## I. INTRODUÇÃO
'ste artigo surge do interesse pessoal, profissional e acadêmico em aprofundar conhecimentos teóricos e práticos no que tange a programas de formação de lideranças comunitárias em contextos afetados pela violência. A aspiração é que as lideranças que habitam o epicentro da vulnerabilidade estejam munidas das capacidades e ferramentas necessárias para prevenir e resolver conflitos de maneira autônoma em seus ambientes, independentemente da agenda de atores externos.
Após a experiência do primeiro autor de quase uma década de trabalho humanitário em zonas de conflito armado em diferentes países, interagindo diretamente com diferentes grupos armados estatais e não-estatais que disputam por território e perpetuam desastres, ele passou a se interessar por ferramentas e formatos de diálogo que pudessem facilitar encontros improváveis entre atores antagônicos, e criar espaços minimamente seguros para a exploração de alternativas não-violentas de convívio.
O artigo coloca em perspectiva esta experiência inaugural de facilitação nesse tipo de formação que ocorreu em Nairobi/Quênia em outubro, novembro e dezembro de 2021, quando aconteceu a reunião e capacitação de líderes comunitários. Viviam estes em um complexo contexto de violência e reinício de vida junto a refugiados de guerra de diferentes nacionalidades.
A abordagem teórica está focada na obra A Imaginação Moral, de John Paul Lederach (2011), que trata da "arte e alma da construção de paz" no âmbito da facilitação de capacitações no campo da transformação de conflitos. A proposta do autor é sintética e honesta ao tratar sobre os obstáculos e os possíveis caminhos para a redução da violência em ambientes marcados por conflitos armados e traumas coletivos.
O cruzamento da experiência de capacitação em Nairobi/Quênia é anterior à leitura da obra, portanto, trata-se de uma análise que parte da experiência empírica observada para, a partir daí, aproximar-se da proposta das qualidades da imaginação moral. Por oferecer uma reflexão sobre a prática de formação de lideranças comunitárias em ambientes de violência, busca-se contribuir em intervenções em contextos similares.
A abordagem do processo de facilitação caracteriza-se pelo hibridismo criado a partir de referenciais oriundos de autores dos Círculos de Construção de Paz disseminada por Pranis et al., (2003),[^2] da Transformação de Conflitos (LEDERACH, 2012; DIETRICH, 2019; ZEHR, 2015), da Comunicação Não-Violenta (ROSENBERG, 2005), do Equilíbrio Emocional (EKMAN, 2003; WALLACE, 2006; WALLACE, 2009) e do Trauma e Resiliência (LEVINE, 2010; YODER, 2005; GROTBERG, 1995).
Problematiza-se: Como a capacitação de lideranças comunitárias em Nairobi/Quênia pode ter contribuído para o surgimento e fortalecimento das qualidades da imaginação moral entre os participantes? O objetivo do estudo é analisar a experiência de facilitação da capacitação de lideranças comunitárias em Nairobi/ Quênia, utilizando-se uma abordagem transversal, considerando a proposta teórica da Imaginação Moral.
A revisão bibliográfica abrange o tema da facilitação elicitiva em treinamentos e as quatro qualidades da imaginação moral de John Paul Lederach (2011): o Papel Central das Relações, Curiosidade Paradoxal[^3][^1], o Ato Criativo e da Disposição ao Risco. Faz-se uma breve apresentação do conceito de capacitação elicitiva (em oposição ao conceito de treinamento prescritivo), conforme apresentado por Lederach em sua obra Preparing for Peace: conflict transformation across cultures (1995).
Uma vez estabelecida essa base conceitual, será apresentada uma breve descrição da capacitação que ocorreu em Nairobi, com exposição sobre os 4 eixos e 12 tópicos disparadores do plano pedagógico utilizado. Além disso, será analisado como o conteúdo foi trabalhado junto aos participantes. Assim, será possível compreender e refletir sobre a tendência da experiência, de modo a fornecer insumos para futuras capacitações no âmbito da transformação de conflitos em contextos similares, tanto para facilitadores, quanto para pesquisas-intervenções.
A reflexão teórica a partir da proposta de Lederach (1995; 2011) será complementada por aspectos das obras de Halifax (2012) e Pranis et al., (2003). O primeiro autor cita diretamente as qualidades da imaginação moral, situando-as dentro de um conjunto de práticas voltadas a superar o mero sentimento de empatia para desenvolver um genuíno e saudável estado de abertura e disposição de colocar-se a serviço do próximo. A segunda autora, por sua vez, não dialoga explicitamente com o conceito da imaginação moral, mas discorre sobre os Círculos de Construção de Paz (ferramenta utilizada pelo facilitador durante a capacitação em Nairobi), enquanto um processo de prevenção e resolução de conflitos ancorado na noção de interdependência. Esta abordagem contribui para o surgimento de possibilidades inesperadas a partir da sabedoria coletiva que emerge do encontro de individualidades.
## II. As Quatro QuAlidades da ImagiNaÇÃo MOral
Enquanto a palavra "imaginação" se refere a "perceber as coisas mais longe e mais fundo do que aquilo que está visível aos olhos" (LEDERACH, 2011, p. 28), a palavra "moral" se refere ao "potencial de encontrar uma forma de transcender, ou de ir além do existente, ao mesmo tempo em que vivemos nele" (LEDERACH, 2011, p. 29). O autor admite que o termo moral" pode ser, à primeira vista, associado à ética, religião ou valores impostos. Todavia, no âmbito da sua proposta, trata-se da capacidade de imaginar e gerar respostas não violentas, capazes de sustentar, simultaneamente, o desconforto da realidade da violência e, ao mesmo tempo, romper os grilhões dos ciclos destrutivos gerados por ela.
De maneira mais simples, a imaginação moral também pode ser vista com uma prática de reumanização, de enxergar os seres rotulados como "outros", primeiramente, como pessoas dotadas das mesmas emoções e necessidades que "nós". Fomenta o encontro de similaridades em prol do reconhecimento da a humanidade compartilhada. Com isso, abre-se caminhos para melhor convivência humana (Halifax, 2021). Estudos semelhantes apontam que um remédio eficaz para combater o ódio, injustiça e preconceito presentes entre grupos considerados antagônicos é simplesmente a aproximação entre estes que se enxergam "diferentes" uns dos outros (RUTGER, 2021, p. 330-342). Assim como enfatiza a imaginação moral, o contato e convivência se apresentam cada vez mais como um caminho de redução dos ciclos de violência (RUTGER, 2021, p. 330-342).
Dito isso, a primeira qualidade da imaginação moral é o Papel Central das Relações, definida como "a capacidade de os indivíduos e comunidades se imaginarem em uma teia de relações envolvendo até os seus inimigos" (LEDERACH, 2011, p. 37). Em outras palavras, é a capacidade de "nos projetar no futuro e ver que nossos netos e os netos de nossos adversários poderiam facilmente ter um futuro íntimo e comum" (HALIFAX, 2021, p. 107). Essa qualidade está enraizada na percepção da interdependência enquanto interconexão dos nossos destinos. "O mal praticado contra um é um mal para todos. O bem praticado a um é um bem para todos."" (PRANIS, 2010, p. 42).
A segunda qualidade é a Curiosidade Paradoxal. Lederach a define como a "interação com a realidade que respeita a complexidade e se recusa a cair nos compartimentos forçados das dualidades e das categorias do tipo isso ou aquilo" (2011, p. 39). Oferece a capacidade de vincular "duas verdades aparentemente contraditórias a fim de localizar uma verdade maior" (LEDERACH, 2011, p. 39). Essa qualidade nos convida a "abrir o coração para possibilidades inconcebíveis." (HALIFAX, 2012, p. 108). Dietrich (2019), ao comentar a obra de Lederach, acrescenta:
Lederach considera a 'curiosidade paradoxal a mais alta virtude. De acordo com ele, paradoxal se refere não apenas ao que está além das crenças dominantes, mas também ao que desafia as reivindicações de verdade feitas por grandes meta-textos. Curiosidade se refere à atenção consistente e questionamento contínuo das coisas e seus significados - conforme a implicação da raiz latim das palavras "curar' e 'cuidar'. A curiosidade paradoxal é, portanto, uma atitude política de paz que nos permite permanecer em uma situação amigável com a inevitável complexidade da violência e polarização sem cair na armadilha do pensamento moderno, onde valores dualistas exacerbam a espiral da violência. A curiosidade paradoxal faz questionamentos que vão além de conclusões precipitadas ou interpretações superficiais e busca conceber tantas escolhas quanto possível' (DIETRICH, 2019, p. 13).
A terceira qualidade da imaginação moral é o Espaço para o Ato Criativo. As pessoas que manifestam essa qualidade "assumem que existem incontáveis possibilidades e são capazes a qualquer momento de avançar, para além dos estreitos parâmetros daquilo que é comumente aceito e percebido como a gama de escolhas estreita e rigidamente definida." (LEDERACH, 2011 p. 43). Essa qualidade aponta para um propósito resiliente e para uma paciência revolucionária, imaginando um horizonte mais vasto do que pode parecer possível à primeira vista (HALIFAX, 2021).
A quarta e última qualidade é Disposição para Arriscar. A partir da perspectiva da interdependência e da capacidade de vermos além dos padrões duais e possibilidades habituais, somos chamados à ação. Em ambientes onde a violência é o padrão e a paz é um mistério, "arriscar é dar um passo para o desconhecido sem nenhuma garantia de sucesso ou mesmo de segurança" (LEDERACH, 2011, p. 43). Essa qualidade implica em "não se apegar aos resultados, o risco de sentar com o desconhecido, o risco de ir além das divisões e enfrentar incertezas com curiosidade e força" (HALIFAX, 2021, p. 108).
Embora as quatro qualidades da imaginação moral tenham sido descritas acima, é evidente que, em um contexto de capacitação que objetiva a autonomia e o encorajamento do protagonismo local, é preciso muito mais: elas precisam ser vivenciadas, experimentadas, emergindo da sabedoria individual e coletiva dos próprios participantes. Por isso, é preciso ir além da visão de capacitação enquanto mera transferência de conhecimento e explorar uma possibilidade diferente, que Lederach (2011) define como "abordagem elicitiva".
## III. O PrOCESso DE CAPACItAÇÃO VIA FaCIlitaçÃo ELIcitiva
Os idiomas Português e Espanhol possuem uma vantagem comparativa ao Inglês no que tange à sutileza da diferença entre "treinamento e "capacitação (ambos traduzidos igualmente como "training" no Inglês). Enquanto O "treinamento pressupõe a mera transferência de conhecimento para a realização de uma tarefa específica, a "capacitação" implica na intenção de empoderamento, na superação de obstáculos que tornam possível o movimento de saída de uma posição de "eu não consigo" para a entrada em uma posição de "eu consigo" no que tange o esforço para a mudança social positiva. (LEDERACH, 1995). Assim, o termo "capacitação" vai muito além do mero ato de aprender a realizar mecanicamente uma atividade específica.
John Paul Lederach, em sua obra Preparing for Peace: Conflict Transformation Across Cultures (1995) argumenta que esse empoderamento se torna possível por meio de uma abordagem que ele cunhou de elicitiva, em oposição à abordagem prescritiva na qual a maior parte das iniciativas educacionais está baseada. Uma abordagem puramente prescritiva configura o treinamento como um produto universalmente aplicável, oferecido por um especialista com conhecimento explícito no assunto, o qual transfere o conhecimento e/ou a técnica em questão para receptores cujo conhecimento implícito, formado por suas próprias experiências prévias, é pouco levado em consideração. As premissas ideológicas implícitas ao produto não são abordadas. A cultura é vista como um aspecto para o qual as ferramentas específicas deverão ser adaptadas, comumente em módulos mais avançados (LEDERACH, 1995). De acordo com o autor, um típico treinamento prescritivo de mediação de conflitos tende a apresentar os seguintes passos:
1. O que fazer: Uma descrição cognitiva do modelo apresentado.
2. Como fazer: Exemplos e/ou demonstrações da técnica.
3. Prática: Uso das ferramentas por parte dos participantes, em um ambiente controlado.
4. Feedback: O facilitador utiliza elementos da prática para fazer avaliações, correções e reforçar o modelo.
5. Perguntas e Respostas: Espaço para questionamentos dos participantes sobre possíveis cenários e desdobramentos a serem respondidas pelo facilitador.
Uma abordagem puramente elicitiva, por outro lado, percebe os participantes e seu conhecimento implícito como o principal recurso da capacitação. O facilitador não se coloca como expert no assunto, mas como o catalizador de um processo participativo de descoberta e criação através do qual emergirão modelos adaptados às necessidades do contexto. O desenho e objetivos explícitos da capacitação são definidos em conjunto pelos participantes. Esse empoderamento tende a resultar na autonomia e continuidade da aplicação daquilo que foi desenvolvido coletivamente (LEDERACH, 1995). Segundo o mesmo autor, uma capacitação em mediação de conflitos puramente elicitiva tenderia a seguir os seguintes passos:
1. Descoberta: Discussões sobre situações vivenciadas pelos participantes, buscando trazer à tona o conhecimento implícito sobre "o que" e "como" fazer, sem rotulação de certo ou errado.
2. Nomear e categorizar: Esforço descritivo conjunto para identificar e categorizar as atitudes, abordagens e papéis utilizados para lidar com conflitos localmente.
3. Avaliação: Os participantes analisam a eficácia das práticas previamente nomeadas e categorizadas a partir das necessidades do contexto (e não de acordo com critérios de modelos externos). Tratase da oportunidade de perguntar-se sobre o que está indo bem e o que precisa ser melhorado, modificado, removido ou implementado.
4. Adaptar/recriar: Ajuste da prática atual em relação à modalidade de operação desejada. Essa etapa pode ou não envolver a comparação e o contraste com abordagens e ferramentas externas ao contexto. O objetivo é que um modelo genuinamente local e contextual emerja.
5. Aplicação prática: Exercícios e oportunidades de experimentação do modelo construído, o qual permanece aberto ao questionamento e reformulação a partir dos aprendizados posteriores que serão obtidos na sua aplicação prática.
É evidente que os modelos prescritivo e elicitivo descritos acima representam polos opostos e ilustrativos, e que as capacitações aplicadas em contextos reais irão inevitavelmente possuir elementos das duas abordagens. Além disso, enquanto um modelo puramente prescritivo tende a ser imperialista, um modelo puramente elicitivo também pode apresentar desvantagens, em especial a falta de uma tensão saudável entre as práticas locais e potencialidades exógenas e potencialmente enriquecedoras ao contexto. Uma combinação de ambos os modelos parece ser o cenário mais promissor. (LEDERACH, 1995).
O ponto principal de Lederach (1995) é que a maior parte dos treinamentos pende exageradamente para o espectro prescritivo. O autor defende que o facilitador deveria reforçar as suas próprias capacidades elicitivas, para que possa expandir o seu próprio repertório e manter-se fiel ao objetivo final, qual seja de promover uma relação de empoderamento social e cultural, baseado na mutualidade e no respeito. Esta postura permite ir além do aprendizado de uma ferramenta ou técnica específica (LEDERACH, 1995).
Descrita as quatro qualidades da imaginação moral, aliando com a explanação da importância do modelo de facilitação elicitiva, o artigo cuidará na sequência da capacitação vivenciada em Nairobi/ Quênia.
## IV. A ExpERiÊNCiA EM NAIrobI
Durante os meses de outubro, novembro e dezembro de 2021, o primeiro autor conduziu uma capacitação de 32h para um pequeno grupo de lideranças comunitárias em Nairobi/Quênia, a maioria deles pessoas em deslocamento forçado ("refugiados de guerra"), convivendo com a população local queniana em uma região urbana periférica chamada Kabíria. A região é um imã de indivíduos e famílias vindas de mais de dez diferentes países, entre eles a República Democrática do Congo, Ruanda, Sudão, Sudão do Sul, Burundi e Etiópia.
Os desafios reportados pelos novos e antigos moradores da comunidade incluíam as condições socioeconômicas desfavoráveis da área, o preconceito da população local contra os refugiados, a mistura de diferentes culturas e visões de mundo, os traumas gerados pelos contextos de conflito armado vivenciados em seus países de origem, a "importação" das dinâmicas prévias de conflitos tribais, regionais e internacionais para o microssistema local, além do alto número de casos de violência de gênero.
Não faz parte do escopo do artigo contextualizar as circunstâncias que levaram à capacitação, os diálogos prévios desenvolvidos com a comunidade, as parcerias institucionais que foram firmadas e tornaram o processo possível, os perfis específicos dos participantes e tampouco os critérios de escolha das temáticas abordadas. Porém. é pertinente mencionar que a capacitação se inseriu em um contexto mais amplo, sendo ela a primeira de três fases de um programa maior. A segunda fase, após a formação de 32h, foi a aplicação de ações comunitárias de diálogo protagonizadas pelas lideranças recémcapacitadas, enquanto que a terceira fase foi a conexão dessas lideranças com mentores(as) internacionais para o seu desenvolvimento continuado.
Dito isso, reitera-se que o interesse deste trabalho se concentra especificamente em verificar os componentes prescritivos e elicitivos dentro do processo de capacitação de 32h (fase 1 do processo), e de que forma que houve ou não a elicitação das qualidades da imaginação moral.
a) A abordagem transversal: um caso de facilitação elicitiva?
O encontro inicial da capacitação foi pautado na construção dos objetivos, valores e diretrizes do grupo, utilizando a ferramenta dos Círculos de Construção de Paz disseminada por Pranis et al., (2003).
Nos encontros subsequentes, foram abordados quatro grandes eixos temáticos, organizados de acordo com os conhecimentos prévios do facilitador e dos interesses pré-identificados pelos participantes: Transformação de Conflitos (LEDERACH, 2012; DIETRICH, 2019; ZEHR, 2015), ComunicaÇãO Não-Violenta (ROSENBERG, 2005), Equilíbrio Emocional (EKMAN, 2003; WALLACE, 2006; WALLACE, 2009) e Trauma e Resiliência (LEVINE, 2010; YODER, 2005; GROTBERG, 1995), subdivididos em um total de 11 tópicos disparadores de diálogo.
O Quadro 1 inclui os 4 eixos e seus tópicos disparadores, bem como uma breve descrição de como foram abordados. A palavra "Apresentação" corresponde à exposição oral de conteúdo por parte do facilitador, reforçada por slides, materiais impressos ou vídeos. A palavra "Discussão" indica processos de troca oral entre pequenos grupos e/ou dentro do grande grupo, culminando na anotação dos principais pontos elencados, seja por parte do facilitador ou por outro participante. A palavra "Prática" aponta para um exercício e/ou simulação em ambiente controlado como parte de um processo de verificação da relevância e eficácia do conceito/ferramenta.
De maneira proposital, não são citados na tabela os elementos e etapas do Círculo de Construção de Paz (PRANIS et al., 2003) que permearam todos os encontros - as cerimônias de abertura e encerramento, as rodadas de check in e check out, o uso do objeto da fala2 nem as práticas de atenção plena realizadas em grupo durante a capacitação.
Quadro 1: Abordagem transversal
<table><tr><td></td><td>Eixos e Tópicos</td><td>Abordagem Realizada</td></tr><tr><td>1</td><td>Transformação de Conflitos</td><td></td></tr><tr><td>1.1</td><td>Conflito como Oportunidade (LEDERACH, 2012)</td><td>- Apresentação do slide do Iceberg dos conflitos.- Discussão a partir da pergunte disparadora: a partir da metáfora do iceberg, de que maneira o conflito pode ser uma opportunidade?- Discussão sobre causas profundas dos episódios e padrões de violência vivenciados pelos participantes.</td></tr><tr><td>1.2</td><td>Interpretações de Paz (DIETRICH, 2019)</td><td>- Discussão em muitenosroupos sobre significado da Paz para cada um.- Apresentação das quatre interpretações de Paz na-historye na cultura: harmonia, boa, segurarva, Verdade.- Discussão sobre como os conceitospresentados expandem o significado de Paz para os participantes.</td></tr><tr><td>1.3</td><td>Justa Restaurativa: Culpa x responsabilitadede (ZEHR, 2015)</td><td>- Apresentação das trêsprincipalis perguntas da justa restaurativa (Quem sofreu danos? Quais suas necessidades? De quem é abrigação de supri-las?) em contraste às prácticas de justa retributiva.- Discussão sobre meiostradiconais e contemporâneosde lidar com danos causados e qual o papel da comunitadenoprocesso.</td></tr><tr><td>2</td><td>Comunização Não-Violenta</td><td>-</td></tr><tr><td>2.1</td><td>Observação x Julgamento (ROSENBERG, 2005)</td><td>- Discussão a partir do convite: converse sobre situaçõesnas quais você FOI julgado (a).- Discussão a partir do convite: converse sobre situaçõesonde você julgou algoém.- Apresentação dos conceitos, dificençepexemplos de Observação e Julgamento- Prática de observaçõesdesprovidas de julgamento entre os participantes.</td></tr><tr><td>2.2</td><td>Necessidades Humanas Universais (ROSENBERG, 2005)</td><td>- Discussão sobre as necessidadescomuns a todos os seres humanos.- Apresentação da lista de necessidadeshumanas universais.- Discussão sobre as possíveis necessidadessubjecentes à adoção deestrategiasconflitivas/violentes- Prática deosbuscando a identificacao de necessidades por vez deestrategias adotadas para lidar com o conflito.</td></tr><tr><td>3</td><td>Equilíbio Emocional</td><td>-</td></tr><tr><td>3.1</td><td>Emoções Universais (EKMAN, 2003)</td><td>- Discussão a partir das perguntas disparadoras: as emoções humanas são universais ou produits da cultura? Quais emoções são potencialmente comuns a todos os seres humanos?
- Apresentação das sete emoções com expressões faciais universais.
- Discussão sobre quais as emoções associadas a conflitos e quais as mais desafiantes para os participantes a;nível pessoal</td></tr><tr><td>3.2</td><td>Episódio Emocional (EKMAN, 2022)</td><td>- Apresentação daLINHA do tempo do episódio emotional
- Discussão sobre episódios emoconais vivenciados pelos participantes e pessoas ao seu redor.</td></tr><tr><td>3.3</td><td>Felicidade Genuina (WALLACE, 2009)</td><td>- Discussão a partir da pergunte disparadora: o que é felicidade para você?
- Apresentação dos conceitos de Hedonismo e Eudaimonia.
- Discussão livre a partir dos conceitospresentados.</td></tr><tr><td>3.4</td><td>Equilíbrio Atencional (WALLACE, 2006)</td><td>- Discussão acerca da diminuição da capacidade de atençao e foco nos tempos atuais e o impacto disso no meu bem-estar.
- Apresentação da Árvore de Shamata: relaxamento, estatuldade, vivacidade.
- Discussão sobre como aprimorar a capacidade de atençao e como Criar OPPORTUNDAS para isto do espaço da capacitação.</td></tr><tr><td>4</td><td>Trauma e Resiliência</td><td></td></tr><tr><td>4.1</td><td>Identificando o Trauma (LEVINE, 2010; YODER, 2005)</td><td>- Discussão a partir da pergunte disparadora: o que significafa trauma para você?
- Apresentação das definições, sintomas e implicações do trauma
- Apresentação do ciclo de acting-in/acting-out.
- Discussão sobre desafios individuais e sociais a partir dos conceitospresentados.
- Exercício do Rio da Vida: contação de historiarias sobre eventos marcantes nas vidas dos participantes.</td></tr><tr><td>4.2</td><td>Resiliência (LEVINE, 2010; YODER, 2005, GROTBERG, 1995)</td><td>- Exercício de auto conexão corporal.
- Apresentação dosTRS elementos da superação do trauma: proteção, reconhecimento, reconexão.
- Apresentação do conceito de resiliência e seuis 3 pilarres:forcainterna, habilidades, suporte social.
- Discussão emroupoSobreestrategiaspara implementar ações que promovam resiliência em sua comunitad.</td></tr></table>
Retoma-se aqui o argumento de que os conceitos "prescritivo" e "elicitivo" podem representar uma simplificação da realidade. Essa simplificação, por um lado, tem objetivo pedagógico de permitir e facilitar a imaginação de uma linha com dois pontos diametralmente opostos, criando a base para um parâmetro de análise. Diferentes momentos e componentes da abordagem transversal de capacitação podem ser situados em diferentes pontos dessa linha, pendendo mais para um lado ou para o outro. Por outro lado, restringir-se à dualidade de "puramente prescritivo ou elicitivo" seria cair precisamente na polarização reducionista que a Imaginação Moral propõe transcender.
Inicialmente, parece claro que deveriam ser classificados como prescritivos os elementos e momentos nos quais a apreensão do conceito exógeno precedeu a troca baseada no conhecimento implícito dos participantes. Na lógica inversa, classificar como elicitivos os momentos que partiram do conhecimento implícito local, para depois introduzir um conceito exógeno a ser discutido, validado e testado pelos participantes.
No entanto, durante o exercício de recapitulação que se fez necessário para construir o Quadro 1, e havendo familiarização com o pensamento de Lederach (1995; 2011), compreendeu-se que, na realidade, o elemento central para poder situar a abordagem não é a ordem de introdução dos conceitos/ferramentas exógenas, tampouco a testagem e discussão acerca delas. O principal elemento de distinção é a presença de um silêncio e aceitação implícita ou a comunicação e discussão explícita sobre:
a) o papel do facilitador (especialista ou catalisador?) e dos participantes (receptores ou co-criadores do espaço relacional?);
b) o papel da cultura, entendida aqui como o acúmulo de experiências pessoais e coletivas. As visões de mundo correspondentes, como sendo um componente para o qual adaptar uma ferramenta, ou como sendo o principal recurso e balizador final da utilidade da ferramenta?
c) o objetivo final da capacitação como sendo a transferência de um conhecimento/habilidade específica ou como um processo de empoderamento?
d) qual o grau de encorajamento para que os participantes critiquem, adotem, adaptem ou descartem os conceitos/ferramentas exógenos trazidos até eles, mantendo um estado de abertura e crítica saudável?
Nesse sentido, entende-se que a abordagem transversal da capacitação realizada situou-se predominantemente no escopo elicitivo, uma vez que: 1) foram realizados diálogos explícitos e decisões consensuais sobre os quatro aspectos acima (por exemplo: qual a conduta esperada no caso de discordância entre os participantes, quais as abordagens a serem utilizadas na exploração dos temas centrais, qual o processo de reinserção no caso de um membro do grupo se ausentar durante um dia de formação, entre outros); 2) essas decisões penderam para a visão conjunta da facilitação enquanto um processo de sensibilização e experimentação conjunta para superar situações da vida real (nenhum conceito ou ferramenta foi imposto como universalmente aplicável); e 3) mesmo em momentos onde houve "transferência de conhecimento", o que se encaixaria dentro do espectro prescritivo, esses momentos foram acordados com o grupo como parte de uma experiência mais ampla centrada na construção de novos significados e técnicas, partindo da vivência e necessidade de cada indivíduo.
Somado a isso, é preciso levar em consideração o caráter multicultural da capacitação envolvendo indivíduos de cinco diferentes nacionalidades - Quênia, República Democrática do Congo, Sudão do Sul, Burundi, Brasil -, a maioria deles sentindo-se parte de uma espécie de "limbo" entre as práticas de construção de diálogo e resolução de conflito nativas, deixadas para trás. Tal percepção decorrente do deslocamento forçado, eis que vivenciaram a desafiadora realidade da inadequação das práticas locais e institucionais, sendo que nenhuma delas atendia suas necessidades específicas, conforme relataram.
Para capacitações em contextos como esse, Lederach (1995) elucida o que ele chama de "princípio da reciclagem":
"Nessas situações, o princípio da reciclagem é aplicável. Trazendo a metáfora raiz, a reciclagem é um processo dinâmico que mescla as "coisas velhas, usadas" com ingredientes frescos para recriar um novo produto. Percebe-se que ela não descarta o "velho" nem abraça com fé cega o perpetuamente substituível "novo" como a resposta às nossas necessidades. Em termos práticos, a reciclagem convida as pessoas a refletir sobre o que existiu, o que era conhecido dentro do seu contexto, e identificar o que está faltando no contexto atual. Essa revisão representa um processo de reflexão construtivamente crítico e inovador que permite a um grupo cultural particular identificar as forças do seu próprio legado mas também encarar as realidades das demandas atuais." (LEDERACH, 1995, p. 114)3
O conceito de reciclagem trazido acima embarca não somente a realidade vivida pelos participantes da capacitação, mas também o processo vivenciado de maneira espontânea a partir das trocas ocorridas durante o processo. Sem descartar suas raízes nem negar a necessidade de adaptação à nova realidade vivenciada, os participantes buscaram, dentro das propostas de visão e atuação fornecidas pelos tópicos disparadores, elementos que formassem um mapa para navegar pelos desafios impostos a eles. Com isso, poderão trabalhar com mais condições em prol do objetivo explícito de diminuição dos conflitos dentro de suas comunidades.
Assim, após a análise da capacitação à luz da perspectiva de Lederach (1995), que permite uma compreensão mais aprofundada sobre o significado dos espectros prescritivo e elicitivo, evidenciou-se que experiência vivenciada consistiu em um processo predominantemente elicitivo ancorado pelo princípio da reciclagem.
Trabalha-se com a hipótese que não foram tão determinantes as estratégias específicas para abordar os temas propostos, quanto a qualidade das relações que a abordagem transversal possibilitou estabelecer, considerando-se a própria mestiçagem de influências que a caracteriza. Coletivamente a capacitação foi relatada como uma experiência de construção de relacionamentos, não sendo associada à transmissão de conhecimentos.
Potencialmente, esse mérito pertence, na sua maior parte, à ferramenta dos Círculos de Construção de Paz, conforme disseminada por Pranis et al., (2003), a qual permeou todas as etapas da capacitação. Os Círculos corporificam o tipo de plataforma que Lederach (2012) chama de estrutura-processo: possuem uma forma específica e reconhecível, mas permanecem adaptáveis por parte dos participantes para preservar objetivo de manter-se fiel a um propósito explícito e contextual. Segundo Pranis et al., (2003):
"Os círculos nos imergem nos valores e práticas da democracia participativa. Nós experimentamos verdades democráticas básicas: nossas perspectivas contam e, na ausência de cada um de nós, alguma importante contribuição ao mundo estaria faltando. Sendo radicalmente democráticos, os Círculos oferecem uma maneira de praticar a democracia de maneiras muito mais completas do que normalmente somos oportunizados. Eles nos permitem exercitar nossos músculos de participação e desenvolver habilidades essenciais à democracia escuta profunda; comunicação construtiva e assertiva; e a solução coletiva de problemas."4 (PRANIS et al., 2003, p. 231)
Por um lado, é importante relembrar que Lederach (1995) não advoga um modelo em detrimento do outro, mas utiliza uma tensão saudável entre o espectro prescritivo e elicitivo. Assim, transita nas questões que ele considera necessárias para discutir abertamente com relação ao papel da cultura, do facilitador e do objetivo genuíno da capacitação. Por outro lado, fica claro que, na ausência de componentes elicitivos, não será possível o surgimento das qualidades que compõem a imaginação moral, uma vez que elas são indissociáveis do processo ativo de construção de paz dentro de uma estrutura e processo relacional.
Em suma, neste subtópico foram descritos os pontos disparadores da abordagem transversal da capacitação, com a identificação de que ela se caracterizou como primariamente elicitiva e ancorada pelo princípio da reciclagem. Somado a isso, demonstrou-se o papel central dos Círculos de Construção de Paz na sua implementação.
Em seguida, será analisada a presença ou ausência das qualidades da imaginação moral durante o processo.
# b) Um
Como apontar precisamente a expressão da imaginação moral, quando ela consiste em uma visão, escolha e atitude, e não em um conteúdo programático? Como separar, na prática, a expressão das suas quatro qualidades, quando elas podem surgir de maneira combinada e indissociável? E como realizar esse exercício de maneira retroativa, referente a uma capacitação que foi entregue quando nenhum dos participantes (nem mesmo o facilitador) conhecia previamente o conceito da imaginação moral?
Propõe-se buscar a expressão de cada uma das quatro qualidades da imaginação moral dentro dos tópicos disparadores da abordagem transversal apresentada no Quadro 1, e também na dimensão geral do processo elicitivo ancorado pelo princípio da reciclagem.
Com relação ao Papel Central das Relações, um breve olhar sobre os quatro eixos temáticos da capacitação e seus tópicos disparadores revela que essa qualidade foi o ponto central da capacitação.
Pelo menos 8 dos 11 tópicos deflagradores podem ser diretamente relacionados a essa qualidade, sendo eles: conflito como oportunidade (LEDERACH, 2012; justiça restaurativa (ZEHR, 2015); observação versus julgamento; necessidades humanas universais (ROSENBERG, 2005; emoções universais (EKMAN, 2003); felicidade genuína (WALLACE, 2009); trauma; e resiliência (LEVINE, 2010; YODER, 2005; GROTBERG, 1995). Isso não é surpreendente, uma vez que os autores e as autoras que compõem o referencial teórico dos temas acima compartilham o entendimento de que o bem-estar individual e coletivo está interconectado por uma cadeia complexa de relações.
Em decorrência disso, a importância dessa qualidade foi abordada de forma explícita em diversas ocasiões ao longo da capacitação. No entanto, referirse à presença da qualidade do Papel Central das Relações citando apenas os temas teóricos trazidos pelo facilitador significaria restringi-la à abordagem puramente prescritiva, dependente da qualidade do treinador em transferi-la para os participantes enquanto receptores passivos o que se buscou evitar.
De maneira mais ampla, o Papel Central das Relações foi vivenciado por meio da negociação e construção de novos significados, a partir da contribuição de cada um e de todos. Isso inclui até mesmo a relação crítica, individual e coletiva, dos participantes com os conteúdos exógenos trazidos pelo facilitador.
Foi na simplicidade cotidiana do processo de construção conjunta das diretrizes, objetivos, acordos de relação, na intersecção entre as diferentes visões de mundo e na liberdade exercida por cada participante, para escolher para si somente os temas e ferramentas que tivessem utilidade em seu contexto particular, que essa qualidade encontrou solo fértil para se manifestar.
Acima de tudo, considera-se que a percepção dos participantes a respeito do seu próprio sucesso em criar um ambiente seguro, respeito e vulnerabilidade dentro de um grupo tão diverso foi o fator principal para acreditarem no poder de ressignificação das ações de transformação de conflitos focando na qualidade das relações.
Mesmo sem conhecer o termo Curiosidade Paradoxal na altura da capacitação, certos componentes dessa qualidade já eram parte das estratégias criadas pelo facilitador, a partir do seu entendimento da necessidade de suspender rótulos e julgamentos e, assim, abrir espaço para o novo.
Rosenberg (2005) e Wallace (2009) tratam a respeito do poder libertador que existe em não reificar as aparências que surgem, nem as rotulações habituais que acompanham a nossa percepção. A questão era: como criar um espaço onde isso pudesse emergir nos participantes, tendo eles vivenciado tantos episódios violentos, repressão, trauma?
Essa qualidade parece ter sido elicitada, de maneira orgânica, a partir de perguntas nascidas das discussões dentro de pelos menos três tópicos disparadores. A primeira delas foi sobre as diferentes interpretações de paz ao longo da história e das culturas (DIETRICH, 2019): "Como podemos buscar a construção de relacionamentos em meio à múltiplas visões de paz, sem negar nem nos prender a nenhuma delas?" A segunda foi a respeito da linha do tempo do episódio emocional (EKMAN, 2022): "De que maneira podemos ser informados pelas emoções que nos perpassam sem nos fixarmos a elas nem as rejeitarmos?" A terceira foi com relação ao tema da Justiça Restaurativa (ZEHR, 2015), em contraste com a justiça convencional/retributiva: "Como conciliar diferentes visões de justiça em um mundo complexo?"
A descrição e análise retrospectiva da capacitação realizada, quando combinada com a pesquisa bibliográfica da obra de Lederach (1995) conduz à conclusão de que o próprio princípio da reciclagem é, em si, um exercício de curiosidade paradoxal: como podemos resgatar as práticas tradicionais de transformação de conflitos que utilizamos antes de nos afastarmos da nossa geografia e cultura nativa, compreender as práticas do novo contexto onde estamos inseridos, mas que não se aplica inteiramente a nós, e dar nascimento a respostas que sejam adaptadas a uma realidade nova e particular?
O que todas as perguntas acima parecem ter em comum é justamente a tentativa de extrapolar visões dualísticas e expandir possibilidades, ao sustentar "simultaneamente várias necessidades e perspectivas que concorrem entre si e até se contradizem" (LEDERACH, 2011, p. 71). Elas nos convidam a irmos além da situação existente, ao mesmo tempo em que ainda estamos dentro dela.
Da mesma forma que a Curiosidade Paradoxal surgiu espontaneamente a partir de uma compreensão orgânica, intuitiva, percebe-se retrospectivamente a expressão das qualidades do Espaço para o Ato Criativo e a Disposição para Arriscar em duas diferentes etapas.
O primeira delas emerge da coragem dos participantes em expressar sua visão autêntica e honesta a respeito da temática e/ou ferramenta em pauta, mesmo que isso significasse ser alvo de críticas ou demonstrar vulnerabilidade. Ao que parece, a disposição à criatividade e ao risco tende a emergir naturalmente, a partir de um espaço seguro de experimentação e não-julgamento.
A segunda pertence ao projeto amplo dentro do qual a capacitação estava inserida. Após as 32 horas, cada participante recebeu apoio financeiro e técnico para executar pelo menos uma ação concreta de construção de paz em sua comunidade, à sua escolha e sob sua completa liderança e responsabilidade. Antes de mergulharem nesse completo risco, sem nenhuma garantia de sucesso ou segurança, as lideranças exercitaram a criatividade por meio de diálogos pautados pela pergunta: "A partir da minha motivação de estar aqui e daquilo que foi discutido e praticado, qual ação de construção de paz gostaria de nascer através de mim?"
Em suma, fica claro que o Papel Central das Relações foi o foco principal da capacitação, enquanto as outras três qualidades da imaginação moral surgiram em menor intensidade e de maneira espontânea, implícita, não planejada ou ao menos não articulada como tal.
A análise retrospectiva torna claro que as quatro qualidades da Imaginação Moral emergiram dentro do contexto da capacitação, cada uma em maior ou menor escala, mesmo quando a terminologia específica não fosse conhecida pelo facilitador e pelos participantes na época. Isso parece corroborar a hipótese de Lederach (2011) de que a imaginação moral verdadeiramente consiste na essência da construção de paz encontrada nos mais variados tempos, espaços e culturas. Em outras palavras, a imaginação moral é intrínseca à condição humana, quando fornecidas as condições apropriadas.
O resultado da análise retrospectiva reforça também a convergência da obra de Lederach (2011) com a de Pranis et al., (2003), que defende que a condição humana é naturalmente programada para a sobrevivência baseada na cooperação, desde que seja proporcionado um espaço psicologicamente seguro para tal. Parece existir potencial de maior aprofundamento do estudo da intersecção entre Lederach (1995; 2011), Pranis (2010) e Pranis et al., (2003) enquanto referências conceituas e metodológicas na facilitação de processos de capacitação de lideranças comunitárias em ambientes de conflito e violência.
## V. CONSIDERAÇÕeS FINAIS
Essa breve jornada teve como objetivo analisar se e em qual grau a abordagem e temas disparadores da formação ocorrida em Nairobi/Quênia no ano de 2021 tiveram correlação com as quatro qualidades da imaginação moral descritas por Lederach (2011): o Papel Central das Relações, a Curiosidade Paradoxal, o Espaço para o Ato Criativo e a Disposição para Arriscar.
Esse questionamento levou a pesquisar sobre os dois espectros diametralmente opostos de facilitação - o modelo prescritivo e o modelo elicitivo no contexto específico de capacitações em transformação de conflitos para populações em situações afetadas pela violência. Concluiu-se que a capacitação em questão foi predominantemente elicitiva e ancorada pelo princípio da reciclagem. Essa classificação não se deu pela presença ou ausência de conceitos/ferramentas exógenas ao contexto local, mas sim devido à ocorrência de um diálogo explícito acerca do papel e relação entre facilitador e participantes, da relação esperada entre os participantes e seu conhecimento implícito com os conceitos/ferramentas apresentados, além do objetivo da capacitação enquanto um processo de construção de relacionamento, empoderamento e autonomia.
O Papel Central das Relações foi o tema mais relevante da capacitação, refletido na escolha dos conteúdos e autores e autoras de referência, na adoção da ferramenta dos Círculos de Construção de Paz, que perpassou todos os encontros, e na natureza da relação de diálogo e consenso que gerou um espaço seguro vivenciado por todos.
As outras três qualidades da imaginação moral não foram explicitamente abordadas, mas igualmente estiveram presentes. A Curiosidade Paradoxal está na própria raiz do princípio da reciclagem, ao estimular o cruzamento entre práticas anteriores e práticas atuais que não têm eficácia, buscando transcender visões dualistas para dar lugar a possibilidades adicionais. O Espaço para o Ato Criativo e a Disposição para Arriscar surgiram a partir desse estímulo à busca de novas possibilidades. Ao desafio lançado às lideranças para que arquitetassem ações autorais de construção de paz em suas próprias comunidades. As quatro qualidades podem ser apreendidas e aplicadas pelos participantes se ancoradas em experiências vivenciais e nos saberes preexistes no contexto.
Extrai-se, da análise dessa experiência específica, algumas recomendações gerais para a prática de facilitação em capacitações com lideranças comunitárias com foco na construção de formas de prevenção e resolução de conflitos:
- Manter como prática profissional a discussão explícita sobre o papel do facilitador, dos participantes, da cultura e dos conceitos/ferramentas que serão trazidos;
- Manter o oferecimento da capacitação primariamente como um processo de descoberta e construção de relacionamento, não de transferência vertical de conteúdo;
- Desenvolver a habilidade profissional de promover um modelo primariamente elicitivo, mas que não seja dependente unicamente da ferramenta do Círculo de Construção de Paz, uma vez que nenhuma ferramenta se mostra adequada universalmente, a todos os grupos e diferentes contextos;
Incluir atividades com o objetivo explícito de alimentar as qualidades da Curiosidade Paradoxal, Espaço para o Ato Criativo e a Disposição para Arriscar. Que possam, assim, ser vivenciadas de maneira intencional, reconhecidas e praticadas para se tornarem parte do reportório de capacidades das lideranças comunitárias.
A intersecção entre as obras de Lederach (1995; 2011), Pranis et al., (2003) e Halifax (2021) traz à tona perguntas sobre um fenômeno curioso: como é possível que ao elicitar o conhecimento e habilidades implícitas de contextos tão diferentes e particulares, nós acabemos nos deparando com as qualidades da imaginação moral enquanto denominador comum para o sucesso da construção de paz? Aquilo que terminamos por elicitar, no fim das contas, não é a imaginação moral em si mesma? Talvez ela consista em um daqueles campos íntimos que tocam a universalidade da condição humana. Nesse sentido, nós encontramos a imaginação moral ou ela nos encontra?
[^1]: No original: "Lederach considers 'paradoxical curiosity' as the highest virtue. Accordingly, paradoxical refers not only to what lies beyond dominant beliefs, but also to what stands against the claims to truth made by major meta-texts. Curiosity refers to consistent attention and a continual questioning of things and their meaning as the Latin root of the words 'care' and ‘cure' implies. Paradoxical curiosity is, thus, a peace-political attitude that allows us to be on friendly terms with the inevitable complexity of violence and polarization without falling into the trap of modern thinking, wherein dualistic values exacerbate the spiral of violence. Paradoxical curiosity enquires beyond hasty conclusions and superficial interpretations and seeks to conceive of as many choices as possible." _(p.3)_
[^2]: aç al., (2003) e Pranis (2010). _(p.5)_
[^3]: ht applicable. To draw the root metaphor, recycling is a dynamic process that mixes “old, used things” with the fresh ingredients to recreate a new product. We note that it neither discards the old nor embraces with blind faith the perpetually replaceable new as the answer to our needs. In practical terms, recycling invites people to reflect back on what existed, on what was known from within their context, and to identify what is missing in their current context. This review represents a constructively critical and innovative process of reflection that permits a particular cultural group to identify the strengths of its own heritage but also to face the realities of current demands." _(p.7)_
Generating HTML Viewer...
References
18 Cites in Article
Rutger Bregman (2021). Humanidade: uma história otimista do homem.
Wolfgang Dietrich (2013). On the Transrational Turn in Peace Research: Themes, Levels, and Layers of Elicitive Conflict Transformation.
Wolfgang Dietrich (2019). Interpretações de paz na história e na cultura.
Ekman Atlas of Emotions.
Paul Ekman (2003). Emotions revealed: recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life.
Edith Grotberg (1995). A guide to promoting resilience in children: strengthening the human spirit.
Bernard Van,Leer Foundation (2022). Annual Report 2019 Bernard van Leer Foundation.
Joan Halifax (2021). À beira do abismo: encontrando coragem onde o medo e a coragem se cruzam. 1 ed. Teresópolis.
John Lederach,Paul (2011). A imaginação moral: arte e alma da construção de paz.
John Lederach,Paul (2012). Transformação de Conflitos.
John Lederach,Paul (1995). Preparing for peace: conflict transformation across cultures.
Peter Levine (2010). In an unspoken voice: how the body releases trauma and restores goodness.
Kay Pranis (2010). Processos Circulares de construção de paz.
Kay Pranis,Barry Stuart (2003). Establishing Shared Responsibility for Child Welfare through Peacemaking Circles.
Marshall Rosenberg (2005). A linguagem da paz em um mundo de conflitos.
B Wallace,Allan (2009). Ciência Contemplativa: Onde o Budismo e a Neurociência se Encontram.
B Wallace,Allan (2006). A revolução da atenção: revelando o poder da mente focada.
No ethics committee approval was required for this article type.
Data Availability
Not applicable for this article.
How to Cite This Article
Jane Mazzarino. 2026. \u201cThe Moral Imagination in Facilitation of a Training Community Leadership in Nairobi/Kenya: A Cross-Cutting Approach\u201d. Global Journal of Human-Social Science - H: Interdisciplinary GJHSS-H Volume 24 (GJHSS Volume 24 Issue H2): .
Explore published articles in an immersive Augmented Reality environment. Our platform converts research papers into interactive 3D books, allowing readers to view and interact with content using AR and VR compatible devices.
Your published article is automatically converted into a realistic 3D book. Flip through pages and read research papers in a more engaging and interactive format.
Our website is actively being updated, and changes may occur frequently. Please clear your browser cache if needed. For feedback or error reporting, please email [email protected]
Thank you for connecting with us. We will respond to you shortly.