revista e 31 delas em textos machadianos, uma vez em Os inúteis.
Mas o que se pode dizer sobre o conteúdo de Os inúteis? O autor começa a crônica perguntando as leitoras se eles querem conhecer uma classe de indivíduos a quem dão o nome de inúteis. A partir desse momento passa a descrever essa individualidade. Há, para o autor, mais do que falar sobre os homens perigosos, a necessidade de conhecer os inúteis: homens sem defeitos, nem qualidades, "vagos, incolores, insípidos [...] que para cousa alguma servem...
A sociedade nada tem a esperar dessa variedade, parasita da família humana. Se os interroga, se os sonda, se os estuda, somente lhe responde um som oco e abafado, como o eco que parte do fundo dos abismos e nos mostra a imensidade do nada.
Sua presença enfastia, aborrece, paralisa uma sociedade, uma reunião de amigos, de literatos. Introduzem nos salões a insipidez, esfriam a conversa mais animada [...].
Existe no seio da humanidade como uma dessas obras do espírito ou de arte tão horrivelmente medíocres, que menos suportáveis são que uma reconhecidamente má.1o
Uma crítica que se aproxima daquela feita, na mesma revista O Espelho, aos tipos sociais chamados por Machado de Assis de parasitas e que eram também individualidades bastante comuns na sociedade, assim como os inúteis. Outra aproximação é com o parasita da mesa, pois os inúteis pareciam ter um bom faro para as refeições: "À mesa, para onde são convidados por necessidade, comem bem".1o Além de só consumir, nada produziam, não possuíam nem opinião, eram um empecilho para a sociedade. Para o autor, a única felicidade possível que poderiam os inúteis dar a sociedade seria o seu desaparecimento. 20
O conteúdo de Os inúteis também dialoga com a crônica As gralhas sociais, assinada por Gil, um pseudônimo que é atribuído por diversos estudiosos a
Machado de Assis. Uma das gralhas, a literária, que também fazia parte de "uma classe numerosa" da sociedade foi descrita da seguinte maneira:
Vivem de glória alheia, como bons inúteis que são; suspendem aos ombros um manto real, com os retalhos nesta e naquela reputação. Lá caminham enquanto podem elas, se um dia as reputações se apercebem de que lhes falta um pedaço, temos a cena do despimento público dos enfeites alheios, a realização do proverbio antigo.21
Gralhas literárias não produziam, viviam de glória alheia, "como bons inúteis" 22 que não podiam "conceber", nem "produzir" porque eram incapazes de formular juízo ou opinião sobre algo.
Com relação ao texto A Miséria, a crítica é ainda mais apurada. Para o autor, a miséria de um povo depunha sobre o modo como o governo o assiste, ou seja, o homem não era mal por natureza, mas uma vítima transformada pelo meio em que estava inserido: "as provações de sua vida, as necessidades por que quotidianamente vai passando, são a causa dele tornarse mal".24
O animal apanhado no meio das selvas, e em nossa casa, aos nossos cuidados alimentados, lambe-nos por fim as mãos e nos acaricia, ao contrário de seus irmãos, filhos dos mesmos pais, que desde pequenos acostumados à rapina a nós se atiram e bebem o nosso sangue, fazendo de nosso corpo um pasto onde possam saciar a sua fome.25
O autor estava embebido da leitura de textos do muito estimado por Machado de Assis: Victor Hugo. Essa crônica do Espelho trouxe muitas questões que também foram abordadas pelo francês em um discurso intitulado Détruire La misère, proferido na Assembleia Nacional Legislativa, na França, em 9 de julho de 1849. Neste discurso, Victor Hugo apoiou a constituição de uma comissão que fosse encarregada das questões ligadas ao bem-estar e assistência pública. Eram propostas que fomentavam um deslocamento do olhar parlamentar para a tentativa e concretização da destruição da miséria que assolava a França oitocentista.
La misère, messieurs, j'aborde ici le vif de la question, voulez-vous savoir jusqu'où elle est, la misère? Voulez-vous savoir jusqu'où elle peut aller, jusqu'où elle va, je ne dis pas en Irlande, je ne dis pas au Moyen Âge, je dis en France, je dis à Paris, et au temps où nous vivons?26
Machado de Assis foi leitor de Victor Hugo, tanto que o único romance traduzido pelo primeiro, na íntegra, foi o de título Os trabalhadores do mar, publicado em 1866 pelo segundo. Daniela Callipo demonstra a importância da presença de Victor Hugo nas crônicas de Machado de Assis, no período entre 1859 e 1897. As críticas teatrais e literárias escritas pelo literato estão recheadas de alusões e citações de Victor Hugo.
São inúmeras as citações, as alusões a personagens, os comentários a respeito de poemas, romances, peças que indicam seu interesse pela obra hugoana. Primeiramente, pode-se afirmar ser essa presença marcante: dentre as duzentas citações francesas feitas por Machado de Assis nas mais de seiscentas crônicas que escreveu, 27 são de autoria do criador de Fantine. Para se ter uma ideia do que isso representa, há 14 citações de autoria de Molière, dentre as quais algumas se repetem por diversas vezes, 12 de La Fontaine, 7 de Musset, 5 de Corneille, 5 de Boileau, 4 de Voltaire, 4 de Racine, algumas de Rabelais, Pascal e Montaigne e de outros escritores, políticos, autores de operetas e vaudevilles.28
Em todos os momentos em que Victor Hugo foi citado na revista O Espelho, duas foi na crônica A Miséria e as outras três nas "Revista de teatros", estas devidamente assinadas por Machado de Assis.
Com relação ao texto de título Tarefa dos séculos, ocupou a posição que foi comum aos textos de Machado de Assis, o primeiro da primeira página da edição onze da revista, publicada em 13 de novembro de 1859. Se estendeu por quase quatro colunas, ou seja, quase duas páginas, outra característica dos textos machadianos para O Espelho. O autor do texto fez uma crítica mordaz à religião católica. Para ele, a revolução seria inerente ao homem e se faria de forma gradual. Primeiro a revolução das águas - "pode ser uma invasão de ideias\_ foi a primeira transformação, que "deu nova feição à massa primitiva da sociedade". No entanto, se perguntou o autor: "A arca que o novo mar veio sustentar como fragmento do mundo antigo, não é talvez, uma relíquia de tradições das verdades decaídas?".30 A crítica já começava a se desenhar! Segundo o cronista, as lendas eram descoradas da verdade e o homem buscava a verdade. Nos "primeiros espíritos" essas lendas acabavam por envolver os fatos em nevoeiros de fantasias: "Os primeiros livros da humanidade estão enfeitados; a história primitiva é uma ode; a realidade transparece dúbia através de estrofes".31
Ainda assim, parece fazer uma crítica à ciência. Os primeiros livros da humanidade eram como poesias, mas..."Lá vem a ciência [...] protestar uma passagem de águas. Fora o lirismo! O espírito quer observação, quer terra para pousar; e as nuvens não têm solidez."32 O fato era para o autor uma espécie de revolução antes de tudo, foi a primeira palavra da humanidade, depois veio a frase, um grupo de frases, uma oração, um grupo de orações, o período, um grupo de períodos, a página e o livro. Toda essa longa evolução dos povos e caminhar laborioso da humanidade trazia algumas vantagens: a religiosa, social e filosófica. Três princípios que repousavam sobre a razão humana e que se fundiam com a revolução: "transformam-se no labor dos séculos; e a razão em busca de verdades, toma sempre um conhecimento novo no fim de cada um desses períodos de abalo".33 Neste sentido, o problema religioso ainda não havia encontrado solução, pois o espirito humano ainda teria sede de convicção, "e o altar não parece fartá-lo de verdades".34 céu se rarefazia e a alma, como ícaro - uma das citações preferidas de Machado para O Espelho, que assinou, inclusive, uma poesia com este título "Ícaro"35 _ com suas asas, que não eram de cera, subiam além do sol.
A moral evangélica, para o autor do texto não assinado, havia muito se perdido de seu objetivo maior que era pregar nos desvarios da raça humana, fundir as classes, ampliar as faculdades cívicas do homem, estabelecer a ideia de regeneração social e condenar a autocracia romana. A moral evangélica...
não satisfazia a alma humana; alguma coisa ficava no status quo; era ainda a fé, a fé cega que se levantava sobre todos os movimentos da humanidade, a fé, que fazia apoteose do sacrifício, e que canonizava os suicídios lentos da sombra em proveito do santuário.
Chegou o Vaticano [...] quer dizer o abuso, foi o abuso, foi a autocracia religiosa. Era um pecado de forma[.]. O Vaticano inerte no meio de sua força recorria à violência para defender-se de arguições mais que justas. Queimou homens em honra da moral que santificava a inviolabilidade humana. Anomalia atroz!36
O autor estava se referindo a João Huss, também citado em outros momentos da revista e por Machado de Assis. Segundo ele, Lutero compulsou os sermões de J. Huss e desta curiosidade nasceu a reforma. Lutero, então, queimando a bula, destruiu a autoridade papal e atacou de frente a opressão do Vaticano.
Desta vez o espírito humano ganhava mais: o exame e a discussão estabelecia-se como duas grandes faculdades da razão. Era um passo. Há o que reformar? Há. O protesto de Lutero não é ainda completo e a influência do catolicismo é ainda fatal. [..] Mas o que é evidente é que a razão humana em estado de parturição sucessiva, atingiu a um grau já subido de civilização religiosa. Daqui em diante para os espíritos sãos e livres, o Vaticano não passa de uma tradição [...] um calvário e uma comédia. Mais nada.
A reforma não é completa, mas é coerente, filosófica, evangélica [.] são as faces da nova igreja. Cá não se prostituiu o Cristo. Nem se imolou a liberdade humana; foi o amor dos homens, o direito de discussão, e o culto da verdade filosófica que se levantou como moral. Há mais evangelho aqui!37
Estava, para o cronista, feito um progresso religioso, a evolução que trouxe conhecimento e liberdade ao altar. Mas parecia que o espírito do século XIX não entendia essa revolução, porque queria unificar o culto. No entanto, a unidade religiosa era, segundo o autor, opressão. Era, inclusive "perturbar as nacionalidades". "Nada de unidade de culto", escreveu ele. Era preciso pensar, como disse Lutero: "pensa!", quando o reformador se levantou e pensou, a máquina desapareceu, o homem passou de apenas um fragmento social para uma força pensadora e produtiva que não reconhecia mais autoridades supremas, porque uma parte da autoridade universal existia em cada espírito. "Após a fé com pés e mãos atadas, vem a razão sem círculo".38
Este é um texto bem crítico, um dos mais ácidos do Espelho, e versou sobre uma questão delicada para a sociedade da época, que era bastante religiosa. De todos os textos assinados na revista, são os de Machado de Assis os que possuem e demonstram um senso crítico mais aguçado. Na segunda crônica da série Aquarelas, por exemplo, Machado de Assis fez também uma crítica quando descreveu o parasita da igreja.
Sob pretexto do dogma, estabelece a especulação contra a piedade dos incautos, e das turbas. Transforma o altar em balcão e a ambula em balança. Regala-se à custa de crenças e superstições, de dogmas ou preconceitos, e lá vai passando uma vida de rosas.
A história é uma larga tela dessas torpezas cometidas à sombra do culto.
O parasita da Igreja, toda a Idade Média o viu, transformado em papa vendeu as absolvições, mercadejou as concessões, lavrou as bulas. Mediante o ouro aplanou a dificuldades do matrimônio quando existiam; depois levantou a abstinência alimental, quando o crente lhe dava em troca uma bolsa.
É um desmoronamento social. O parasita teve uma famosa ideia em embrenhar-se pela Igreja. A dignidade sacerdotal é uma capa magnífica para a estupidez que toma o altar como um canal de absorver ouro e regalias.
Assim colocado no centro da sociedade, desmoraliza a Igreja, polui a fé, rasga as crenças do povo. Entra, todos o consentem, no centro das famílias, sem haver sacudido o pó das torpezas que lhe nodoa as sandálias. Dominou moralmente as massas, os espíritos fracos, as consciências virgens.
Esta transformação do parasita não tende por ora desaparecer; a fogueira de J. Huss, não queimou só o grande apóstolo, devorou também o vestíbulo desse edifício de misérias levantado por uma turba de parasitas, parasitas da fé, da moralidade e do futuro.
A nós o derrocar da cúpula.39
Assim como observamos no texto Tarefa dos séculos, a crítica foi bastante dura na crônica que completou a série das Aquarelas. No entanto, não foi feita a igreja em si, mas a quem usava da igreja como capa para a estupidez, para chegar ao altar e viver de regalias e ouro, "uma vida de rosas". Esse parasita transformou também a igreja em máquina, parecia se fortalecer à custa de crenças e superstições, mas o homem, segundo Machado de Assis, buscava a verdade! O parasita da igreja desmoralizava e poluía a fé e as crenças do povo. Foram críticas bastante parecidas.
Mas, quais são os outros subsídios, além da posição do texto na revista e a crítica aos parasitas da religião, que podem nos ajudar a pensar a possibilidade de autoria machadiana para Tarefa dos séculos? Com relação ao "primeiro livro da humanidade", a bíblia, o autor do texto a tratou como fonte literária, assim como fez Machado de Assis quando já adulto. A relação do literato com a religião católica foi bastante complexa, foi educado na fé católica e em suas obras podemos encontrar diversas menções à igreja, inclusive em personagens como sacristãos, monsenhores, padres, cônegos, entre outros. Magalhães Junior fez uma análise da relação de Machado de Assis com a religião que pode ajudar a pensar sua autoria para a Tarefa dos séculos.
Machado de Assis fazia questão de ressalvar, na sua atitude, o fato de que ferir os maus instrumentos não é o mesmo que atacar os bons princípios. Discordava de padres e de frades, sem incorrer em desprezo pela religião. Não só de padres e frades, mas do próprio Papa, pois queria ver a Igreja modificada, adiantada, com outro espírito que não o de sua época. Falava, então, a linguagem de um verdadeiro liberal. 'Parecia que a influência do espírito moderno devia ter modificado o espírito do Vaticano, e o Vaticano, ainda no Breve ultimamente publicado, acha-se no tempo de Galileu', observava Machado de Assis, na primeira crônica da série Ao Acaso, a 5 de junho de 1864, ao comentar um discurso de Pedro Luís na Câmara.40
Essa passagem demonstra uma crítica à religião, feita por Machado de Assis, que se aproxima da que foi feita pelo autor de Tarefa dos séculos, anos antes, que pensava uma revolução para a religião que fosse mais moderna, a religião seria também um caminho para reflexão, para o debate, conhecimento. Os dois textos têm em comum a crítica ao vaticano. Na crônica Ao Acaso, citada por Magalhães Junior, encontrei algumas questões muito interessantes e que podem auxiliar na tarefa de encontrar os tais subsídios para inquirir sobre a autoria de Machado de Assis para Tarefa dos séculos. Quando, na crônica, o literato apesentou os motivos para os quais não falaria em religião, escreveu que sempre teve medo de replicar "quem entende que ferir os maus instrumentos é atacar os bons princípios".41 Neste caso, segundo Machado de Assis, o ideal seria deixar passar a "ira sagrada", "procurando imitar a paciência do cordeiro de Deus". Os tempos não estariam para graças, até a "ciência não podendo marchar sem fé! Ó pósteros, acreditá-losei?". A crítica que fez à ciência, relacionada a religião, na crônica publicada no Diário, também pode ser aproximada ao esboço daquela feita no Tarefa dos séculos. Uma crítica que parecia estar também envolta à crítica que Machado de Assis fazia ao romantismo: "Fora o lirismo", a ciência não carecia de superstições (que não eram bem vistas nem para a religião, segundo o literato), mas da verdade, do fato, precisava fazer com que os homens pensassem!
Essa crítica de Machado de Assis aos "desvios" da religião o acompanhou até o fim de sua vida. Entrou em conflito com dois jornais católicos: A Cruz e Cruzeiro do Brasil; polemizou com padres e parte do clero brasileiro que gozavam de privilégios
"São Bento e Santo Antônio nunca sonharam com fazenda e escravos"42 \_; condenou também o fundo supersticioso que tinham os cultos e a tentativa de unifica-los. Segundo Magalhães Junior, em seu leito de morte, Machado de Assis não quis se confessar e receber a extrema-unção. Magalhães, baseando-se em Dom Hugo, escreveu que a mais cabível explicação para esse fato é a de que Machado de Assis achava vazia de significado e espiritualidade os sacramentos da igreja. "Acreditaria, talvez, em Deus. Não acreditaria, porém, em seus intermediários".43
## III. Victor de Parma
Outro texto que apareceu no lugar frequentemente ocupado por Machado de Assis foi o de título "Causas e efeitos", publicado na edição de número 15, de dezembro de 1859. O texto ocupou três colunas da revista, é basicamente o mesmo espaço dos textos assinados pelo pseudônimo Gil; de algumas crônicas da série Aquarelas; d'A reforma pelo jornal, que também foram assinados por Machado de Assis e ocuparam a primeira página e o primeiro artigo no espaço geográfico da revista. Desse modo, tentarei demonstrar porque acredito na possibilidade de ser esse texto de autoria machadiana.
O que podemos perceber de características do autor e o que o aproxima de outros textos assinados por Machado e publicados no Espelho? Primeiramente, é perceptível no texto várias citações e referências, algumas delas clássicas como: Ícaro, Delfos, Sócrates, Arquimedes e o dramaturgo francês Eugène Scribe. Na revista, o mito de Ícaro foi mencionado cinco vezes, uma vez no Causas e efeitos, duas vezes por Machado de Assis e outras duas vezes em dois textos que não carregam autoria, Tarefa dos séculos, já analisado nesse artigo, e Briareos e Pigmeus+4 assinado com a inicial M..
A utilização da palavra história - como disciplina e ciência que constrói conhecimento sobre o passado - é uma questão bem importante para desenrolar. Machado de Assis foi, no Espelho, o que mais problematizou o sentido e os processos da história e, por esse motivo, das 21 vezes que a palavra foi usada com essa perspectiva, 11 vezes foi por Machado de Assis. No texto Causas e efeitos a palavra apareceu três vezes. Muito interessante é a concepção de história que tem o autor deste texto (que é basicamente sobre isso) e que pode também se aproximar da concepção de história em Machado de Assis. Descrevo o que foi escrito pelo autor de Causas e efeitos para depois desenvolver essa aproximação.
Para o autor não seria possível um efeito sem causa, todo resultado suporia uma ação anterior: "toda a flor, uma planta [....] toda hora um tempo". A "criação" seria uma galeria de "contingências", uma "sucessão de elos e escola de deduções", mas que, no entanto, "esses problemas de causas e efeitos resolve[ria]m-se na história",45nas "[] ciências naturais, na filosofia propriamente dita, na arte, na literatura, na vida íntima dos povos, na vida íntima das famílias, na vida íntima dos indivíduos, na praça, na sala, no gabinete e no toucador".46
Esse seria, segundo o autor, um dos mais toleráveis divertimentos propostos pela "Providência" ao espírito humano, diante de tantas "trivialidades". A Providência foi utilizada aqui no sentido de "a suprema sabedoria de Deus, em governar e dirigir tudo. Fig. Ordem para fazer alguma coisa".47 Bom, o autor continuou desenvolvendo ainda mais a ideia, acreditava que o primeiro esforço desse estudo foi "um arrojo de Ícaro", quando o homem procurou conhecer a sua própria causa. Ao "passar" pelo oráculo de Delfos deparou-se com a inscrição socrática: "conhece-te a ti mesmo".
O autor faz uma crítica à maneira como se buscava entender a causa do menor no maior, do relativo no absoluto. Para ele, era preciso também buscar os grandes efeitos nas pequenas causas: "Com efeito, há na vida certos fatos cuja razão de ser faz estranhar a investigação crítica; e a história é uma galeria destas causas e desses efeitos".48 Eugène Scribe, segundo o autor, encontrava os grandes efeitos nas pequenas causas. Para o cronista do Espelho, algumas causas e efeitos escapavam da história, como "Uma queda de ministro, uma elevação de favorita, um divórcio, um poema, uma fundação têm muitas vezes a razão direta em uma molécula, em um átomo".49
Como exemplos o autor citou as leis da gravidade e Newton, a causa foi uma maçã! Ou a navegação por Arquimedes, que entrou na água para banhar-se e saiu dela com a descoberta. "O efeito foi grande; nada menos que um conhecimento para a ciência e um palmo de pedestal para a memória do grande matemático; entretanto a causa foi ainda fútil, comum, sem valor aparente".5o O autor concluiu com uma indagação bem provocativa:
Aplicando esse fato, realizado tantas vezes, no movimento das coisas humanas, conclui-se que nem tudo nessa vida deve ser tomado ao pé da letra histórica? Assim, certos homens que parecem grandes, certos fatos que nos parecem extraordinários, no caso de terem uma origem, uma causa pequena e impalpável deve ser apeados de sua altura, por esta lei racional que mostra o efeito contido na causa?
Resta considerar o valor intrínseco da causa, o concurso das circunstâncias e todo esse aparato filosófico. É essa uma indagação fina e profunda.51
Essa provocação, principalmente, pode ser aproximada da concepção de história que o jovem Machado de Assis apresentou no Espelho, e que desenvolveu na fase adulta. Não há como ler o texto Causas e efeitos sem lembrar do que o literato escreveu em agosto de 1895, nas crônicas A Semana: "São migalhas da história, mas as migalhas devem ser recolhidas".52 Ou "Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto".53 E também: "Coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míope. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam".54
E é essa aproximação que tentarei desenvolver a partir de agora. Para auxiliar no desenvolvimento do argumento, utilizo também o trabalho da historiadora Raquel Machado Campos, juntamente com a análise comparativa que faço com outros textos escritos por Machado de Assis para a revista, principalmente as crônicas teatrais que também trouxeram o assunto história. Raquel Campos, ao analisar a concepção de história em Machado de Assis, a partir das crônicas A Semana, publicadas entre os anos de 1892 e 1897, na Gazeta de Notícias, faz a seguinte constatação:55
Assim, esta série de crônicas permite identificar um posicionamento frente à história, como atividade específica que tem seus objetos, métodos e praticantes. Posicionamento que pode ser percebido através de três 'procedimentos' que delineiam uma certa concepção de história - uma concepção, face à existente na história dos historiadores, fundamentalmente herética. São eles: a ironia diante das certezas da história, a afirmação de que os grandes não cabem na crônica e a equiparação entre grandes e pequenos.56
O que nos interessa são os dois últimos itens. Peguemos a princípio, o texto biográfico que - como demonstrei anteriormente - acredito ser de autoria de Machado de Assis. Já no início do texto, o autor faz saber que não fará "uma análise completa da vida do Imperador", pois...
[..] essa tarefa pertencerá mais tarde ao historiador, que dia por dia, com seu escalpelo, aprofundar-se-á no estudo ainda das menores circunstâncias.
O historiador tem um reinado inteiro, pode apreciar os fatos pelas consequências que se seguiram, pode mesmo penetrar as intenções, tem espaço, tem vagar, convêm estender-se.57
Pode-se perceber que o autor da biografia entendeu que uma análise completa de um acontecimento só poderia ser feito algum tempo depois de ocorrido, quando o historiador futuro já tivesse "em mãos" as consequências das ações e que com seu escalpelo pudesse dissecar, fazer uma análise minuciosa do acontecimento. O historiador já teria em mãos as causas e os efeitos. Nesse sentido, trago também parte de uma crônica teatral escrita por Machado de Assis e publicada no mesmo número da revista em que apareceu a biografia.58 Faço isso porque na crônica teatral o literato aproximou o trabalho do historiador ao do cronista, que tinha por mister investigar, analisar e por fim criticar. Ademais, em meados do século XIX até o início do século XX, atribuíram a alguns poetas e romancistas o ofício de historiador (e nesse escopo estavam também os membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro IHGB). Em Dicionário de 1832, a palavra crônica carregou o significado de "História, que refere as coisas pela ordem do tempo".5o Foi ela então outra maneira de contar a história da sociedade.60
- esteve nesse escopo passível de crítica, que inclusive permaneceu, com outras nuances é claro, em sua fase adulta.
- Cos, Raqul. Entre ilustres e anônimos a concepção de história em Machado de Assis. Chapecó, SC: Argos, 2016.
- 57 ASSIS, Machado de. D. Pedro II: esboço biográfico. O Espelho, Rio de Janeiro, n. 10, 6 nov. 1859.
- 58 A peça teatral foi a de título Abel e Caim, drama de Antônio Mendes Leal e que foi representada no Ginásio em novembro de 1859.
- 59 PINTO, 1832.
- Diante de todas as diferenças que existem entre a construção de um texto histórico e literário, as distâncias entre história e ficção, já debatidas em diversos trabalhos, justifico a aproximação do cronista e historiador neste trabalho baseando-me na concepção de história da época. Em texto escrito para a Revista do IHGB, em 1856, Joaquim
Ao dar seu parecer em uma crônica sobre o desempenho de uma peça teatral, Machado de Assis informou a leitora que suas observações se ressentiam de indecisão, pois eram observações de uma noite apenas e que "a crítica tem por fim analisar, e para analisar completamente há mister de conhecimentos mais latos e documentos mais verdadeiros".61 O que remete à lógica do autor de Causas e efeitos e também da biografia, onde descreveu sobre o trabalho do historiador futuro a respeito da vida detalhada de Pedro II.
Raquel Campos demonstrou que a concepção de história entre os historiadores do século XIX foi aquela que registrou os feitos memoráveis. Que, definida aos termos de Cícero, testemunhou os tempos à luz da verdade e, como a escola da vida, eternizou os fatos memoráveis dos grandes homens da pátria.62 No entanto, essa concepção não foi unânime e alguns membros do Instituto destoaram um pouco dos demais. Joaquim Manoel de Macedo, por exemplo, quando
Manoel de Macedo escreveu que um poeta foi muitas vezes um historiador. Essa concepção foi compartilhada por outros historiadores da época, principalmente os advindos do IHGB, de que muitos romancistas eram também historiadores e sociólogos. Cf.: CAMPOS, 2009, p. 27-28.
- s, Machado de. Revista de teatros. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 10, 6 nov. 1859.
- 62 CAMPOS, 2009, p. 18-21. Outra pesquisa que nos ajuda a problematizar a questão da concepção de história entre os membros do IHGB é a de Lucia Paschoal Guimarães. Em artigo publicado, em 2012, no número 25 da revista ArtCultura, Guimarães nos dá algumas pistas que corroboram para análise de Raquel Campos. Comecemos refletindo sobre os membros do IHGB, dos vinte e sete fundadores, quinze foram "homens públicos de nomeada, vultos cujas histórias de vida se entrelaçam com a própria história da formação do Estado nacional" (p. 39). Ademais, o ingresso de novos sócios foi regulamentado por regras bastante rígidas. Essa questão nos faz refletir sobre quem escreveu a história do Brasil no século XIX, ou quem avaliou qual história poderia ser publicada e divulgada, principalmente, na revista do IHGB. A essa última, por sua vez, coube a tarefa de divulgar as atividades desenvolvidas pela corporação: "as memórias de seus membros que forem interessantes à história e geografia do Brasil" (p. 41). Quais memórias seriam essas? Visto que o IHGB possuiu membros vinculados a uma diretriz política em especial e a Instituição foi patrocinada por Pedro II. Outra questão que pode nos ajudar nessa reflexão é uma das diretrizes que orientou as coletas de fontes para a escrita da história do Brasil. Sob o título "Lembranças do que devem procurar nas províncias os sócios do Instituto Histórico para remeterem à sociedade central do Rio de Janeiro", o autor José Honório Rodrigues instruiu os sócios a buscarem "biografias de brasileiros ilustres". Linha de pensamento que também pode ser observada no segundo número da revista, publicado em 1839, que trouxe uma nova seção intitulada "biografia de brasileiros distintos pelas letras, armas e virtudes". Em dicionário da época, ilustre significou "adj. Nobre, celebre por nascimento, ou merecimento." (Ver em: PINTO, Luís Maria da Silva. Op. cit.,). O próprio desprezo dos membros do IHGB por estrangeiros que se dispunham a escrever sobre o Brasil, principalmente aqueles que apresentaram comentários desfavoráveis ao país e a nação, pode nos contar, entre outras coisas, qual foi a história que se escreveu sobre o Brasil no século XIX, sob o' crivo do IHGB. Cf.: GUIMARÃES, Lúcia Maria Paschoal. O periódico de uma Société savante: a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1839-1889). ArtCultura, Uberlândia, v. 4, n. 25, p. 38-49, jul./dez.
2012.
esteve à frente do IHGB em 1856, escreveu em seu relatório anual que a história seria o único meio possível de salvar o homem da morte, permanecendo vivo sob a avaliação de suas ações frente à pátria. Portanto, Macedo entendia que, nas palavras de Raquel Campos, "devem figurar nos livros de história não somente aqueles que honraram a pátria, mas também os que se notabilizaram por seus feitos reprováveis, como o traidor Domingos Fernandes Calabar".63
Se trouxermos novamente o trecho da biografia - "O historiador tem um reinado inteiro, pode apreciar os fatos pelas consequências que se seguiram, pode mesmo penetrar as intenções" - podemos perceber que Machado de Assis também abriu a possibilidade para as menores circunstâncias e que mesmo tratando do imperador Pedro Il não sentenciou, pelo simples fato de ser ele um dos "grandes homens", que todas as suas ações seriam memoráveis, era preciso analisar as causas e os efeitos. O mesmo quando mencionou Pedro I: "terá erros, terá virtudes, mas cuja análise deixamos de parte".64 O que pode ser aproximado também da ideia de "criação", "Providência" e de "história" do texto Causas e efeitos: uma galeria de possibilidades, incertezas, uma sucessão de elos, escola de deduções que poderiam ser resolvidas apenas na História.
Ao analisar a peça teatral Abel e Caim para O Espelho, o jovem Machado de Assis fez uma analogia entre as personagens da obra e a história. Segundo o crítico teatral, a sociedade era o Caim do talento por ignorá-lo, mas ainda assim havia aqueles talentos que eram recolhidos pela "piedade severa da história", como Camões e Cervantes, por exemplo. Os outros "tão dolorosos" talentos, talvez tenham sido muito obscuros para o olhar da posteridade. Ainda fazendo uma relação entre as personagens, sociedade e história, Machado dá a Deus, o "Senhor", aquele que no drama interroga pungentemente Abel, o papel de história para a humanidade. Em seguida credita à história a figura de Dr. Manoel na peça. "Para a humanidade o Senhor é a história; no drama é o Dr. Manoel da Cunha". E como Machado de Assis caracterizou essa personagem em sua crítica? Vejamos: "O doutor é uma figura severa e simpática, mão estendida ao talento espezinhado, rara dedicação no meio do egoísmo social". E continua com a crítica ao ator que representou o que seria a história no drama e que para Machado de Assis não era digno do papel, dada a sua importância: "É um papel alto demais para o Sr. Paiva, um moço de estudo e habilidade, mas cujo talento sente-se estreito para a aquela criação".65
Em seu artigo Ideias sobre o Teatro, publicado no número cinco do Espelho, o literato descreveu o jornal, a tribuna e o teatro como meios de proclamação e educação pública, e/ou como meios de procurar uma verdade:
Quando se procura iniciar uma verdade busca-se um desses respiradouros e lança-se o pomo às multidões ignorantes então. No país em que o jornal, a tribuna e o teatro tiverem um desenvolvimento conveniente - as caligens cairão aos olhos das massas; morrerá o privilégio, obra da noite e da sombra; e as castas superiores da sociedade ou rasgarão os seus pergaminhos ou cairão abraçadas com eles, como em sudários.
É assim, sempre assim; a palavra escrita na imprensa, a palavra falada na tribuna, ou a palavra dramatizada no teatro, produziu sempre uma transformação. É o grande fiat de todos os tempos.
Há, porém, uma diferença: na imprensa e na tribuna a verdade que se quer proclamar é discutida, analisada, e torcida aos cálculos da lógica; no teatro há um processo mais simples e mais ampliado; a verdade aparece nua, sem demonstração, sem análise.66
A verdade a que Machado de Assis pareceu se referir, e que apareceu "nua" no teatro e na imprensa, foi a realidade experimentada; enquanto na tribuna temos uma verdade debatida e dialogada. Como cronista teatral, Machado de Assis escrevia que para se fazer uma crítica apurada sobre as peças encenadas na corte, para a tarefa de ser cronista teatral, era preciso estudar com afinco, assisti-las mais de uma vez, analisá-las. Não seria a crônica, para o escritor, outra maneira de se escrever a história? Vejamos!
A história é a crônica da palavra. Moisés no deserto, Demóstenes, nas guerras helênicas, Cristo, nas sinagogas da Galileia, Huss no púlpito cristão, Mirabeau, na tribuna republicana, todas essas bocas eloquentes, todas essas cabeças salientes do passado, não são senão o Fiat multiplicado, levantando todas as confusões da humanidade. A história não é um simples quadro de acontecimentos; é mais, é o verbo feito livro.67
Era assim que Machado de Assis concebia a história a partir da crônica, não era apenas um quadro de acontecimentos, ela era viva! Era verbo! A palavra da história que "foi sempre uma reforma" era criadora e prodigiosa, fez do homem uma matéria organizada. Quando falada na tribuna ou escrita no livro, era ainda criadora e prodigiosa, mas era monólogo. Esculpida no jornal transformava-se em discussão, considerada "a sentença de morte de todo o status quo, de todos os falsos princípios dominantes. Desde que uma coisa é trazida à discussão, não tem legitimidade evidente, e nesse caso o choque da argumentação é uma probabilidade de queda".68
Caso olhemos para a revista como um todo e principalmente analisarmos toda a colaboração de Machado de Assis para O Espelho, na qual tinha como ponta de lança a crítica à maneira desigual que a sociedade brasileira tratou os jovens talentosos e sem posses, "obscuros", em relação aos jovens não tão talentosos assim, mas donos de uma "nobreza de brasão", podemos chegar a uma conclusão com relação à concepção de história em Machado de Assis e como podemos perceber permanências e continuidades com relação a esse posicionamento na série de crônicas A Semana, trabalhadas por Raquel Campos. A partir dos textos escritos para o Espelho, o escritor invocou para o campo literário da época, ainda em construção, um apelo democrático e igualitário. Também o olhar mais atento as causas mínimas, o considerado ínfimo, os homens "obscuros", talentos não conhecidos, o considerado "menor" que também cabia na história. Trago uma amostra no trecho a seguir:
Acabo de assistir, há meia hora, à estreia do Sr. Furtado Coelho no teatro de S. Januário. O drama escolhido foi o Pedro de Mendes leal Júnior. [..] Casa-se perfeitamente no meu espírito a ideia vigorosa dessa bela composição. [..] O que se nota sobretudo em Pedro é a tendência liberal que tem tomado recentemente os vultos novos da literatura. O nome ilustre de um conde que cai para dar lugar ao nome do talento obscuro que se levanta, é o pensamento do drama e constitui para mim um símbolo. É a democracia do talento que reage sobre a nobreza do brasão, um elemento poderoso que procura suplantar uma força gasta.69
Enquanto, ao falar de Pedro II, dava a entender que sua grandeza, ou "que pelo voto do povo" achavase "colocado em uma altura de onde eles mal podem ser apreciados"70, também entendia que o "talento obscuro" deveria estar na crônica, deveria estar na história. Era a busca da "democracia de talento". Não estaria Machado de Assis denunciando uma função política da história, como fez o autor de Causas e efeitos, pelo menos aquela concebida no século XIX, de evocar a origem nobre "dos grandes homens" para dominar posses e direitos, ou para legitimar desigualdades, nesse caso, também no campo das letras escrita e encenada? Penso que pode ser possível! Além de todas essas questões, há na utilização do pseudônimo Victor de PARMA outro indício para se pensar a autoria de "Causas e efeitos" para
Machado de Assis. Victor de PARMA pode ser uma variação do pseudônimo Victor de Paula utilizado por Machado de Assis, em 1872, no Jornal das Famílias.
## IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A investigação da revista O Espelho permitiu problematizar diversas questões para o estudo da imprensa e da literatura no século XIX. Ao adentrar o universo dos impressos da segunda metade do oitocentos, foi possível explorar espaços de sociabilidade como tipografias, livrarias, agremiações e os próprios periódicos, que serviram como suporte fundamental para a formação e divulgação de jovens literatos. A revista, em particular, destacou-se como um importante veículo de apoio à carreira de escritores iniciantes, refletindo o papel da imprensa na consolidação da literatura e dos literatos da época.
A análise da materialidade da revista, incluindo a hierarquia e a disposição dos textos e autores em seu espaço geográfico, revelou-se uma valiosa ferramenta metodológica. Essa abordagem permitiu não apenas construir argumentos sobre autorias até então desconhecidas - seja por pseudônimos, abreviaturas ou anonimato -, mas também levantar hipóteses sobre textos inéditos de autores consagrados, como Machado de Assis. A investigação demonstra que, ao explorar a superfície dos impressos e sua organização, é possível desvendar pistas que conduzem a tesouros ainda escondidos nas páginas amareladas de jornais e revistas do século XiX. Assim, o estudo reforça a importância de se revisitar essas fontes com novas metodologias, capazes de revelar novas camadas de significado e contribuir para o entendimento da história literária e cultural do Brasil.
[^1]: Destaco os trabalhos de GRANJA, Lúcia. Machado de Assis: escritor em formação. São Paulo: FAPESP, 2000 e MARQUES, Wilton José. Machado de Assis e as primeiras incertezas: a formação literária, o poema inédito e o malogro do primeiro livro. São Paulo: Alameda, 2022. _(p.1)_
[^2]: A Marmota Fluminense foi um jornal de variedades de propriedade de Francisco de Paula Brito, considerado por Machado de Assis “o primeiro editor digno desse nome que houve entre nós” (Diário do Rio de Janeiro, 3 jan. 1865. p. 1). O jornal circulou no Rio de Janeiro entre os anos de 1849 a 1864. _(p.1)_
[^3]: A Sociedade Petalógica do Rocio Grande foi uma agremiação, presidida por Paula Brito e frequentada por Machado de Assis, que _(p.1)_
[^4]: Literato, autor de textos publicados em periódicos da época como A Marmota, Revista Brasileira e O Acadêmico. Foi diretor e fundador das revistas O Espelho e A Primavera, estudante de medicina no Rio de Janeiro e faleceu durante a Guerra do Paraguai, fuzilado como prisioneiro quando exercia a função de Inspetor da Alfandega de Corumbá. Para mais informações sobre Francisco Eleutério de Sousa, ver em: TEIXEIRA, Cristiane Garcia. A Mocidade n'O Espelho: Machado de Assis e Eleutério de Sousa redatores de uma revista oitocentista (1859-1860). Teresina: Cancioneiro, 2022. _(p.1)_
[^5]: Ao modo de Marlyse Meyer, utilizei a expressão espaço geográfico para me referir ao mapa dos impressos, ou seja, refletir sobre o posicionamento dos textos e autores e como se movimentaram, se posicionaram nas páginas desses impressos. Marlyse Meyer ao estudar os romances folhetinescos percebeu que eles eram publicados sempre no rodapé da página, um espaço geográfico do impresso muito bem pensado para ser destacado e compilado depois de publicadas todas as partes do romance. Foi também considerado o lugar de menor valor do impresso. Cf.: MEYER, Marlyse. Folhetim: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. _(p.2)_
[^6]: GRANJA, Lúcia; CANO, Jefferson (Org.). Machado de Assis: Comentários da semana. Campinas: Editora da Unicamp, 2008. _(p.2)_
[^7]: ASSIS, Machado de. Um soneto ao Imperador D. Pedro II. Marmota Fluminense. Rio de Janeiro, n. 654, 2 dez. 1855. _(p.2)_
[^8]: O Espelho. n. 6, 9 out. 1859. p. 12. _(p.2)_
[^9]: Grande parte dos impressos publicados e que circularam no Rio de Janeiro oitocentista estão digitalizados na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, o que democratiza tanto a produção quanto a divulgação _(p.2)_
[^11]: p no. 1859. _(p.6)_
[^12]: Machado AquareasparasitaEspelo. R Janeiro, n. 6, p. 2, 9 out. 1859. _(p.6)_
[^13]: nov. 2024. _(p.3)_
[^14]: e RAMS, Ernesto; MESA-RODRIGUEZ, Ania; ESTEVEZ-MOYA, Daniel. Complexity-entropy analysis at diferent levels of organisation in written language. Plos One, [S. I.], v. 14, n. 5, p. 1-16, 8 maio 2019. _(p.3)_
[^15]: Todos esses cálculos foram realizados com a ajuda do campo "busca por palavras", ferramenta presente na Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional. A ferramenta acusa o aparecimento da palavra por página. INTO Eseo.Ri d Jani.. INÚTEIS. O Espelho. Rio de Janeiro, n.11 1 nov. _(p.4)_
[^20]: out. 2015. _(p.4)_
[^21]: GIL. AS GRALHAS SOCIAIS. O Espelho. Rio de Janeiro. n. 16, p. 2, 18 dez. 1859. Grifo do autor. _(p.4)_
[^22]: IL. AS GRALHAS SOCIAIS. O Espelho. Rio de Janeiro. n. 1, p. 2, 18 dez. 1859. Grifo do autor. _(p.4)_
[^23]: 2OS INúTEIS. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 11, 13 nov. _(p.4)_
[^24]: INÚTEIS. O Espelho. Rio de Janeiro, n. _(p.4)_
[^25]: OS INÚTEIS. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 11, p. 5, 13 nov. 1859. _(p.4)_
[^27]: RENAULT, Delso. Rio de Janeiro. A vida na cidade refletida nos jornais. São Paulo: Civilização brasileira, 1978. p. 146. _(p.5)_
[^28]: CRimas Sândalo a pesença deVio Hugo nas crônicas de Machado de Assis. Signótica, [S. I.], v. 18, n. 1, p. 17-42, 2008. _(p.5)_
[^29]: co Jan nov. 1859. _(p.5)_
[^30]: TAREFA dos séculos. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 11, p. 1, 13 nov. 1859. _(p.5)_
[^31]: 3TAREFA dos séculos. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 11, p. 1, 13 nov. 1859. _(p.5)_
[^32]: TAREFA dos séculos. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 11, p. 1, 13 nov. 1859. _(p.5)_
[^35]: ASSis, Machado de. Ícaro. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 19, p. 11- 12, 8 jan. 1860. _(p.5)_
[^40]: MAGLHÃES JÚNIOR, R.. Machado de Assis: Vida e Obra. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 319-320. _(p.7)_
[^41]: 4M.A. Ao acaso. Diário do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, ano 44, n. 155, p. 1, 5 jun. 1864. _(p.7)_
[^42]: Ao acaso. Diário do Rio de JaneiroRio de Janeir, 1865. _(p.7)_
[^43]: MAGALHÃES JUNIOR, 1971, p. 338. _(p.7)_
[^44]: RIAREOS Pigmeus. O Espelho. Rio de Janeiro, an. 1860. _(p.7)_
[^45]: toR Ja 1859. _(p.8)_
[^46]: CAUSAS e efeitos. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 15, 11 dez. 1859. _(p.8)_
[^47]: ASSIs, Machado de. A Semana. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, ano 21, n. 223, 11 ago. 1895. _(p.8)_
[^48]: CAUSAS e efeitos. O Espelho. Ri 1859. o de Janeiro, n. 15, p. 1, 11 dez. _(p.8)_
[^49]: CAUSAS e efeitos. O Espelho 1859.. Rio de Janeiro, n. 15, p. 1, 11 dez. _(p.8)_
[^50]: CAUSAS e efeitos. O Espelho 1859.. Rio de Janeiro, n. 15, p. 2, 11 dez. _(p.8)_
[^51]: Machado IGazta de NotíciasRi de Jan, ano 26, n.314, 11 nov. 1900. _(p.8)_
[^54]: MAGALHÃES JUNIOR, 1971. _(p.8)_
[^63]: CAMPOS, 2009, p. 22. _(p.10)_
[^64]: ASSIS, Machado de. D. Pedro II: esboço biográfico. O Espelho, Rio de Janeiro, n. 10, 6 nov. 1859. _(p.10)_
[^65]: ASSIS, Machado de. D. Pedro II: esboço biográfico. O Espelho, Rio de Janeiro, n. 10, 6 nov. 1859. _(p.10)_
[^66]: 66ASSIs, Machado de. Ideias sobre o Teatro. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 5, p. 2, 2 out. 1859. _(p.10)_
[^67]: ASSIS, Machado de. A reforma pelo jornal. O Espelho. Rio de Janeiro, n. 8, p. 1, 23 out. 1859. _(p.10)_
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Cristiane Garcia Teixeira. 2026. \u201cIn the Mirror: Wretched, Useless and the Task of Centuries, Possible Texts by Machado de Assis – Unpublished Authorship\u201d. Global Journal of Human-Social Science - A: Arts & Humanities GJHSS-A Volume 25 (GJHSS Volume 25 Issue A2): .
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